Do analfabetismo à fúria das viúvas

José Mário Silva assinou no passado dia 2-2-2008 no Diário de Notícias um trabalho jornalístico no qual divulga o «caso» do poeta Amadeu Baptista. Autor de vasta obra poética cuja publicação se iniciou em 1982 (com As passagens secretas), este poeta tem mais de vinte livros publicados e uma antologia intitulada Antecedentes criminais.

Desempregado desde Setembro de 2007, o poeta saiu do Bairro Alto e vive em Viseu onde não paga renda de casa. Ganhou vários prémios literários nos últimos meses num total de 12.500 euros. Este dinheiro evitou-lhe entrar no centro da miséria, está apenas na sua periferia, no seu limiar. Mas também no limiar do vazio e da depressão: «Escrever poupa-me à depressão e à angústia de não ter trabalho» – diz o poeta a José Mário Silva.

Outro dia, soube na Casa Fernando Pessoa que a viúva do poeta Ulisses Duarte convidou os amigos da Tertúlia Rio da Prata para irem lá a casa, munidos de sacos de plástico. Queria ver-se livre de todos os livros, queria a casa limpa. A viúva do poeta Vítor Marques e Sá (falecido em 1975) nem me respondeu quando lhe escrevi em 1982 para pedir uma fotografia para ilustrar um artigo sobre a sua obra. A minha carta, como muitas outras, terá ido para o lixo. Anos depois, a viúva de Nuno Guimarães não atava nem desatava sobre a gaveta de inéditos do poeta morto em 1973. Com a simpática colaboração do actual (ao tempo, 1993) marido da senhora, lá foi possível a Câmara de Gaia levar para a frente uma edição comemorativa de poeta que morreu jovem.

Como se não bastasse o nosso analfabetismo ainda temos que levar com a fúria das viúvas. É muita areia para a camioneta dos poetas.

13 thoughts on “Do analfabetismo à fúria das viúvas”

  1. Também li o apontamento do Zé Mário Silva e fiquei a pensar em tudo aquilo.

    Como o Amadeu trabalhava na Casa da Cerca (Museu de Arte Contemporânea de Almada), achei muito estranho o facto de ter sido despedido de uma autarquia, que até é a da cidade onde vivo…

    Talvez o José do Carmo Francisco saiba mais qualquer coisa sobre o assunto e nos queira contar…

  2. este post tem-me dado voltas cá dentro. poucas horas antes do meu pai morrer, na unidade de cuidados intensivos, estava a dar-me instruções para a tipografia e para as provas do novo livro que lá tinha. poucos dias depois estava eu lá, mas a levantar embrulhos de papel pardo, que penso que nunca foram abertos, por ordem expressa da minha mãe.
    já lá vão uns anos, ainda não digeri…

  3. Eu não sei nada de especial sobre isso. Sei apenas que o Amadeu Baptista estava a recibos verdes na Câmara de Almada tal como eu estava no Sporting. Bastou um simples gesto para ser afastado, tal como eu fui afastado ao fim de 10 anos. Alguém se cansou dele como alguém se cansou de mim. Mundo cão o nosso. O caso que a Ernesta relata é arrepiante. Já não é o ódio ao livro em si mas ao projecto de livro. Ainda por cima há a geografia, algo me diz que somos quase vizinhos – Alcobaça, Valado de Frades, Leiria… Essa proximidade ainda me deixa mais triste.

  4. Já dizia Socrates sobre o casamento…
    depois admiram-se dos poetas terem as mulheres que têm. Fossem outras e eles não seriam poetas.

  5. Bem já agora concretizo: terei lido nos comentários algo como Fervença e Calvaria que é tudo ali perto. Foi isso que me levou a pensar que sou quase vizinho da Ernesta. POrque a Geografia é mais importnate do que a História.

  6. Leu bem, mas pelos vistos Fervenças há muitas. Quanto a Calvaria ouvi falar bastante. Não sei se justa ou injustamente, durante muito tempo brinquei com os Calvin Klein da Calvaria… E parece que nem eram maus…

  7. Ernesta, digere isso depressa porque ele assim fica descansado e vem-te visitar contente nos sonhos, e noutras coisas. Com o meu pai foi assim, e olha se eu gosta(va) dele, ganda compincha. Agora anda sempre comigo.

  8. eu sei z, e a minha grande pena é que ele tenha morrido antes do boom da blogosfera. acho que ia estar aqui como peixa na água. pensei até em começar a publicar uns textos dele no meu blog. assim como que uma espécie de escrever a quatro mãos…

  9. Faz este ano 30 anos que eu comecei a escrever nos jornais («Diário Popular») pela mão de Jacinto Baptista e Carlos Pinhão. O jornal do segundo (A Bola) era feito nas oficinas do primeiro (Popular) mas se não fosse o apoio do segundo nunca teria conhecido o primeiro que me apresentou a meio mundo da letras e das artes e me abriu as páginas do seu jornal. Tudo o que sou hoje nasceu desse gesto amigo. Por isso me arrepiou a história contada pela Ernesta. Foi mesmo o cúmulo do azar. A pessoa errada no momento errado com a atitude errada.

  10. jcfrancisco,

    o meu pai não era homem de letras, mas de ciências. Com ele aprendi matemática moderna quando nem de matemática se falava, mas foi também graças a ele que os meus livros de cabeceira, com seis ou sete anos, foram os dois volumes dos Contos Tradicionais Portugueses, do José Leite de Vasconcelos. Ainda hoje falei deles a uma das minhas filhas, quando me pediu uma história de mouras encantadas.
    Com o meu pai ouvi falar de Gustave Doré e das suas biblia ilustrada, conheci Camões e Camilo. Não gostava do Eça, o que me fez devorá-lo todo, mas apresentou-me o Mark Twain e o José Mauro de Vasconcelos ainda eu quase usava fraldas. O resto, os clássicos, os menos clássicos e os que estavam excomungados, li-os sem ele saber, mas com ele sabendo. O Dinossauro Excelêntissímo foi devorado com pouco mais de doze anos e estava guardado atrás dos outros, os do regime, encadernados na penitenciária, em carneira fina.Tudo isto sem ter telemóvel, imagine. Por ele papei também toda a colecção argonauta e mais o Stephen Waking e o Feynman do costume. Tentava fazer o dois em um, e perceber de letras e ciências.
    Não sei se ele escrevia bem ou mal, que nestas coisas, eu, pelo menos, acho que é sempre mal. Mas era, de certeza, muito melhor e com muito mais garra e inteligência do que eu. Para mim, isso tinha chegado.

  11. Para o caso não importa muito; eram livros que permanecem por abrir, fechados nos seu volumes de papel pardo. Um livro é sempre um resultado, o produto final de uma paixão, por isso me custa ver um livro com a morte civil decretada. Só isso, isso tudo…

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