O meu Avô Mello

Estas são algumas das memórias escritas pelo Dr. Jim Mello, pai do Nobel da Medicina Craig Mello. A minha tradução foi autorizada por ele, que também me autorizou a publicá-la onde quisesse. Nota curiosa: o avô do Dr. Jim Mello morou na rua onde eu nasci e resido, tendo sido nesta que nasceu o seu pai.
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Este é o relato do que recordo de meu Avô Mello. Lamentavelmente incompleto, decerto não faz justiça ao homem mas é quanto posso, e quero deixá-lo registado para gerações futuras. O seu nome era Eugene Mello (N.– Eugenio Mello, no registo de baptismo). Nasceu na ilha de São Miguel, Açores, Portugal, cerca de 1880. (N.– Nasceu em 12/10/1873) Foi o terceiro filho (N.– segundo) de seu pai, que era agricultor, mas a terra que este possuía era demasiado pequena para suportar uma família, caso fosse dividida. Por isso meu Avô precisou de procurar outros meios de subsistir por si mesmo. Não sei nada acerca da sua infância e juventude, mas desejo visitar um dia a sua terra natal para fazer uma ideia de como seria o ambiente. Quando veio para Rhode Island estava casado e tinha três filhos: Ana, a mais velha, um rapaz que morreu já aqui, e José. (N.– Tinha seis filhos, segundo o rol paroquial) Muitos jovens portugueses vieram para Rhode Island e para o litoral de Massachusetts em finais do século XIX e princípio do XX, à semelhança da invasão hispânica a que assistimos agora. Meu Avô trouxe apenas a sua força e determinação. Não falava Inglês, não tinha dinheiro e não sabia ler nem escrever. Assim, teve de confiar nos portugueses que já aqui viviam para o ajudarem a encontrar trabalho. Não sei o que fez para se manter nos primeiros tempos, mas trabalhou durante a maior parte da vida nos Caminhos-de-Ferro de Nova Iorque, New Haven e Hartford, que serviam Bristol e Warren. Dei a Jake o seu velho relógio de algibeira, que era a única recordação sua que eu possuía. Ele precisava de um relógio no trabalho a fim de saber quando a linha tinha de estar desimpedida para a chegada dos comboios, e penso mesmo que esse relógio terá sido para ele um motivo de orgulho. Tento imaginar muitas vezes as primeiras andanças de meu Avô por aqui e como teria sido a sua vida.

A sua situação obrigara-o a deixar a família em São Miguel. Era jovem e forte, sem dúvida ouvira histórias de emigrantes regressados a respeito de trabalho e das oportunidades que a América oferecia. Mas ele tinha uma mulher jovem e três filhos, e deve ter sido difícil abandoná-los para uma aventura imprevisível numa terra estranha. Estou certo de que terá havido longas discussões acerca de outras hipóteses que evitariam a sua partida para longe. Minha Avó era de opiniões firmes, e talvez o tenha ajudado a convencer-se a vir. Imagino-a como muitas das mulheres hispânicas que vejo no trabalho: sossegadas, determinadas e dignas, a despeito de serem pobres e pertencerem aos últimos degraus da escala social.
Eu conhecia o meu Grandpa como Vavoo (N.– “vavô”) e a minha Grandma como Vavah (N.– “vavó”). Meu pai dizia-me que toda a gente o chamava Jheem, e assim ele escolheu o meu nome por pensar que Jheem era o mesmo que James. Mas talvez ele gostasse mais de James que de Eugene, e quisesse chamar-me pelo mesmo diminutivo que seu pai usava. Ou talvez até a história que ele me contava fosse verdadeira, e só tivesse descoberto que o nome do pai era Eugene depois da sua morte, quando o óbito foi registado.
Meu Avô morreu quando eu tinha cinco ou seis anos, pelo que poucas memórias guardo dele. Viveu com a minha Avó numa casa pequena na Rua Vernon. Por esse tempo as minhas tias Stina e Laura eram solteiras e viviam tão bem quanto possível. Havia uma garagem pequena perto da casa do Tio Joe, muito menor que o edifício que existe agora, e a cerca de cinco metros de uma curiosa arrecadação onde meu Avô guardava os utensílios da horta. Assentava em quatro postes a pouco mais de meio metro do solo. No topo de cada poste havia uma meia bola de metal, voltada para baixo, que penso que era para os ratos não subirem. Essa pequena construção tinha um forte cheiro a terra, e eu gostava muito dela. Ao lado havia uma pedra de amolar num suporte de madeira. Lembro-me de meu Avô e meu Pai me encorajarem a rodar a manivela, e de como era duro fazê-la andar durante uns poucos minutos. Nesses momentos eu percebia quanto esforço era necessário para ser homem e como a minha força era insignificante.
Quando morreu, meu Avô tornara-se à sua custa um homem de sucesso. Partindo do zero ele conseguiu comprar a sua casa e a sua terra (um pouco mais de meio hectare), construiu a casa com primeiro andar que depois deu a meu Pai, e criou seis filhos até à idade adulta. Ele e a minha Avó também perderam por doença nove outros filhos ainda crianças. A primeira filha foi Agnes, de quem pouco recordo, depois Joe, o “sem jeito”, Seraphin, meu Pai Frank, Laura e por último Stina.
Quero reflectir agora por momentos acerca dos filhos que morreram. É óbvio que não os conheci, mas sei algo a respeito de três deles e penso ter uma ideia da razão por que morreram tantos.
A terceira filha chamou-se Justine e era conhecida por Stina. E sei que a irmã favorita de meu Pai tinha cabelo ruivo e era muito alegre, tendo morrido com onze anos. Ele contou-me algumas coisas sobre Jimmy, que morreu ainda criança. Meu Pai partilhava o quarto com ele, e uma noite o médico veio porque Jimmy estava doente. O doutor prescreveu um medicamento, meu Avô deu cinquenta cêntimos a meu Pai e disse-lhe para ir à cidade comprá-lo. Meu Pai foi e veio sempre a correr, e trouxe o medicamento. Deram a Jimmy uma dose do medicamento, e ele morreu.
Porquê esta epidemia de mortes entre os Mello? A minha Mãe tinha dez irmãos e irmãs, e só uma delas morreu nova. O princípio do século XX foi terrível para as crianças: doenças como a varíola, a tuberculose, a difteria, a meningite e a influenza eram difíceis de tratar e matavam muitas. Suspeito de que as crianças Mello eram particularmente vulneráveis devido à insalubridade da casa, que tinha um poço que ficava mesmo ao lado dos degraus por onde se subia para ela. Era um poço escavado no chão, talvez com uns seis metros de profundidade, e ainda existia quando eu era criança embora já não fosse utilizado. Deveria haver uma retrete perto, talvez atrás da garagem. A drenagem desta zona flui através da casa, e o poço estava sem dúvida abaixo do nível da retrete. Naquela área existem sedimentos glaciares – areia e saibro – que a água atravessaria facilmente. Julgo que o poço estaria contaminado, quer pela retrete quer pela casa ao lado, ligeiramente mais elevada. A água da cidade chegou à rua Vernon quando meu Pai tinha sete ou oito anos, e nenhuma criança morreu depois disso.
Outra recordação forte é a de ter sido levado para ver meu Avô moribundo. Penso que não sabia que ele estava morrendo, mas ele jazia no seu leito, onde eu nunca o vira antes, e por isso percebi que algo não estava bem. Ele tinha uma meia a servir de gorro, voltou-se para mim e beijou-me nos lábios. Uns minutos mais tarde a minha tia Stina disse-me que eu talvez não voltasse a ver o Avô, e tinha razão. Não fui ao seu funeral, mas durante algum tempo não nos autorizaram a usar o rádio em casa, o que eu não compreendi.

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