O primeiro (e grande) romance de Jorge Carvalheira

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Por enquanto nada sabemos do destino do homem que ali vai, em extremo concentrado no andamento das passadas que dá. Vemos que marcha atento e cabisbaixo, no gesto de quem poupa energias. Porém não tanto que perca de vista o andador que lhe vai na dianteira, obra de poucos metros, nem tão pouco que possa este limpo luar de Fevereiro lavar-lhe de sombras a barbada face. Nada sabemos, e dobrada razão é essa para atentarmos no leve pormenor, na mesquinha minúcia.

Assim inicia As Aves Levantam Contra o vento, o primeiro romance do Jorge Carvalheira, que a Quasi acaba de publicar. É um livro excepcional. O que não pode espantar-nos, sabendo, os que o lemos aqui no Aspirina, quanto desvelo e quanta graça ele põe no que escreve. Quem é exigente a esse ponto é-o sempre também. 

As Aves Levantam Contra o vento é o retrato dum Portugal que foi mas ainda persiste em ser. Porque nós somos como somos – e aí está o nosso grande problema. Fique aqui, para amuse-bouche dum livro magnífico, este retrato de alguém que conhecemos de sobra.

Incapaz de ver os erros do passado, só restava a Portugal passar a vida a repeti-los. Um dia tomou conta do governo um professor de Finanças, bisonho camponês que a igreja modelou num espirito de frade, austero, ardiloso, agudíssimo, implacável. Conhecia como ninguém a alma dos portugueses, era ele a sua mais perfeita imagem. Desdenhava da fatuidade dos salões e desprezava as multidões primárias, era um deserdado que só acreditava em elites. Não apreciava indústrias, por tanto se temer do ruido dos operários a sair do bojo das fábricas, proibiu a coca-cola para que não houvesse exemplos de sociedades eficazes, sonhava-se ministro dum rei absoluto deslocado no tempo, um Pombal despótico e tirano a quem sobrava a manha e faltava o esclarecimento. Governava o país do fundo duma cela, e, milagre supremo, pôs em ordem as finanças, pelo cálculo mais elementar. Domesticado o povo pela inanição e o silêncio, mourejavam três quartos dum pais infantilizado há séculos, para que o restante quarto vivesse à tripa forra. Era esta a lei universal do mundo.

7 thoughts on “O primeiro (e grande) romance de Jorge Carvalheira”

  1. há tempos comecei a fazer um anagrama com o jorge carvalheira. perdi a página onde tinha as variantes e não cheguei a concluir. uma das melhores linhas era Era chegar livro já. já não vai a tempo. e ainda bem.

  2. “O primeiro (e grande) romance de Jorge Carvalheira”? Só?
    O homem é escritor de grande porte, o seu romance um dos melhores que, na nossa língua e em largos anos, me foi dado ler.

  3. Estou a deliciar-me com a leitura do livro do Jorge. Nunca escondi que ele foi uma das razões que me fizeram optar pelo Aspirina como o “meu” blog.
    Saúdo vivamente a presença aqui do Rentes de Carvalho. Um homem que admiro imenso, quer pela sua maneira de ser quer pelo modo exemplar como trata a Língua. Ele cuida dela com carinho, como se fosse um ser vivo. E não será?
    Um abraço especial para este grande homem, que só não é um dos nomes de topo da literatura portuguesa porque não ingressou em nenhuma das capelinhas que promovem os seus fiéis. Mas a sua literatura é da melhor que há. Juro. E vocês devem saber disso.

  4. Esse perfil ficaria ainda mais completo se o Carvalheira tivesse encaixado o pormenor de que no tempo do Salazar e apesar do seu medo pelos ruídos dos operários ainda se podia comprar na papelaria Canhoto, Irmãos & Cia uns livritos da autoria de comunistas famosos, incluindo um ou outro amigo pessoal de Staline. Se ele tivesse, eu até beberia um copo de coca à saude das sociedades eficientes do mundo inteiro.

    Curiosidade: futebolistas milionários em 66 era coisa rara, mas a dívida pública do país nesse ano era de 17 por cento do PIB, e a actual anda a rondar perigosamente os 70 por cento e um dia destes ou vai ou estala. Quanto aos salários democráticos, esses também andam pelas ruas da amargura. Todos juntos e bem espremidos montam a cerca de 40 por cento do mesmo PIB, ou menos. Por que algibeiras é que andará o resto é pergunta que não se faz a nenhum jornal de referência ….

    Mas vou comprar o livro na mesma, assim que tiver oportunidade

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