Os impérios do Espírito Santo, em Santa Maria, têm quase a idade do povoamento da ilha. E por isso mantêm a memória de uma receita culinária de antes da chegada das especiarias orientais. A carne, cortada em grandes pedaços, é temperada apenas com sal e cozida durante várias horas. Depois, com o caldo ainda meio fervendo, põe-se-lhe dentro hortelã e endro. Uma delícia, apesar de que o aspecto das copeiras era algo soturno. As mesas enchiam-se de manhã à noite. E havia sempre um lugar no estômago onde cabia mais um bom naco ou dois de carne, postos sobre fatias de pão endurecido e no qual fora vazado aquele caldo generoso que depressa enchia os lábios de gordura. Entretanto, os serventes da mesa não se descuidavam, para que nada faltasse. Ora traziam mais sopas, mais caldo e mais carne, ora iam andando à volta servindo o vinho a todos no mesmo copo, que logo ficava besuntado. Viam-se ao longe as marcas da gordura. Agora, embora no essencial nada tenha mudado, deixou de haver os “agarradores” (cuja função era arrebanharem gente para a copeira, às vezes à força para que não houvesse um único lugar vazio), os copos são de plástico e individuais, há água quente na cozinha para lavar a loiça, e, para além do imprescindível vinho, não faltam os refrescos da moda.
O mordomo, apesar de ser chamado imperador, pouco ou nada manda. Uma verdadeira democracia. Até nas filas para entrar na copeira não há senhorias. Como muito bem escreveu, em 1920, o padre Joaquim de Chaves Cabral: “A ficção liberal – o rei reina mas não governa – do constitucionalismo acha a sua plena realização nos impérios marienses.” Mandam todos os outros, sobretudo o trinchante, com o seu lenço de seda branca, ou colorida, ao pescoço. Tem a seu cargo a carne, que pode ser de até umas oito reses ou mais, dirige todos os restantes membros da “equipagem”, e é ele que distribui o pão de mesa e as formidáveis roscas, de massa ligeiramente adocicada. Os enormes pães da mesa são mais insípidos, sendo os menores de alqueire, cerca de doze quilos de farinha. Para os cozer, todos os fornos foram feitos com uma pedra amovível na boca. E não é costume faltar o pão leve, os biscoitos encanelados e os biscoitos de orelha. Pelo menos estes são receita mariense já com fama nacional.
Abaixo do trinchante, também dito presidente, vem o mestre-sala, o primeiro dos três briadores, que acompanham todos os momentos mais importantes da função. São rapazes escolhidos entre os de melhor fama do lugar. E há o copeiro, que põe e dispõe na copeira, e que tem a seu cuidado o vinho. Lá no fim da lista, aparecem os serventes ou ajudantes, que são o pau para toda a obra. As mulheres, claro, são indispensáveis. A elas pertence a maior parte dos segredos da cozinha e todos os do forno.
Uma das recordações mais fortes que ficam dos impérios de Santa Maria são os foliões. No aspecto, em pouco diferem dos companheiros da equipagem, com o lenço colorido à volta do pescoço. Um toca o tambor e outro os ferrinhos ou uns minúsculos címbalos, indo ao meio o porta-bandeira. Nada acontece sem a sua presença antes do dia da função e, durante esta, de manhã até à noite ouve-se aquela toada mourisca que vão como que ronronando sempre. De nada serve aclarar-lhes a voz de pouco a pouco com gemadas em vinho e açúcar, servidas numa tigela. Mas a presença da folia é fascinante.
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«O império dos pardais» continua no Rossio
Depois de ter escrito a biografia do rei D. Manuel I, o historiador João Paulo Oliveira e Costa acaba de fazer um livro em tudo diferente. Chama-se O império dos pardais é uma edição Círculo de Leitores e faz do Rossio o palco privilegiado para as personagens se misturarem, se envolverem e se defrontarem. Este Rossio que ainda hoje continua a fervilhar de gente das mais desvairadas caras, raças, cores, credos e nomes.
Hoje, como no tempo do romance, os pardais continuam a aproveitar os bocadinhos de pão que sobejam da luta entre as gaivotas e os pombos. No romance as potências da Europa são a França, o Império Alemão e a Inglaterra. Como hoje, afinal.
Para além das descrições vivíssimas da zona portuária do Tejo, para além da importância decisiva da Irmandade de Moura, o grupo dos amigos do então duque de Beja, para além das peripécias dos serviços de espionagem e de contra-informação, a mim fascinou-me em particular a morte de um marinheiro, «mestre» Felício, em Beja. O rei D. Manuel I visita-o no leito de morte para garantir que está ali por gratidão e respeito para lhe agradecer as viagens de exploração pelo oceano que não foram registadas pelos cronistas nem tiveram direito a diário de bordo.
Na história continua a haver tempos nebulosos e personagens difíceis que nunca vão sair dos subterrâneos do esquecimento. São pessoas que deram tudo por uma causa mas não foi conveniente divulgar os seus nomes, os seus trabalhos e os seus dias.
Este livro deixa-me reconciliado com uma certa ideia de Portugal. E não falta um estrangeiro (um dinamarquês) para nos dizer lucidamente aquilo que nós não somos capazes de descobrir. Até nesse pormenor este é um livro profundamente português.
os meios justificam os fins
Saramago passou-se?
Foto sacada aqui.
José Saramago apoia abertamente José Luis Zapatero. Normal? Inesperado?
Leia A discreta viagem rumo à outra margem de José Saramago.
Com vénia para aqui.
P.S. O autor deste «post» acha que até está muito bem. Que tudo vale para travar Rajoy & Aznar. Mesmo uma conversão de Saramago conjunta à Cientologia, à Opus Dei e à Igreja do Maná. Mas confessa que, até hoje, acreditara naquela velha, rabugenta firmeza.
pequenas coisas na escola e em casa
sinto-me assim um bocado mal em mandar postais destes que não têm muito a ver, mas ao menos os títulos podem ser a condizer
Dantes, fosse no trabalho, em discotecas, em bares, na rua, ou em paragens de autocarros, havia sempre um ou outro a insinuar-se. Alguns mais subtilmente, com palavras, olhares ou pedidos de amor eterno, outros chegaram mesmo a dedicar-me pívias (sei-o porque foi assim em jeito de serenata) e um inclusive chegou a arrombar-me a porta do quarto.
E eu indagava-me se estaria a mandar por engano algum sinal, alguma feromona, algum abanar de ancas que dissesse “pretendo sexo, por favor ofereça-mo”.
Ultimamente, devo confessar, por motivos de falta de peso, até que o tenho procurado: uns decotes, umas maquilhages (as tais), mais sorrisos oferecidos ao desbarato a membros do sexo masculino… pouco me falta para colar um post-it na testa a dizer “busco sexo casual”.
Nada….
Népia
Nicles…
Essa gente que diz que as gajas têm a vida facilitada, que é trinta cães a um osso, que basta abrir a pernoca, que me telefone, se faz favor, que é para eu lhes dizer umas boas.
Carta a Marina por causa do galego – 6 (e última)
Cara Marina,
Disse-lhe eu, na última carta, que muito nos restava a fazer, tanto na Galiza como em Portugal. Esta é a parte menos festiva da minha carta. Começo por nós.
Aqui no país, entre os linguistas, o interesse pelo galego como idioma anda a roçar o zero absoluto. Nos últimos trinta anos, nenhum autor português produziu qualquer obra de divulgação, ou sequer um artigo, sobre a situação do galego na actualidade. E o único estudo comparativo sobre português e galego actuais é, ainda, o de Maria Helena Mira Mateus, sobre fonologia, de 1984. Quanto ao idioma, é tudo.
Acerca das concepções vigentes em Portugal sobre a problemática do galego, há mais alguma coisa. Temos um opúsculo de Ivo Castro, Galegos e Mouros, de 2002, e um de Clarinda de Azevedo Maia, O galego visto pelos filólogos e linguistas portugueses, do mesmo ano.
Sobre a Galiza e sua relação com Portugal, existem a importante obra do antropólogo António Medeiros, Rio de memórias e de esquecimentos. Nacionalismos e antropologias na Galiza e em Portugal, de 2002, e uma tese de mestrado de José Paulo Raposo de Sousa, Discurso literário e identidade nacional – O caso de Portugal e da Galiza, de 1999.
Dos estudiosos portugueses, os únicos que algum dia afirmaram a identidade de galego e português foram Manuel Rodrigues Lapa († 1989) e Luís Lindley Cintra († 1991). Os outros linguistas, até hoje, sempre consideraram que português e galego – a partir de 1400, o mais tardar – se tornaram idiomas diferentes. Como demonstração, aduzem, contudo, diferenças que, mesmo forçando, mal dariam para identificar ‘dialectos’. Sejamos sucintos: o tema nunca os interessou nem um bocadinho.
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Sobre as justiças deste mundo
A minha maneira de comemorar o quarto centenário do padre António Vieira é escrever uns textos que toscamente se pareçam com os seus. Esta é uma carta que escrevi ao jornalista Fernando Madail, do DN.
* * *
Conta o grande poeta Luís Vaz de Camões aquele conhecido caso dos doze cavaleiros que foram a Inglaterra defender a honra e a fama de outras tantas donzelas difamadas. Vede, senhor, que torpe e vil era a justiça desse tempo, que não se a fazia ou declarava pelo conhecimento da verdade, senão pela bravura de cavaleiros a quem seu braço e sua lança obedecessem à vontade deles. Assim que temos num momento as doze damas de honra duvidosa perante os olhos de muitos que as viam, e logo as sabemos livres de afrontas e de aleivosias, porque mais fortes foram os nossos que os ingleses inimigos delas. Mas, não houvesse Deus dado ao Magriço e seus companheiros engenho para vencerem os orgulhosos normandos, e, sendo o estado das donzelas o mesmo que sempre fora, haveriam ficado todas por perdidas e desonradas.
Hoje, direis, é mais justa a justiça, que se a faz com inquirições e com devassas, com testemunhas e com advogados, com juízes e com a razão. Pois eu vos aviso: bem mal cuidais. Tenha muita prata e muito oiro o homem justamente acusado ou que injustamente acusa, e há-de comprar, não um cavaleiro de braço que não ceda e lança que não rompa, senão um advogado de tão pouca vergonha quão solta lhe seja a língua, e que saiba os nomes de todos os escrivães, e que se faça de amizades com todos os meirinhos, e que contrate muito bem com todos os juízes.
“Quid est veritas?” perguntou Pilatos a Jesus. E, sem que esperasse resposta do Divino Mestre, se dirigiu aos judeus e proclamou: “Ego nullam invenio in eo causam.” – “Eu não encontro nele culpa alguma.”
Vede, senhor, como Pilatos, que não sabia o que era a verdade, foi ele mesmo verdadeiro, que esta é uma das espécies da verdade, que é dizer a boca o que a mente pensa. E, ainda que alguém não pense uma verdade tão certa como a de Pilatos, não mentirá se disser somente aquilo que cuida ser verdadeiro. À verdade se referiu o sábio e santo Tomás de Aquino da maneira que bem sabeis: “Veritas est adequatio intellectus et rei.” Cuidais, pois, que esta verdade, em que aquilo que sabe a inteligência é aquilo que é, a encontrareis nos tribunais? Desenganai-vos, senhor, pois sempre há-de haver dois homens capazes de jurar falso, bocas que não dizem o que os olhos viram ou a mente sabe, ou um juiz disposto a negar o seu mesmo pensamento se tal convier à sentença que a quem vos quer mal convém.
«As mulheres são todas parvas» ou a apoteose do equívoco
Ter graça, cair em graça ou ser engraçado – não é para quem quer, mas sim para quem pode. E nem todos podem. Há tempos corria uma tarde amena e, perante três mulheres (de 22, 30 e 57 anos de idade) que folheavam um tratado de Botânica, julguei oportuno atirar para o ar uma frase irónica e disse com o ar mais sério que me foi possível arranjar: «As mulheres são todas parvas».
Julguei então que o facto de a palavra latina ‘parva’ aparecer com frequência nos nomes científicos das plantas, dos arbustos e das árvores ajudaria a abrir as portas para um sorriso cúmplice e, já agora, em triplicado.
Equívoco total o meu. As duas mulheres mais novas sorriram, mas a mais velha fez beicinho e advertiu de imediato: «São todas parvas se forem como eu. Eu sou parva porque penso mais no outros do que em mim».
A partir daqui estava tudo explicado. A brincadeira só existe se for compartilhada. Até lá, até à sintonia de ideias, é um equívoco prolongado com cada um no seu papel e a puxar para o seu lado. Neste caso, eu estava na ironia e a terceira senhora estava num registo (digamos) sério e olhando apenas ao óbvio.
Um dia o grande escritor Santos Fernando (autor do belíssimo «Os grilos não cantam ao domingo») escreveu que o «humor não passa de uma lágrima entre parêntesis». Pelos vistos a ironia também. Ele tinha todas as razões para escrever esta magoada constatação: eram seus amigos de peito os escritores Luiz Pacheco e Ferro Rodrigues. Eles também sabiam que ter graça, cair em graça ou ser engraçado não é para quem quer.
Kosovo & alii. Pátria ou demagogia?
*
Leio José Pacheco Pereira hoje, no Público:
«A maioria da opinião pública e de muita da comunicação social (aqui o PÚBLICO é excepção) permanece indiferente à política externa portuguesa quanto ao Kosovo. O mesmo se poderá dizer da indiferença com que o PS e o PSD tratam esta questão, ainda por cima numa zona onde há tropas portuguesas que foram para lá baseadas num mandato que afirmava que o Kosovo era parte da Sérvia… Quem é que quer saber disso para alguma coisa? Agora o que eu queria saber é que pressão está a fazer o directório europeu, França, Alemanha, Reino Unido, para que países como Portugal reconheçam o Kosovo? Porque estão de certeza a fazê-la e eu estou longe de considerar que o reconhecimento do Kosovo corresponda aos nossos interesses nacionais. Por muito que isso pareça contra-intuitivo em relação à nossa história, não é do interesse nacional qualquer coisa que ajude à fragmentação da Espanha.»
E releio:
Por muito que isso pareça contra-intuitivo em relação à nossa história, não é do interesse nacional qualquer coisa que ajude à fragmentação da Espanha.
Não sei se concordo. Não sei se discordo. O meu entendimento bloqueia aqui.
E, no entanto, eu queria que Portugal existisse, se ainda não o houvesse. E posso crer que Pacheco Pereira, ele próprio, também. Mas não sei. Não sei onde acaba a Pátria e começa a demagogia.
Carta a Marina por causa do galego – 5
Cara Marina,
Escreveu você, na mensagem que, haverá duas semanas, me inspirou esta série: «Fico lixada com essa cena de intregracionismo». E ajuntava: «O galego de Castelao, do Rivas, da Rosalia, é lindo, esquisito, rural, e não quero que seja portunhol». Eu intervim no seu texto, esclarecendo – para o leitor português – que ‘esquisito’ devia ser entendido como ‘refinado’.
Antes de prosseguir a conversa, importará explicar àquele português e meio que nos venha lendo que «cena» é essa do «intregracionismo». Serei breve.
Existe um movimento intelectual galego que aspira a ver o idioma da Galiza reconhecido como pertencendo ao âmbito do que actualmente se conhece por português. Um âmbito que, lembram, já foi o seu. Por isso se denominam reintegracionistas. Trata-se, atenção, dum movimento linguístico e, mais amplamente, cultural – não duma opção política. O reintegracionista galego não se envergonha de ser espanhol, menos ainda o esconde. Vinca sim – e não é pouco – que existe uma parte da Espanha que, escapando culturalmente ao projecto geral espanhol, deve participar, com naturalidade, num projecto doutro âmbito, aquele em que se inserem Portugal e outros países de fala portuguesa.
Neste movimento reintegracionista, damos com um agrupamento de razoável porte e diversificada actuação, a Associaçom Galega da Língua (AGAL), e com bastantes outros, aderentes ou não a ela, com um mais especializado programa. Na sua expressão escrita, utilizam, em maioria, a norma do galego desenvolvida pela Agal (a chamada Norma Agal) construída sobre o padrão português, este em que escrevo, enquanto outros adoptaram o padrão português puro e simples.
Dominadores do dia
Falo com os meus alunos da cadeira de «Línguas Regionais Europeias» na crescente pressão do inglês. Conto-lhes que, tal como na Holanda, também na tv portuguesa a seguradora Zurich, como tantas outras firmas, publicita em inglês. Because change happenz.
Lembro-lhes que um meu sucessor, falando a futuros colegas deles, naquela mesma sala de aula, talvez o faça em inglês. Uma tragédia? Não necessariamente. O que a nós hoje parece inconcebível pode ser amanhã óbvio. E recordo-lhes que, nesta mesma universidade, há muito, muito tempo, eu estaria a dar-lhes esta aula (ou uma parecida) em latim. E que, tempos depois, era o francês a dominar, aqui e em muita parte, a ciência e o seu ensino.
E falei-lhes duma fachada, pertinho da faculdade, em que se lê ’T Makelaers Comptoir, «O Escritório de Imobiliário». Alguns, mais ágeis de espírito, ligaram «comptoir» ao actual neerlandês «kantoor» (escritório). Expliquei que «comptoir» era a mesa onde se contava dinheiro. Um aluno ou outro até sabia que o francês «comptoir» derivava do latim «computator».
E, assim, pude expor uma genealogia do latim computator para o francês comptoir, para o inglês counter. E, segunda genealogia, directamente do latim para o inglês computer, para o… neerlandês computer.
O inglês – lembrei-lho – não é senão o actual dominador, depois de o francês e o latim o terem também sido. Isto pode não tornar as coisas menos graves, ou sérias, mas torna-as menos dramáticas. Também o predomínio do inglês terá, um dia, o seu fim. Não é provável que eu venha a saber qual o novo amo. Estes processos são lentos, e o inglês ainda está para lavar e durar.
Mas, quem sabe, um dos meus juvenis estudantes pode, num longínquo dia, ter de dar ali uma aula em… Não, eu desisto de adivinhar.
Só sei, com um arrepio, que, quando, em começos do século XVIII, um reservado grémio votou, numa cidade dos futuros Estados Unidos da América, sobre qual – inglês ou alemão – seria o idioma da nação vindoura, e o inglês ganhou, foi por um voto de diferença.
Quando ensinar (e gostar) é suspeito
Isto não entra pelos olhos? Pois não, não entra. Daí que possa ajudar ouvi-lo dito por gente com tino. Por exemplo, Luís Campos e Cunha, hoje no Público. Destaque meu.
«É preciso acabar com a autogestão das escolas. A reforma das escolas vem sempre de fora para dentro. Meter na gestão da escola representantes das autarquias e dos pais é certamente uma ideia correcta. Vai nesse sentido o ministério e bem. Iria mesmo mais longe, os professores deveriam participar mas, eventualmente, sem direito a voto nalgumas matérias.
«Mais ainda e muito bem, o ministério defende a existência de um director. É fundamental que as instituições tenham uma cara e não um conselho, em que ninguém é verdadeiramente responsável.
«Com aquelas medidas acabava-se com as balelas propaladas pelos cursos de “ciências da educação” da gestão “democrática” das escolas e da avaliação contínua. São tudo conceitos em contradição com a ideia de Escola, em que quem sabe ensina e quem não sabe deve aprender. E na Escola, professores e alunos devem aprender de tudo, incluindo aprender a decidir, aprender a protestar e aprender a ser responsabilizado.»
Pois. Mas é tão incorrecto defendê-lo, não é? E não haverá maneira de torcer por uma vez o pescoço a essa gente para quem ter coisas para ensinar (e, escândalo, gostar também de fazê-lo) é imensamente suspeito?
Esta coisa parece certa: a máfia «pedagógica» – tão surpreendentemente autoritária, e tão supreendentemente elitista – que antigamente dominava o Ministério, e se ramificou pelas escolas, resiste ainda.
Dar os Buns Anos
(Notas prévias: buns anos – bons anos; dar os buns anos – desejar feliz Ano Novo; pedir os buns anos – pedir uma bebida, ou uma moeda, no caso de crianças, para que quem oferece tenha um ano feliz; Jedé – José; ma que, ou cma que – parece que. Só transcrevo a pronúncia dos casos mais interessantes, para a leitura não cansar.)
* * *
Pois entanse vou-lhe contar daquela vez que o Jedé Cordeiro e o Jedé Carvalho foram dar os buns anos ao ti Mané Jaquetinha. Aquilo eram dois lepras levados da breca, uns pelacias do corisco, o senhor conhece-los bem, e dê-lhe na ideia irem dar os buns ao ti Mané Jaquetinha já fora do prazo, que já se tava quase pelos Reises, ou não sei mesmo se já tinha passado o dia de Reises. O ti Mané Jaquetinha morava naquela casa muito pequenina, o senhor também conheceu bem, que a gente entrava – a gente entrava é um supor, que eu nunca entrei na casa dele – mas que a gente entrava e ficava logo dentro da casa toda, que a casa era toda ao pé da porta, que tinha uma biraca grande em baixo, cma que fosse roída dos ratos, que dava para entrar um temporal inteiro por ali adentro, e o chão era de terra, já se sabe, e o ti Mané Jaquetinha dromia numa caminha de ferro ao lado da porta.
Segue-se entanse que eles foram lá, o ti Jaquetinha deitava-se cedo, já tava acomodado, e o Jedé Carvalho bateu à porta e ele perguntou com maus modos, era aquele feitio sempre zangado, mas não era para menos naquela hora, perguntou “que é que tu queres?” e o Jedé Carvalho respondeu “a gente vem dar os buns anos”, e o ti Jaquetinha disse “deixa aí que amanhã pego”. E vai o Jedé Carvalho, que ma que tinha a tripa rota, abate as calças, amoujou-se de cocras e, meu rico senhor, pranta-lhe ali um presente de louvar a Deus. Já se sabe que essas cousas é difícil de fazer sem fazer barulho, o ti Jaquetinha ouviu aquele disparate, levanta-se em ciroulas e tudo, traca duma navalha e vem para a enfiar no Jedé Carvalho, que se lo apilha rasga-lhe o buxo até à espinha. O Jedé Cordeiro botou-se logo a correr pela rua abaixo, desapareceu num zápete e escondeu-se no Arrebentão, mas o Jedé Carvalho puxou as calças só até aos joelhos, que não teve tempo pra mais, nem podia ponhá-las mais pra riba, no trestalho em que tava, já se sabe, e botou-se a correr pela rua abaixo, mas com os dois pés à uma, aos saltos como se tivsse piado, e tava, mas gritou prò ti Jaquetinha: “Ó ti Mané, que pressa é essa? O senhor disse que vinha buscar amanhã e já vem buscar hoje?”
Alô, Porto!
Este já não é o «post» número 2500, nem o 2501, mas o 2502 do Aspirina. Pois é, aqui trabalha-se.
Só não se sabe é por onde andam o João Pedro da Costa e o Jorge Carvalheira. Eu até gosto do Porto e da sua trabalhadeira gente. Mas a sinceridade obriga-me a confessar que começo a descrer um nadinha de tal fama.
Fica uma pergunta, talvez ingénua, pairando. E é esta: ainda não há, aí no Majestic, internet assim no ar?
e porque não à Portugália?
Hoje acordei com vontade de comer um bife à Trindade. Não me intrigou a alteração do meu delicado paladar matinal, assim à primeira. Querer um bife a nadar em molho, ovo a cavalo, pratada de batatas fritas. Estranhei foi o preciosismo da cozinha. Nenhuma memória acorre do que andei a sonhar, nem uma suspeita.
Se isto fosse a Soca, tal trivialidade daria um post. Mas, por aqui, nem pensar.
Cavaleiros inexistentes
Morreu Alain Robbe-Grillet. Oitenta e seis anos. Eu sabia-o velho, mas não tanto. Parei com ele no tempo, com La Jalousie, com Les Gommes, com La Maison de Rendez-vous. No primeiro, faltava o protagonista. No segundo, o clímax da história tinha sido ‘apagado’ (mas sentia-se que ele tinha acontecido). No terceiro, faltava o próprio lugar de acção (que seria Hong-Kong, não fosse o autor ignorar totalmente como é Hong-Kong, nem isso lhe interessar minimamente).
Tudo ausências, que o magnífico mestre geria com um virtuosismo que nos fascinava. Ele criava-nos dentro cavaleiros inexistentes, como nos chamou Italo Calvino, outro virtuoso pós-modernista.
Um e outro tentaram convencer-nos de que a ‘ausência’, a página em branco, era uma essência do ‘homem moderno’. E a gente acreditava. Não via, mas acreditava. E era por essa demissão da atitude crítica que, afinal, lhes dávamos razão. Inexistentes. Mesmo quando cavaleiros.
A carta da América
Mestre João Bernardo era sapateiro e ferrador. Foi em sua casa que se jogou o último desafio de sueca na serra.
Com a partida de mestre João Bernardo, no dia seguinte, não ficariam na aldeia mais do que três homens: o tio Amadeu, o Joaquim Torre Velha e Manuel Cordovão. Por isso aquele serão de sueca e despedida teve honras de mutismo em velório que nem os cálices de aguardente animaram.
Os parceiros haviam sido sorteados dando uma carta a cada um. Manuel e o Joaquim Torre Velha ficaram com as duas mais baixas, e por isso formaram equipa.
Para evitar uma indefinida sucessão de partidas em que os que estivessem em desvantagem invocassem o seu direito à desforra, foi combinado que a disputa terminaria quando uma das equipas alcançasse seis vitórias.
Partida a partida, a sequência de vitórias e derrotas não deu a nenhum dos pares uma vantagem superior a uma até ao quatro igual. Depois, Manuel e o Torre Velha ganharam as últimas duas com facilidade.
Ao jogar a derradeira carta, sabendo que a vitória estava assegurada, Manuel sentiu uma tristeza tão grande como se aquela fosse a maior derrota da sua vida. De cada vez que partia alguém, a tristeza era tanto maior quanto menos gente restava na aldeia. E parecia que os que se despediam, indo, sentiam o mesmo e na mesma proporção que os que diziam adeus, ficando.
Os outros dois passaram a recordar aquele último serão como se tivesse sido uma das noites mais importantes da sua vida.
Num fim de dia, em que conversavam à porta da casa do Torre Velha, Manuel tirou um baralho da algibeira, embaralhou bem, disse àquele que partisse e mandou que o tio Amadeu desse cartas como se mestre João Bernardo estivesse ali. “És maluco”, disse o velho, no entanto obedecendo. Manuel pegou num envelope, meteu-lhe dentro as dez cartas restantes e explicou: “Vou mandar estas cartas ao mestre João Bernardo. O senhor Joaquim jogue uma, para eu lhe dizer e ele decidir qual a carta que há-de jogar.”
Perante o pasmo deles, explicou. Cada um guardaria as suas cartas, esperando a resposta do companheiro distante. Quando ela chegasse, juntar-se-iam os três e completariam a vaza. Depois, começariam outra e Manuel Cordovão escreveria novamente a dizer como fora. “Isso nunca mais acaba!” disse o velho Amadeu, mas mais em jeito de satisfação que de censura.
Cada resposta vinda da América demorava pelo menos duas semanas a chegar. Então os três homens juntavam-se em casa do Joaquim Torre Velha, e esperavam com ansiedade a revelação da carta devolvida. Às vezes o serão de sueca não passava disso mesmo: Manuel abria o envelope, punha na mesa, em cima das outras três, a carta enviada por mestre João Bernardo, e, se era este que ganhava a vaza, arrumavam as suas e esperavam mais duas semanas. Quando era a vez de ele dar cartas, prevenia com antecedência se queria virar trunfo por baixo ou por cima, e o velho Amadeu dava por ele. Mas ficavam felizes como se não faltasse ninguém.
O velho Amadeu adoeceu quando estavam empatados a duas partidas, mas ele ia ganhando a quinta por três a um. Ainda aguentou o suficiente para viver até à penúltima vaza, que ganharia, e o jogo também, se mestre João mandasse um trunfo para cortar um rei jogado pelo Torre Velha. Não veio o trunfo. Mas Manuel trocou uma carta sua e mostrou-a ao quase moribundo como sendo a do companheiro. “Vocês ganharam, tio Amadeu.” O velho sorriu, feliz. Pela última vez, o velho Amadeu sorriu. Para que ele sorrisse durante mais uma partida, Manuel seria capaz até de roubar ouro.
Poema algures
Há um poema. Um certo poema. Julgo-o feito a partir de memórias sedimentadas nas mais pequenas gavetas do teu coração. Assim como um guarda-jóias invisível, um estojo antigo, passado de mão em mão, na mesma família, por sucessivas gerações de mulheres.
Há um poema. Um poema algures onde deixaste o pó das brincadeira da infância, os jogos, as cantigas, as lengalengas. Tudo aquilo que poderia sugerir um mundo organizado entre os sonhos e os seus resultados. Um mundo onde a ternura era uma janela a fechar o vento mais frio do Inverno desse tempo.
Há um poema. Procuro-o nos teus gestos hoje mais comedidos e reservados, na tua voz onde se insinua a força das pausas, a grande nuvem cinzenta do tempo de hoje onde a tristeza fez a sua sementeira multiplicada.
Há um poema. Deve haver mesmo esse poema num lugar que só tu sabes. Pode não ser ainda poema, pode não ter ainda forma mas eu pressinto que ele existe, funciona, respira, articula-se entre as palavra e os sentimentos, sobe das águas mais escuras e lodosas para uma superfície onde a limpidez dita a sua regra.
Há um poema. Persigo-o ansioso todos os dias apenas guiado pela intuição e pelo instinto de julgar o teu rosto o rosto desse poema, sua origem e seu destino, sua força e sua razão de ser.
Há um poema. Eu sei. Hei-de escrevê-lo a partir da límpida pontuação do teu olhar. Amanhã. Ou num amanhã futuro. No dia da tua total revelação. No lugar onde, a partir dos teus olhos, seja possível instalar uma harmonia igual às brincadeiras da infância quando o mundo estava organizado entre os sonhos e os seus resultados.
As últimas lavadeiras da serra
Manuel sacudiu a água da mão, que caiu em gotas devolvidas à corrente que descia com um rumo certo, contornando cabeços e saltando penedos, até onde não se pudesse distinguir nenhuma origem de nenhuma água. Mas, mais abaixo, detinha-se um pouco na pequena largura de um poço onde as mulheres lavavam a roupa.
Das idosas, sempre houvera umas que enrolavam a saia nos joelhos, sem se importarem de a molhar com a água que saltava na viagem das mãos entre o poço e a roupa, e outras que descuidavam o inútil pudor da sua ruína física. Das mais novas, algumas imitavam aquele recato, outras expunham a generosidade de um palmo de coxas à cobiça de quem passava.
As pernas das lavadeiras tinham envelhecido. Começava a valer pouco a pena ir até ali, por acaso ou de propósito, e olhar disfarçada ou claramente. Já nenhuma protestava contra a passante presença, já nenhuma ajeitava a roda da saia, num gesto subinte de fingido desleixo, em descarada provocação.
Nessa Primavera, Joana ainda lá fora pela roupa do marido e pela sua. Mas, do filho que haveria de nascer-lhe, pouca seria rebaptizada naquela água, porque ela iria para França no fim do Verão.
Quando o menino nasceu, Manuel percebeu que talvez fosse o último a vir ao mundo da serra. Chamar-se-ia João, e por isso lhe ocorreu imitar Gil Vicente e o seu “Auto da Visitação”, presenteando a jovem mãe e o filho com um cordeiro e um poema.
Os versos, fizera-os ele e terminavam assim:
“Subiste à serra descendo/ de alturas muito subidas./ E que o Deus dessas alturas/ e de todas nossas vidas/ te faça tão venturoso/ como um rei verdadeiro./ Aqui trago este cordeiro, / de um ano e muito formoso,/ meu dom João derradeiro.”
Três meses depois, pai e mãe, com os parentes mais chegados, comeram o cordeiro na despedida da aldeia. Como uma celebração da Páscoa.




