Poema algures

Há um poema. Um certo poema. Julgo-o feito a partir de memórias sedimentadas nas mais pequenas gavetas do teu coração. Assim como um guarda-jóias invisível, um estojo antigo, passado de mão em mão, na mesma família, por sucessivas gerações de mulheres.

Há um poema. Um poema algures onde deixaste o pó das brincadeira da infância, os jogos, as cantigas, as lengalengas. Tudo aquilo que poderia sugerir um mundo organizado entre os sonhos e os seus resultados. Um mundo onde a ternura era uma janela a fechar o vento mais frio do Inverno desse tempo.

Há um poema. Procuro-o nos teus gestos hoje mais comedidos e reservados, na tua voz onde se insinua a força das pausas, a grande nuvem cinzenta do tempo de hoje onde a tristeza fez a sua sementeira multiplicada.

Há um poema. Deve haver mesmo esse poema num lugar que só tu sabes. Pode não ser ainda poema, pode não ter ainda forma mas eu pressinto que ele existe, funciona, respira, articula-se entre as palavra e os sentimentos, sobe das águas mais escuras e lodosas para uma superfície onde a limpidez dita a sua regra.

Há um poema. Persigo-o ansioso todos os dias apenas guiado pela intuição e pelo instinto de julgar o teu rosto o rosto desse poema, sua origem e seu destino, sua força e sua razão de ser.

Há um poema. Eu sei. Hei-de escrevê-lo a partir da límpida pontuação do teu olhar. Amanhã. Ou num amanhã futuro. No dia da tua total revelação. No lugar onde, a partir dos teus olhos, seja possível instalar uma harmonia igual às brincadeiras da infância quando o mundo estava organizado entre os sonhos e os seus resultados.

6 thoughts on “Poema algures”

  1. A malta na blogocoisa gosta mesmo é da brejeirice.

    Só assim posso encontrar uma justificação para o post da susana ali em cima ter cento e tal comentários e esta pérola apenas um.
    Neste caso, dois.

  2. Acrescento:

    Não que eu tenha nada contra a susana- pessoa que muito aprecio- ou, sequer, contra a brejereice.

    (este acrescento deve-se a ter-me lembrado, depois de deixar o post, que o mesmo era capaz de dar azo à outra coisa de que malta na blogocoisa gosta muito: juizos de intenção com peixeirada logo a seguir…)

  3. Este Mar tem toda a razão. Eu também gostei muito do poema em prosa, mas tenho vindo pouco a este lugar de encontros (por vezes de desencontros), devido a algum trabalhinho acumulado. O José do Carmo, que sempre conheci a escrever muito bem, está cada vez mais apurado. E, com a sensibilidade à flor da alma, como que faz o milagre da música com as palavras.

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