Cavaleiros inexistentes

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Morreu Alain Robbe-Grillet. Oitenta e seis anos. Eu sabia-o velho, mas não tanto. Parei com ele no tempo, com La Jalousie, com Les Gommes, com La Maison de Rendez-vous. No primeiro, faltava o protagonista. No segundo, o clímax da história tinha sido ‘apagado’ (mas sentia-se que ele tinha acontecido). No terceiro, faltava o próprio lugar de acção (que seria Hong-Kong, não fosse o autor ignorar totalmente como é Hong-Kong, nem isso lhe interessar minimamente).

Tudo ausências, que o magnífico mestre geria com um virtuosismo que nos fascinava. Ele criava-nos dentro cavaleiros inexistentes, como nos chamou Italo Calvino, outro virtuoso pós-modernista.

Um e outro tentaram convencer-nos de que a ‘ausência’, a página em branco, era uma essência do ‘homem moderno’. E a gente acreditava. Não via, mas acreditava. E era por essa demissão da atitude crítica que, afinal, lhes dávamos razão. Inexistentes. Mesmo quando cavaleiros.

7 thoughts on “Cavaleiros inexistentes”

  1. Susana,

    O Cavaleiro Inexistente existe… em português.

    Saiu na Teorema. Olha aqui.‏

    O resto da trilogia (chamada, se não me engano, «Os Nossos Antepassados») talvez também.

    Mas tenho de ir a correr. Os meus alunos de «Problemática das Línguas Regionais Europeias» clamam por mim em altos (mas ainda discretos) brados.

  2. não, não, essa eu conheço. falava dos outros, do robbe-grillet, que presumi por traduzir pela tua utilização dos títulos no original.

    quanto à trilogia, creio que nessa colecção não chegou a sair o visconde cortado ao meio, só o cavaleiro e o barão trepador.

  3. Susana,

    Suponho que bastante de Robbe-Grillet esteja traduzido, em Portugal ou no Brasil. Verdade é, também, que a malta que consome romances tão ‘árduos’ (falo sobretudo de La Jalousie e Les Gommes) lê-os de preferência logo em francês.

    Eu estudei-os para uma cadeira de literatura francesa. Só atentei no original, portanto.

  4. o meu francês não deve chegar para tanto. leio bastante em francês, mas sobretudo obras de interesse académico. literatura é diferente. o mais árduo a que cheguei foi le rouge et le noir, de stendhal, e sei que perdi algo pelo meio. (também ganhei, bem entendido. o ideal seria ter lido outra vez traduzido, para completar…)

  5. Le Rouge et Le Noir… Stendhal inspirou-se – gramem o verbo – num fait divers: um jovem que entra numa igreja e dispara contra a sua amante. A partir daí, imaginou tudo o que poderia estar por trás.

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