Dar os Buns Anos

(Notas prévias: buns anos – bons anos; dar os buns anos – desejar feliz Ano Novo; pedir os buns anos – pedir uma bebida, ou uma moeda, no caso de crianças, para que quem oferece tenha um ano feliz; Jedé – José; ma que, ou cma que – parece que. Só transcrevo a pronúncia dos casos mais interessantes, para a leitura não cansar.)
* * *
Pois entanse vou-lhe contar daquela vez que o Jedé Cordeiro e o Jedé Carvalho foram dar os buns anos ao ti Mané Jaquetinha. Aquilo eram dois lepras levados da breca, uns pelacias do corisco, o senhor conhece-los bem, e dê-lhe na ideia irem dar os buns ao ti Mané Jaquetinha já fora do prazo, que já se tava quase pelos Reises, ou não sei mesmo se já tinha passado o dia de Reises. O ti Mané Jaquetinha morava naquela casa muito pequenina, o senhor também conheceu bem, que a gente entrava – a gente entrava é um supor, que eu nunca entrei na casa dele – mas que a gente entrava e ficava logo dentro da casa toda, que a casa era toda ao pé da porta, que tinha uma biraca grande em baixo, cma que fosse roída dos ratos, que dava para entrar um temporal inteiro por ali adentro, e o chão era de terra, já se sabe, e o ti Mané Jaquetinha dromia numa caminha de ferro ao lado da porta.
Segue-se entanse que eles foram lá, o ti Jaquetinha deitava-se cedo, já tava acomodado, e o Jedé Carvalho bateu à porta e ele perguntou com maus modos, era aquele feitio sempre zangado, mas não era para menos naquela hora, perguntou “que é que tu queres?” e o Jedé Carvalho respondeu “a gente vem dar os buns anos”, e o ti Jaquetinha disse “deixa aí que amanhã pego”. E vai o Jedé Carvalho, que ma que tinha a tripa rota, abate as calças, amoujou-se de cocras e, meu rico senhor, pranta-lhe ali um presente de louvar a Deus. Já se sabe que essas cousas é difícil de fazer sem fazer barulho, o ti Jaquetinha ouviu aquele disparate, levanta-se em ciroulas e tudo, traca duma navalha e vem para a enfiar no Jedé Carvalho, que se lo apilha rasga-lhe o buxo até à espinha. O Jedé Cordeiro botou-se logo a correr pela rua abaixo, desapareceu num zápete e escondeu-se no Arrebentão, mas o Jedé Carvalho puxou as calças só até aos joelhos, que não teve tempo pra mais, nem podia ponhá-las mais pra riba, no trestalho em que tava, já se sabe, e botou-se a correr pela rua abaixo, mas com os dois pés à uma, aos saltos como se tivsse piado, e tava, mas gritou prò ti Jaquetinha: “Ó ti Mané, que pressa é essa? O senhor disse que vinha buscar amanhã e já vem buscar hoje?”

6 thoughts on “Dar os Buns Anos”

  1. Mas que engraçado e pitoresco e tão mesmo popular na linguagem e nessa alma do povo incomparável.Ainda continuo a rir desta anedota Acho que vou ver se fixo os meandros da linguagem para a contar em geito artístico e´com o humor que exige.
    Não sei se recebeste o meu comentário, pois o mail veio devolvido.
    Obrigada pelo sol que escreveste que me vai fazer adormecer com sorrisos.
    Eu tenho mesmo de fixar esta história. Ou é estória, senhor professor?

  2. Querida amiga
    Eu sou um empedernido “tradicionalista” da Língua. A palavra “estória” apareceu pela primeira vez a meados do século XX num livro de contos de um escritor brasileiro de que não lembro o nome. Levou tempo a pegar, mas acabou por ser muito usada lá. Depois, deu-se o inevitável: saltou o oceano. Tem analogia com o “story” inglês, mas creio que não necessitamos dela para a distinguir da História. Se assim não fosse, teríamos de inventar uma palavra nova, ou várias, por cada homónimo dos muitos que há em Português. Percebe-se perfeitamente a que me refiro quando digo: “Em criança, eu lia muitos livros de aventuras” ou “Jacob casou-se com Lia e, uma semana mais tarde, com Raquel também”.

  3. Caríssimo Daniel:
    Um verdadeiramente “empedernido ‘tradicionalista'” da língua (nunca eu!) dir-te-ia que escreves demasiados regionalismos. Mas enfim.
    Antes de mais, já te disse em privado que me deliciei com esta gostosa estória. Desculpa, história.
    Quanto ao escritor brasileiro que usou o termo’estória’, não foi um qualquer. Foi nada menos que Guimarães Rosa. Depois dele, Luandino Vieira, num livro de contos angolanos, não me recordo se ainda nos anos 60. A seguir Mia Couto, no seu “Estórias Abensonhadas”. Pelo menos esses usaram o termo.
    Influenciado pelo inglês, admito, usei-o também na introdução ao meu “(Sapa)teia Americana” (1983) para classificar os contos. Não creio que nessa altura soubesse do uso de Guimarães Rosa, nem de Luandino (o Mia veio depois). Fi-lo porque a palavra ‘conto’ tem um sentido específico em português e ‘história’ também (este aliás tem dois). Achei que a distinção inglesa entre ‘history’ e ‘story’ fazia algum sentido. Em vez de usar a palavra ‘história’ em dois sentidos, prefiro que um fique para história propriamente dita e o outro para uma história (não necessariamente ‘conto’) em que o contador tem toda a liberdade de mandar os factos às malvas. É só isso. Não se trata de adoptar um termo desnecessariamente.
    E, já agora, num lançamento do meu recente “Aventuras de um Nabogador”, que subintitulei de “Estórias-em-sanduíche”, o Prof. Arnaldo Saraiva veio dizer que o termo era usado no português do século XVI. Se calhar com essa protecção histórica eu fico perante ti um pouco mais tradicionalista.
    Deixando-me de classificações, peço-te que continues a escrever histórias como tu eximiamente sabes fazer.
    O velho abraço do amigo e admirador que há muitas décadas sabe que contigo se pode sempre discordar, algo que entre nós até raramente acontece.
    onésimo

  4. Lia, não me compete responder pelo Onésimo, mas, quando não souberes alguma coisa que não se encontre nem nas enciclopédias nem na quase omnisciente Internet, o Onésimo sabe. E eu posso servir de intermediário. É das pessoas mais cultas que conheço.
    Onésimo, obrigado por me teres lembrado que era o Guimarães Rosa. Como eu não tinha a certeza, não quis arriscar. E, já agora, para ficar completa a informação, o livro em que usou a palavra pela primeira vez foi “Primeiras estórias, de 1962.
    Dos outros sabia e, de ti, claro, nabo como navegador talvez, mas perito em contar “casos”, é óbvio que sim.
    Um abraço a uma e outro.

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