Sobre as justiças deste mundo

A minha maneira de comemorar o quarto centenário do padre António Vieira é escrever uns textos que toscamente se pareçam com os seus. Esta é uma carta que escrevi ao jornalista Fernando Madail, do DN.
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Conta o grande poeta Luís Vaz de Camões aquele conhecido caso dos doze cavaleiros que foram a Inglaterra defender a honra e a fama de outras tantas donzelas difamadas. Vede, senhor, que torpe e vil era a justiça desse tempo, que não se a fazia ou declarava pelo conhecimento da verdade, senão pela bravura de cavaleiros a quem seu braço e sua lança obedecessem à vontade deles. Assim que temos num momento as doze damas de honra duvidosa perante os olhos de muitos que as viam, e logo as sabemos livres de afrontas e de aleivosias, porque mais fortes foram os nossos que os ingleses inimigos delas. Mas, não houvesse Deus dado ao Magriço e seus companheiros engenho para vencerem os orgulhosos normandos, e, sendo o estado das donzelas o mesmo que sempre fora, haveriam ficado todas por perdidas e desonradas.
Hoje, direis, é mais justa a justiça, que se a faz com inquirições e com devassas, com testemunhas e com advogados, com juízes e com a razão. Pois eu vos aviso: bem mal cuidais. Tenha muita prata e muito oiro o homem justamente acusado ou que injustamente acusa, e há-de comprar, não um cavaleiro de braço que não ceda e lança que não rompa, senão um advogado de tão pouca vergonha quão solta lhe seja a língua, e que saiba os nomes de todos os escrivães, e que se faça de amizades com todos os meirinhos, e que contrate muito bem com todos os juízes.
“Quid est veritas?” perguntou Pilatos a Jesus. E, sem que esperasse resposta do Divino Mestre, se dirigiu aos judeus e proclamou: “Ego nullam invenio in eo causam.” – “Eu não encontro nele culpa alguma.”
Vede, senhor, como Pilatos, que não sabia o que era a verdade, foi ele mesmo verdadeiro, que esta é uma das espécies da verdade, que é dizer a boca o que a mente pensa. E, ainda que alguém não pense uma verdade tão certa como a de Pilatos, não mentirá se disser somente aquilo que cuida ser verdadeiro. À verdade se referiu o sábio e santo Tomás de Aquino da maneira que bem sabeis: “Veritas est adequatio intellectus et rei.” Cuidais, pois, que esta verdade, em que aquilo que sabe a inteligência é aquilo que é, a encontrareis nos tribunais? Desenganai-vos, senhor, pois sempre há-de haver dois homens capazes de jurar falso, bocas que não dizem o que os olhos viram ou a mente sabe, ou um juiz disposto a negar o seu mesmo pensamento se tal convier à sentença que a quem vos quer mal convém.

2 thoughts on “Sobre as justiças deste mundo”

  1. Mas este texto é fabuloso! É do melhor que tenho lido. De verdade. E que erudição e que pequenina que me sinto!
    Este é dos tais documentos que os alunos têm que conhecer, já que os “mercenários” da justiça não iriam gostar de se ver ao espelho.E também nem sei se comprenderiam…

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