Cineterapia

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Mondovino_Jonathan Nossiter

Ao contrário do que se ouve dizer em todo o lado, a realidade é simples e viver é fácil. 200.000 anos de evolução criaram dois grupos de seres humanos: os Homo sapiens sapiens, que são uns tontinhos e nada de meritório têm para mostrar em seu abono; e os Homo sapiens sapiens bem mais sapiens do que os outros sapiens sapiens, os quais apresentam como marca antropologicamente distintiva o facto de já terem visto o documentário Mondovino. É a este segundo grupo que me dirijo, o único com as mutações neuronais adequadas ao pensamento superior, e para lhes dizer: ide comprar 3 DVD’s da obra. Guardem um e ofereçam os restantes. A opção de comprar mais de 3 é legítima, e até bem-vista, mas em caso algum se pode comprar menos. Porque seria dilacerante ficar só com um para oferecer. É maldade que não se deseja a ninguém, ter de revelar segredos do coração na exclusividade da escolha. Comprar um único exemplar seria uma vergonha, equivalendo à assunção da misantropia. E nem um comprar é ignóbil crime. Isto é simples de entender e fácil de fazer.

Jonathan Nossiter luta contra a globalização porque é um cosmopolita. Nasceu nos EUA, filho de um jornalista reputado e especialista em economia, e cresceu em França, Inglaterra, Itália, Grécia e Índia. Estava quase educado, mas ainda lhe faltava um dos mais universalistas pilares da sabedoria, a portugalidade. Alcançou-o quando conheceu Paula Prandini, uma brasileira linda com quem casou e vive no Brasil. Pelo meio, estudou pintura, grego clássico, teatro e vinho. E descobriu que queria fazer cinema, para nossa sorte. Olhe-se para as suas recomendações cinéfilas (no final da página); impossível não ser amigo do homem, mesmo que nunca venhamos a falar com ele. Beleza, vinho e cinema — eis um destino de fazer inveja no Olimpo.

Há 135 razões principais para se ver Mondovino, aparecendo elas aos nossos olhos e ouvidos à cadência de uma por minuto. Destaco as seguintes: conhecer Battista Columbu, um velho adorável e sábio; conhecer Aimé Guibert, um velho teso e sábio; conhecer Hubert de Montille, um velho livre e sábio; descobrir que havia judeus portugueses produtores de vinho em Bordéus antes de 39; constatar que o fascismo italiano é igual ao português e que ambos estão de saúde; reparar que o momento mais interessante da entrevista a Robert Parker é quando um dos seus cães se peida, facto que os presentes celebram com genuino entusiasmo; surpreendermo-nos com o começo de uma das mais esquecidas canções de Amália, Trepa no Coqueiro.

Embriagai-vos, como recomendou um bêbado.

15 thoughts on “Cineterapia”

  1. diriges-te então ao grupo dos que já viram o filme para os instar a comprarem o dvd?! os outros que continuem sapiens sapiens como sempre foram? o que é isto? eugenia em movimento???

  2. Continuo eu aqui Valupi, com meu grandioso clubinho que me deste, honrada e orgulhosa de seus comentários. A sutileza me encanta, atitude dez. Me faz lembrar meu avô, não que você tenha esses anos, mas a forma de pensar e colocar as coisas, é divino. Fora as deliciosas malícias, que de certo modo atingem os Homo sapiens sapiens, porém não acredito nesta história, somos feitos de Adão e Eva, mas também não quero abrir outro ringue pois a pancadaria é forte. Cada um tem suas idéias, ainda bem que isso acontece, senão a igualdade seria o fim da humanidade.

  3. susana, trata-se apenas de separar o trigo do joio. Cultura, pois.
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    Karin, sem medo, e em homenagem ao teu avô: que é isso de sermos feitos de Adão e Eva?

    Quero muito saber.

  4. Valupi, homo sapiens sapiens bem mais sábio que os outros sapiens sapiens
    Se é certo que in vino veritas, eu me encarrego de tomar umas quantas doses de verdade e sabedoria, na maior parte das vezes vindas do calor alentejano, que outro não há para criar homens e mulheres extraordinários e vinho que alegra o coração mais que nenhum outro, Rioja incluída.
    Eu, só sapiens, e se calhar uma vez apenas, estou como a Susana. Puríssimo na minha ignorância de outras sabedorias. E, se não sabes ao que a Karin se refere, ou não viste o filme do Jonatan Nossiter ou não eras tão sapiens antes como pensavas. A ciência já provou que todos tivemos origem num par de bípedes a que a Bíblia, sem saber quem eles foram, deu o nome de Homem e Terra, mais ou menos, e em tradução livre do hebraico antigo. Se não percebeste ainda, vê outra vez o Mondovino ou bebe um par de copos de um que tenha pelo menos 14 graus.

  5. gostei muito de uma declaração de amor que vi na busca em paula prandini:

    «UMA DECLARAÇÃO DE AMOR
    Foi na minha festa de aniversário de 2003, em Paris, que conheci o Jonathan. Ele era cineasta, americano, tinha 42 anos e ganhou meu coração no dia em que cozinhou para mim. Hoje estamos morando no Rio de Janeiro, com Chet, meu golden retriever, e as gêmeas que nasceram em abril. No dia que eu estava escrevendo este texto, quando o Jonathan voltou do passeio matinal com o Chet, ele disse: “Paula, estava pensando, quando saí com o Chet e catei o cocô dele, que passei a noite limpando o cocô das meninas. Quanto cocô você trouxe para a minha vida! Mas eu queria te agradecer, pois passei a vida cuidando apenas de mim mesmo, e, aos 43 anos, descobri que esses são gestos de puro amor: cuidar do outro. Limpar o cocô delas e do Chet me deixa muito feliz!”.

    homem e terra, amor e estrume, faz todo o sentido.

  6. Susana,

    Tem piada teres vindo com uma declaração de amor que começa com “ganhou meu coração no dia que cozinhou para mim”… É que ainda agora, no post lá de cima, e para se inspirar em desespero de causa, estive para recomendar à Isabel o “Coração, Cabeça e Estômago” do Camilo…

  7. Daniel, deixas-me bons conselhos vinícolas, embora eu prefira Douro. Se puderes, fala-nos mais desse par de bípedes. Estou muito curioso.
    __

    susana, essa tem de ser a mais realista e rigorosa declaração de amor: “Quanto cocô você trouxe para a minha vida!”

  8. Valupi,

    Já leu o livro ” O Segredo “? se não, não leias, pois irá acreditar que somos feitos de íons positivos e negativos, que a força do Universo comanda o mundo. Não!
    E também não acredito que viemos dos macaquinhos. Por que existem os japoneses então? já viu macaco mestiço? Não me diga que seja miscigenação, a diferença é muito grande entre eles, percebe-se também que os mesmos possuem o polegar diferente dos nossos. O cérebro humano é avançado.
    Essa discussão leva tempo, pensamentos positivos sim atraem coisas positivas.
    Eu já tive várias comprovações que um ser especial existe, Deus. Não há religiões certas, só mesmo você e Ele. Sou grata por tudo, sempre. Isso faz com que as coisas dêem certo, fluam corretamente.
    Acredite, tudo se pode.
    deixa eu pegar meu escudo agora…

  9. Karin, muito obrigado pela resposta. Eu creio estar do teu lado, e vou recorrer a Agostinho da Silva (um grande brasileiro!) para me ajudar. Dizia ele, quando lhe perguntavam se acreditava em Deus, que acreditava na criação. E acrescentava, com malícia, “E se há criação, então há um criador…”

    Simples e ardiloso, como em tudo o que seja sapiencial.

  10. Fé! Este é o segredo.

    Pois é, nunca viste então o criador, ele está do seu lado, sempre.

    Faz um teste pelo menos, e verá que dá certo. Pense, se decidir me fale, te dou as dicas.

  11. teresa, tem lógica: está tudo ligado…

    valupi, primeiro tresli «religiosa declaração de amor» e até ficava bem. a escatologia é parte da intimidade, logo não pode ser descurada no amor. ali, ainda, o circunflexo só lhe dá mais charme.

  12. Karin, agradeço a tua disponibilidade. Mas eu não tenho a menor dúvida de que o criador, ou a criatividade, está no meio de nós.
    __

    Zeca, parece uma excelente sugestão. Nunca vi, mas com o que li já sei que irei gostar.

  13. Fato ocorrido em 1892 (verdadeiro e integrante de biografia):

    Um senhor de 70 anos viajava de trem
    tendo ao seu lado um jovem universitário,
    que lia o seu livro de ciências.
    O senhor,
    por sua vez,
    lia um livro de capa preta.
    Foi quando o jovem percebeu que se tratava da Bíblia e estava aberta no livro de Marcos.
    Sem muita cerimônia o jovem interrompeu a leitura do velho e perguntou:
    – O senhor ainda acredita neste livro cheio de fábulas e crendices?
    – Sim, mas não é um livro de crendices.
    É a Palavra de Deus.
    Estou errado?
    – Mas é claro que está!
    Creio que o senhor deveria estudar a História Universal.
    Veria que a Revolução Francesa,
    ocorrida há mais de 100 anos,
    mostrou a miopia da religião.
    Somente pessoas sem cultura ainda crêem que Deus tenha criado o mundo em seis dias.
    O senhor deveria conhecer um pouco mais sobre o que os nossos cientistas pensam e dizem sobre tudo isso.
    – É mesmo?
    E o que pensam e dizem os nossos cientistas sobre a Bíblia?
    – Bem, respondeu o universitário,
    como vou descer na próxima estação,
    falta-me tempo agora,
    mas deixe o seu cartão que eu lhe enviarei o material pelo correio com a máxima urgência.
    O velho então,
    cuidadosamente,
    abriu o bolso interno do paletó e deu o seu cartão ao universitário.
    Quando o jovem leu o que estava escrito,
    saiu cabisbaixo sentindo-se pior que uma ameba.

    No cartão estava escrito:
    Professor Doutor Louis Pasteur,
    Diretor Geral do Instituto de Pesquisas
    Científicas da Universidade Nacional da França.
    “Um pouco de ciência nos afasta de Deus.
    Muito, nos aproxima.”
    Louis Pasteur

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