Carta a Marina por causa do galego – 2

Cara Marina,

Falando-lhe do galego, tenho de falar-lhe também, e muito, do castelhano. Não é por acaso. O castelhano, não obstante ser idioma mais jovem que o nosso (e, para ser sincero, um tanto mais abrutalhado também, se comparado com o refinamento do galego e do português), o castelhano, dizia eu, cedo ganhou grande prestígio por cá. De tal modo que encantou, e deslumbrou, a quantos em Portugal escreviam e liam.

Estamos aí por 1450. Inicia-se então – já lho contei – uma vasta castelhanização do português. Nos dois séculos e meio seguintes, os nossos escritores apoderaram-se de milhares, sim, fartos milhares, de palavras que a Meseta tinha formado de raiz, ou aproveitado do grande tesouro que era o latim. Eles liam muito em castelhano, os nossos escritores. Narrativas, poesia, tratados. Usavam dicionários latim-castelhano, que eram, para a época, os melhores no mercado. Mais importante ainda: eles mesmos escreviam em castelhano. Centenas o faziam. Muito das suas narrativas, da sua poesia, dos seus tratados, saía-lhes na língua vizinha. Porque sim. Porque o castelhano era prestigioso, e era rico em novas noções, e era lido na Europa e mais Mundo. Até as grandezas de Portugal eles cantavam em castelhano, como hoje a gente, para divulgá-las, faz, se somos espertos, em inglês.

Ora, quando depois escreviam em português, esses escritores aproveitavam – e faziam eles muito bem – todos esses novos materiais castelhanos, toda essa frescura neolatina, toda essa vigorosa expressividade. O mesmo faziam, entretanto, os dramaturgos. O povo queria teatro, e teatro em castelhano. Conhecemos centenas de peças de autores portugueses, para o público português, escritas em… adivinhe que língua. Compreende-se. As melhores companhias de teatro de Castela faziam constantemente tournées em Portugal. E os nossos não queriam ficar atrás.

Depois, havia a corte. Dos reis. Sobretudo das rainhas. Durante séculos, foi comum termos rainhas espanholas. Uma delas, Catarina de Áustria, aguentou por cá 53 anos. E nunca disse uma palavra, nunca escreveu uma linha, que não fosse em castelhano. Já está a ver.

*

Tudo isto levou a que, por 1700, o português estivesse irreconhecível. Para dizer melhor: o galego tinha-se, em Portugal, profundamente castelhanizado. Ou dito ainda de outra maneira: o galego tinha-se, em Portugal, modernizado em castelhano.

Simplesmente, a modernização foi só um lado, o positivo, é certo, da questão. Porque, ao mesmo tempo que absorvíamos as belas criações da Meseta, íamos pondo de lado muitas das formas antigas. E essas formas eram exactamente as rescendentes, harmoniosas e oh tão genuinamente nossas, formas galegas. O processo de renovação tinha sido, portanto, acompanhado por outro, e esse negativo: o duma substituição linguística. Esses dois processos iriam, séculos depois, passar-se com o galego.

(Eu conto estas coisas para si, mas não excluo que, por cima do meu ombro, esteja um ou outro português a ler isto. Daí que, por vezes, tenha de explicitar coisas que você estará fartinha de saber).

A castelhanização do galego não se deu, como em Portugal, através dos escritores e das rainhas (que, aliás, traziam sempre um séquito considerável, às vezes com consequências fatais, como foi o caso da bela dama de companhia Inês de Castro, de resto uma galega, que pôs a cabeça à roda a um príncipe-herdeiro, e por isso foi morta). Não, a castelhanização do galego deu-se por outra via: a da escolarização. Quando aprenderam a ler e a escrever, no século XIX, os galegos fizeram-no em espanhol.

Até então, e mesmo até bem entrado o século XX, na Galiza falava-se simplesmente galego. É certo que o médico, e o notário, e o padre (sobretudo o padre), mais um ou outro senhorito, falavam espanhol. Mas o galego era, com naturalidade, a língua de toda a população. Aos poucos, e sobretudo nas grandes cidades, tornou-se corrente a língua do Estado. Os pais (sempre os amorosos pais) convenceram-se de que um futuro melhor para os filhos, só o espanhol lho garantia. E assim, em número crescente, puseram-se a educar em espanhol os rechonchudos pimpolhos.

Hoje, a habitual expressão de muitos galegos anda cheia de castelhanismos. É, vendo bem, uma situação muito comparável à dos portugueses de, digamos, 1700. Mas há duas diferenças essenciais.

A reconfiguração castelhana do português afectou sobretudo os níveis cultos da língua. A do galego, essa, atinge esses níveis cultos, mais os da vida diária. (Para mim, toda a língua é «culta», mas você entende o que quero dizer). Em contrapartida, o português esqueceu (talvez para sempre) todo um vocabulário que partilhava com o galego, enquanto a Galiza conserva viva, dele, uma boa parte. Há, mesmo, um lado da questão que justifica a esperança. Ao existir hoje uma maior consciência destes processos, é possível, além de desejável, que, por esse lado, as coisas não cheguem, aí, ao que chegaram por cá.

Eu sei, Marina, que alguns galegos lhe contarão esta história em versão catastrófica. São os agoirentos profissionais. O desastre entusiasma-os, dá-lhes pica. Não lhes dê você ouvidos.

Amanhã, ou depois, vou explicar-lhe porquê.

24 thoughts on “Carta a Marina por causa do galego – 2”

  1. Fernando, estas cartas a Marina já cheiram a livro. Um que se tornasse leitura obrigatória na Escola, a começar pelos professores, coitados, que são os mais carentes de boas leituras.

  2. Sei bem, Fernando, mas a ideia de uma genealogia das línguas ibéricas ser servida com a elegância e fluidez destas epístolas, é boa demais para não ser, no mínimo, assinalada.

  3. Fernando, mas que sublimes harpejos! Empolgantes. Sinceramente, nunca li nada acerca de línguas que fosse tão esplendidamente literário.
    Lê-se como um romance ou como um poema.
    Um dos momentos mais altos deste Aspirina, sem dúvida.

  4. Valupi e Daniel,

    Vocês estragam-me. («Estragar» é um de dezenas de verbos – muitos, correntíssimos – que só galego e português possuem. Falarei deles, uma outra vez.)

    Não, nunca ninguém fez a história conjunta destas línguas, as mais próximas entre si de toda a romanidade. Nem eu o farei, não é trabalho dum homem só. Mas estudo as suas relações de intimidade, em muito pormenor (isto aqui são umas tiradas a correr), e será esse o objecto do tal livro.

  5. Fernando, duas notas, a primeira a teu favor, a segunda não tanto.
    1) O incorruptível não se estraga.
    2) O verbo “estragar” existe em Castelhano, e pode ser usado no mesmo sentido que o usaste, embora menos corrente do que entre nós.

  6. Daniel,

    1) Assim parece.
    2) Tens toda a razão. Exprimi-me com excessiva absolutidade. A questão está (e está muitas vezes, tu próprio o lembras) na frequência de uso dum termo. «Estragar» – o nosso único termo corrente – é de uso raro em espanhol. Com todos os cuidados a ter (conta-se, no caso, só o infinito verbal), a informação do Google é clara: para estropear 914.000 utilizações, para estragar 25.900.

    Desculpa a nota biográfica: teria eu uns dezassete aninhos, e falava eu com espanhóis no meu incipiente espanhol, pronunciei (como nós fazemos, no nosso termo ‘selecto’) «estropiar». Gargalhada geral. Estes traumas vêm de longe…

    Para repor alguma justiça: tanto estropear como estropiar vêm do italiano estropiare. Repara no «i»…

  7. e mentalidade parola e deslumbrada, pelos vistos, já caracterizava o portugal do sec. XV. confronte-se com o exemplo britânico e respectivo orgulho nacional. no séc. anterior, em inglaterra, escrevia-se em latim e a classe “elevada” falava francês. o inglês era uma língua pobre, e dos pobres. uma onda de patriotismo decretou o uso do inglês como idioma oficial, desenvolveu-se uma língua. com chaucer, no séc XIV, esta foi enriquecida a partir da criação de vocábulos de origem estrangeira, mas também da passagem à escrita de palavras que apenas existiam na oralidade, incluindo os diferentes vernáculos coexistentes. criou uma literatura e uma poesia em língua inglesa e uma sátira de costumes precursora do teatro. depois disso nós, que já tínhamos uma língua, abdicámos dela, contas tu. a genética explicará a falta de auto-estima?

  8. Fernando
    Dá gosto conversar com gente inteligente e culta. Facilmente nos fazemos entender. Mas, como sabes, nós temos tendência para o “iar” e os castelhanos para “ear”. Não me ocorre nenhum palavra em castelhano acabada em “iar”.
    Susana
    Há de facto um salto muito rápido do português medieval para o renascentista. Mas, ainda assim, pode seguir-se facilmente o percurso de qualquer “soydade”. Além disso, como bem lembrou o FV, a mistura culta das duas línguas meteu-nos numa barca que eu penso que é mais do Céu que do Inferno, pois é, sem dúvida, uma das mais “plásticas” do Mundo. Quanto aos ingleses, não esqueças que primeiro foram normandos, e que o próprio Ricardo compunha em provençal e francês. E que magnífico que é o provençal! Mas não abdicaram de “Dieu et mon droit”.

  9. Fernando
    Venía yo a penitenciarme por la tontería que no hago ni idea de cómo se me ha ocurrido, para cambiar totalmente el sentido de mi estúpida sentencia, y veo que ya estaba sentenciado. Muy bien, dígase de paso. Al momento mismo en que cerrara la caja de diálogos, se me han venido a la mente montones de verbos que terminan en “iar”. Indisculpable. Imperdonable. Los hay en Castellano al igual que en Portugués.
    Se aceptan todos los reproches, porque son de justicia. Puedes ajusticiarme, que lo merezco.

  10. Já passei lá bem perto por duas vezes. Uma com neve e outra ao “natural”. Até se via o cascalho. Mas de avião. É uma ilha-montanha fantástica.
    Que acordes bem disposto. Tão moderada sentença merece-o.

  11. Fernando
    Bela praga me rogaste. Tinha eu já imaginado a história da minha subida em sonho ao Pico, que haveria de estar deslumbrante com a sua calote de neve a partir aí dos 1800 metros, e não é que fui parar a Santa Maria? Foi o pior castigo que me poderia ter sido dado, não porque eu não goste de Santa Maria, que aliás é a minha ilha muito amada que pôs em mim toda a sua complacência, mas o que por lá passei é que foi terrível. Primeiro, ninguém me reconheceu, nem encontrei um único amigo ou amiga de infância. Andei por ali perdido, tinha-me esquecido do dinheiro e estava cheio de fome. Esquecera também a chave da casa, e, quando dei por isso, foi outra aflição, que piorou quando me lembrei de que já nem aquilo que foi a nossa casa existe, pois não passa agora de um monte de pedras. Não sei como, descobri sete dólares na algibeira. E a primeira coisa que comprei (eu que nem sequer sou leitor frequente desse jornal) foi o “Record”, nas Pedras de S. Pedro ou em Santo Antão, já não me lembro bem. Acabei por entrar numa estranha tasca, onde pedi uma sanduíche, calculando que o dinheiro bastasse. O homem pagou-se do jornal também, pensando que mo vendera. Mostrei-lhe como o papel estava gasto das minhas mãos, e ele facilmente se convenceu. Depois verificou que era uma edição argentina, vê lá, e eu disse que não, que era uruguaia. Fui passando por sítios diversos, todos muito mudados. Num deles, apanhei um bicharoco qualquer que me pôs toda a pele com espigos que esfregando caíam. Encontrei minha mulher com umas complicações tão complicadas a resolver que nem digo. Fui a casa de um amigo, rapaz muito sério, o “factotum” do emissor do Asas, e ele transformara a sua casa num lupanar, seja Deus bendito! Por causa da minha fome, minha irmã (que apareceu não sei como) telefonou a um restaurante que ficava em Cascos de Rolha a pedir almoço, porque era o único para fumadores que havia na ilha.
    E houve mais drama, mas basta esta amostra para veres ao que me condenaste. O que vale é que, às tantas, cansado deste sonho aflitivo, resolvi acabar com ele (a sério) fazendo-me acordar.

  12. Daniel,

    Finalmente, sei mais alguma coisa sobre Santa Maria do que haver por lá um aeroporto catita. Nunca lá estive (a outra ilha dos Açores que me «falta» é a Graciosa) e teria graça ir conhecer um sítio aonde, aprendiz de feiticeiro, mandei alguém, mesmo sendo o Pico o lugar visado.

    Seja dito que também guardo uma visão aérea do grande vulcão, que, até visto de cima, guarda imponência.

    E calo-me, antes que as saudades desse paraíso nove vezes disperso me distraiam do comedido paraíso real.

  13. Fernando
    Pois então se queres saber mais sobre Santa Maria, não me faltam aqui coisas que escrevi acerca dela. Se julgas que tem interesse, e para o Renato tirar mais umas fotografias, porei algumas à disposição de quem quiser.

  14. âncio,

    Quando fores a Santa Maria procura A casa que o Daniel não encontrou no sonho. Eu ajudo-te:
    Chamávamos-lhe casa.

    Era feita de buracos, pedras negras e telhas.

    O vento e a chuva vigilavam o nosso sono,

    mais um Menino Jesus nuzinho,

    só com um retalho

    de fita dourada ao pescoço

    como faixa de campeão.

    Meu Pai pusera-o de guarda

    debaixo de uma trave que desistira

    de segurar o tecto.

    Partira-se de velha e de cansaço.

    “Ele que a aguente se não quiser levar com ela na cabeça”,

    disse meu Pai, passando procuração

    sem notário nem papel selado.

    O Menino Jesus nunca levou

    com a trave na cabeça.

    Nem nenhum de nós.

    Talvez porque Ele fosse nosso irmão.

  15. Muito interessante, sem dúvida.

    Mas causa-me alguma perplexidade como é que uma mera apropriação de vocábulos estrangeiros por parte de uma reduzidíssima “élite”, política e cultural, em Portugal, redunda numa aparente reinvenção total da língua, ao passo que o seu ensino generalizado nos bancos da primária, na Galiza, tem como resultado o conservar “viva, de uma boa parte” da língua matricial. Problema das minhas lentes de contacto?

    Susana, não desanime assim dos nossos genes: que história é essa de o Inglês e tal e coisa, sabendo-se que o Inglês é, precisamente, uma das línguas mais mestiças que se conhecem em toda a Europa (originada no longínquo Baixo Alemão e aparentada ao Neerlandês, mas extremamente acrescentada e “deformada” pelo Francês)?

  16. Caro Castanho,

    A sua perplexidade é justificada. A explicação dos factos pode estar na distância temporal a que se encontram as duas castelhanizações.

    A portuguesa teve lugar há quase meio milénio. A feição de língua que saiu dela (com uma castelhanização e concomitante abandono de bastantes traços medievais) teve tempo, entretanto, para atingir sectores mais vastos da população.

    A galega é relativamente recente. Por isso a feição medieval da língua (que também se modificou, decerto, mas bem menos do que entre nós) se conserva ainda em grande parte. O abandono dos traços genuínos (que se dá debaixo dos nossos olhos) está num estádio em que (se os galegos quiserem – e a dúvida está aí) ainda há maneira de estancar a hemorragia.

    A questão (e voltarei a ela nesta série) está em que alguns galegos imaginam que a adopção do padrão português a estancará, quando tudo indica (e posso demonstrá-lo) que, em alguns pontos, ainda a pode apressar.

  17. eu gosto muito destas coisas de história da Língua, deve fazer uma árvore fabulosa para quem souber ler. Eu sou mais para o género preguiça mas lá vou devagarinho.

    Fernando, a meseta é fundo de xisto. Aí para as bandas do Endovélico tens os afloramentos graníticos dos Montes Hermínios, e o complexo grauváquico mais a sul. Aqui ando a farejar turmalinas e esmeraldas na rocha-mãe.

    Sabias que as sumidades geológicas, daquelas que cunham ‘eras’ andam a discutir se devemos ou não reconhecer-nos no Antropoceno desde o 3º milénio?

    Ou seja ter-se-ia então abandonado o Holoceno. O sapiens anda numa maré de serotoninas a discutir se deve equiparar-se a força geológica…

  18. Z,

    Tal como alguns textos de crítica literária, o que tu escreves não é para um mortal entender: é pura sonoridade, é pura poesia.

    Mas, com um dicionário, vou tentar entrar na magna questão. Não é tanto do género preguiça, é mais do ignorância.

  19. Bo resumo, mas acho que como elemento tradicional de castelhanizaçom esquece vostede a igreja, que foi decapitada e repovoada por Castela.

    Ainda que se mantivo predominante até hoje, durante os séculos escuros o galego perdeu prestígio e perdeu, amais de nom desenvolver, registos “cultos”. A revoluçom industrial, no pouco que chegou a Galiza, trouxo léxico estrangeiro associado a todo o novo e o moderno. Assi, a mesma pessoa pode chamar “bilha” `a que abre para dar de beber `as vacas mas “grifo” ao que abre na casa nova, ou “janela” `a abertura sem vidro do cuberto mas “ventana” `a janela de PVC com duplo cristal.

    A língua mantivo-se, mas com um complexo de inferioridade e associada ao rural, o pobre, o atrassado. Coma quem di, o monte conservava as `arvores, mas estava enxoito e pronto para o lume.

    Dos 70 en diante é a cultura pop espanhola (TV e música) o que está a danar o galego, com um impacto mais brutal que o fixeram a alfabetizaçom em castelhano e a persecuçom feixista. Mas circunstancias socioeconómicas `a parte, eu acho que se isto acontece é porque moito do mal vinha feito de antes.

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