Não vire as costas à disfunção eréctil

Oferta do nosso amigo Renato C., numa altura em que se virou para esta matéria pendente:

Na impossibilidade de atiçar o repto em molde mais apropriado, e fazendo jus ao epíteto de “capacidade ironico-fodilhona” que o amigo rvn me dedica, gostava de aqui lançar uma questiúncula para reflexão de todos aqueles que se preocupam com as grandes questões nacionais.

Acabo de reescutar na TSF o spot que alerta para a impotência sexual. Isto nada terá que ver com o nosso patrimonial Sócrates, ou não atestassem os pregões noticiosos que o rapaz tem erguido maravilhas por este belo País fora, e todos sabemos que a sua pílula é rosa, e não outra. Todavia, poderia ser obra de uma ingenuidade dúplice que assenta como uma luva na mão com que o Zé Manel Fernandes gosta de embalar o berço da Nação.

Então manda assim o dito, em investidura de slogan: “Não vire as costas à disfunção eréctil”. Eu não sou gajo que se abispe com tão pouco, mas tão-pouco sou gajo para deixar murchar um contra-senso deste tamanho sem lhe deitar as garras. “Não vire as costas à disfunção eréctil” é não apenas de mau-gosto como também um conselho de duvidosa eficácia. Vejamos: o virar de costas pode, e deve, integrar-se numa estratégia deliberada de um sistema de incentivo à dita-dura. Por que não?


O slogan deveria, antes, invectivar as/os partneres a virarem ostensivamente as costas para assim aliciarem o ilusionista a fazer saltar o coelho tímido da cartola mágica, em vez de instá-los a permanecer defronte do artista como se nada fosse. Levantem-se aquelas(es) que concordam com este ponto de vista.

Uma visão onírica e um momento de meditação sem um olhar indiscreto podem ser o necessário para que o Adamastor sobrevenha no cabo das tormentas.

“Não vire as costas à disfunção eréctil” é infeliz e desajustado. Melhor seria dizer “Vire o melhor que tem para a disfunção eréctil. Vire tudo e constatará que o amor move montanhas” (independentemente de quem seja o amor). Com estas e com outras, vai o País fecundando a capacidade de mobilização dos cidadãos e coartando o seu direito de resposta às provocações.

Ou será que o tresmalhado criativo teria na ideia qualquer coisa como “não vire as costas” porque a maré pode mudar repentinamente e um tsunami maroto ainda a/o cobre repentinamente? Mas, nesse caso, ter-se-ia feito justiça, que diabo!

Dê lá onde der, a coisa assim não enche as medidas de ninguém, digo eu. Nem às patroas/patrões que permanecem defronte aos grevistas, cujo ar mesmo quando animador ou condescente chega para inibir um eventual surto fura-greves, nem aos próprios grevistas que, intimidados pelo escrutínio do patronato, se quedam impassíveis sem arredar pé dos seus ideais anti-reaccionários.

Virem-se, pois, as costas à disfunção eréctil, que Portugal é um País de belas costas onde grassam dunas bem torneadas e a bandeira está as mais das vezes verdinha.

“De pé, ó vítimas da fome…!”.

Até já.

Renato C.

59 thoughts on “Não vire as costas à disfunção eréctil”

  1. VIRA O MELHOR QUE TENS PRÓ LADO QUE MAIS SEDUZ.

    Tava melhor assim, Renato? Há aqui por perto, garanto-te, uns publicitários. E eu até precisava dumas massas.

  2. Fernando,

    melhorou muito. Mas falta-lhe o móbil do crime: a disfunção eréctil. Eu cá, que sou mais parco em talento publicitário, arriscaria um “Disfunção eréctil? Costas pouco, costas…”; ou então “contra a disfunção eréctil, vá para fora cá dentro – há muitas costas por descobrir”. Mas como em publicidade a concisão é um must, talvez funcionasse melhor um “se não o levantas, ela que se baixe!”.

    A.Castanho,

    em primeiro lugar, todo o verdadeiro homem tem uma fufa dentro de si. Em segundo, a impotência em nada diminui a masculinidade – apenas a estupidez.

    Até já.

  3. Renato,

    A impotência não diminui a masculinidade, mas tenho cá para mim que aumenta a estupidez. A vossa, claro! Aliás, seria interessante saber se desde que o Viagra está à venda não terá diminuido a violência doméstica. A real, não a denunciada.

  4. [Isto responde à Ernesta lá acima].

    Não, Ernesta. Por dois motivos. «Usar» supõe actividade, e o slogan deve abarcar a própria passividade, deve ser inclusivo. Além disso, contém uma sugestão utilitária, levemente chocante. Tenta melhor. Os publicitários estão à coca. (Não me entendas mal).

  5. Renato,

    «Disfunção eréctil» é, em termos publicitários, simplesmente intratável. É linguagem de médico, e não a dum amigo. Esquece.

    Nesse sentido, o teu «Se não o levantas, ela que se baixe», é um achado. A repensar, a reformular, a lançar para outra. Falta-lhe alguma subtileza. Para mais, exclui os homossexuais masculinos, uma faixa de mercado crescente, e muito apreciada.

  6. Fernando, se por aqui os publicitários estão à coca, ainda ganhamos uma nota. (não me entendas tu também mal)
    ora, queres portanto passividade. está bem, vou tentar fazer-te a vontade (porque será que isto parece estar a descambar para a História d’O?) e ficar quieta e calada. Não me mexo nem digo mais nada.

  7. Ernesta,

    Na minha discretíssima opinião, tem ganda pinta. Deixa-nos um tanto perplexos, como os ditos da Agustina, e é, como os ditos da Agustina, um tanto absurdo, mas a malta olha mais à música. Como nos ditos da Agustina.

    E agora vou… trabalhar. Está uma editora em Lisboa a puxar-me pelas abas, com uma tradução.

    Continuai, génios.

    ***

    E olha: a Susana ouviu.

  8. Susana,

    subscrevo. Ó publicitários à coca, vinde ler.

    Fernando,

    discordo. “Disfunção eréctil” vende comó camandro! Aliás, acabo de tirar do forno mais um ingrediente para esta açorda que vai que nem ginjas:

    “Esqueça a disfunção eréctil. A cobra rasteja, mas não deixa de ser um réptil!”
    É desta que apareço na capa da Marketeer…

    Até já.

  9. Susana,

    Técnicamente o pede-lhe está correcto, mas parece-me que nessas aflições pode ser considerado quase como um tratamento de favor, o que só dificulta o erguer da bandeira. Como se sabe a ditadura vive mais do poder que do pedir.

  10. E, já agora, se os senhores da publicidade dos pacotes da açucar da Nicola me estiverem a ler, apanhem esta:

    “Um dia vou ter disfunção eréctil. Hoje foi dia…”

    (E agora, enquanto para mim a disfunção eréctil não passa de um mito urbano, vou para dentro)

  11. (e agora pergunto eu, que não sou de coisas. Que é feito do Valupi? Lançou a acha para a fogueira e saiu de mansinho ou quedou-se por alguma razão? É que até o Fernando que andava para aqui a ver sem ser visto fez questão de vir à liça.)

  12. «Na impossibilidade de atiçar o repto em molde mais apropriado, e fazendo jus ao epíteto de “capacidade ironico-fodilhona” que o amigo rvn me dedica, gostava de aqui lançar uma questiúncula para reflexão de todos aqueles que se preocupam com as grandes questões nacionais.»

    Pobre Renato, que C, hein?
    Sofro quando vejo alguém tão dotado de (inegável) capacidade ironico-fodilhona padecer dessa impossibilidade de atiçar o repto, querer mas não conseguir fazer jus ao epiteto, enfim. Disponha pois o amigo do meu ombro, de frente e perfil. A dedicação dos amigos pode sempre ajudar, nunca se sabe, nunca de costas. Mas é facto que me custa imaginá-lo a lançar a questiúncula uma vez e outra e outra, sem que surja questão rija capaz de compensar tanta reflexão. Por tudo isto sinto-me dividido. Estou com a campanha da TSF por precaução, não arrisco um repente de cura inesperada, quem tem cu tem medo e encosta-se à parede por instinto. Mas entendo essa sua angústia pelo outro lado da coisa, salvo seja: sente o amigo que virar as costas à disfunção eréctil é ignorar a sua questiúncula, menosprezando assim a tal capacidade ironico-coiso que o distinguiria dos pendentes. Sugiro recato perante a investidura e mudança de artefacto investidor. “A disfunção eréctil é (mal) fodida”, seria o meu slogan.
    Abraço-o, compungido.

    (manda a mais elementar decência que lhe diga que o meu disparatar solipsista de ontem foi por si largamente vingado com a qualidade deste seu texto, coisa mai linda, um verdadeiro tratado, não de Lisboa mas de Aveiro: o tratado das pilas moles)

  13. Rui,

    Os comerciantes, e mais anunciantes, desde os perfumes às mochilas e às ilhas de ondulantes palmeiras no anil, andam todos numa lufa-lufa, a dar ao rabo, em streeptease, perante o mercado gay: dois ordenados, no kids.

    Supunha-te atento a estas coisas.

  14. renato e venâncio,
    para que não haja mal entendidos, eu quero deixar aqui bem claro que estes vossos problemas não serão nunca um obstáculo à nossa amizade. E julgo que falo por todos, exceptuando naturalmente o Daniel, claro.
    Coragem. Estamos aqui para vocês.

  15. Ernesta, fui convocado para outros debates. Mas confirmo ser um publicitário, embora nunca tenha andado à coca (no que frustro a caricatura dos publicitários, lamento).

    Seguindo o exemplo do Fernando, também arrisco uma alternativa às costas viradas:

    Sofre de disfunção eréctil? Levante a cabeça.

  16. rvn:

    Na véspera da hora H o artefacto virá à tona,
    o investidor não fraquejará em tal investidura.
    Não se compunja, pois. Não há caso para tanto.
    – é de firmes convicções a dita Senhora Dona
    e em última instância, bem-hajas manufactura.
    Folgue as costas, recate o ombro por enquanto,
    pila mole em questão dura, tanto dá que o levanto.

    Até já.

  17. Valupi,

    Nada mau, nada mau! Tem o melhor de dois mundos.

    E eu ainda tiraria as primeiras duas palavras. Faz a coisa compacta.

    Disfunção eréctil? Levante a cabeça.

  18. Ora essa, só estamos a jogar pingue-pongue, que é como quem diz a bater umas bolas. A reflexão não está por aí fora elevada, mas isso é concomitância do próprio assunto.

    Até já.

  19. fernando, eu acho que a conversa está até bastante elevada. fica na esfera da insinuação, a cabeça mental do valupi, as bolas lúdicas do renato, tudo subtil e educado.

    aqui fica um contributo: eréctil disfunção? vem, eu dou-te uma mão.

    e lembrei-me também do poeta popular de porto santo, que dizia da cerveja choca: está mole? mais depressa se engole.

  20. Susana e tutti quanti,

    Os bolds fazem-se com: < b > (sem espaços)
    e desfazem-se com: < /b > (sem espaços)

    Os itálicos fazem-se com: < em > (sem espaços)
    e desfazem-se com: < /em > (sem espaços)

  21. pessoal,
    depois de munto matutar, julgo ter visto a luz. ‘Disfunção eréctil’ é longo – o que é absurdo, face ao assunto – e pomposo no ‘éctil’, o que é manifestamente desajustado perante a murchice da própria coisa em apreço. Proponho uma revolução no slogan. Duas palavras para quê, se uma resolve? Distosão. (Não me perguntem porquê ‘to’ em vez de ‘te’. Parece-me mais clínico, mais técnico, mais asséptico, talvez). Distosão. Não? Psicologicamente, tenho que era pelo menos mais difícil virar-lhe as costas, digo eu.

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