28 thoughts on “Será que isto pode servir como crítica sintética a Das Märchen?”

  1. Mas também há muitos que por se afeiçoarem à fama e aos proventos inerentes não se importam de serem idiotas e parolos. Que seria da linha editorial da “caras” se assim não fosse?

    Já agora, aproveito para revelar que sou famoso pela minha estupenda açorda de marisco. A minha colher-de-pau já foi fotografada para a “teleculinária”.

    Até já.

  2. Renato,

    podemos ter uma conversinha? é que de cozinhar gosto eu, mas a açorda de marisco nunca me sai como deve ser. eu costumo cozer as cascas dos camarões, passar pela varinha mágica, coar com um pano e usar a água na açorda. como fazes? que pão usas? tiras a casca ao marisco todo ou deixas algumas para enfeitar? pôes só coentros ou também salsa? vá, desembucha que gosto muito de açordas e essa está-me a falhar…

  3. Eu não devia revelar, para não perder a exclusividade, mas não resisto a prestar ajuda a uma comparsa açordeana em apuros.

    Pão – tipo alentejano (à venda nos hípers da praça), mas com tratamento de secura mínimo de 3 dias. Deve ser migado longitudinalmente.

    Marisco – camarão pequeno da costa cozido, totalmente descascado e cuja água aproveito na totalidade, após coagem; gambas cozidas al dente ( ou- 8 min.), das quais guardo duas mãos-cheias para a compostura visual, sem aproveitar a água; mexilhão grande fresco cozido em azeite qb, vinho branco seco, umas gotas de limão e uma pitada de colorau; amêijoa e/ou berbigão cozidos em salsa, muito alho e cerveja branca. Todas as cozeduras devem conter sal, pois o paladar do marisco é bem diferente se o sal for adicionado somente após a adição do pão. Mas há que ter conta, peso e medida, porque o próprio pão contém sal.

    Cascas – com uma tesoura de cozinha, corto as barbas e aproveito apenas a cabeça. depois de muito, muito bem moídas com a varinha, junto aos ovos para bater e juntar na fase final da cozedura (é estranho, mas é bom).

    Refogado – 2 cebolas, muito alho (evitar aqueles que têm travo picante) e mal levanta fervura investir pequenas doses sucessivas de vinho branco seco-doce. O marisco entra em seguida e deixa-se apurar bem, envolvendo com uma colher.

    Condimentos – coentros, salsa (folha), um pé de rosmaninho para mergulhar alguns segundos após a inserção do pão, um cheirinho de colorau. Pimenta em grão ou malagueta mergulhada em saquinho de papel próprio ou coador, sendo que a pimenta permite variações interessantes de sabor (verde, vermelha, preta). Há quem use orégãos, mas eu não vou muito à bola com isso.

    Se for necessário acrescentar água, deve estar bem quente.

    Quando estiver pronta, avisa.

    Até já.

  4. renato, as cabeças dos camarões moídas com a varinha mágica: como fazes, com ou sem água? e não ficam a sentir-se os “grãos”? é que eu faço uma açorda de camarão (já desisti de acrescentar outros mariscos, essas saem-me sempre piores) que me granjeou a alcunha de mulher açorda entre os amigos. uso a água da cozedura, tal como tu, mas nunca as cascas, só o miolo. faz-me sempre pena desperdiçar as cabeças. cebola também, muito alho e o meu acrescento ao refogado é tomate pelado e sem grainhas, que tem que ficar muito bem reduzido. uso pimenta preta, mas também tabasco verde.

  5. Susana,
    eu também usava as cascas todas, antes de me render, e ainda não experimentei, à receita do Renato. Eu fazia assim. Descascava os camarões e aproveitava as cascas e as cabeças. A seguir punha-as a ferver outra vez e deixava a água ir reduzindo. A olho – como gosto desta expressão culinária… – quando achava que estava bom, atirava-lhe com a varinha que é mágica para dentro e passava tudo muito bem. Coava de seguida. Se quiseres ser uma fada do lar usas um pano de linho. Se fores gaja como eu usas um coador e dizes que usaste um pano de linho da avó Cândida.
    Mesmo que utilizes a receita do Barnabé, desculpa, do Renato – Renato, isto é só carinho! – podes aproveitar as cascas assim. Quando faço pasta com camarões reciclo as casquinhas, congelo o resultado da trabalheira e aproveito para a tal açorda ou para arroz de marisco.
    (bolas…e andou o meu pai a pagar-me um cursinho para acabar aqui a trocar receitas….)

  6. Pois, não referi esse pormenor: moo com varinha, mas utilizando a caixa de picadora que encaixa na base. Já agora, é uma Braun :). Só as cabeças, sem água, bem escorridas aliás, depois de cortadas as barbas e aquela espécie de espigão que os camarões têm no lugar do nariz e que é útil para coçar o céu da boca. Se for camarão da costa pequeno, bem cozido, não deverá repetir-se esse grão-de dissabor. Moendo camarões ou gambas de maior dimensão é natural que os olhos e outras partículas acabem por se notar.

    (Espero que para aí 500 gajos que eu conheço não estejam a ler este post…)

    O acto de cortar as cabeças e moê-las é um duplo prazer. Diante de tantos bichos alaranjados, imagino-me sempre num congresso do PSD a decepar os congressistas brandindo uma eloquente motosserra.

    Até já.

  7. Renato,
    a tua também é uma Braun? A caixa de picadora foi a melhor coisa que inventaram, não foi? E para a cebola do refogado, dá cá um jeito…
    Eu não lhes tiro as barbas e passo-as com um pouco da água de cozedura, mas isso faço no copo liquidificador (caramba, são cá uns termos…). Se tiveres paciência fazes um creme excelente.

  8. Susana e Renato, que tal fazermos o club das Braun? (e sabem como se faz tuma excelente tarte de frutos silvestres com essa maravilha? eu sei, mas se quiserem saber têm de dizer a senha…)

  9. Eu sempre desconfiei que o B do Aspirina era de Braun. Braun minipimba!

    Eu só tenho uma caixa de «picagem», com cerca de 5cm de raio (suponho que seja a “grande”).

    Essa cena do club das Braun, desconfio que o fantasma do Hitler se quereria inscrever. Não acho boa ideia…

    Até já.

  10. hum, já fiquei a lamber-me que tive de ir comer um bocado de bolo de milho, que é o que está à mão, enquanto gira o cazuza, barão vermelho cá no além… Ainda cá ‘camarões’ é outra coisa :-) E acorda de lagosta já experimentaram? É delicioso, mas tem que se tirar as cascas por razões óbvias

  11. z,
    vai para fora e deixa-nos, que se chegas aqui e te leio sem um bronzezinho nunca mais te falo…

    renato,
    também estava a pensar que é quase uma heresia discutir a melhor maneira de picar uma cebola num post do Daniel.

    daniel,
    estamos perdoados?

  12. Renato e Ernesta
    Claro que estão perdoados. Aliás, nada há a perdoar. Mas dou como castigo ao Ernesto ler este texto meu, que obviamente faz parte de algo muito maior, em que ele me obrigou a pensar por causa do seu “até já”.

    Um dia contei-te aquela anedota verdadeira da minha colega que, aos dezanove anos, praticamente em vão teimava ainda em aprender alguma coisa. Num exercício escrito de Ciências Naturais, ela disse: “Do fígado do atum faz-se óleo de fígado de bacalhau.” Esperei a tua gargalhada, e continuaste com um ar sério. Pensei que não tivesses prestado atenção. Mas adivinhaste o meu pensamento e repreendeste-me: “As cabeças não são todas iguais. Dá graças a Deus pela que Ele te deu.” Surpreendido, apenas me ocorreu responder: “E tu pela tua.” Sorriste e despediste-te como de costume, mesmo que fosse Sábado ou o último dia de aulas antes de férias: “Até logo.”
    Também chegou a vez de a tua família ser levada por um Boeing 707. Afinal vocês não eram tão ricos como eu pensava. Mas, para mim, bastava alguém viver numa casa que protegesse bem do frio e da chuva, que tivesse água e electricidade, para eu julgar que era gente rica.
    Não sei se terás levado muito tempo até encontrar em Hudson um amigo de quem teu pai dissesse que ficava descansado quando sabia que estavas com ele. E não sei se gostaria de voltar a ver-te. Temo que, à semelhança de uma das minhas personagens de ficção – no encontro com uma amiga da juventude já distante – , também eu pensasse: “Meu Deus, como estou velho!”
    Amei-te o bastante para não sentir remorsos.
    “Até logo.”

  13. Status: mission accomplished.

    Não amarga a penitência. Belíssima prosa de (v)ida e volta. Provavelmente sem volta, porque o amor é um lugar distante. Onde se encontra o baú de onde proveio este tesouro?

    Até já.

  14. e há mais lá dentro? se fôr preciso para abrir a arca dos tesouros, que não são deprimentes, acho que o renato não se importa de discutir comigo a problemática do repolho na sopa de feijão.

  15. Daniel:

    Ao abrigo do direito de resposta, e a propósito de açorda…

    (…)
    — Onde estamos?
    Completámos um ciclo. Vou explicar-to:
    — Toda esta extensão de vinha por onde acabámos de passar pertencia ao meu avô. Até àquele monte lá ao fundo. Costumava vir para aqui com ele muitas vezes, podar, parrar as videiras, sulfatar. Sobretudo nas férias grandes.
    — Já te estou a imaginar, de calções, de ceroulas, com ranho no nariz e os joelhos esfolados a passarinhar entre as videiras…
    — Qualquer coisa assim. Brinquei muito nestes campos, a remexer na terra, no calcário, a perseguir gafanhotos, a coleccionar grilos, a comer bical e dona branca durante os dias melosos de vindimas…
    — Dona branca? A banqueira do povo? Não era velha de mais para ti?
    — É uma casta de uvas brancas: bago pequeno ovalado, doce. Costumava agarrar os cachos e abocanhá-los, sofregamente. A boca cheia até mais-não-poder, o sumo a escorrer pelo queixo…
    — Ora aí está mais uma imagem interessante. Tens fotografias?
    A tua ironia. Palpável e comestível. Como um bago de uva que rebenta entre os incisivos. A tua ironia. Amo a janela aberta que manipulas com as palavras. A tua maior força e destreza aos dezassete anos. Nunca me canso, mesmo quando me roubas o fôlego num lapso de abismo. Pelo contrário: às vezes invisto-me na previsão do próximo sarcasmo; outras quantas experimento lançar pistas ao teu encontro, como obstáculos de corta-mato, e detenho-me entretenho-me a deliciar-me com aqueles a que concedes o luxo de um choque frontal e aqueloutros de que austeramente te desvias. Habilmente, por vezes.
    — Chega-te mais para a direita; aí pões-me em contraluz.
    — Não faz mal. Eu gosto de brilhar nas fotografias…
    — Parva! Deixa-te de brincadeiras e vai para ali, mais perto da árvore. Vá lá, quero apanhar-te com a figueira velha em segundo plano.
    — Queres… E chamas-me um figo?
    — Melhor ainda: como-te!
    Fotografados. Estamos pelo chão, caídos na teia, eu em pernas de aranha, tu apoiada nos meus joelhos, amiudadas vezes desenhando com um braço a aproximação aos figos no rés-do-chão da folhagem que nos entrecorta o céu. A cisma não tem escalas possíveis — a terra é nossa. Toda nossa. Ergues-te sobre a voz e lanças-te sobre mim. Um abraço telúrico arruma os teus seios contra a minha ideia de casa. Há firmeza nos olhos fechados. Os pássaros rasgam o vento para acompanhar o timbre sibilino do teu canto orgástico. Não confeccionas ironia agora — és denotativa e literal como uma gota de saliva. É apenas uma tarde que nos acrescenta às outras tardes de penugem eriçada, o sempiterno nervoso miudinho na órbita dos planetas novos, quando acontece invadirem uma nova galáxia. Um grama de pó-de-ser que nos verga ante o seu peso astronómico. Não vale a pena dizer nada. A sério que não.
    Eu digo.
    — Amo-te.
    (…)

    Até já.

  16. Renato, de perder o fôlego de belo! Onde está isso escrito sem ser aqui?
    Poi então levas com outro naco do mesmo texto de onde tirei o anterior.

    “Bagatelas”
    Não, não pensei em ninharias quando escrevi bagatelas. Faço-o evocando as deliciosas peças para piano de que Beethoven foi o compositor mais famoso. Se fossem flores, seriam talvez miosótis… E bagatelas serão os povoados maneirinhos que, como que repetindo um dos nomes populares daquela flor, parecem dizer-me com insistência “não-me-esqueças”…
    Não os esquecerei. E, se não os convoco todos pelas palavras, ouço-os naquele balbuciar de tímida e imaginada insignificância. Faltam a uns as velhas papoilas para de novo serem ridentes, e em outros há míngua de gente para serem completos. Os tempos modernos não cabem na pequenez das coisas perfeitas…
    Por onde começar? Como falar dos Lagos sem ofender as Lagoinhas?… Como louvar o Loural sem magoar a Fonte do Jordão?…
    Não vou cansar-te neste regresso ideal a casa. E lavo as mãos na água milagrosa da sacristia da Glória, para escolher apenas um sítio como exemplo e purificação. Por nenhuma razão que o torne especial entre os seus pares. Apenas por uma espécie de remorso. Remorso próprio e sabe Deus se por velhos pecados de outro…
    Falo de Malbusca, onde nunca estiveram nem os meus pés nem os meus olhos. Esse é o meu remorso ou a sua causa. Mas talvez também aquela reserva de mistério que convém à imaginação. Dos lugares vistos, sabemos a paisagem; os outros são um pouco o que queremos que eles sejam. De certo modo somos também os arquitectos de quantas Malbuscas gostaríamos de conhecer.
    Valho-me novamente das palavras de outro, porque agora não tenho minhas para dizer. O meu amigo João de Melo, o brilhante escritor que nasceu a cinco anos e dezassete quilómetros de distância de mim, escreveu acerca de Malbusca, entre parênteses, como quem guarda um segredo das ilhas: “em nada destituída de beleza: primeiro um extenso cabo, depois o presépio das poucas casas entre o milho, com suas graciosas chaminés…”
    Vês? Também ele diz presépio…
    Agora o meu remorso alheio. Foi o padre José Pimentel Velho, ouvidor eclesiástico em Santa Maria, que mandou construir, em terreno seu, a ermida de Nossa Senhora da Piedade. Um acto bom não pode ser pecado. E não foi, certamente. Mas, em sete de Março de 1630, ele fez um testamento em que deixava, com a recomendação de que não os vendessem e tratassem bem, Ana, escrava, Maria, sua mãe, e Cosme, escravo baço. Por melhor que ele mesmo os tivesse respeitado, Deus decerto não lhe haverá contado como virtude que fosse dono de gente. E, não sei porquê, dá-me em cismar que lhe teria custado menos a viagem para o outro mundo se pudesse levar consigo a sua escrava Ana…

  17. (mas na açorda de lagosta tem que pôr folha de louro)

    aqui um rapaz crescido perguntava-me anteontem: como se governa um país que não tem manga nem jaca?

    fiquei com vergonha de explicar que cereja só dá um mês e depois tem mon chéri’s e momenti

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.