Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Paulo Teixeira

Nos juniores tu eras sempre o capitão
Depois na equipa B tinhas a braçadeira
Hoje sei que jogas futebol em Portimão
Porque leio A BOLA de segunda-feira

Corri o país para escrever no meu jornal
Fazia as crónicas e a notícia pequenina
Eras tu que me falavas sempre no final
Mas em nome de toda a equipa leonina

Foste o melhor em campo várias vezes
Tal como já tinhas sido vestido de leão
Em Santarém nos Sub-21 portugueses
Fazias toda a ala direita dessa selecção

Ainda hoje não percebo este mistério
Que te afastou para longe de Alvalade
Tu continuas a jogar e sempre a sério
A encher os teus domingos de verdade

Breve retrato de Mário André

Passa o dia a viajar como um cigano
Entre a Lezíria e a Estrada de Pegões
Respira o verde todos os dias do ano
Entre a casa e a Escola de Campeões

Chega a esquecer-se das suas lesões
No esforço de curar quem o procura
No relvado eles correm como leões
Na marquesa sofrem com amargura

Passa o dia a viajar como um cigano
De terra em terra a fazer tratamentos
Os olhos são Atlas do corpo humano
Percebe uma lesão em dois momentos

Tudo o que diz é genuíno e verdadeiro
Tudo o que faz tem o toque dum artista
A sua vida não se esgota no enfermeiro
A sua alma está para lá do massagista

Olha, já agora, eu também want to be like water and never need um endocrinologista faxavor

waterani.jpg

Apesar de toda a gente reconhecer a autêntica revolução que o YouTube representou para a web 2.0, nem todos terão reparado na sua influência na criação de novos conteúdos audiovisuais. Não é por acaso que videófilos e audiófilos abominam o YouTube: as suas limitações de upload e streaming (resoluções de 320×240 ou 480×360 a 314 kbits/s para as imagens e compressão a 64 kbits/s para a faixa sonora) são um verdadeiro pesadelo para quem venera a alta fidelidade. O vídeo de «Water Curses» dos Animal Collective realizado por Andrew Kuo e Snejina Latev, consegue a proeza de transpor aquilo que são aparentemente as limitações do YouTube (e de outros programas semelhantes) para o interior do próprio processo criativo de uma forma que, para além de ser absolutamente inovadora, possui resultados estéticos que me deixam num estado entre o transe e a levitação. Ou muito me engano ou temos aqui, se não o melhor, pelo menos o mais importante vídeo musical desse admirável mundo novo que é o HTML.

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Tenho cá em casa um gato muito giro chamado Xavier, que tem uma fixação doentia por fitas de cabelo. Apesar de ter as mãos todas arranhadas pelo bichano, é óbvio que me divirto imenso com essa sua fixação. Inspirado por essas andanças felinas, resolvi fazer um mash-up de duas bandas desenhadas que adoro: os Bunny Suicides de Andy Riley (vénia) e os Mutts do Patrick McDonnell (tripla vénia, amén). O Mooch faz de Xavier e o coelho usa a fita à Rambo. Ai ai, as merdas que me passam pela puta da cabeça.

gatob2.jpg

com bola vermelha

Se um dos elementos da rapaziada aspirínica tivesse colocado aqui um post com uma vulva exposta na maior descontracção, teria sido um malandreco. Como fui eu, devassidão. Não admira; apesar do andar dos tempos, à mulher continua a ser consignada uma dicotomia entre a santa e a flausina. Mulheres-putas só no uso privado.
A intrusão da temática é tão poderosa que se impuseram as discussões em torno da eventual carga erótica da imagem, como se o erotismo, ou o estímulo sexual, fossem os propósitos quer da pintura quer do post. Outro aspecto curioso foi cada um ter presumido na pintura um objectivo correlativo à provocação exercida: o de chocar, o de seduzir, o de vender, o de banalizar o sexo numa corrupção dos costumes. Com a evidência de se tratar de um sujeito de interpretação individual articula-se o contra-senso: quanto mais a temática interfere com as nossas dificuldades, mais difícil se torna separar representação e realidade representada.
Mas já não é politicamente correcto ser-se moralista nas temáticas sexuais e, por mais que esticasse a corda, os defensores e as defensoras dos bons costumes femininos foram escudando as suas posições por detrás da esquiva definição do artístico–ou não. Foi preciso dizer-se «cona» para se dar o salto para a verdade, pela mão de um comentador: as boquinhas das senhoras sérias não devem conspurcar-se com vernáculo, nem os seus olhos com visões perniciosas das suas próprias anatomias. Todavia a palavra não me saiu da boca, chegou sem voz. Eu posso nem ser uma mulher. Quem sabe a Susana é apenas o João Pedro, ou o José do Carmo Francisco, mas com bigode. Que importava aqui – a autoria, ou o conteúdo? Para mim, sem dúvida alguma, contou a discussão e o seu subtexto.
Por isso, irei voltar ao tema. Para já, no entanto, faço uma concessão às retinas sensíveis no que respeita à exibição de alegadas cruezas. Agora, quem quiser ver a imagem terá que se sujeitar à ignomínia perversa do peep-show, e clicar no link abaixo. Assim, passamos a obedecer às leis da pornografia, escondendo o distrito vermelho suave e felpudo debaixo do lençol.

Continuar a lercom bola vermelha

Fala do roupeiro Vítor Sério em 1997

Sou eu que tenho a chave deste espaço
Onde guardo os sonhos mais fagueiros
De quem faz desta equipa um abraço
Num mundo de caminhos traiçoeiros

Nas vitórias o vendaval é de euforia
Nas derrotas chuva de palavras feias
Custam como o duche de água fria
Ao lado das camisolas e das meias

Pela minha parte tenho a psicologia
Do resgate da sua tristeza neste lugar
Lembrando que amanhã é outro dia
E no sábado há outro jogo para jogar

Depois é um quadrado de marmelada
À espera que ele vá activar a insulina
Para que a equipa não fique cansada
E viva os sonhos fechados na cabina

favas com chouriço

Ontem um comentador que tudo faz para vir para a nossa montra, e por tanto fazer merece-o, escreveu que são os comentadores quem comanda o aspirina. Diz que nós ainda não o percebemos. Mas engana-se: nós sabemos dessa grande verdade. É o povo quem comanda os elevados desígnios do aspirina e nós somos apenas os agentes eleitos (por boletim divino) para intermediar essa vontade.
Por ser verdade, e em sinal de reconhecimento, proponho um slogan abrilino: o Aspirina a quem o trabalha. Faz todo o sentido uma reforma. Se for como a nossa agrária, comentadores como este são valiosos, porque dão grande ajuda no enchimento de chouriços. Juntando a amabilidade gastronómica de nos mandarem à fava.
A culpa é da liberdade e suas sequelas. Porque, convenhamos, se não fosse o 25 de Abril, nunca teríamos chegado ao 26. É sempre do 26 que se faz balanços.

Vinte Linhas 257

«Fia-te na Virgem e não corras, vais ver o tombo que levas…»

Esta tempestade num copo de água que por aqui passou no «aspirinab» a propósito dos «posts» sobre a dedicatória rasurada pelo Nobel 98 e o poema «Rosa Luz» leva-me a lembrar duas ou três coisas essenciais nesta matéria. É preciso olhar com distanciação para estas coisas e saber separar bem o percurso das margens. Alguns não perceberam nada e como não estão a par do assunto mas gostam de te opinião, tentaram ver na crítica ao gesto da rasura dos nomes do «Levantado do chão» uma guerra pessoal. Não preciso de dizer que a pessoa em causa não me interessa absolutamente nada. No poema «Rosa Luz» tentaram arranjar um problema sem perceber que eu nunca iria alterar um poema meu por causa da métrica ou das sílabas. Basta pensar que os professores universitários Clara Rocha, Silvina Rodrigues Lopes e António Cândido Franco não perderam nenhum tempo com isso quando discutiram a tese de mestrado sobre a minha obra. Falaram apenas de coisas substanciais e importantes que integram a tese de mestrado do escritor Ruy Ventura. Daniel de Sá apenas propôs uma nova redacção para uns versos, nada mais. Não é um drama. Eu naturalmente não a segui porque se a seguisse o poema já era outro. O azar foi ter havido entradas à margem das leis, como se diz no futebol. Mas ele já estava farto depois de incidentes anteriores. Aprendi com o Agostinho da Silva que as críticas ou os louvores são apenas opiniões; quem tem um caminho segue o seu caminho. A malta aqui no Bairro Alto diz de outra maneira: «Fia-te na Virgem e não corras, vais ver o tombo que levas…»

leve a Sete à Colômbia

As nossas amigas 8 e coisa 9 e tal precisam de levar uma das suas personalidades à Colômbia, para que possa defender tese de mestrado. Como não tem dinheiro para a viagem, as outras faces lembraram-se de dar uma ajudinha e pediram-me que colaborasse na divulgação da campanha. Um pouco de lirismo fica sempre bem e a boa-vontade nada custa. O tema da tese é nobre, o que ajuda à motivação. Tarde, mas ainda a tempo, aqui fica o apelo e toda a informação.

Fala de Leonel Pontes a Cristiano Ronaldo

Tu comias uma banana dentro de um pão
E nunca paravas de jogar em toda a Ilha
Nos torneios diários de futebol de salão
Dando às equipas um toque de maravilha

Nas férias eu já não era o teu treinador
Mas o amigo sempre atento e preocupado
Procurando que te alimentasses com rigor
E seguindo os teus passos por todo o lado

Em Lisboa eu era então o teu motorista
E pronto a ir buscar-te a qualquer hora
Tu ligavas mal o avião chegava à pista
E nós ficávamos a falar pela noite fora

Agora tu fazes anúncios de publicidade
Não tens tempo para o treinador antigo
Mas nada destrói a força duma amizade
E nunca deixei de ser muito teu amigo

o poente do meu girassol

As churinas têm pétalas finas e compridas, rosa vivo, que abrem ao sol, expondo anteras carregadas de pólen. Em tufos baixos formam um tapete refulgente, verdadeira ode à primavera. No choupal, até à beira do riacho, a vegetação está densa. É bom levantar os pés acima das ervas que chegam, algumas, à cintura, e deixá-los cair no desconhecido emaranhado. Há três ruídos nos passos: o som amortecido da terra forrada de verde, o crepitar das folhas secas e o requebro de galhos partidos. Acima, o rumor das copas e o ritmado piar dos pássaros, em que um cuco marca o ponto. Os choupos, em noites de luar convidativo, desenham traços claros para orientarem os nossos movimentos na escuridão.
Por todas estas razões, o fim-de-semana passado ficará marcado em mim por três acontecimentos, competindo entre si em importância ou gravidade. Primeiro, as notícias da nova crise alimentar, determinada pela escassez de cereais, e que ditam a urgência de novas políticas agrícolas mundiais. A este propósito, lembro que temos um ministro da agricultura, embora nestes três anos ninguém tenha dado por ele. Segundo, o verão instalou-se repentinamente, com grande transtorno daqueles que não sabem onde arrumaram os fatos-de-banho. Finalmente, Daniel de Sá, o meu girassol, abandonou o Aspirina B.
Continuar a lero poente do meu girassol

Não afastes teus olhos dos meus

sungani.jpgTenho uma coisa muito importante a dizer sobre as recentes saídas do Fernando Venâncio e do Daniel Sá do Aspirina B e que, porventura, irá abalar as fundações da blogosfera: os Animal Collective vão dar dois concertos em Portugal no mês de Maio – dia 27 no Porto (cinema Batalha) e dia 28 em Lisboa (Lux). Como foi muito bem referido pelo Fernando Venâncio antes de abandonar o Aspirina, os Animal Collective são a maior banda do planeta e, por isso, se quiserem evitar a criação de uma imagem de vós próprios à qual não estão habituados (o que é uma verdadeira chatice, perguntem ao Daniel Sá), vejam lá se compram bilhetes antes que os mesmos esgotem (os bilhetes, não o Fernando Venâncio e o Daniel Sá, que são inesgotáveis). Mas eu não conheço a banda, exclamarão alguns (entre os quais julgo vislumbrar o tom pouco cuidado nas sílabas e na acentuação do José do Carmo Francisco) – não se preocupem, caralho: não estou eu aqui para outra coisa. Começo por este singelo «Leaf House», uma cançoneta sobre gatinhos, que é suficientemente estranha e genial para separar o trigo dos mais preguiçosos. Ah, ao contrário do Daniel Sá, que, pelos vistos, está alojado nas antípodas do Venâncio, direi que não vou dizer se gostei ou não de não estar aqui. Se dissesse o que não disse sobre o quanto gostei de não estar, continuaria a não estar, né. Desejo-vos, sinceramente, a ausência de qualquer problema pancreático.

LEAF HOUSE (Animal Collective, 2004)

This house is sad
Because he’s not
Inside it

Where does he hide
When someone comes?
To the front door

There’s no one to say: Meow, kitties!

Adeus

Criei, ou criaram de mim, uma imagem a que não estou habituado. Talvez esta seja a verdadeira. Tanto pior se o for, e tanta mais razão para que eu deixe o espaço por conta apenas dos puros de coração. Ao contrário do Fernando Venâncio, não direi que gostei de estar aqui. Se gostasse, continuaria. Desejo-vos, sinceramente, o melhor na vida.

Rosa Luz

Há uma rosa a arder. Já não é lume
Apenas foco de luz sem combustão
No fósforo mal aceso deste ciúme
Só sobejaram os sinais da tua mão

A tua boca foi o botão anunciado
Os teus dedos o que ficou da haste
Procurei a tua voz em todo o lado
Mas foi na rosa ardida que ficaste

Trezentas e quarenta palavras

TREZENTAS E QUARENTA PALAVRAS
(Em memória do Capitão Salgueiro Maia e do cantor José Afonso)
Conheces o gosto da anona? E o cheiro do incenso em flor nas noites húmidas? Talvez.
Mas com certeza não serás capaz de os explicar. Nem eu nem ninguém.
Existem coisas assim: os sabores, os cheiros, as cores, os sentimentos… Há muitos milhares de palavras, mas nenhumas são suficientes para dizer aquilo que só quando se sente se sabe como é.
Eu gostaria de inventar as palavras que faltam à nossa Língua, a todas as línguas do Mundo, para falar de Abril. Em Portugal. Num dia com cravos a florir nas espingardas, porque ninguém queria usá-Ias para matar.
Estavam cansados da guerra, uma guerra má como todas as guerras. Em Angola e em Moçambique e na Guiné. Era o medo em Portugal. Havia verdades que era proibido dizer. Havia muita gente que mal tinha que comer. Havia muita gente sem casa onde morar.
Foi na madrugada de 25 de Abril de 1974. Os homens que mandavam neste país, e que não queriam que ele mudasse, talvez dormissem àquela hora sem sonhar com o que ia acontecer. No rádio, uma canção começou: “Grândola, Vila Morena”. (Uma revolta que começa com uma canção, sobretudo uma canção como aquela, tem de ser uma revolta boa). Era o sinal combinado. Os militares saíram dos quartéis para dizer ao governo que não o suportavam mais, mas ainda não se sabia quantos portugueses estavam no mesmo lado. Logo se percebeu que eram quase todos, afinal.
E a revolução tornou-se numa festa tão bonita que esse dia foi um dos mais belos da História de Portugal. Foi uma alegria tão grande que se chegou a pensar ter valido a pena tanto tempo de sofrimento e medo para que ela acontecesse…
Mas não! A água mais apetecida é a que se bebe depois de uma longa e penosa sede, e ninguém se deixa estar dois ou três dias sem beber só para ter um gosto enorme ao beber…
Se eu pudesse inventar as palavras que faltam à nossa Língua para dizer isto melhor, nunca mais haveria alguém capaz de duvidar de como foi lindo aquele dia, nunca mais ninguém haveria de permitir que alguma coisa, neste país, se parecesse com as coisas ruins de antes. E muito depressa se mudaria o que ainda não houve tempo de mudar.

de fazer parar o trânsito

A rua é sossegada e o sentido único. Desisti de atravessar, na passadeira, ao ver que o automóvel vinha demasiado depressa. À última hora estacou. Seguiu-se ruidosa travagem de quem vinha atrás. Enquanto atravessava, o velhinho ao volante do primeiro carro dirigiu-me um sorriso apologético e baixou os olhos, envergonhado. Devolvi-lho, acenei que não, encolhi os ombros.
Atrás dele, de janela aberta, o homem novo meneia a cabeça, não e não, reprovador. Duas pregas fundas encimam-lhe a cana do nariz quando explode em direcção a mim:
A promover acidentes!

Vinte Linhas 256

Com que então «Digna-se estar presente» o Nobel

A Secretaria Geral do Ministério da Cultura enviou-me um convite no qual José António Pinto Ribeiro, o ministro da cultura, me convida para a inauguração da exposição «José Saramago – A consistência dos sonhos» organizada por Fernando Gomez Aguilera. Até aqui tudo normal. Mas a segunda parte do convite contém uma frase estranha «Digna-se estar presente o escritor José Saramago.» E digo estranha porque assim até parece que ele está num céu demasiado azul e demasiado alto de tal modo que se digna descer até nós. Vindo deste ministro que aparece a defender o acordo ortográfico como se dependesse dele a salvação do Mundo e que ainda há dias vi numa cerimónia protocolar na Biblioteca Nacional a impedir de modo hostil que um fotógrafo trabalhasse (fotografando o ministro) na entrega do espólio de José Cardoso Pires ao Estado Português, cheira um bocado a esturro. Ainda se o Nobel se dignasse estar presente para explicar porque fez desaparecer depois de 1992 os nomes das pessoas do Lavre que lhe contaram as histórias do livro «Levantado do Chão» e sem as quais o livro nunca teria sido escrito por uma pessoa que nunca viveu no campo mas sim na Penha de França… Além do nome da Isabel da Nóbrega, são estes os nomes suprimidos na dedicatória: João Domingos Serra, João Basuga, Mariana Amália Basuga, Elvira Basuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António Catarro, José Francisco Curraleira, Maria Saraiva, António Vinagre, Bernardino Barbas Pires e Ernesto Pinto Ângelo. Mas não. Ele não se digna fazer isso. Tal como eu não vou lá pôr os pés. Safa!

“Eu Acho” que ele tem razão

Este comentário de um leitor que assina “Eu Acho” resume, quanto a mim, a situação de uma sociedade que perdeu completamente a noção de que há valores que devem prevalecer sobre os instintos. Por isso o transcrevo para aqui. Assumo a responsabilidade de todas as suas palavras, mas de modo algum o mérito de lhe ter dado mais visibilidade..
Daniel de Sá:
Quando os “residentes” não querem perceber, são os comentadores que passam por não terem percebido. Pois eu acho que percebi muito bem. O Daniel tem apenas razão quando refere a “vulvização” – à qual eu acrescento “vaginação”, “clitorização” e tudo o que diz respeito ao sexo dito sem tabus. Trata-se de uma moda – e de um negócio – a indicar-nos que estamos na Era do Sexo. Muitos dos que escrevem em blogs e noutros locais entendem que para além desse tema não existe mais nada com interesse. Que não há inspiração que suplante o sexo. É o sexo que vende. É o sexo que chama o leitor e, ao que parece, o comprador de “arte”. É moda e é um modo de estar na vida. Quanto mais chocante e desbragado, melhor
Eu acho que com um pouco mais de decoro, de respeito, daquela “reserva” de outros tempos, ainda recentes, todos ficaríamos a ganhar. O sexo tornar-se-ia mais apetecível, quer figurado, quer descrito por palavras. Assim, a tocar pública e abertamente as raias do promíscuo, do chocante, do obsceno, do provocante, do indecente, do sem-regras, vamos de mal a pior. Não havia, por exemplo, tantos casos de mães com 11 ou 12 anos de idade e pais com 13 ou 14 anos. Vamos chamar a isso “evolução” de costumes”? Tudo o que ultrapassa os limites é exagero. Lésbicas e homossexuais sempre os houve. Aberrações também. Não será daí que vem maior mal ao Mundo. Mas não a falta de decoro a que se assiste actualmente, o exibicionismo barato, ostensivo e chocante, que nos bate à porta todos os dias.
Outra coisa: não utilize tantas vezes a palavra «ironia» para tapar buracos. Nem sempre o leitor está à altura de detectar as suas “ironias” nos seus comentários. Chamar, em certos casos, a “ironia” para resolver situações mais controversas, é quase como dar o dito por não dito.
Susana:
Pois terá sido a moral «que impediu representações belíssimas do sexo e do corpo de virem a público». Estou de acordo. Não vem daí novidade. Mas como vamos nós incutir nos nossos filhos a moral que não temos? Os princípios que não nos regem? Que desplante será o nosso ao exigir-lhes condutas que não seguimos? Mesmo que o corpo não seja tabu entre pais e filhos? Sim, porque isso é outra coisa.
O sexo sempre foi tema na arte: pintura, escultura, literatura. Mas não atirado de qualquer maneira à cara de cada um! Hoje, qualquer bicho-careta aborda o tema, quer figurado, quer pela escrita, com grosseria, sem qualidade, sem beleza. Antes com obscenidade, sem pudor, sem preconceitos, como pseudo-arte. Porque é moda? Porque toda a gente o faz? Por dinheiro? É essa a liberdade de expressão artística de que usufruímos hoje?
Poderá dizer que o meu ponto de vista pertence a um passado conservador. Pergunto: passa a evolução das sociedades pelo arrasar de preconceitos lógicos, estéticos e morais? Não vamos, certamente, comparar, na pintura, um cesto de morangos com a representação de uma vagina. O pintor pode ser o mesmo e a sua arte também. Mas ir tão longe, mesmo tendo em conta o «impedimento moral de vir a público» – com as consequências que se entendem por morais ou de bom-senso – poderá tornar-se imoral, ou não?

Livros, gravuras, postais antigos

A porta que se abre na manhã fria
Vai revelar o mundo concentrado
Na altura das estantes da livraria
É possível viajar por todo o lado

Entre autores e títulos há viagens
Num mundo interior que perdura
Outros querem a luz das paisagens
Entre a cor e a sombra da gravura

Entre um livro raro e outro antigo
Entre a segunda mão e a novidade
Acabo por encontrar o que persigo
Para um texto sobre a minha cidade

Há muitos anos que Lisboa é minha
Quarenta e dois para ser mais exacto
Na livraria na estante mais sozinha
O teu olhar faz comigo um contrato

Sem notário ou registo de escritura
Sem cartório e testemunhas a assinar
No tempo de ansiedade e de procura
O teu olhar acende a bússola do lugar