o poente do meu girassol

As churinas têm pétalas finas e compridas, rosa vivo, que abrem ao sol, expondo anteras carregadas de pólen. Em tufos baixos formam um tapete refulgente, verdadeira ode à primavera. No choupal, até à beira do riacho, a vegetação está densa. É bom levantar os pés acima das ervas que chegam, algumas, à cintura, e deixá-los cair no desconhecido emaranhado. Há três ruídos nos passos: o som amortecido da terra forrada de verde, o crepitar das folhas secas e o requebro de galhos partidos. Acima, o rumor das copas e o ritmado piar dos pássaros, em que um cuco marca o ponto. Os choupos, em noites de luar convidativo, desenham traços claros para orientarem os nossos movimentos na escuridão.
Por todas estas razões, o fim-de-semana passado ficará marcado em mim por três acontecimentos, competindo entre si em importância ou gravidade. Primeiro, as notícias da nova crise alimentar, determinada pela escassez de cereais, e que ditam a urgência de novas políticas agrícolas mundiais. A este propósito, lembro que temos um ministro da agricultura, embora nestes três anos ninguém tenha dado por ele. Segundo, o verão instalou-se repentinamente, com grande transtorno daqueles que não sabem onde arrumaram os fatos-de-banho. Finalmente, Daniel de Sá, o meu girassol, abandonou o Aspirina B.

Quando alguém sai de um blog colectivo acontecem insólitos que a ninguém lembraria a respeito do abandono de um blog individual. Descobrem-se lobbies; no caso, aparentemente, um lobby aspirínico. E eu que não nos sabia com tanto poder agremiado. Depois dramatiza-se e preconiza-se fins iminentes, porque perdidas as eminências. Mas o mais insólito do que vi nos comentários foi a atribuição da saída à inveja. Uma vez que quem saiu foi o Daniel, e por razões suas, sem alguém lho ter solicitado ou sugerido, a única causa da saída prende-se com o próprio demissionário. Assim, imputar inveja à causa é foleiro, como se não lhe bastasse o drama pessoal de ter permanecido por cá este tempo todo. Mas eu, assim que possa e tenha paciência, já trato dos intriguistas, Daniel. Vais ver: vão, todos eles, ser corridos a comentários.
Ainda hoje li, no Público, uma carta do Daniel que revela o seu gosto e conhecimento pela língua. Será uma pena que deixe de os partilhar com o mundão iletrado do qual sou um típico exemplar. Não sei se as incompatibilidades se confinam ao Aspirina ou abrangem toda a blogosfera, mas na ignorância pode haver réstia de esperança. E voluntario-me, desde já, a ajudá-lo a postar como sempre fiz, abrindo-lhe agora um blog novo.
Resta-nos agradecermos todo o Daniel que recebemos. Em troca oferecemos-lhe, nós, muita aspirina. Foi dele, mesmo se ele não está grato – há quem seja alérgico ao terapêutico ácido. E não se safa de ficar presente neste passado. Em tudo, o que mais lamento é que o Daniel não tenha gostado. Porque a vida é curta, e cada vez mais, para fazermos coisas que não temos que fazer e que depois não gostámos de ter feito. Se não gostou, não estava a gostar, não sei como podem desejar mal ao Daniel e pedir-lhe masoquismo. Só encontro uma saída nesta saída: aplaudi-la.

29 thoughts on “o poente do meu girassol”

  1. Este texto da susana, publicado em Susana (ou será ao contrário?), permite-me usar uma expressão que acarinho, e que vai bem com o bucolismo inicial. Esta: boa malha!

  2. Meu Lírio
    É óbvio que não saí por sentir que alguém me invejasse ou por eu invejar alguém. O meu desconforto no Aspirina vem desde o princípio, quando se disseram coisas impensáveis acerca do caso do Guilherme, chegando a acusar de gesto pedófilo o facto de a família ter posto uma foto do menino em calções na pedra tumular e de eu a ter publicado aqui. (E isto foi gente da casa que o disse.) Essa dolorosa espinha nunca me saiu da garganta. Depois há a cobardia dos comentadores. Antes de ter começado a comentar no Aspirina, eu aparecia com frequência num blog de ciência. Acabei por desaparecer da circulação, apesar da amizade pessoal com um dos responsáveis e de ele e outro me terem pedido para continuar, porque consideravam que eu valorizava a caixa de diálogos. Estou suficientemente habituado a reconhecer estilos de escrita, pelo que nesse blog (De Rerum Natura) várias vezes me interroguei sobre a identidade multiplicada de alguns comentadores, sobretudo uma Rita que era Joana, ou uma Joana que era Rita, ou nem uma coisa nem outra. É bem possível, é quase inevitável, que aqui aconteça o mesmo.
    Ao contrário do que alguém aqui afirmou uma vez, eu não “subi” a colaborador por ter aparecido como comentador regular, pois o Fernando Venâncio já me conhecia há muito tempo, e por isso me convidou.
    Agradeço-te, Susana, a disponibilidade para me ajudares a criar um blog. Mas nem sonhes que terei tempo para uma coisa dssas. O Aspirina foi o único para que escrevi textos propositadamente. O Rui Vasco Neto pede-me de vez em quando alguma colaboração, e dou-lha sempre da minha “arca” (pequena) de coisas guardadas. Agora mesmo está começando a publicar um ensaio sobre a ópera em Portugal, que eu por acaso pensara publicar aqui antes da gota de água que fez transbordar o copo. Porque é sempre uma última gota de água que nos afoga. Por isso as pessoas não percebem, muitas vezes, por que se atingiu o ponto de saturação.
    Tentei passar por aqui sem “passado”. E a prova, minha doce Susana (não há qualquer ironia no tratamento) é que pareces ter ficado admirada com a tal carta do PÚBLICO.
    Antes de sair não disse nada ao Fernando. Ele foi apanhado de surpresa pela notícia que lhe dei. Fiz como ele pelas mesmas razões: se dissesse que pensava sair, poderia ser que acabasse por voltar atrás. Mas o ambiente estava a ser-me pesado. Sei que lhe custou e a mim também. E confesso que já passou. Havemos de ver-nos por cá de vez em quando, se Deus quiser. No entanto, os comentadores perderam um alvo para o seu gozo boçal. Tivessem poupado um pouco a sua maneira grosseira de agir, e decerto continuariam a ter-me a servir de destino da sua jocosidade que por vezes é de demasiado mau gosto para o meu gosto.
    Peço desculpa pela indelicadeza de não ter prevenido. Não me arrependo de ter estado por cá nem de me ter ido embora.
    Um abraço a todos.
    Daniel

  3. alienígena, a asae é bem lembrada: aquela história das quotas estipuladas para fechos, multas, etc, é quase tão ridícula como as que o ministério da educação tem para os chumbos no ensino.

    luis eme, pois sou.

    valupi, obrigada.

    daniel, como é óbvio nunca me passaria pela cabeça que a inveja estivesse na origem da tua saída. como disse, a ideia é demasiado absurda. ironizei sobre a proposta porque algum comentador o sugeriu. ora se ninguém quis que saísses e todos o lamentamos, inveja de quem e como?
    lembro-me bem do episódio da lápide e das críticas que suscitou.aliás voltei a lembrar-me dele a propósito da minha “vulvização” do aspirina, pois é um caso típico de cegueira causada por um assunto que para alguns é tabu.
    a acusação de gesto pedófilo não recordo, mas a ter acontecido tenho a certeza absoluta de não ter vindo de gente da casa. talvez estejas a confundir com o que disse o joão pedro, sodre a «necrofilia e pornografia sentimental», por teres simultaneamente divulgado a história da morte de uma criança e um poema teu que se lhe associava. se for o caso, como presumo que reconhecerás, o teu é um gigantesco salto de leitura – e inadmissível.
    sobre os comentários, bem sei o que apontas. com um pouco de treino começamos a topá-los à primeira. é até impressionante como aparecem a cascar de um lado e a apaparicar do outro, e uma pessoa pergunta-se que vantagem tirarão de tal actuação. nenhuma, penso, é uma forma de diversão. não me choca, nem confrange: é um lado inevitável de um meio que permite o anonimato.
    não vale a pena ligarmos às bocas que dizem termos subido de comentadores a colaboradores. o mesmo disseram a mim. sendo perfeitamente natural que eu, escrevendo num blog e sendo amiga de alguns aspirínicos, comentasse o aspirina e tivesse sido convidada quando o meu blog fechou. às vezes irrita, mas não fere. podemos concluir que frases dessas ocorrem a quem dê demasiada importância a um blog e a um meio como este, aqueles que vêem a atenção virtual como saída para o sucesso.
    não houve qualquer admiração na carta ao público, onde aparecia mais uma face daquilo a que nos habituaste por aqui. referi-a porque gostei, e porque foi uma coincidência tê-la encontrado neste mesmo dia.
    espero que sim, que voltemos a vermo-nos. um abraço, daniel.

  4. «a acusação de gesto pedófilo não recordo, mas a ter acontecido tenho a certeza absoluta de não ter vindo de gente da casa. talvez estejas a confundir com o que disse o joão pedro, sodre a «necrofilia e pornografia sentimental», por teres simultaneamente divulgado a história da morte de uma criança e um poema teu que se lhe associava. se for o caso, como presumo que reconhecerás, o teu é um gigantesco salto de leitura – e inadmissível.»
    susana (Abr 28th, 2008 at 14:35)

    Obrigado, Susana, tiraste-me as palavras da boca. É óbvio que é à minha pessoa que o Daniel se refere de forma tão cobarde («gente da casa»). Há, como é óbvio, uma diferença abismal entre «necrofilia e pornografia sentimental» e «pedofilia». Pelos vistos, a suposta «cobardia dos comentadores» é contagiosa. Fizeste muito bem em sair, Daniel. Vê lá se te curas. E votos de melhoras.

  5. João Pedro
    Sim, confundi as coisas. E disso peço desculpa. Já foi há muito tempo. Embora a diferença não seja muito grande entre o que disseste e o que eu disse que disseste. A confusão nasceu porque alguém pôs um comentário sob a estúpifa identificação de “Até um pedófilo se indignava com tanto despudor…”
    Quando dizes “Fizeste muito bem em sair, Daniel”, finalmente dás-me razão em alguma coisa. Já não era sem tempo. Não sei por que te deu para embirrar comigo. Acontece.
    Comecei a melhorar ontem, precisamente. Obrigado pelo cuidado. Se continuares a ser assim tão simpático com os colaboradores, não auguro grande futuro ao Aspirina. A não ser que eles tenham medo de sair para evitar a verrina com que te despedes dos que vão saindo. Se eu sou assim tão mau, é estranho que não me tenhas aconselhado antes a sair.
    (Não é costume eu falar numa linguagem assim dura. Mas, com um raio, estou farto de fazer figura de anjinho. Hoje apeteceu-me ser demónio.)

  6. Daniel: não sejas tonto. O «Fizeste muito bem em sair, Daniel» possui a mesma leveza que utilizaste para colocar na minha boca (e repito: de uma forma cobarde) palavras que nunca disse. Antes desse teu comentário até te achava um bacano e um bravo. Como é óbvio, ainda o acho agora, mas pensas que podes atribuir coisas que não disse à minha fabulosa e luminosa pessoa sem levares na cabeça? Deixa-te disso e toma lá um abraço.

  7. portanto a conclusão aspirínica da situação: a Primavera está boa, agora é meu pronúncio para os fogos do Verão, S. Pedro, meu cabrão, vê lá se tomas atenção

  8. João Pedro
    Já não é a primeira vez que uma “zanga” nossa acaba com um abraço. Que retribuo convictamente. Mas, como é hábito por cá, reagi no mesmo registo que usaste. Só isso.

  9. O nosso ministro faz rega gota a gota… nem rega, nem molha….quanto à inflação dos produtos alimentares… é assustador… vide o aumento do preço do arroz… entre outros. Quanto ao Daniel…leio os comentários que foram feitos

  10. Como é que alguém pode achar divertido “duplicar-se” nas caixas de comentários? Alguém me explica a essência da tusa possível de obter dessa forma?
    É que eu não consigo resistir aos mistérios por detrás das tusas aberrantes, pois uma vez desvendados ajudam-me a entender melhor a minha.
    Claro que estou a falar de erecção intelectual. Das variantes semi-rígidas já me sinto esclarecido…

  11. «Mas, como é hábito por cá, reagi no mesmo registo que usaste. Só isso.»

    Falso, meu caro. Reagiste com uma mentira a uma crítica minha. Intelectualmente, não há nada de mais desonesto do que isso. E toma lá mais um abraço.

  12. JPC
    Há a mentira moral e a mentira material. (Tomás de Aquino dixit.) Menti por confusão, mas continuo a pensar que não há grande diferença entre pornografia infantil (tu o disseste) e pedofilia (outro o disse, é verdade). Já pedi desculpa da confusão, não queres que ponha uma corda ao pescoço, pois não? E nem me pronuncio acerca do que tens dito de mim depois da saída do Aspirina. Dize-lo pelo que eu fui enquanto aí estive ou por ter saído? Se foi pelo que fui, tens direito à tua opinião, e eu respeito-a; se foi por ter saído, fica-te mal.
    E respeito o teu abraço. Que retribuo.

  13. shark, fiquei deslumbrada com o teu deslumbramento.

    não daniel: o joão disse «pornografia sentimental». trata-se de algo bem diferente, de resto sujeito a flutuações de interpretação, por ter sentido figurado. para mim seria algo como a exploração dos sentimentos para obtenção de um qualquer efeito (assim coisa à correio da manhã). nada tem a ver com pedofilia, não concordas?

    e como é que é? eu, que verdadeiramente mereço muitos abraços, recebo nenhum? tá mal.

  14. Pois é, Susana, e tu serás a mais apetecível para abraçar. (Honni soit qui mal y pense.)
    Do resto não falo. Não gosto de estar em desacordo contigo.
    Um abraço. Forte.

  15. eu então tubarão gosto mesmo é de uma tusa propriamente dita: sabes é que coincide a coisa com o objectum feito signo e vão-se as dúvidas pró caralho

  16. daniel, mas tu podes estar em desacordo comigo que daí não vem mal algum. obrigada pelo abraço, toma lá outro.

    z, olha que não tenho a certez; um caralho com dúvidas dá uma tusa intermitente.

  17. pois susana, mas vocês mulheres lidam melhor com as dúvidas do que nós homens, dá idéia, eu sei do Cartesio mas é que ele gostava de cugitar desde que lhe deu aquela revelão com o monóxido de carbono

    eh pá, tubarão, olha que lá em cima eu falava in abstractio, ouvistes?

    (há sempre o risco de um celacanto se meter em sarilhos equivocados)

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