A tragédia de um homem ridículo

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Menezes não tem juízo e saiu do Conselho Nacional em lágrimas, há dias. Já tinha saído de um Congresso em lágrimas, há anos. O homem é um choramingas e consegue contagiar a assistência: a sua passagem pela presidência do PSD foi de ir às lágrimas, seis meses de cachinadas.

Menezes não acertou uma. É um feito extraordinário. Contraria a lei das probabilidades, impondo a evidência: é preciso ter talento, e ser-se altamente disciplinado, para conseguir falhar cada uma das inúmeras ocasiões de comunicação com o País. A miséria começou logo no confronto eleitoral com Marques Mendes, onde exibiu o vazio que transportava entre as orelhas. Daí para a frente, só piorou, piorou, piorou. No pináculo do caso BCP, Dezembro, já estava enterrado. Tinham passado três meses, 12 semanas, e faziam-se apostas para a data de saída. Nos três meses seguintes, o PSD iria entregar ao PCP a liderança da oposição; e de forma inimaginável: sendo conivente com a demagogia da rua, com a retórica da luta. Naquele que foi o período mais difícil para Sócrates em toda a legislatura, quiçá o mais instável para a Nação desde a morte de Sá Carneiro, e que não se voltará a repetir nos próximos 20 anos, o estouvado dirigente dava tiros no pé, no próprio partido e na cabeça. Mas pior ainda era possível, e Vasco Pulido Valente e Pacheco Pereira, de repente e em maluqueira, acordaram para a possibilidade do moribundo PSD acabar às mãos de um gaio Kevorkian.

Menezes não prova que o PSD bateu no fundo, ou que os políticos são uma corja desprezível. Bem pelo contrário. A rapidez com que se conseguiu expulsar este traste é um dos mais optimistas sinais de saúde política. É cada vez mais difícil vender banha da cobra, e cada vez mais insuportável testemunhar o ódio à comunidade que esguicha dos partidos que não alcançam ser mais do que clubes de interesses ou hospícios para esquizóides ideologias, eis a boa lição do esdrúxulo fenómeno que levou um retinto incompetente para a ribalta. Recuperando o narcísico lema, se hoje somos muitos, amanhã seremos milhões a deixar de ligar aos tribalismos partidários, às barricadas, e barracadas, do maniqueísmo esquerda-direita. Em vez dessa forma rudimentar, porque ainda animal, de fazer política, passaremos a querer a coragem e a inteligência. Venham elas de onde vierem, estejam onde estiverem, é nelas que iremos votar. E é com elas que vamos ficar um bocadinho mais responsáveis, um bocadinho mais humanos.

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Menezes não realizou La tragedia di un uomo ridicolo em 1981, ao contrário do que defenderam publicamente Marco António Costa e Ribau Esteves nos últimos dias, isso deve-se a Bernardo Bertolucci. Quando vi o filme, alguns anos depois, não percebi nada daquilo, feliz ignorante das temáticas em causa. Mas a minha adolescência guardou a cena em que Laura Morante tira a camisola vermelha e oferece ao celulóide a imagem das suas gloriosas mamas. Como somos todos, por igual, homens e mulheres, apreciadores de um bom par destas fascinantes glândulas, desde que na sua versão feminina, e sendo daquelas predilecções que não carecem de explicação, partilho o meu entusiasmo de outrora agora. O filme demora muito a carregar, e a cena é lá para o final. O que significa três coisas: um prémio para a paciência, a oportunidade de ver um filme que nos acrescenta e um aplauso para a China, esse império capitalista que nos disponibiliza a raridade cinéfila na Internet e por inteiro.

27 thoughts on “A tragédia de um homem ridículo”

  1. Este Menezes é, de facto, um fenómeno. Mas olha que o Marco António Costa e o Ribau Esteves são, pelo menos para mim, as verdadeiras estrelas dessa forma ridícula de fazer política. Vale a pena estar atento.

  2. tens razão, mas acho uma pena não poder rir mais com este. Vá lá que veio o flopes para animar a festa, o flopes e a bruxa, o belo e a monstra – lá vai o menino guerreiro ser papado e vem a seriedade do défice ao serviço do Santander Totta

    quando o Burroso foi para a UE, foi-se o cherne e veio o carapau, e agora vai parar na chaputa.

    por acaso gosto muito de filetes de chaputa, com arroz de espigos, não sei como interprete isto psicanaliticamente

  3. como é que a gente lá mais prá frente vai fazer para hypernacionalizar os bancos? Anda esta dúvida sistémica a perseguir-me e já faz tempo que me zanguei com o Cartesius a propósito da correlata sistemática. Hum.

  4. O Valupi em forma é digno de se ler. Ao contrário do Amnezes, não falha uma.

    Só o Kevorkian não entendi. O homem não era suicida, como o Amnezes, a especialidade dele era assistir no suicídio de terceiros. O Amnezes nunca teria sido capaz de uma ideia tão altruista e corajosa.

    Tendo porém assistido à conf. de imprensa do Marco António, devo concordar com o atento JPC. O pior da cloaca PSD ainda está para sair.

    E a entrevista do Jardim, a exigir o consenso salazarista, a desistência dos outros “gatos” do “saco” e o silenciamento da “imprensa de esquerda” e dos comentadores políticos para se candidatar à liderança? Ainda estou meio tonto depois de ouvir esse mal-cheiroso infra-Bokassa a falar com o telespectadores portugueses como se fôssemos todos cretinos. Há muita gente estimável no PSD, capaz até de governar bem o país, mas de momento o partido parece entregue a um bando de mentecaptos de quinta classe.

  5. E o adicto de holofotes Santana, mais uma vez tombado da merecida prateleira, todo pimpão a dizer à TV que quer colaborar com o Jardim para levar o PSD à vitória em 2009? Eu não acredito que isto seja o mesmo partido do Cavaco, do Sá Carneiro e de vários outros de que ainda tenho a memória fresca.

  6. Valupi, vim aqui numa de smoke in the air, deixando o Zarco atribulado.

    Olha lá, há aqui uma coisa que eu quereria discutir um dia contigo. A minha percepção integrada disto tudo, incluindo a governação do Socras, é que o sistema está completamente corrompido – todos os que ocupam lugares decisórios são corruptos, por acção ou omissão, e é nesse jogo de conivências, onde uns roubam e outros calam, outros falsificam dados e outros ocultam os verdadeiros, que isto se joga.

    Por exemplo, e a propósito de umas demandas arqueológicas em que me movo à procura de chegar à derme de uma paisagem, os arqueólogos juntam-se para desqualificar a investigação, invocando o seu estatuto de peritos, fingindo não ver certas coisas, ignorando histórias que se contam, dissimulando o que podem. As provas do que negam estarão, em muitos casos, nas suas colecções privadas, dá-me idéia. Claro que a verdade vem sempre ao de cima e os deuses

    Poderá ter sido sempre assim, eu só perdi a inocência a propósito dos fogos florestais, e agora vejo-a confirmada noutras vertentes.

    O problema de fundo é o que o Cravinho afrontou, com o crime de enriquecimento ilícito e a inversão do ónus da prova, que lhe valeu um exílio dourado e sabe-se lá que ameaças.

    Mas a minha visão poderá estar desvirtuada por uma percepção agravada, continuada, do estado de coisas.

    Como é a tua?

  7. Acabo de ler uma muito boa no Público: o Marco António Costa disse que a Distrital do Porto não apoia nenhum candidato, mas sabe (através de uma recolha de opiniões em casacata) que os militante apoiam o Pedro Passos Coelho. Hilariante.

  8. pois, é verdade que eu até voltei a ver noticiários para me rir, noutro dia vi um Relvas gordinho a arreganhando a tacha em cada 3 segundos de marka, mas tem que ser com moderação que o baço anda sensível

  9. (z, arroz de espigos?? Fizeste-me lembrar o meu avô Sena. Essa dos espigos cheira-me a Beira Baixa, ou será que o termo é usado também noutros lados?)

  10. Claudia, a bem dizer, já estava tudo dito…
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    Primo, esses dois lacaios não podem subir mais do que a altura onde estão agora. Aliás, nada se conhece deles, a não ser esta circunstância de terem acompanhado o meteoro Menezes.
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    z, que a administração pública é um covil de corruptos, é uma ideia de sempre. Tem sido denunciada a torto e a direito, de tal maneira que constitui um dos fundamentos da cultura ocidental. As crescentes liberdades e garantias vieram dessa consciência.

    Dito isto, que fazer? Primeiro, reconhecer a inevitabilidade da corrupção. Igual à inevitabilidade do crime, qualquer. E também à dos acidentes. Depois, tratar política e cientificamente a corrupção, através da coragem e da inteligência.

    Não é impossível. Aliás, é o caminho.
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    Nik, o Kevorkian dentro da referência ao PSD moribundo e ao facto de Menezes ser médico. Mas tens razão, seria uma auto-eutanásia.

  11. pois Valupi, só queria confirmar. Eu dantes não pensava assim, não tinha essa consciência, era meio inocente, pensava que a seguir ao 25 muita coisa tinha mudado para melhor lá dentro, mas não. Mas o problema é que invadiu as universidades em escala nunca vista, o presidente do CC da escola que me pôs na rua é autor principal de um artigo ‘científico’ onde vem um mapa errado que chumbava um aluno de licenciatura: mas tinha uma vantagem, justificava os fogos dos anos subsequentes. Como eu entretanto denunciei a situação em circuito restrito o livro foi retirado depois de ter produzido o efeito desejado e reeditado como se nada fosse, agora o artigo já vem sem o mapa.

    agora há pouco tempo tropecei noutro mapa da responsabilidade de arqueólogos de 2005, onde se descobre que o litoral de Cascais está ausente de vestígios romanos, segundo a tese de que aqueles viveriam nas terras do interior, mais férteis. É óbvio que também viviam no litoral e a marginal foi construída em cima de uma via romana, e muito mais coisas, mas imagina que hoje em dia ainda isso está obliterado, e os vestígios escondidos! 30 anos depois do 25 e no 3º milénio! Confesso-me farto deste país, já sei que os outros também são corruptos e os países são tão corruptos quanto os povos deixam, ou melhor quanto os povos são, mas ao menos lá fora sou estrangeiro.

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    Teresa, eu dantes chamava a tudo grelos, mas depois aprendi com um amigo meu de Vila Real que os ‘amarelos’ eram grelos e os ‘brancos’ eram espigos, ou seja os de nabiça são grelos e os de couve são espigos. Adoptei esta terminologia.

  12. concordo com o nik. se tudo o que se escreve sobre política desse tanto gosto a ler, haveria maior participação cívica. mas o kevorkian pareceu-me certo: mesmo suicidando-se de caminho, a morte do psd seria a de um corpo que não só o do menezes.

  13. Valupi, não quero parecer tão naif quanto os comentários acima podem indicar. Claro que eu sempre soube que a corrupção é um dado adquirido do sistema, faz parte, pelo menos desde os romanos para cá.

    O problema é que creio que continua a aumentar ao invés de diminuir – já viste o absurdo que é não termos nenhum político condenado por corrupção nos últimos 30 anos? Tudo arquivado ou absolvido por falta de provas, com uma cultura positivista dos juizes de tal monta que nem sabem deduzir silogismos.

    Claro que ficava em parte resolvido com o crime de ‘enriquecimento ilícito’ baseado na evidência de como é que tipos com ordenados de 1500 ou 2000 euros acumulam tanto património, sem heranças ou totolotos que o justifiquem. Quantos e quantos funcionários autárquicos dos departamentos de urbanismo e outros navegam na impunidade? Quandoo eu digo resolvido é num sentido mais preventivo do que curativo.

    E o problema é que se agrava siatematicamente a mentalidade de que quem não rouba é imbecil ou medroso, tudo ao contrário do que a convivência democrática saudável devia propôr.

  14. z e jpc,

    telefonei à minha mãe, que esta questão dos grelos é assunto sério. parece que espigo é mesmo a “flor” da couve e grelo a do nabo, mas lá para cima só comiam espigos, que os grelos de nabo são amargos. Cá em casa preferimos os de nabo, que dão um sabor mais apurado ao arroz de bacalhau.
    Mas, já agora, uma outra questão, e muito mais importante que qualquer menezice – nos grelos e espigos as flores também se comem ou não? eu acho que sim, que se se fazem saladas com amores perfeitos (e amores perfeitos, dê por onde der, acabam normalmente avinagrados) e flor de hibisco, não vejo razão para não comer as flores dos grelos e dos espigos.

  15. Nunca percebi porque é que os grelos se popularizaram no léxico erótico. Mas a mim só grelos nunca chateia. Também sou contra o acordo ortográfico, o que consolida o meu conservadorismo em matéria linguística.)

  16. Shark, chama-se a isso escrita criativa…

    (já agora, ouvi uma história fabulosa sobre escrita criativa. uma amiga de um amigo meu resolveu ocupar o tempo com um curso de escrita criativa, mas andava muito desanimada – aquilo era uma tontice e ela não conseguia perceber porque a olhavam de lado e se riam. no dia que desabafou connosco tinha feito um exercício que considerava idiota – descrever a manhã sem usar a letra “u”. Fácil, dizia a desgraçada, foi só escrever – “Saí de casa e f’i à r’a tomar o peq’eno almoço…..” )

    (reparaste, tubarão, como abri e fechei os parentesis? é fácil, pazinho.)

    quanto à questão dos grelos, e para resolver todas as dúvidas, resolvi socorrer-me de um dicionário. O que tinha mais à mão, que para estas coisas qualquer dicionário devia servir, foi-me oferecido pelo José do Carmo Francisco, o que só podia ser uma recomendação.
    Zé do Carmo, este dicionário está estragado! Realmente encontrei a entrada “grelo”, mas a definição não tem nada a ver com couves nem nabos. “Espigo” não consta, aparecendo somente a forma feminina, “espiga”, mas também não me parece que o seu significado seja útil para acompanhar os filetes do z.
    Sim, isto chama-se o Dicionário do Palavrão, mas caramba, dicionário é dicionário…

  17. teresa: aqui em casa, e na casa da minha mãe, come-se tanto as flores dos grelos como a dos espigos. Agora, em relação aos grelos, devo dizer que sou um defensor da tese que só há uma forma nobre de comer esses vegetais: salteados com um pouco de azeite e alho após uma breve fervedura. Ah, e nem só o nabo dá grelo, mas também a couve nabiça.

  18. joão pedro,

    também gosto deles salteados, mas não os fervo – cozo-os, um pouco, em vapor. Têm é que levar, a seguir ao salteado, um golpe de vinagre.

    Estava para aqui a sentir-me culpada por estragar a caixa de comentários ao Valupi com esta coisa dos grelos e dos espigos, mas acabo de perceber que num post sobre o menezes só se podia mesmo acabar a discutir nabos e nabiças…

  19. :)))) sou gamado num bando de matulas a brincar de hortelão e cozinheiro. Quando a flor já está aberta ficam duros de roer, tem que ser ainda em gomo, a não ser para os adeptos de dose maciça de fibra ou para os zaralhos como eu que se esquecem do que anda na gaveta de baixo do frigo.

    sim, os espigos são doces comparados com os grelos, e também gosto deles salteados,

    linda cabrinha tu és suposta até mordiscar os rebentos dos tojos e urzes. Das estevas é que imagino que não

    mas eu agora deu-me para tortas de Azeitão, já que ainda não há cerejas

    também ando a olhar para o Sul que abaixo do Equador a lua não é mentirosa, sempre ajuda

  20. Valupi e Susana: tenho de vos dar razão – de facto parece ser bom para a democracia que a fleite flatulenta protoplatinada – a criadora do monstro_deficit – seja chamada à liça para responder por esse artefacto ideológico que tem comandado a governação. Vou andar meio doente a pensar que a má vendeu a gargantilha das rainhas e o castão da bengala que não podia usar por uma ninharia que até se me coram as unhas dos pés, e agradecer aos deuses ter-me retirado da ribaltinha política, a bem de não me dar uma coisa

    assim vai dar para rir

  21. Quero agradecer-vos os manjares e declarar-me amigo do grelo. Creio que até o Menezes iria salivar feliz na leitura desta caixinha comentadeira e tão bem perfumada.
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    z, não podemos saber se a corrupção aumenta ou diminui. Tal como haver alguém condenado não iria provar fosse o que fosse ou alterar as regras do jogo. Mas podemos entender o fenómeno, e esse é o sustento da liberdade: o conhecimento.

  22. não Valupi, não concordo. Da mesma maneira que para prevenir os acidentes conduzir com alcool é crime, e não sei quantas outras coisas, condenações por corrupção teriam um efeito terapêutico num sistema onde a impunidade é a regra absoluta. Não me interessa o castigo-em-si, mas interessa-me a mensagem de que o crime de enriquecimento ilícito, feito à conta da apropriação privada do bem comum, não esteja nas mãos de inimputáveis sistémicos

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