Rosa Luz

Há uma rosa a arder. Já não é lume
Apenas foco de luz sem combustão
No fósforo mal aceso deste ciúme
Só sobejaram os sinais da tua mão

A tua boca foi o botão anunciado
Os teus dedos o que ficou da haste
Procurei a tua voz em todo o lado
Mas foi na rosa ardida que ficaste

18 thoughts on “Rosa Luz”

  1. Meu Caro JCF
    É pena que estrague belíssimos poemas com o pouco cuidado nas sílabas e na acentuação. Ora repare como isto assim, por exemplo, fica com muito mais ritmo:

    Há uma rosa a arder, já não é lume
    Mas um foco de luz sem combustão
    No fósforo mortiço do ciúme
    Sobejaram sinais da tua mão

    Teus lábios o botão anunciado
    Teus dedos a memória duma haste
    Busquei a tua voz por todo o lado
    Mas foi na rosa ardida que ficaste

  2. Daniel: só há uma coisa que ultrapassa o teu atrevimento e a tua arrogância – a genialidade das alterações que propões. Não diria que a versão do jcf está estragada (longe disso, até vinha aqui comentar o quão belos são esses versos), mas a tua versão é de uma leveza incrível. Relojoaria pura.

  3. JPC
    Sou demasiado amigo do JCF para ser atrevido e arrogante em relação a ele. O poema era demasiado belo para que eu me coíbisse de correr o risco de apanhar uma reprimenda como a tua, que acaba por ser até muito benevolente.
    Toma lá um abraço.

  4. Concordo com o meu primo, o poema do Daniel canta-se com mais doçura. Mas discordo do meu primo, nem isso justifica o sacrilégio de se pretender corrigir o amor.

  5. Pelo dia de hoje, pelo amor à verdade, junto-lhe esta continuação mal-amanhada:

    Ao fogo que queimou a minha alma
    Quero juntar-lhe, nesta noite calma
    As esperanças adiadas de alegria

    Aos pobres a quem o pão não chega
    Aos párias a quem Abril relega
    Vamos esperar que venha um dia…

  6. Também achei o poema bastante bom, tal como está. A única alteração que faria era trocar «deste ciúme» por «do ciúme». Como JCF o escreveu, fica com uma sílaba a mais que estraga, desnecessáriamente, o rigor, a musicalidade e a “mensagem” do autor – que, me parece, trocando os cravos por uma rosa, não deixa de se associar, com alguma crítica e desilusão, à data hoje comemorada.

    Daniel de Sá:
    Gosto bastante dos seus poemas, mas concordo ser demasiada imiscuência «trabalhar» ao seu jeito um poema alheio. Cada um tem o seu estilo e a sua forma poética de se expressar. Que me desculpe, mas prefiro o poema do JCF ao poema «renovado» que se deu ao trabalho de escrever.

  7. Há um cravo a murchar,apenas cinza
    Da robusta braseira dum vulcão
    Mas mortiço,ainda o cravo inspira
    Uma acesa e literária discussão.

  8. a segunda versão é tecnicamente melhor. mas é precisamente por isso que a “correcção” me parece um gesto imperdoável. nem em privado se faz uma coisa destas a um amigo.

  9. Os critérios de excelência nestes comentários andam ao nível do ponto mais baixo da Fossa das Marianas.

  10. JCF,

    também fui alvo de correcção por parte de um amigo. mostrei muitos dos poemas e textos que escrevi ao Cesariny. num deles, que terei a liberdade de aqui colocar, apenas mudou uma palavra, que assenta bem ao Daniel ;)

    Álvaro de Campos
    …ressuscitou…

    nos telhados as cabeças
    nas cabeças a demência que os projectou
    janelas paredes muros – estruturas

    exemplos de exclusividade, de solidão
    devido à vulnerabilidade
    a protecção teve necessidade e protegeu-se

    faço por entender o que não entendo
    porém, o que entendo nunca foi o que quis entender
    estranho, este mundo das ideias…

    poderá a ideia criar e não ser criada?
    risos… a ideia deixou de ser contínua
    é um processo descontínuo que continua

    farei jus a este mundo fragmentado
    neste saltitar ininterrupto
    neste não ser nada
    por ser várias coisas ao mesmo tempo

    meus (teus) poetas fingem-se
    fingem-se todos da mesma maneira e modo
    auxiliam-se mutuamente – são um todo disfarçado

    procuraram dar beleza – falseá-la
    não posso ser bom porque vos suportei
    ó, aturei-vos como algo, alternativa em reciprocidade

    estou farto de tricô – de rendilhados eufemistas
    de falsos sentimentos, de falsos sentires
    de ser indirecto quando posso ser *directo

    … puta que o pariu…

    e agora, eis a palavra que o malandro me alterou: * discreto

  11. JCF

    Tinha gostado muito do poema quando o li ontem. Não comentei porque não calhou; não vi defeitos nem andei à procura deles, até porque nem sou meio-poeta e de crítico tenho ainda menos. Mas tenho duas pernas. As perguntas, no entanto, ficam. Como é que se vai convencer estas correctores de poesia de que não há um único poeta ou prosador que não possa ser corrigido naquilo que escreve, incluindo Aligheris e Vazes? Se aqui forem postos versos dum “consagrado”, incluindo as poesias de estado de alma de merda do Pessoa, não há nenhum maricas que abra o bico para pôr defeitos. Pior, muitos deles entram em orgasmo. Pelo menos entre a maricagem. Ou se gosta ou se não gosta daquilo que se lê. Assunto arrumado. E quem é que nos diz que o poeta mais tarde não modificaria o poema ou não se aperceberia dos seus defeitos de rima, pontuação, métrica, ritmo, etc e tal?

    Segue a minha contribuição (completamente “estragada”, evidentemente):

    Vejo uma merda a arder, não é lume.
    Fico intrigado, não vislumbro combustão.
    Olho para o lado, não fosse ser ciume,
    E nisto topo o Daniel de caralho na mão

  12. É curioso, o poema do JCF esteve aqui um dia sem que ninguém lhe prestasse atenção. Eu, como seu amigo e talvez abusando da confiança que temos um com o outro, sugeri-lhe correcções como hipótese de melhorar o poema. Aliás já não é a primeira vez que isto acontece, nem só da minha parte, e o JCF até agradeceu. Na maior parte dos seus poemas eu gosto do seu ritmo irregular, fazendo lembrar o inesperado dos ritmos de Strawinsky. Mas aqui essa falta de ritmo (chega a ter treze sílabas num dos versos) quebra a subtileza do poema. Além disso, não o fiz às escâncaras, mas no espaço mais reservado dos comentários, que em princípio se destinam sobretudo ao autor do “post”. No entanto, como é habitual, aqui discute-se mais acerca dos comentários do que do tema. E, se há gente que parece perceber muito de honra, nota-se que de poesia pouco sabe. Eu não sou mestre de nada, e já deveria ter percebido que é perigoso ter opinião aqui.
    Só me resta pedir sinceramente desculpa ao meu amigo JCF, se de algum modo o magoei. Só ele me importa.

  13. Daniel, se só o JCF, teu amigo, te importa, para quê usar as caixas de um blogue, que é público, para comunicares com ele? Porque não mandar-lhe um email ou uma carta ou um sms ou fazer um telefonema? Porque não uma visita, um encontro, uma tarde ou noite bem passada discutindo a métrica da poesia e outros assuntos elísios?

    Chamo a tua atenção para o lado oposto: os blogues, e o nosso em especial, vivem desta animação, riqueza, até selvajaria, das caixas de comentários. São os contributos do grupo, que é dinâmico e plástico, a darem motivos de leitura, releitura e pensamento. Foi precisamente o que tu fizeste, em boa hora: apresentaste uma segunda versão do texto em poste. Excelente! Tão excelente que até conseguiste levar o meu primo a botar faladura. Só por isso, já merecias uma medalha. Como, ainda por cima, recebeste rasgados elogios, podes também levar a taça. Mas não cometas o pecado de te revoltar contra a liberdade de cada um dizer o que lhe der na gana. Isso, convirás, não é de poeta.

  14. Muito bem, Valupi. Há gente, inteligente, sensível até, que não entende a blogosfera, nem a internet, nem a liberdade.

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