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Nacionalismo

Rui Moreira, economista e presidente da Associação Comercial do Porto, escrevia hoje no «Público»:

Nacionalismo é acreditar que a nossa selecção foi a melhor do Mundial.
Nacionalismo é acreditar que subjugamos todos os adversários.
Nacionalismo é afirmar que Angola e o Irão são equipas de topo a quem ganhámos.
Nacionalismo é afirmar que esprememos as laranjas holandesas e comemos os bifes ingleses.
Nacionalismo é chamar ladrão ao árbitro porque assinalou um penalti contra nós.
Nacionalismo é chamar fiteiro ao Henry e chorar a sucessão de faltas não assinaladas sobre o Cristiano Ronaldo.
Nacionalismo é dizer que perdemos com a França por isso e porque tivemos azar.
Nacionalismo é dizer que ainda bem que a Itália nos vingou ao ganhar aos cínicos gauleses.
Nacionalismo é apelidar o Deco de brasileiro quando joga mal.
Nacionalismo é apelidar o Deco de português quando joga bem.
Nacionalismo é insultar os holandeses pela falta de fair play.
Nacionalismo é insultar os que acham que nem sempre tivemos fair play.
Nacionalismo é multiplicar por dez os presentes no aeroporto e na festa dos heróis no Estádio do Jamor.
Nacionalismo é multiplicar por cem os elogios da imprensa internacional ao nosso futebol.
Nacionalismo é gritar que, mesmo que se perca, já se ganhou tudo.
Nacionalismo é gritar que ganhámos, quando não ganhámos coisa nenhuma.
Nacionalismo é defender que foi um feito histórico incomparável.
Nacionalismo é defender que, por isso, os nossos futebolistas e técnicos não deviam pagar impostos.
Nacionalismo é acusar de falta de profissionalismo quem ousa colocar reservas a algumas opções da selecção, como fez José Couceiro.
Nacionalismo é acusar de antipatrióticas as dúvidas sobre os critérios do seleccionador.
Nacionalismo é escrever que Scolari é o pai da pátria, agora que aprendeu a cantar o hino nacional.
Nacionalismo é escrever que ele levou o povo português a redescobrir o sentido da bandeira.
Nacionalismo é invocar que não se pode discutir a selecção, porque a pátria não se discute.
Nacionalismo é invocar que quem não está cegamente com a selecção está contra ela.
Nacionalismo é confundir mérito inegável com façanha inigualável.
Nacionalismo é confundir a selecção com a pátria.
Desculpar-me-ão por não me deixar contagiar por essa “doença infantil da humanidade”, nem querer pertencer a essa seita unanimista, cantada por Roberto Leal e pululada de oportunistas. Perdoar-me-ão, também, se não pactuo com as suas histerias e se temo as suas consequências. Absolver-me-ão se isto me traz à memória o tempo em que não podíamos ajuizar do nosso destino, em que à custa de vitórias morais ficámos “orgulhosamente sós”.
Resta saber se este nacionalismo não é uma nova versão do provincianismo que Pessoa e Eça identificaram como o grande mal português. Não, não sou nacionalista, porque acredito no trabalho e no espírito crítico, porque sou optimista e sei que se formos exigentes podemos sempre ir mais longe, porque não consigo ver milagres nos desempenhos felizes que espelham as nossas capacidades, porque não alimento o amor aos meus com o ódio aos outros, porque continuo a acreditar na nobreza do patriotismo.

P.S. – Soube que o “insuspeito e desinteressado” fervor de José Couceiro acaba de ser premiado: foi nomeado técnico adjunto das selecções.

Mais vale sozinho que mal acompanhado

Vive como se fosses morrer amanhã. Aprende com se fosses viver para sempre.

Gandhi

Durante a minha infância de bicho social interessado na politica, esse espaço da airada existência que se estendeu dos dezoito aos trinta e seis e do qual acordei de repente, todo excitado com o cheiro de cravos de viveiro, acreditava em quase tudo o que me contavam, quando o que me contavam não perturbava os ensinamentos básicos que tinha adquirido com a leitura de vários panfletos revolucionários e doutras obras avulsas da propaganda politica literária “aconselhável”, dita de descrição dos sofrimentos da humanidade lusa e internacional e das grandes lutas de resposta revolucionária para acabar com tais sofrimentos. Quem, por ignorância ou sabedoria, tivesse a impertinente ousadia de levantar um dedinho de direita para me contrariar já sabia que não seria convidado para o meu casamento, e o facto de nunca ter convidado ninguém para essa importante cerimónia (realizada com intenção ideológica num registo civil de paróquia salazarista) pode ter sido, vejo agora, o primeiro sinal de que um dia não iria perder tempo na fase madura da minha vida a ouvir gloriosos e recauchutáveis sermões, nem dum lado nem do outro.

Quem teve a pachorra de me ler até aqui é capaz de começar a pensar que me deixei de políticas e me entreguei de corpo e alma à cultura das tais malvas com virtudes balsâmicas. Nada disso. Ainda leio jornais (cada vez menos, é verdade, para fugir à mentira organizada e ao esforço sobre-humano de ter que pesquisar no vácuo das entrelinhas jornalísticas) e vibro a bandeiras despregadas com a suposta seriedade da política de esquerda e de direita. O Capitalismo, com a ganância sem fim que gera nos corações financeiros dos seus mais fiéis seguidores, continua a ser um dos alvos favoritos das minhas raivas matinais inexplicáveis e fonte inesgotável de oportunidades para a utilização do dicionário de ferroadas rancorosas que expressamente criei para o efeito. No entanto, há muito que desisti de ver nele a etapa histórica “natural” que fui ensinado a criticar e a combater (abaixo o comodismo do determinismo económico!) a partir de visões baseadas na força dum proletariado de calo e ganga que se tem deixado diluir no molho branco social que o vai empurrando para a robotização geral e completa, transformando-o na máquina anónima de produção que aos poucos o fará esquecer a foice e martelo. Esperem pela pancada, senhores veteranos: andam por ai a esquissar os novos símbolos das bandeiras proletárias.

Reconheço que o pessimismo político, como o que aqui demonstro com saciedade e sem vergonha, pode engendrar atitudes pessoais completamente desafectas ao espírito dos frequentadores de bares em festas partidárias anuais, ou ao dos períodos quentes de eleições da esperança. Não vou chorar por isso e até bebo um copo de reforço à saúde da convicção que tenho de que nada nessa atitude afectará a minha capacidade para continuar a fazer perguntas e a aprender como se “fosse viver para sempre”. E, meus senhores e minhas senhoras, sobre o tema geral do progresso, evolução, consciencialização política e de classe etc., uma das perguntas que apetece fazer, já agora, é a seguinte: mas afinal, que merda é esta de pensarmos que precisamos de situar-nos politicamente à esquerda ou direita de qualquer coisa para darmos uma opinião justa e serena, cheia de bom senso e abalizada sobre as soluções mais adequadas e necessárias a este planeta — planeta que não pertence a ninguém e que ninguém sabe donde veio, muito embora abundem por ai explicações divinas e outras acerca de implosões de matéria e irrealidades palpáveis? E quem são estes importantes Oito, que agora sentaram as suas anatomias com excessos de gordura exactamente iguais às nossas à volta duma mesa enorme, para se porem a combinar, sem mandatos directos de ninguém, sobre a direcção mais apropriada para esta Terra envolta em fogos muito reles que eles, ou aqueles que os precederam nos tronos da Intriga mandona, foram os primeiros a atear de mil e uma formas?

Não me puxem pela língua, por favor!

TT

Que falta faço eu?

Ao viajante cerca-o a aflição deste largo, que é mais que a solidão, é mais que o abandono. Mas bem graves hão-de ser as aflições deste padeiro, que acaba de chegar numa carrinha. O alarido da buzina foi crescendo rua fora até chegar ao largo, parecia alguém aflito por tirar o pai da forca, e era apenas ele a chamar as freguesas. Vieram cinco, por junto, e só se calaram as trombetas quando apareceu a primeira. Vem da Prova, o padeiro, duas vezes por semana. Faz o seu giro aí pelas aldeias, como o carro da fruta, o da carne, o do peixe congelado. Meteu-se no negócio quando voltou de Moçambique, há muitos anos, alguma coisa havia de fazer. E bem podia encher meio mundo de pão, não fora o mercado fraco e tanta a concorrência. Outros vêm, doutros lados, que não dividem territórios. Fazem as mesmas rotas, os dias é que alternam.
O viajante queria ouvir o homem sobre as passadas vidas africanas, lá tem as suas razões. Se era dono de machambas, ou cantineiro do mato, ou funcionário de alguma açucareira. Ou mesmo chefe dum posto qualquer. Nunca se sabe quando ficou lá para trás, enterrada na areia, uma garrafa de diamantes, como já temos visto. Mas o mestre vende pão e já partiu, que este serviço está feito e o resto falta fazer.
Ao contrário do que atrás prometeu, o viajante não voltará à rua de alcatrão. Segue até ao fundo do largo, donde parte uma avenida 25 de Abril. E o promissor topónimo, se já foi bandeira de tantas esperanças, apenas vem aqui alvoroçar contradições ao viajante. Entre as muitas alegrias que nasceram, e este desconforto que ficou. Mas em boa hora tomou tal decisão, que há-de encontrar no caminho quem lhe vai salvar o ânimo. É a dona Celeste que ali está, passada a primeira esquina, sentada a ler num banquito, à sombra da parede. Veio dar um sol às pernas, cansadas de tantas lidas que já não querem andar.
A dona Celeste põe o viajante a remorder invejas, por mais que uma razão. Está a ler um livrito das suas devoções e não precisa de óculos, embora leve já na conta os seus noventa e um anos. Além disso traz no rosto a maior serenidade que o viajante já viu, e oferece-lhe o ar mais manso que ele podia encontrar. O viajante, que a vida tornou céptico, olha para esta figura e fica sem saber o que fará do cepticismo. Diz ela que mora ali ao lado, na casa duma filha, embora tenha casa sua, muito perto. Mas não pode lá viver, porque a vida não é sempre o que esperamos dela.
Não nasceu nesta aldeia, criou-se na terra quente. Veio para cá trabalhar numa casa de comércio, com pouco mais de vinte anos. E quando o patrão morreu, que já era bem velho, os herdeiros viviam na cidade e entregaram-lhe o governo da casa. Eram as vendas do comércio, e as rendas de muitas terras, e a lã de vários rebanhos quando chegava a tosquia, e as vitelas que os pobres aí criavam à razão de meio-ganho.
Havia então um rapaz que ficara lá na aldeia e andava a requestá-la. Chamava-se ele Albino, e não viam outra coisa aqueles olhos. Mas ela ainda não estava decidida, o que mais a ocupava era a carga dos trabalhos e as obrigações que tinha. Ou talvez gostasse doutro, não sabe explicar bem, ele tinha-se ido à África e ainda lhe mandou cartas que vinham de Benguela. Mas breve pararam elas, porque apanhou uma febre e lá morreu.
Com uma tristeza assim, mais parado ficou à dona Celeste o coração. E foi no meio de tal indecisão que apareceu um rapazola, irmão do falecido, que andara em Matosinhos a servir de marçano. Deu-lhe pena o desamparo do rapaz. O Albino bem mandou dizer que dava cabo da vida se não casasse com ela. Mas quem é que ia levar a sério uma palavra assim?
O viajante está encantado a ouvir esta conversa, já se esqueceu dos conflitos que trazia. Senta-se numa pedra e nem desvia os olhos da figura.
Quando a vida do comércio acabou, os senhores que estavam na cidade mudaram-na de casa e fizeram-na feitora. Era a casa mais mimosa da terra, chamavam-lhe o paraíso. E foi então que aceitou o casamento, por causa da lida das terras, com o tal irmão do falecido em Benguela. No mesmo dia da boda, lá na terra onde ficara, foram dar com o Albino afogado num poço.
A vida da dona Celeste tem sido bem prolongada, mas não foi o que podia, nem o que merecia ser. Quem se quer fazer não pode, quem o é já nasce feito, como ela explica, serena. Criou os seus cinco filhos, que não se cansa de encomendar a Deus, e lá fizeram da vida o que souberam. Muitas vezes sente pena das sem-razões antigas de tanto mau viver, e das aflições em que eles se criaram. Mas o seu homem era assim, foi sempre um destemperado, um algoz ensoberbado que não chegou a crescer.
– Eu levei a cruz ao meu calvário, que sempre quis viver de coração lavado. Até que um dia, com oitenta e oito anos, tive que fugir à frente dele para escapar às bengaladas, com este braço partido e o sangue a cair no chão. Foi Deus que me arranjou forças para me arrastar até à minha filha.
A dona Celeste diz estas coisas terríveis como se não fossem suas. Tem nos olhos a mansidão tranquila de quem já fez pelo mundo o que tinha a fazer. Não venha ele a salvar-se, não estará nela a culpa. E agora só está à espera que Deus se lembre dela, e um dia a venha buscar. Ao viajante vem-lhe à cabeça um turbilhão de pensamentos, nem sabe bem o que fazer com eles. Alguma coisa o prende aqui, será porque está perto um paraíso. Mas decide ir-se embora, que veio à procura de conversa e acabou silenciado.
– Não tenha pressa de partir, não sabe a falta que faz!
– Que falta faço eu?!

Jorge Carvalheira

DEBATE?

Penso que o debate de ontem entre José Sócrates (PS) e Maria Avilez (PSD) foi claramente vencido pelo primeiro.
Curiosamente nunca vi na jornalista(?) Avilez tanta Aviltamento e Dureza a entrevistar um Durão.
Ou um Santana. Mas estes, com Marcelo, são os seus ‘meninos de oiro’ (sic. expresso). É verdade, Santana incluído!

Porra!

Ontem, numa das minhas voltinhas frequentes pelo dicionário de português, desta vez procurando um sinónimo mais ou menos paronímico da palavra “catamite” — definidora em dicionários ingleses do “rapazito mantido (fresco e saudável) para práticas sexuais”, etimologia latina pela via do etrusco, dizem-me eles — fui completamente distraído pela languidez ou preguiça do meu dedo que decidiu repousar em “catano!” e logo tomar uma bebida fresca, para apreciar com vagar a sua definição, de acordo com o evangelho dos dicionaristas portugueses.

Ficou o Tio Tadeu a saber que “catano!” é uma interjeição vulgar “usada como eufemismo para indicar admiração ou contrariedade”. Mas eufemismo de quê? Em princípio, de “catana”, palavra muito em voga nos anos sessenta nos manuais arsenalísticos dos movimentos de libertação africanos, antes das intervenções e contribuições do dólar e do rublo para animarem as festas balisticamente.

E andei eu um tempão do vergalho a pensar que “catano!” tinha mais a ver com o intuito de poupar certas senhoras e cavalheiros à ignomínia de terem de ouvir outras rimas mais mal sonantes. Por mera curiosidade, então a querer estender-se por influência do refresco, procurei debalde o eufemístico “poussa”, “poussas” ou “pouça”, de “pénis” ou “porra!”, também interjeição. E pagarei um copo de bom grado a quem descobrir no meu dicionário a palavra “caraças”, por vezes também explosão interjectiva na boca do palavroso e pobre vulgo. Se a encontrarem, tenho a certeza que ao lado dela lá estarão um par de carantonhas ou máscaras a provarem as origens e o poder dos eufemismos.

Mas, voltando ao “catamite”, talvez seja interessante notar aqui, a modos de fecho, o peso que as palavras, ou a eliminação total ou parcial dos seus significados, têm na preparação mental das pessoas para a moral política gizada pelas elites do beiço educado. Num dicionário “Oxford” de há dez anos, a palavra “catamite”, além da definição que acima dei dela para benefício do menino e vergonha do seu amo, também tinha uma segunda definição, que se escorria assim, para toda a gente ver: “a pessoa (partner) passiva em sodomia”. Num dicionário mais moderno desse mesmíssimo ilustre estabelecimento de ensino influenciador de governos e governação, tal definição foi pura e simplesmente excluída for good, quem sabe se por decreto ou se em reacção a um simples telefonema dum malandro qualquer. Ponha-se isso em termos de Narração Histórica das Coisas Mais Importantes e imagine-se o que a maltinha não anda por ai no dia-a-dia a engolir como verdadeiro, completo e bem contado. Os mais “progressistas” dirão que a exclusão dessa definição se justifica, para não se abusar da passividade de certa gente. São os que não têm voz activa nem passiva sobre nada, mas vivem na ilusão de que a têm.

TT

Pegos floridos

Nunca soube por que lhe chamavam Zé Maneto, se nada lhe faltava no corpo. Além do vinho, que desse andava sempre precisado. Aparecia lá em casa nos serões de inverno, quando acabava de cear. Pedia um copo, bebia dois ou três, aconchegava as pernas à lareira. E punha-se a desfiar enigmas e charadas, que ia inventar não sei onde. Seria a força do vinho, o alma do diabo!
Uma ocasião havia um franganote, que andava a namorar a filha do moleiro. Ia bem, o namoro. A um lado concordavam os pais, a outro tinha ela um riso transparente que endoidava a cabeça, e uns olhos de água que assim devia ser o mar. O mar eu nunca o tinha visto, não sabia o que era uma cabeça doida, e ficava-me para trás, a imaginar um riso transparente. Ele já lá ia adiante.
Um dia foi-se a ver a namorada, passou a tarde a ajudá-la na horta, a regar o linhal. E foi ao morrer da tarde que lhe deixou cair a escusada pergunta, quando é que hei-de cá tornar a ver-te. E ela, feiticeira, tornarás quando os pegos estiverem floridos, e os moirões já estiverem caídos, e quando os mortos forem enterrando os vivos, então cá tornarás. Disse isto e recolheu a casa, que a mãe a reclamava.
O mequetrefe passou toda a noite em contendas, a cabeça num badanal. Mas chegara atrasado à feira de Deus, o pobre. E não sabendo atinar com a hora da moleira, nunca mais lá voltou.
Passaram anos em que ele andou por longe, foi-se à cidade, fez vida. E na vida há sempre um dia, basta darmos tempo ao tempo. Nesse dia foi ele à festa da Senhora da Saúde, e encontrou-a a sair da capela, tinha acabado o sermão. Quando ela o viu, cerrou a catadura. – Desapareceres assim, nunca mais lá tornares, acabei por casar e fui viver para Sequeiros. – Hoje encontro-me viúva, tenho filhos por aí, já homens feitos, nunca mais lá tornaste… E os olhos a fugirem, perturbados. – Nunca atinei com a hora de voltar, ainda hoje a não sei, tornarás quando os pegos estiverem floridos, e agora me dirás que hora era a tua.
E ela, ainda bonitona, no rosto uma rosa a abrir. – Florescem os pegos todos, à hora em que dá neles o lume das estrelas; caídos estão os moirões quando os pais já não vigilam; e os mortos enterram os vivos, quando só sobrarem cinzas num fogo que se apagou. – Toda a noite esperei por ti, só a alta madrugada me venceu.
Bebia o último copo. – Para alumiar o caminho! – galhofava o Zé Maneto, que o sabia já de cor.

Jorge Carvalheira

Pai dos pobres

O Felisberto já desvendou o seu crime e já se despediu do viajante. Este fica sozinho, pensativo, e não encontra a ponta deste novelo, por mais que se interrogue. Por sua própria experiência sabe ser a ignorância a mais escura das noites. Mas fica sempre pasmado, diante da escuridão. Sobretudo se já não há milagre que lhe possa valer.
Deixa os pombais para trás e já lá vai, ao longo do paredão do cemitério, e decide fazer-lhe uma visita. A um lado porque um cemitério é um espelho do mundo, e a outro porque vai à procura de sinais dum homem corajoso, de quem ouviu falar. O cemitério é obra asseada, tem aspecto cuidado e dimensão apropriada. Logo nele avultam três jazigos a chamar a atenção, mas antes quer o viajante descobrir a campa do padre Júlio de Moreira, que aqui foi sepultado. Vai andando devagar, entre lápides de gosto duvidoso, e neste particular conclui que já tem visto pior. Porém, como noutros lugares, quanto mais recentes são as sepulturas, mais estapafúrdios são os arrebiques e mais surpreendente o bricabraque. Por razões que só eles saberão, decidiram os vivos obrigar os defuntos a tomar parte nestes festins de mau gosto bacoco.
Mas já o viajante encontra o que procura. Encostados a uma campa recente que lhe tomou o lugar, lá estão os restos da lápide funerária do padre Júlio, uma cruz celta e um livro de pedra que ali deixaram aberto, e nunca ninguém fechou. Antigamente havia símbolos na morte, havia um pensamento ritual, uma coluna quebrada, um anjo de asa caída. Agora há só alindamentos, enfeites de arraial, um dia em breve serão formas vazias, entulho cultural.
O homem era de Almendra. E logo que se fez padre veio parar a esta freguesia, estava a chegar aí o século XX. O padre Júlio jurara, de boa fé, o celibato dos cânones. Mas quando aqui encontrou a Carmina, teve mais força a vida que as papeladas dela. A voz comum acabou por estranhar tão chegada mancebia. E bem fez o padre orelha mouca aos ditos, mas o bispo exilou-o para Moreira de Rei, por trás daqueles montes. Foi então a vez de Carmina pôr os pés ao caminho. Era inverno, a chegar a primavera, e ela lá vai, ladeira abaixo, por entre as eiras da Varela, passa a ponte velha sobre a Teja, faz uma vénia contrita ao santo que além está na capela, um São Sebastião debaixo duns negrilhos, sobe os cerros do Montrangão, atravessa a charneca das Terras Grandes, e senta-se a descansar no alto de Moreira, abrigada à capela do mesmo santo que outra vez ali a está esperando, à entrada do povo. Carmina dá tempo que chegue o fim da tarde, para dar menos nas vistas.
Outra vez o bispo investe contra a mundaneidade, e outra vez resistem Carmina e padre Júlio, ninguém sabe agora dizer qual deles com mais vigor. O bispo suspende o pastor, tira-lhe o priorado, agita uma interdição. Carmina responde mudando-se para Moreira, e se este bispo fosse uma vez ao jardim do paraíso, já ficava a saber que nada tem mais força que uma boa paixão. No fim o bispo recuou. E Moreira, que já tinha tido um rei vencido, ganhou agora dois vitoriosos, e uma família nova.
A bem dizer o viajante não se agrada de fariseus fraldisqueiros, mas o padre Júlio era um homem justo. Percebeu a grandíssima distância que vai de Cristo à igreja que dele dizem. E, tendo que escolher, não hesitou. Entregava as pistolas ao sacristão antes de entrar para a missa. Mas cá fora era republicano, apoiava Afonso Costa, e defendia, ó deuses, as leis de separação entre a igreja e o estado, contra o cego furor da clerezia. Num dia de invernia entrou, para se aquecer, numa cozinha do povo. A dona da casa bem que lhe dava uma chouriça assada, era o melhor que tinha. Mas era dia de abstinência e ela não pagara as bulas. O padre tirou uma bula do bolso, embrulhou nela a chouriça, assou-a no borralho e todos a comeram, com grande satisfação e muito maior proveito.
– Adeus, ó pai dos pobres! – chorava o povo de Moreira, quando o padre morreu. O viajante pensa que não se pode levar prenda melhor, depois de morto.

Jorge Carvalheira

Portugal profundo – 3

Na estrada, a tabuleta anuncia o Solar dos Brasis, na aldeia chamam-lhe a Casa das Fidalgas. Não sei quem tem razão. Eu fui lá muitas vezes, atraído pela gala das talhas, pela febre das cores a gritar nas madeiras, e a simetria misteriosa das janelas, a fingir horizontes pintados nas paredes. E acabei feito pagão, perdido de amores por uma pujante madona de terracota, que escondia promessas carnais num manto azul a esvoaçar. Cheguei a congeminar o plano caviloso de raptar a madona numa noite de inverno.
Nesse tempo era vivo o Gastão, um caseiro que habitava os anexos e olhava pelo conjunto. Fazia bonecos de madeira a canivete, e flautas de cana que vendia aos passantes. Era naquilo tudo a única coisa viva, e queixava-se do IPPAR, e das águas no telhado, dos roubos das imagens e da segurança escassa. Levava-me às palmeiras do passal, à mãe-de-água de pedra à beira do ribeiro, numas terras que o fidalgo arrematou, à vinda do Brasil. Tinham sido confiscadas a um marrano qualquer, pela Santa Inquisição. Subíamos depois ao belvedere e mostrava-me o salão de honra, nos altos do torreão. Pendiam do tecto caixotões de santos, a ameaçar ruína, alguns a desabar por causa das humidades. Finalmente levava-me à capela, onde a santa, à minha frente, se desfraldava num pedestal.
Depois contava-me a história. Que D. Luís se foi ao Brasil, ao ouro, no tempo dele. Que era capitão da Armada Real, e provedor dos quintos de el-rei, em Vila Rica de Ouro Preto, nas minas de Sabará.
– O muito e o pouco passava-lhe pela mão! Era de el-rei, mas quem parte e reparte… – sugeria o Gastão, sem avançar.
D. Luís tinha em casa uma escrava da Mina, por quem se apaixonou. E trazia, no regresso a Lisboa, a mulatinha Angélica, que vemos nestes quadros. “Mercê que fez Nossa Senhora, no Instituidor, vendo-se em perigo de morte no sertão do Brasil, em jornada de 900 léguas às Minas do Ouro.” E lá estava um dragão pintalgado, a soprar fogo ao fidalgo em terror. “Milagre que fez Nosso Senhor … no mar da Bahia…”. E era um barco a adornar, a vela já perdida, o fidalgo no convés a amparar a mulatinha.
D. Luís era de Santa Marta de Penaguião. E, ao ver-se em aflição, prometeu erguer à Senhora da Penha esta capela. Ao lado do solar, e dum convento franciscano que não chegou a existir. “Onde o meu cavalo parar, aí o santuário hei-de levantar.” O cavalo é que escolheu este lugar, concluía o Gastão. E mostrava-me, num livro dum letrado, que o fidalgo tomara ordens sacras ao fazer sessenta anos, que a mulatinha morreu sem descendência no ano em que assaltaram a Bastilha, e que o Solar dos Brasis é um testemunho da boa aplicação em Portugal do ouro de Sabará. Eu sempre vi neste solar um túmulo, entre muitos, onde embalsamaram Portugal. Mas nunca cheguei a dizê-lo ao Gastão.
Não sei se os caixotões acabaram por cair, nem se a madona continua lá, a esvoaçar no pedestal. Quando há dias voltei ao Solar dos Brasis, o Gastão tinha acabado de morrer. E o IPPAR pôs um telhado novo ao torreão, e trancou as portas e as janelas com grades de ferro chumbadas na ombreira. Fica-me a pena de não ter assaltado a madona, numa noite de inverno. Mas ainda bem que o Gastão foi embora, sem saber a verdade.

Jorge Carvalheira

Não levem a mal

Espero que não me ponham a ferros por dizer isto, mas eu estou convencido de que a maior parte da rapaziada dos dois sexos que aqui vem matar o tempo ou irritar-se, ler mexerico fresco e novidades do para-socialismo socrático, dar ou levar porrada de criar bicho, fazendo uso de pulmão ou megafone, a primeira coisa que faz é dar um relancear ao nome de quem assina o post. Quando o nome agrada ou convém, algo que tem pouco ou nada a ver com o apreço ou admiração que se tem pelo escriba despejador, já todos têm uma ideia do número de palavras envolvidas. A seguir, computa-se tudo isso em dois segundos e meio e consulta-se a lista de autorizações e prioridades penduradas no interior das próprias cabeças de acordo com as preferências políticas ou outras e perde-se mais um segundito ou dois a coçar queixos, ponderando se realmente merecerá a pena perder o tempo precioso. Se ainda indeciso, apesar do arsenal racionalista que utilizou, o leitor, ou leitora, calmamente dando volta à manivela da rotina defensiva, pode passar à fase seguinte que envolve o sacrifício de ler as primeiras linhas do post, não vá perder algo interessante. Umas vezes, meio-prendido pela curiosidade embriagada lá se vai deixando levar à espera que tudo resulte no orgasmito final que bem precisa, outras não. Sem vergonha, também me confesso vítima ocasional desse vício.

Fiquem com esta mensagem dum senhor cansado. Quando eu aqui voltar novamente, sugiro sem entusiasmo ou interesse de qualquer espécie que continuem a ler-me. Ou, alternativamente, façam o que lhes der na real gana e viva a liberdade saloia e colorida. Não liguem à redundância pleonástica dessa sugestão e desta explicação, pois fazem parte do discurso. O que eu realmente vos queria dizer é que não me leiam por mercê ou obrigação. O obséquio e graça reivindico-os como meus, porque sou eu que tenho de dar volta ao miolo a escrever coisas fastiosas, esforçando-me para excitar sem ofender demasiado, provocar sem cair voluntariamente em subterfúgios linguísticos que frequentemente convidam ou encorajam os menos dispostos ou desmotivados, tipo senhora bigornas, a não lerem. Concluo assim, sem ter encontrado espinhas nenhumas pelo meio. Mas não prometo nada para o futuro na área da franqueza escandalizante, nem posso garantir que as novidades irão ser só gozo, desfile de cabeçudos pela avenida portuguesa abaixo. No entanto, esperança é sempre bom tê-la, pode ser que lhes venha a falar dalguma coisa útil, pelo menos superficialmente lembradora do fundamental, do importante, que vocês depois burilarão, aperfeiçoarão e polirão com a ajuda dos vossos instrumentos de gente mais educada do que eu. Todos sabemos que a “importância” que se dá a certas coisas é sempre, simplifiquemos, relativa, influenciável, corrompível e dependente, sobretudo dependente da maneira como se observa, como se pesa o que se lê e se compara, muitas vezes seguindo fielmente opiniões dos nossos amigos e tutores que não nos conhecem, ou conhecem bem demais, parte deles consumadas varinas da tradição que fomos ensinados a admirar e imitar. Mas não subestimem nem esqueçam, e isso é que é realmente soberano, os perigos, as consequências irremediáveis de não nos importarmos de sermos mais uma das muitas vidas que andam por aí rés ao chão, a debicarem migalhas caídas de papo-secos tradicionais fabricados com farinhas magras e refinadas, roubadas do farelo nutritivo e dos minerais preciosos.

TT

Passeio bloguítico

No blogue colectivo Da Literatura, Eduardo Pitta assinala o reaparecimento de Diário Íntimo, livro de poemas de Luís Amaro. Belo livro, excelente edição. Acertada lembrança.

Em Blue Everest, João Camilo reflecte sobre as vantagens do silêncio. Transcrevo:

Não falar é não querer distinguir, preferir não tomar partido. Quem não fala não escolhe, mas também não recusa; não acerta, mas também não erra; não agrada, mas também não ofende; não mostra que sabe, mas também não mostra que ignora; não se auto-retrata, mas também não tem a pretensão de retratar o mundo; não elogia, mas também não condena; não se compromete, mas também não compromete ninguém; não adula nem põe num altar, mas também não calunia nem ostraciza; não se eleva, mas também não se rebaixa. Quem não falou não tem de falar de novo para corrigir o que disse antes. Apesar disso falamos. Porquê?

Ida e volta — as opções

Pega comigo e vai comigo num barco qualquer, a remos ou à vela, tanto faz, e vamos procurar a terra dos francos que nos espera no outro lado do mar. Para ganhar e aprender ou para levar no toutiço do juízo, como nos velhos tempos de Paris. Não temas vagas alterosas, nem ligues ao sal frio e liquefeito que inevitavelmente nos refrescará as caras e os corpos na viagem de quase-aventura. Não tenhas medo que não estás sozinha. Irei contigo duma margem à outra, haja o que houver. Os nossos corpos unidos em calor-paixão de procura de lazer-prazer (desnecessariamente caro, necessariamente defendido pelo poder fictício do cartão de crédito que o Big Brother nos pôs na mão) apertar-se-ão ainda mais se os perigos de navegação se apresentarem com caras sujas de ventos contrários à nossa intenção firme e jurada de vermos e compreendermos mais — intenção que força, como tu e eu muito bem sabemos, à limpeza de coisa antigas em caves e arquivos mentais onde se passeiam ratas velhas sob ruínas de teias de aranha dos tempos do Aprendizado.

Era assim que eu gostaria de ter atravessado o Canal da Mancha, com uma companheira presa ao meu destino, num bote ou lancha. Em vez disso, meti-me no ventre duma enorme toupeira sobre carris, que já ameaça desastre financeiro pelas bocas de alarmados e hipócritas Cityistas londrinos, em Folkestone e saí no outro lado, lá para as bandas de Calais, terra de muita cebola e gritos de cebolório!

Mas nada se passa, nem nas idas nem nas voltas, como a gente gosta, isto é, de como gostamos de ver narrado em poemas leves mas ricos em oxigénio e rabanadas de vento. Jubilante e comovedor e realmente gratificante seria eu chegar aqui todo ufano e a suar para contar aos rapazes e raparigas os resultados da Conferência de patriotas americanos em LA sobre a característica indesmentível e inegável de inside job que tresandou do churrasco humano em Nova Iorque há cinco anos. Do meu discurso, se lá tivesse ido a convite, se me tivessem dado importância, se soubessem que existo, sacaria seguramente as passagens mais relevadoras e reveladoras — as do tipo de entrar sem oposição de nenhuma espécie pelas cabeças dentro de qualquer nhurro português com preocupações verdadeiramente democráticas, e tenho a certeza que pasmaria alguns deles. Mas não, em vez disso, volto, como muitos outros voltam doutros lados onde vão esquecer dívidas e frustrações e dizer mal de patrões, cansado de duas semanas de férias self-catering numa manoir, num chateau, como o seu dono gosta de chamar-lhe para acentuar o seigneurismo que escorre dalguns cantos teimosamente escuros e impermeáveis aos olhares de estranhos.

TT

Portugal profundo – 1 (encore)

Alguma ingenuidade impediu-me de prever um manual explicativo ao texto anterior, em forma de relatório burocrático. São formas que dizem muito menos, sobre qualquer assunto, como geralmente é sabido. Mas são mais explicadinhas, dão menos trabalho a ler. E assim servirão melhor às zonas mais sensíveis da respeitável caixa de comentários.
Toda a gente sabe que o país é uma aranha. Tem um rotundo ventre centrado na capital e as patas nas auto-estradas. E uma Casa da Música fazia falta ao Porto, tanto como o pão da boca. O Porto ia a concertos ao Coliseu, à sua Traviata, nos intervalos dum circo ou de espectáculos avulsos, sem desprimor. Há muitos anos que a cidade já merecia outra coisa, abençoada Casa.
É ela um meteoro vanguardista, e não peca por isso. Embora fique a suspeita de ter havido ali um sacrifício à forma, mais que à função. Caiu ali e provocou em volta ondas de choque, que as rugas no terreno atestam. São de mármore travertino, os ondulados. Vieram da Jordânia e são perfeitos.
A estrutura é de betão pigmentado, apto a assumir a patine mais adequada, quando os anos passarem. E de alumínio e vidro. Tem lá dentro um quilómetro de escadarias e um mundo inteiro de arrojos tecnológicos, que nos escapam à imaginação. Na construção e na acústica. O coração do conjunto é a Sala Guilhermina Suggia, cuja acústica (a da sala) já se coloca entre as melhores do mundo. Atentos, nas paredes, enquanto nós estamos ali refastelados, há componentes específicos de madeira que se ocupam de modular-nos os graves, os médios e os agudos. Os painéis das paredes têm revestimentos a folha de ouro, a sugerir os veios da madeira. E melómanos há que já levaram para casa um ourito raspado na unha do mindinho. Os veios de ouro estão ali a sugerir-nos o período barroco, o tempo dos desvarios dum rei que nos coube em sorte. Ou nossos, não sei bem, que isso não foi explicado.
A Sala, cobrindo a orquestra, dispõe duma canópia em PVC, que pesa quatro toneladas. É única no mundo (outras pesarão quarenta) e move-se a impulsos dum computador. Na parede da direita ressalta a caixa barroca dum órgão de tubos, a fazer lembrar uma nave de Mafra. Na da esquerda está a caixa doutro órgão de tubos, mais tardio. Chamaram-lhe romântico e não faz lembrar nada. As caixas sobressaem ali, nos seus volumes, por enquanto silenciosas, por estarem vazias. Não tem havido verbas para lhes meter lá dentro a maquinaria que lhes é própria. Mas esta capela imperfeita não nos interessa muito, que basta adaptar-lhe o reportório.
A nascente e a poente há janelões de vidro a receber a luz. É um vidro grossíssimo, ondulado, por causa da refracção, e forma dupla parede, para obviar aos gritos das ambulâncias. Os planos do vidro, com doze metros de comprido, vieram duma fundição de Barcelona. E os janelões têm cortinas acústicas para fechar, para dosear, ou para velar a luz. A Sala dispõe de 1238 lugares, em tudo equivalentes, além de um vasto coro nas costas da orquestra, que pode ser ocupado segundo as necessidades. E bem assim dois camarotes laterais, que parecem reservados a VIP’s e não o são.
Além deste auditório há um segundo, mais pequeno, que é menos bafejado pela tecnologia e não provoca sobressaltos. O resto, dentro da Casa, para lá do administrativo indispensável, são aproveitamentos acessórios, que têm o seu papel: câmaras de trabalho e ensaio de artistas, um atelier de criação musical infantil computorizada, um outro de workshops juvenis, e um espaço de baby-sitting, com acesso auditivo opcional aos espectáculos.
Por ser o município mais destratado pela dita síndrome da aranha capital, e por jogar no todo do país uma função maior, o Porto precisava duma Casa da Música. E o meteoro realmente embasbaca. Mas tem o seu senão. A um lado, quando quiserem voltar à Traviata, ou aguardam os portuenses a saída dos leões e voltam ao Coliseu, ou mandam o chauffeur rumar a outras paragens. Porque a Casa da Música é um concert hall, uma Philharmonie de gente rica. E o conceito não prevê fosso de orquestra, nem os equipamentos requeridos por recitais operáticos. Embora a meio caminho, não perderam tudo, os portuenses. Já podem assistir como gente à 9ª de Beethoven, sem pedir contenção à vizinhança. Porém, à fortuna que se enterrou ali, de impostos de quem os paga, merecia esta cidade melhor sorte.
E falta o último lado, ao janelão poente. Ali ao pé já se escavam os caboucos duma sede bancária, com 50 metros de altura. Vai comer ao meteoro metade do fulgor arquitectónico. Há gente, mesmo assim, de olhos em bico, inchada de contente. Eu comungo do seu contentamento, na suspeita de que não temos remissão.

Jorge Carvalheira