Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

«Jogar bonito»

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Hoje, no «Público», o jornalista JORGE MARMELO escreve na sua crónica desportiva, a propósito do Mundial em curso:

«Quando a Alemanha, bem vistas as coisas, tem sido, entre as quatro semifinalistas, a única equipa capaz de jogar a bola de forma minimamente empolgante, está tudo dito. O resto é futebolzinho de risco zero, burocrático e calculista, caravaggiano e fatimista».

Há ainda uma oportunidade para ganhar, ou para perder, dignamente.

O escritor Manuel Jorge Marmelo está aqui. E o blogueiro aqui, com um obrigado ao Joao Luc.

Sem olhos em Gaza

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No Knesset, já há quem peça a “obliteração” de Gaza. Enquanto estes extremistas não passam a maioria, toda a população da Faixa de Gaza vai sendo castigada pelas acções de outros fanáticos. E a vida de milhões permanece sequestrada pelos que julgam só poder contentar os seus usando a violência à mínima oportunidade.
O soldado raptado continua longe de casa; entretanto, seu exército persiste nos raids contra a “infra-estrutura civil do Hamas”; incluindo orfanatos e lojas de brinquedos.
Aos homens de bom-senso, pouco mais resta que continuar a fazer propostas já desesperadas que ninguém ouvirá. E actualizar a contabilidade mais funesta.

Portugal profundo – 2

Vais-me dizer que eu inventei a história. Que eu sou um cínico e a história é impossível. Andas muito longe da verdade.
O padre Abreu não é padre, nunca chegou a sê-lo. Não tem cabeça para teologias, e as latinadas cansam-no. Mas veste-se à futrica, como os padres modernos, e sempre que pode exercita a função. Mora aqui na cidade. E o povo, que não separa o facto do direito, chama-lhe padre Abreu. Terá razão, que o padre Abreu não sonha com outra coisa, passa a vida na sé. Ajuda à missa, cuida da liturgia, aconselha as devotas e decora os responsos. Já perdoou pecados capitais, e há gente que entrou no céu por sua mão.
Há tempos havia que enterrar um cristão numa aldeia, dessas despovoadas, onde nem padres vão. E o padre Abreu lá foi, a encomendar o defunto, a fazer-lhe o funeral. Mas os parentes vieram a saber que o padre Abreu nunca tomara ordens, e temeram o pior. Puseram-lhe uma demanda em tribunal.
O padre Abreu sentou no banco dos réus a gravidade e a mansidão dum sócio do Vaticano. Alegou em defesa o serviço de Deus e afiançou as encomendações.
– Pois faça aí o responsório dum defunto! – ordenou o juiz, a esfolhear os códigos. – Já veremos se merece remissão!
Não pedia outra coisa, o padre Abreu. O meretíssimo chegou ao fim apaziguado, como quem deixa um amigo em boas mãos. E absolveu o réu.

Jorge Carvalheira

Portugal profundo – 1

Quem vai ao Porto vem do sul. Chega à margem do rio e dá com o Porto do outro lado, húmido e escuro, como as pedras antigas. A cair devagar pelas escarpas. Fizeram-no assim para durar muito, como os casacos velhos. Já não agasalham grande coisa, mas ainda servem.
Um poeta chamou-lhe o arrabalde de si mesmo, e quem o fez assim nunca mais olhou para ele, até chegar, em 2001, a Capital da Cultura. Algumas ruas ficaram transitáveis.
O Porto é o retrato mais inteiro que se pode fazer de todos nós. Cabemos todos lá. É o país integral, tirando os arrebiques. Ao pé dele um Rossio qualquer, um largo em Santarém, uma Albufeira de cimento, são curiosidades modernas.
Como imagem dum país de equívocos ou mitos, o Porto junta aos mitos os equívocos. O vinho, que é da casa, vem todo do Pinhão. Ufana-se de ser a terra do trabalho, quando apenas esbraceja a ver se mata a fome. Quando começa o verão solta no ar balões de mecha a arder, para ilustrar o S. João e incendiar pinhais. A cidade mais paroquial do hemisfério, onde o Mozart é muito conhecido porque já jogou nos lampiões, exercita o efémero em Serralves, vai a concertos minimais no Rivoli. E mandou fazer uma Casa da Música, multiplicando por três os prazos de entrega, e por seis o orçamento. Ficou com um vistoso meteoro, onde alternam lanços de escadaria com firmamentos vazios.
A zona histórica do Porto foi, há dez anos, património mundial. E agora, por já não ser português, desaba o património nas escarpas. O resto da cidade antiga é um campo devoluto, a apodrecer aos poucos, entre cheiros a mofo e a óleos de cozinha requentados.
Toda a beleza concentrada do Porto não enche um pátio de Évora. O lugar mais nobre da cidade, que são os Aliados, faz de largo das camionetas. A roncar, ao ralenti, à espera do horário da tabela.
Se os portugueses todos fizessem Portugal, punham sotaque do Porto, o único com marca na ourela. Levantavam-se cedo e iam a Lisboa, tirar a capital da cama. Assim, nem o rio mais homem deste mundo resiste a esta cidade. Quando lá chega encolhe-se, mete o rabo entre as pernas, e safa-se para o mar. Como ribeira qualquer do sexo fraco.

Jorge Carvalheira

Neo-realismo

Um grande mar foi o que deixou na campina a chuva de quarenta dias e quarenta noites.
As vinhas morreram afogadas no lodo.
Os ratos e os bois estrebucharam na torrente, e lá foram.
Os homens ficaram torcendo as mãos, desamparados.
Melhor fizeram os galos e os pardais, que assaltaram a ventana do campanário.

Jorge Carvalheira

Decomposição artística

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A peça de Damien Hirst que há pouco se aproximou do recorde de preço para obras de um artista vivo está a apodrecer. O tubarão que habita The physical impossibility of death in the mind of someone living, encomendada em 91 pelo publicitário Charles Saatchi, apresenta claros sinais de decomposição. Pouco atraído pela perspectiva de poder ver o espectáculo de 9 milhões de euros a desfazer-se na sua sala de estar, o infeliz proprietário está a tratar, com o artista, de substituir o inquilino da precária obra por um espécimen mais resistente.

Como é simples o mundo de quem vive entre estereótipos…

Luciano Amaral continua a partilhar connosco a sua singela visão do Mundo. Para ele, qualquer um que não partilhe a sua sageza, além de por certo pertencer à Esquerda, essa infame turba, é um néscio incapaz de largar «o keffieh (sabem, é o lenço palestiniano) e a boina do Che, para além dos cartazes habituais: “Bush=Hitler”, “Bush Go Home”, “Terrorista Mundial n.º 1”, “Assassino em Massa” e restantes mimos da ordem»; um dos «guevaristas e racistas» que poluem as ruas europeias a cada visita de George Bush.
Este intelecto ponderoso explica-nos hoje que antes de se fechar a vergonha de Guantánamo será «preciso saber o que fazer com aqueles 500 prisioneiros, que ninguém quer propriamente ver por aí à solta.» Ou seja, mesmo sem julgamentos, culpa formada ou grande informação sobre eles, o bom do Luciano já os sabe armados com os chifres do demo. E, para a sua mente iluminada, haveria uma saída bem desejável: «porque não deixar a Europa tratar do assunto?» Mas claro: os EUA que os detenham e sujeitem sabe lá Deus a quê, em flagrante fuga a todas as disposições legais americanas e internacionais; agora, o mais lógico seria a Europa tomar conta da ocorrência e limpar o lixo. Claro.
A teoria geral deste colunista é que mais vale fazer qualquer coisa, mesmo que às cegas e à bruta, do que investir em maltosa como a da ONU, ineficaz no «Ruanda, no Congo, no Darfur ou em Timor.» Como se estivéssemos na presença de dois blocos antagónicos e mutuamente exclusivos: os EUA e as Nações Unidas. Como se os primeiros não fizessem também parte dos problemas (e das parcas soluções) da ONU.
A derradeira frase deste texto é uma definição lapidar deste pequeno mundo a preto-e-branco: «É fácil e sempre dispensa de se pensar e fazer qualquer coisa.»

PS: nem de propósito. Hoje mesmo, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tratou de demonstrar qual será o caminho para Guantánamo: a sujeição às leis americanas e às garantias constitucionais, escapando aos inflacionados e auto-atribuídos superpoderes de Bush II.

“Raptados pelas emoções”

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Os jornais israelitas e de todo o mundo continuam a encher-se com os passos frenéticos da última corrida para o abismo no Médio Oriente: agora, é a Síria a visada, com caças israelitas a sobrevoar o presidente Assad. Em Gaza já não há electricidade e várias pontes foram bombardeadas pelos aviões israelitas. Até onde irá chegar mais esta escalada insana, ninguém pode calcular.
Mas ainda se fazem ouvir por ali ouvir mais do que gritos de guerra e pedidos de sangue. E talvez ainda haja tempo para que alguém repare na justeza deste texto do colunista Akiva Eldar; ali são relembradas palavras de um antigo vice-primeiro ministro de Israel, há pouco mais de um ano: “estamos cansados de lutar, estamos cansados de ganhar, estamos cansados de derrotar os nossos inimigos. Queremos ser capazes de viver com relações totalmente diferentes com os nossos inimigos. Queremos que eles sejam nossos amigos, nossos parceiros, nossos vizinhos”.
Agora, esse antigo “vice” já é primeiro ministro e tratou de esquecer a promessa de bom senso e o cansaço do sangue: “todos na Autoridade Palestiniana estão entre os responsáveis e nós não lhes daremos qualquer imunidade”; “o mundo está farto dos palestinianos. Até agora, as nossas respostas têm sido comedidas. Isso acabou.”
O que acabou mesmo foi a promessa de acalmia na zona. Emboscada por extremistas, executada pelos mísseis de outros extremistas. E claro que não é por acaso que o ataque aos soldados israelitas que serviu de pretexto para a presente crise aconteceu justamente quando se discutia o “Documento dos Prisioneiros” (que aliás já fora recusado pelos mais radicais).
Como bem pergunta Eldar: “será possível que um estadista sábio mude a sua doutrina por causa de um bando de lançadores de foguetes? Será imaginável que um líder esqueça a sua visão por causa de um falhanço militar que custou as preciosas vidas de dois soldados e a captura do seu colega? Ainda não aprendemos que, na relação entre nós e os nossos vizinhos, a força é o problema, não a solução?”
A resposta, infelizmente, é uma só: quando os violentos se sentem com poder para esmagar os seus vizinhos, tratarão de o fazer à mínima oportunidade. Quer sejam loucos a enviar os filhos dos outros para o martírio ou estadistas que já souberam anunciar sonhos de paz quando tal lhes convinha. Todos se deixam raptar pela febre da guerra com gosto. E ai de quem seja apanhado no meio.

Crítica, tomates e outros inchaços

Desta vez, Augusto Manuel Seabra colocou o dedo na ferida. E ousou ofender, imaginem, a vaca sagrada EPC. Sei que o “Público” está offline para não-pagantes, mas o Google dá uma ajuda (não digam a ninguém como, por favor).
E ainda há uma pungente nota de rodapé neste drama em que a expressão “débil mental” aparentemente chegou mesmo às impressoras: a mini-polémica com a “Bomba Inteligente”. Se querem uma actualização da história da rã que inchou sem mesura porque se achava fadada a boi, não percam estas pérolas: «o parágrafo de Augusto M. Seabra nada mais é do que um exemplo de cobardia (…) O que Seabra não percebe é a qualidade de leitura nos blogues, nomeadamente de alguns, como é o caso deste», «Quanto ao comentário de desconhecer se sou Bomba, poupe-me a essa conversa pobre de blogue anónimo com três visitas diárias». Como exemplo de solipsimo blogosférico incapaz de sonhar que existe alguém sem um blogroll sempre à mão, é difícil imaginar melhor.
Polémicas menores à parte, foi para mim agradável constatar que o bom Augusto M. Seabra os tem bem no sítio. E nós temos homem.

Bolhinhas e racismo

O rapper e produtor Jay-Z lançou há dias uma cruzada contra o champagne Cristal. O motivo? O presidente da casa produtora teria afirmado que a elevação do seu produto à categoria de ícone do hip-hop era “atenção indesejada”. Jay-Z reagiu ao ultraje berrando “racismo!” e apelando ao boicote: “I view his comments as racist and will no longer support any of his products through any of my various brands, including the 40/40 Club, nor in my personal life”.
Que ninguém gostaria de se ver associado à cultura “bling-bling”, com a sua hedionda acumulação de seios extravasantes, veludos foleiros, Rolls Royces cor-de-rosa e jóias a rodos, parece-me evidente. Que tal seria verdade mesmo se a malta em questão fosse composta por metaleiros loirinhos do Alabama também tem ar de coisa óbvia. E o pior vem quando se lê que a expressão “unwanted attention” nem sequer foi proferida pelo gestor da casa Roederer. Mas o boicote continua de vento em popa. Já devemos ter chegado à silly season.
Ah, é verdade: cada garrafita de Cristal custava, nos bares de Jay-Z, entre 450 e 600 dólares.

O seu a sua dona

Anda por aí meio mundo a tentar escolher a Grande Figura do jogo com a Holanda e poucos procuram no lugar certo. Não falo do árbitro que arruinou o que poderia ser um jogo excelente, nem da inenarrável cabeçada de Figo, nem na falta de desportivismo exibida nas fitas, no teatro e no anti-jogo descarado (não que tenha sido a nossa equipa a única a pecar).
Segundo opiniões abalizadas, é sim hora de entregar os louros devidos à Nossa Senhora de Caravaggio. Já o li em vários sítios. Deve ser verdade.
Mas fico sem perceber como é que a pobre senhora, com o fraco ar que ostenta, pode ter ajudado no que quer que fosse. Não percebo mesmo grande coisa de futebol.

Mares da China

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Encerrou-se, em Roterdão, o festival da Poetry International deste ano. Um dos grandes momentos foi, para mim, a actuação do poeta chinês Han Dong, representante – assim foi dito – de certa nova corrente, que preza a linguagem comum. Aqui fica um poema seu, traduzido graças à versão neerlandesa, comparando-a com a inglesa.

Com que então viste o mar

com que então viste o mar
tinhas uma ideia dele
do mar
primeiro tinhas uma ideia dele
e depois viste-o
pois é
então viste mesmo o mar
e até tinhas também uma ideia dele
mas não és
marinheiro
pois é
portanto tinhas uma ideia do mar
e viste o mar
se calhar até gostas a sério do mar
pois é tal e qual
então viste o mar
e tinhas uma ideia dele
não estás a querer
afogar-te na água do mar
pois é
isso vale para muita gente