Portugal profundo – 1

Quem vai ao Porto vem do sul. Chega à margem do rio e dá com o Porto do outro lado, húmido e escuro, como as pedras antigas. A cair devagar pelas escarpas. Fizeram-no assim para durar muito, como os casacos velhos. Já não agasalham grande coisa, mas ainda servem.
Um poeta chamou-lhe o arrabalde de si mesmo, e quem o fez assim nunca mais olhou para ele, até chegar, em 2001, a Capital da Cultura. Algumas ruas ficaram transitáveis.
O Porto é o retrato mais inteiro que se pode fazer de todos nós. Cabemos todos lá. É o país integral, tirando os arrebiques. Ao pé dele um Rossio qualquer, um largo em Santarém, uma Albufeira de cimento, são curiosidades modernas.
Como imagem dum país de equívocos ou mitos, o Porto junta aos mitos os equívocos. O vinho, que é da casa, vem todo do Pinhão. Ufana-se de ser a terra do trabalho, quando apenas esbraceja a ver se mata a fome. Quando começa o verão solta no ar balões de mecha a arder, para ilustrar o S. João e incendiar pinhais. A cidade mais paroquial do hemisfério, onde o Mozart é muito conhecido porque já jogou nos lampiões, exercita o efémero em Serralves, vai a concertos minimais no Rivoli. E mandou fazer uma Casa da Música, multiplicando por três os prazos de entrega, e por seis o orçamento. Ficou com um vistoso meteoro, onde alternam lanços de escadaria com firmamentos vazios.
A zona histórica do Porto foi, há dez anos, património mundial. E agora, por já não ser português, desaba o património nas escarpas. O resto da cidade antiga é um campo devoluto, a apodrecer aos poucos, entre cheiros a mofo e a óleos de cozinha requentados.
Toda a beleza concentrada do Porto não enche um pátio de Évora. O lugar mais nobre da cidade, que são os Aliados, faz de largo das camionetas. A roncar, ao ralenti, à espera do horário da tabela.
Se os portugueses todos fizessem Portugal, punham sotaque do Porto, o único com marca na ourela. Levantavam-se cedo e iam a Lisboa, tirar a capital da cama. Assim, nem o rio mais homem deste mundo resiste a esta cidade. Quando lá chega encolhe-se, mete o rabo entre as pernas, e safa-se para o mar. Como ribeira qualquer do sexo fraco.

Jorge Carvalheira

25 thoughts on “Portugal profundo – 1”

  1. Quem vai ao Porto vem do sul? Bem, comigo é geralmente assim. Mas também já me aconteceu ir ao Porto vindo do norte. É tudo questão de ponto de vista.

    É como o Alentejo. Para mim, Além Tejo é do Ribatejo para cima.

  2. Talvez que para quem chegue do Sul seja assim: a cidade-referência (“daqui houve nome…”, equívoca, vetusta mas oca (de alma, de conteúdos).

    Mas nada mais enganador que a visão da cidade isolada da sua região e a região é o antigo Minho (Minho+Douro Litoral), onde as qualidades e os defeitos ganham a força das metrópoles, mesmo quando dando ideia de adormecidas às encostas.. ribeirinhas.
    E depois há o Rio, mas desse não se explica: fica a sugestão:http://imagomundi.blogs.sapo.pt/1199.html

  3. sou leitora assidua deste blog desde o seu começo. Sou do Porto. Fiquei sentida e desiluda com estas palavras. Texto de quem não conhece o porto nem portuenses. Atitude típica de lisbetazito que acha que tudo o resto é província…Estou farta deastas ignorâncias. De não se aceitarem as diferênças. De acharem que só o que é lisboeta é bom, culto e in. Temos sotaque, pois temos. E ainda bem porque o som da nossa lingua portuguesa nas bocas dos lisboetas é muito asséptico. Sei que isto não interessa a ninguém mas foi a última vez que cá vim. Felicidades

  4. A sala de teatro com maior taxa de ocupação do país é o Teatro S.João. O museu mais visitado é o MAC Serralves. O programa de música mais consistente e variado que se faz por aí tende a ser o da Casa da Música. Acho que não preciso dizer mais nada a não ser que venham ao Porto sem preconceitos!
    S.João a incendiar pinhais… isso é do mais ridículo que li nos últimos tempos. Até vos fica mal.

  5. Mariana:
    Ninguém lamentará a sua deserção mais do que eu. Não creio nela, de resto.
    Eu também vivo no Porto. Mas a senhora tresleu-me o texto. Diz que está lá o que lá não está. E no que diz só há uma verdade: ‘o resto é província’.
    E não devia ser. Mal de nós se o for toda a vida.

    António Pedro:
    Nestas coisas, o pior que se pode fazer é ir para casa e fechar a janela. E ficar lá dentro, de olhos fechados, à espera que a chuva passe. Ela não passará.

  6. Sou lisboeta, e não concordo com este senhor.
    Que texto lamentável… Nem merece sequer ser comentado, de tão inculto e ignorante que é.

  7. só para equilibrar um bocado as coisas, não sou do porto mas vivo cá há 5 anos. estou plenamente de acordo com o jorge. mas destas discussões já tenho rodagem. a conclusão a que sempre cheguei foi que “quem feio ama, bonito lhe parece”.

  8. É verdade que o Porto está ao abandono, desertificado e reduzido a caboucos de obras infindas, que se ressente de uma política de urbanismo inexistente, etc, etc., etc. Mas não estará o país todo nas mesmas condições? O que são as ruas de Lisboa senão um gigantesco parque de estacionamento? E Braga, não foi arrasada pelos camartelos da ganância e da estupidez imobiliária? E Coimbra, Faro, Vila Real? O Porto, apesar de tudo, não é o exemplo mais flagrante de depredação urbana neste país. Muito pior está Lisboa, por exemplo.
    Quanto à vida cultural, é tão apática, provinciana e insignificante no Porto como no resto do país, capital incluída.

  9. “Como é que um criador de galos e coelhos de Maputo chamado Alkatiri, com grandes responsabilidades nos massacres de 1975, poderia dar um bom primeiro-ministro de um país ?
    Kitéria Bárbuda in “Gripe Aviária”, Revista “Espírito”, nº 34, 2006.

  10. … e as “francesinhas”, já não são que eram. Um dia destes a cáfila que urde por aí (entenda-se na cidade do Porto) será aniquilidada. Ai vai…vai!

  11. Estranho e louvo os comentários que fazem apelo à razão para comentar este desabafo pouco inspirado.
    À moda do Porto, que é a minha, a coisa far-se-ia assim: Ler atentamente o texto, sem revelar qualquer tipo de reacção. No final, recorrer a um tom de voz o mais neutral possível, em ligeiro diminuendo, e dizer, pensando no autor com o carinho de que cá no burgo somos capazes: “Ó meu grande filho da p…!”

    E assim o relato, mas não fiz por mal.

  12. Tenho de concordar com Nosferatu. Infelizmente o Porto sofre dos mesmos males que as restantes cidades do país.

    O post que acabei de ler está deveras desiquilibrado. Foi injusto. Fiquei triste. “Porto Sentido”.

  13. “Porque nasci no Porto sei o nome das flores e das árvores e não escapo a um certo bairrismo. Mas escapei ao provincianismo da capital”
    Sophia de Mello Breyner Andresen

  14. E que melhor do que as palavras de Eugénio de Andrade a propósito da Invicta?
    “Se na nossa cidade há quem troque o B pelo V, há muito pouco quem troque a liberdade pela servidão”.

  15. Se veio de sul, chegou ao Porto e escreve como escreve, então não aprendeu rigorosamente nada!!!! É pena mas, de facto, o Porto não é para todos!

  16. Que bom, andar em viagem e poder ser aqui, de repente, o nº vinte!

    O texto do Jorge é o de alguém que ama uma cidade. E, porque ama, exige.

    (E aproveitei para apagar um comentário ofensivo, recorrente em textos do Jorge, e parvamente aproveitador do seu patronímico).

  17. Ó Fernando Venâncio, o Jorge não é o seu alter ego?
    É que só uma pessoa que não é do norte diz “quem vai ao Porto vem do sul”. Aqui há muito a ideia de que há muito norte acima do Porto, coisa de que não há muita noção aí para baixo… :)

  18. Catarina,

    Essa sua suspeita honra-me. É que Jorge Carvalheira existe e a sua escrita tem grande qualidade. Você não vai esperar que eu, escrevendo assim, o fizesse às escondidas… E, se esperava, desespere. Eu sou vaidoso de cima a baixo.

    Para seu completo descanso, direi que – alentejaninho como sou, e do mais baixo e mais profundo – vivi toda a minha adolescência em Braga. Sei, portanto, muito bem o que há a norte do Porto.

  19. “Toda a beleza concentrada do Porto não enche um pátio de Évora.”

    Conheço bastantes estrangeiros que acham o Porto a cidade mais bela de Portugal.

    Para mim, o Porto, para além de ser belo como a noite tem um charme único.

  20. Como portuense que sou, fiquei sem palávras…nem sei o que diga…acho que, com tamanha barbaridade de texto, a única coisa que me ocorre, é mesmo esta:

    VAI PRÓ CARALHO MORCÃO!

    ABRE-ME ESSES OLHOS, MULA!!

    P.S. – Isto com pronuncia do Porto, claro!

  21. a beleza de uma cidade e subjectiva..e triste este paí ter pesssoas assim que alimentão aquela rivalidade futil entrelisboa e porto, norte sul, alentejanos transmontanos…

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