Pegos floridos

Nunca soube por que lhe chamavam Zé Maneto, se nada lhe faltava no corpo. Além do vinho, que desse andava sempre precisado. Aparecia lá em casa nos serões de inverno, quando acabava de cear. Pedia um copo, bebia dois ou três, aconchegava as pernas à lareira. E punha-se a desfiar enigmas e charadas, que ia inventar não sei onde. Seria a força do vinho, o alma do diabo!
Uma ocasião havia um franganote, que andava a namorar a filha do moleiro. Ia bem, o namoro. A um lado concordavam os pais, a outro tinha ela um riso transparente que endoidava a cabeça, e uns olhos de água que assim devia ser o mar. O mar eu nunca o tinha visto, não sabia o que era uma cabeça doida, e ficava-me para trás, a imaginar um riso transparente. Ele já lá ia adiante.
Um dia foi-se a ver a namorada, passou a tarde a ajudá-la na horta, a regar o linhal. E foi ao morrer da tarde que lhe deixou cair a escusada pergunta, quando é que hei-de cá tornar a ver-te. E ela, feiticeira, tornarás quando os pegos estiverem floridos, e os moirões já estiverem caídos, e quando os mortos forem enterrando os vivos, então cá tornarás. Disse isto e recolheu a casa, que a mãe a reclamava.
O mequetrefe passou toda a noite em contendas, a cabeça num badanal. Mas chegara atrasado à feira de Deus, o pobre. E não sabendo atinar com a hora da moleira, nunca mais lá voltou.
Passaram anos em que ele andou por longe, foi-se à cidade, fez vida. E na vida há sempre um dia, basta darmos tempo ao tempo. Nesse dia foi ele à festa da Senhora da Saúde, e encontrou-a a sair da capela, tinha acabado o sermão. Quando ela o viu, cerrou a catadura. – Desapareceres assim, nunca mais lá tornares, acabei por casar e fui viver para Sequeiros. – Hoje encontro-me viúva, tenho filhos por aí, já homens feitos, nunca mais lá tornaste… E os olhos a fugirem, perturbados. – Nunca atinei com a hora de voltar, ainda hoje a não sei, tornarás quando os pegos estiverem floridos, e agora me dirás que hora era a tua.
E ela, ainda bonitona, no rosto uma rosa a abrir. – Florescem os pegos todos, à hora em que dá neles o lume das estrelas; caídos estão os moirões quando os pais já não vigilam; e os mortos enterram os vivos, quando só sobrarem cinzas num fogo que se apagou. – Toda a noite esperei por ti, só a alta madrugada me venceu.
Bebia o último copo. – Para alumiar o caminho! – galhofava o Zé Maneto, que o sabia já de cor.

Jorge Carvalheira

One thought on “Pegos floridos”

  1. Entre dois tragos assoberbados de “Oppidum”, com o fruto inteiro – que as Senhoras apreciam – em tons vermelho arroxeado, a infusão faz os seus devidos efeitos, assim… sem corantes nem conservantes. Efeito poderoso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.