Porra!

Ontem, numa das minhas voltinhas frequentes pelo dicionário de português, desta vez procurando um sinónimo mais ou menos paronímico da palavra “catamite” — definidora em dicionários ingleses do “rapazito mantido (fresco e saudável) para práticas sexuais”, etimologia latina pela via do etrusco, dizem-me eles — fui completamente distraído pela languidez ou preguiça do meu dedo que decidiu repousar em “catano!” e logo tomar uma bebida fresca, para apreciar com vagar a sua definição, de acordo com o evangelho dos dicionaristas portugueses.

Ficou o Tio Tadeu a saber que “catano!” é uma interjeição vulgar “usada como eufemismo para indicar admiração ou contrariedade”. Mas eufemismo de quê? Em princípio, de “catana”, palavra muito em voga nos anos sessenta nos manuais arsenalísticos dos movimentos de libertação africanos, antes das intervenções e contribuições do dólar e do rublo para animarem as festas balisticamente.

E andei eu um tempão do vergalho a pensar que “catano!” tinha mais a ver com o intuito de poupar certas senhoras e cavalheiros à ignomínia de terem de ouvir outras rimas mais mal sonantes. Por mera curiosidade, então a querer estender-se por influência do refresco, procurei debalde o eufemístico “poussa”, “poussas” ou “pouça”, de “pénis” ou “porra!”, também interjeição. E pagarei um copo de bom grado a quem descobrir no meu dicionário a palavra “caraças”, por vezes também explosão interjectiva na boca do palavroso e pobre vulgo. Se a encontrarem, tenho a certeza que ao lado dela lá estarão um par de carantonhas ou máscaras a provarem as origens e o poder dos eufemismos.

Mas, voltando ao “catamite”, talvez seja interessante notar aqui, a modos de fecho, o peso que as palavras, ou a eliminação total ou parcial dos seus significados, têm na preparação mental das pessoas para a moral política gizada pelas elites do beiço educado. Num dicionário “Oxford” de há dez anos, a palavra “catamite”, além da definição que acima dei dela para benefício do menino e vergonha do seu amo, também tinha uma segunda definição, que se escorria assim, para toda a gente ver: “a pessoa (partner) passiva em sodomia”. Num dicionário mais moderno desse mesmíssimo ilustre estabelecimento de ensino influenciador de governos e governação, tal definição foi pura e simplesmente excluída for good, quem sabe se por decreto ou se em reacção a um simples telefonema dum malandro qualquer. Ponha-se isso em termos de Narração Histórica das Coisas Mais Importantes e imagine-se o que a maltinha não anda por ai no dia-a-dia a engolir como verdadeiro, completo e bem contado. Os mais “progressistas” dirão que a exclusão dessa definição se justifica, para não se abusar da passividade de certa gente. São os que não têm voz activa nem passiva sobre nada, mas vivem na ilusão de que a têm.

TT

29 thoughts on “Porra!”

  1. TT o que te safa é que és o meu primo Pi, travestido de Tio Tadeu…

    Lembras-te como o PSL se f*deu in between à conta do Audi TT?

    Bom mas como andas de número transcendente, tudo bem.

    Agora fiquei desconcertado quando o Chaitin me contou que o teu comprimento computacional é pequenote…

    Mas lembrei-me que ainda resta sempre o argumento da singularidade da qualidade.

    mas entretanto regressa-se à domocracia em pleno: afinal qualquer número aleatório precisa de um programa computacional do tamanho do próprio número, não dá para comprimir!

  2. Estou aqui intrigado com a identidade deste senhor py, mas cheira-me que ainda vou quebrar este mistério. O Valupi é que me podia dar uma ajudinha e dizer-me que literatura têm os membros do blogue na mesinha de cabeceira. Quem é que será que anda a ler Chaitin?

  3. PY

    Eu sou bom a aborrecer pessoas, mas tu suplantas qualquer um na arte de causar bocejo. Andaste a ler o Chaitin e agora armas-te em chaitinho. Nota aí, antes que esqueças, no teu livrinho de actividades blogueiras, para teu governo e governo do pirilampo que ilumina o teu discurso e te controla à distância: a vaga para nefelibata incoerente de terceira já foi preenchida há vários meses..

    Ainda gostaria de saber por que é que esse patrocinador que escolhestes não te avisou desse preenchimento de vaga e das penalidades que arriscas se persistires nessa mania de venderes peixe pardo, tipo xaputa desorientada, aqui no blogue. Mas há remédio. Fala já com ele e vê se os dois conseguem esgalhar um plano novo para substituir este teu mumbo-jumbo desflorido que não engana ninguem quanto às intenções. Nessa conversa com o senhor, aproveita para lutar pelos teus direitos, sobretudo insiste que não estás disposto a tomar mais chás que te façam acreditar na tua própria inconsequência verbal. Por outras palavras: aprende a arte de opinar sem nos deixares a pensar que te contentas com barrigas de peixe.

    Um conselho. Revê tacticas, Pee-wee. Se não o fizeres, duvido que algum dia consigas aprender a fazer uso da intuição que o teu amigo Chaitin considera tão importante na desaldrabação das matemáticas.. E quando voltares, volta diferente, não arranques à cenoura a rama ou pintelho que precisamos agarrar para te responder mais a preceito e dar a este blogue o arzinho de respeito que ele tanto precisa nesta crise..

    TT

  4. obrigado pelos conselhos sr. tt, fiquei muito descansado de saber que essa vaga que referes já está okupada, é que eu não quero ocupar nenhuma, prefiro soluções transientes.

    Também não tenho patrocinador, estás-me a confundir contigo.

  5. Katana pode não ser africanismo, mas homógrafa de katana, em caboverdiano (esta é a grafia correcta) por via do ALUPEC – alfabeto unificado para a escrita do caboverdiano.
    Ele há dicionários do catano. Eu, nas aflições maiores, socorro-me sempre do «Aurelião»

  6. em Timor também chamam katana e são muito hábeis naquilo, engraçado ver como algumas etnias são muito parecidas com os índios da américa central, a confirmar a tese da origem

  7. TT, daqui a três dias já estou a basar, para o escaldão do Norte de África onde me espera um festival de música e onde espero ter a lucidez de nem me lembrar de ir ver os e-mails, quanto mais bloggar.

    Só uma coisa, creio que não percebeste o lado implícito do pequenote tamanho computacional… se um número transcendente com infinitas casas decimais e padrão irrepetível é gerado por um programa pequeno é porque o número verifica relações com um enorme potencial generativo, sensu Hjemslev, aqui aplicado à sintaxe matemática

    Pelo contrário um número aleatório é como granito esculpido.

    Não, não te quero seduzir nem domesticar. Gosto assim bravo.

  8. PY

    “Não percebi” foi, pelo menos em parte, o que também me esforcei para deixar implícito. É difícil cavaquear contigo quando reages aos posts usando uma linguagem que não está ao alcance da rapaziada de corte modesto como eu. Vai lá à tua festa musical norte-africana, diverte-te com umas barriguitas dançarinas, e vê se encontras um oásis para turistas onde possas meditar em sossego sobre a compressão matemática das coisas aleatórias.

    TT

  9. Tiozinho,

    Há uma vaga (bom, há sinais pouco animadores) de um novo medo, de um novo vitorianismo, este – suponho – de origem ‘esquerda’. O cúmulo (e isso agradeço-te que o tenhas sublinhado) é que se dupliquem os véus: que (por exemplo) se procure a ousadia de ‘catano’ em ‘catana’ (deixa-me rir),e não onde ela está, no silenciar de ‘caralho’.

    Deixa só que te corrija ´pouça’ para ‘poça’. Em Lisboa e seu termo soariam igual (o que pelo menos serve para te localizar a origem a Sul do Mondego). Mas há mais mundos.

  10. … olha os deuses trocaram-me as voltas, koisas de última hora…

    oásis eu queria, mas sem turistas, ou muito poucos

    eu também no fundo sou modesto, ou assim é que gosto mais de ser, mas acho que às vezes é melhor começar a suscitar uma porrada porque ainda é a melhor hipótese de lá na frente ganhar amigos,

    além disso acho tão engraçado que em Março de 2006 se escreva:

    “a formal system written in n bits cannot prove the randomness of a number greater than n bits in length”,

    que queria partilhar.

    mas vou continuar a tentar basar,

  11. … eu ainda sou um parendiz de catanês, Sílvia, não tenho competência para pronunciar-me…

    nas o tt tem tomates e isso chega-me, mesmo que não concorde com não-sei-quê ou o-que-mais.

    (tu és a Sílvia que escreveu aquilo sobre Israel eventualmente ter acabado de perder o direito à existência do Estado com esta acção?)

    quanto a basar é no domingo!

  12. concordei contigo, eu tinha ficado danado com a deklaração do presidente do Irão sobre o Delenda Israel (mas também já me disseram que ele afinal não disse isso), mas agora já me estou um bokado nas tintas, se calhar como disseste, às tantas perde-se um direito.

    Eles têm o livro do Apocalypse escrito por lá, tratem do assunto.

  13. Olha, Py, o Judaismo não é uma raça, é apenas uma religião… Por isso os israelitas não devem continuar a abusar da sorte e devem remeter-se ao cantinho que lhes foi destinado em 1947. Como a soberba e a usura não os deixam ficar quietos, é muito provável que vozes sonantes comecem a praguejar um “Delenda est Israel!” Não me admirava nada…

  14. … pois Sílvia, mas até já começou, só que em vez de Scipião o Africano agora temos A. o Iraniano, para simplificar,,,

    (as 3 virgulinas são do xatoo)

    Agora que Israel o pediu não há que ter dúvidas.

  15. obrigado também para ti, Sílvia, afinal baso amanhã, isto da geometria variável faz estas coisas. Boas para vocês por aqui, e para ti em especial.

    Muito triste vai ser a guerra, eu vou fugir de ver (para quê?) mas não de ler.

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