Pai dos pobres

O Felisberto já desvendou o seu crime e já se despediu do viajante. Este fica sozinho, pensativo, e não encontra a ponta deste novelo, por mais que se interrogue. Por sua própria experiência sabe ser a ignorância a mais escura das noites. Mas fica sempre pasmado, diante da escuridão. Sobretudo se já não há milagre que lhe possa valer.
Deixa os pombais para trás e já lá vai, ao longo do paredão do cemitério, e decide fazer-lhe uma visita. A um lado porque um cemitério é um espelho do mundo, e a outro porque vai à procura de sinais dum homem corajoso, de quem ouviu falar. O cemitério é obra asseada, tem aspecto cuidado e dimensão apropriada. Logo nele avultam três jazigos a chamar a atenção, mas antes quer o viajante descobrir a campa do padre Júlio de Moreira, que aqui foi sepultado. Vai andando devagar, entre lápides de gosto duvidoso, e neste particular conclui que já tem visto pior. Porém, como noutros lugares, quanto mais recentes são as sepulturas, mais estapafúrdios são os arrebiques e mais surpreendente o bricabraque. Por razões que só eles saberão, decidiram os vivos obrigar os defuntos a tomar parte nestes festins de mau gosto bacoco.
Mas já o viajante encontra o que procura. Encostados a uma campa recente que lhe tomou o lugar, lá estão os restos da lápide funerária do padre Júlio, uma cruz celta e um livro de pedra que ali deixaram aberto, e nunca ninguém fechou. Antigamente havia símbolos na morte, havia um pensamento ritual, uma coluna quebrada, um anjo de asa caída. Agora há só alindamentos, enfeites de arraial, um dia em breve serão formas vazias, entulho cultural.
O homem era de Almendra. E logo que se fez padre veio parar a esta freguesia, estava a chegar aí o século XX. O padre Júlio jurara, de boa fé, o celibato dos cânones. Mas quando aqui encontrou a Carmina, teve mais força a vida que as papeladas dela. A voz comum acabou por estranhar tão chegada mancebia. E bem fez o padre orelha mouca aos ditos, mas o bispo exilou-o para Moreira de Rei, por trás daqueles montes. Foi então a vez de Carmina pôr os pés ao caminho. Era inverno, a chegar a primavera, e ela lá vai, ladeira abaixo, por entre as eiras da Varela, passa a ponte velha sobre a Teja, faz uma vénia contrita ao santo que além está na capela, um São Sebastião debaixo duns negrilhos, sobe os cerros do Montrangão, atravessa a charneca das Terras Grandes, e senta-se a descansar no alto de Moreira, abrigada à capela do mesmo santo que outra vez ali a está esperando, à entrada do povo. Carmina dá tempo que chegue o fim da tarde, para dar menos nas vistas.
Outra vez o bispo investe contra a mundaneidade, e outra vez resistem Carmina e padre Júlio, ninguém sabe agora dizer qual deles com mais vigor. O bispo suspende o pastor, tira-lhe o priorado, agita uma interdição. Carmina responde mudando-se para Moreira, e se este bispo fosse uma vez ao jardim do paraíso, já ficava a saber que nada tem mais força que uma boa paixão. No fim o bispo recuou. E Moreira, que já tinha tido um rei vencido, ganhou agora dois vitoriosos, e uma família nova.
A bem dizer o viajante não se agrada de fariseus fraldisqueiros, mas o padre Júlio era um homem justo. Percebeu a grandíssima distância que vai de Cristo à igreja que dele dizem. E, tendo que escolher, não hesitou. Entregava as pistolas ao sacristão antes de entrar para a missa. Mas cá fora era republicano, apoiava Afonso Costa, e defendia, ó deuses, as leis de separação entre a igreja e o estado, contra o cego furor da clerezia. Num dia de invernia entrou, para se aquecer, numa cozinha do povo. A dona da casa bem que lhe dava uma chouriça assada, era o melhor que tinha. Mas era dia de abstinência e ela não pagara as bulas. O padre tirou uma bula do bolso, embrulhou nela a chouriça, assou-a no borralho e todos a comeram, com grande satisfação e muito maior proveito.
– Adeus, ó pai dos pobres! – chorava o povo de Moreira, quando o padre morreu. O viajante pensa que não se pode levar prenda melhor, depois de morto.

Jorge Carvalheira

11 thoughts on “Pai dos pobres”

  1. Excelente. Um Luís Rainha conhecedor do mato e da serra, com reverberações aquilinianas. O Afonso Costa é que não faz aí nada. Só dá é cabo da paisagem.

    TT

  2. Tiozinho,

    O Luís Rainha é agora fantasma colectivo?

    Já as reverberações são mais realistas. Aquilinianas, dizes? Camilianas, como me soam? Ascendência fidalga, isso sim.

  3. “Quer os Esquerdistas queiram quer não, o Bill Gates revolucionou mais a vida deles do que o rafeiro do Marx & Companhia” – Kitéria Bárbuda in “Frustrações Sexuais”, Revista “Espírito”, nº 26, 2006.

  4. Ficou sem intervalos, esgotado.
    E por defeito proprio, nao vislumbro o horizonte. Ficar-me-ei queda, ate ser abalroada.

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