Nos intervalos da escrita de roteiros e respetivos prefácios, Cavaco Silva tem dado contributos preciosos para a saúde da nossa democracia, a estabilidade política e o progresso. Tem sobretudo colocado o interesse do país, ou seja, da generalidade dos seus cidadãos, acima de qualquer outro interesse. Para além da genial ideia de dar o tiro de partida para a tomada do poder por via da mentira e do insulto por uns imbecis e incompetentes numa conjuntura extremamente delicada, que exigiria gente com extrema habilidade, conhecimento profundo da economia do país, interesse em defendê-la e experiência de negociação, veja-se como foi bem pensada a decisão de não vetar e depois de não suscitar a fiscalização preventiva de algumas normas do orçamento de 2013, mas sim a fiscalização sucessiva. Agora a incerteza paira e ameaça. Foi uma decisão a todos os títulos errada. Ou será que a ideia era mesmo deixar que a pressão da situação calamitosa das contas no início do ano (que provavelmente conheceria) atuasse sobre os juízes do Constitucional de modo a levá-los a desencantar argumentos para compatibilizar o orçamento com a Constituição, como quererá o Governo? Tudo é possível. De uma maneira ou de outra, não se recomenda uma pessoa assim tão desastrada e/ou cobarde (no primeiro caso) ou tão cínica (no segundo) para árbitro do jogo político e fator de equilíbrio. O homem é um calculista pouco inteligente, apenas centrado no seu umbigo e em proteger o seu passado. Vai pactuar com estes farsantes até ao fim.
Arquivo da Categoria: Penélope
Pegar fogo ao rastilho
A Europa já precisa de muito pouco para se incendiar. Estas declarações do atual presidente do Eurogrupo, proferidas na sexta-feira, após a decisão de resgatar Chipre, eram, portanto, totalmente dispensáveis. O senhor Dijsselbloem junta-se assim aos elefantes nórdicos que insistem em ir passear para lojas de porcelanas, fingindo desconhecer o que são expectativas. São claramente um incentivo a que se retirem os depósitos dos bancos de certos países, e nós sabemos quais são, e se transfiram para outros. Uma corrida aos bancos noutros países que não apenas Chipre será mesmo a centelha que falta para mandar a Europa pelos ares. E não vai ser bonito para ninguém.
Sabemos, como lembra o Vega9000, que para tal acontecer faltará apenas um agravamento dos cenários macroeconómicos e a saturação dos alemães. Graças ao Gaspar, Portugal acabou de se tornar “elegível” para tal medida. E agora? Corremos já? Não precisamos sequer de ir para uma fila. É só utilizar a Internet. Decididamente, assistir à gestação de (mais) um conflito europeu não estava nas perspetivas de muito boa gente. Talvez só à terceira tragédia aprendamos: entrar para um clube de que sejam sócios os alemães não é definitivamente boa ideia. Não estou com isto a dizer que são maus, castigadores, nazis. Estou simplesmente a dizer que não é boa ideia. Tem tendência para acabar mal.
Da lata e da anosmia
É de facto preciso um descaramento desmesurado para proferir afirmações como esta depois de o Governo PSD ter feito do Memorando inicial o que muito bem lhe apeteceu para o transformar no seu programa neoliberal, não sufragado. Dirigindo-se à sua audiência de ignorantes, alegou bem cedo querer ver-se livre da Troika o mais depressa possível, corrigiu o programa acordado onde e como quis, sem dar cavaco a ninguém, através de decisões políticas suas e propostas à Troika, por considerá-lo pouco ousado, e cunhou até a expressão “ir além da Troika”. Foi efetivamente muito além daquilo que lá estava e isso apesar dos constantes avisos vindos de vários quadrantes da sociedade e da própria realidade, essa mesma a que Frasquilho diz agora que o programa não adere. Mas qual programa? E o que é que estava mal concebido e com projeções não sei quê? Quantas avaliações já não houve, realizadas com vários alertas ativos? Quantos milhões a mais retirou o Governo da economia e propositadamente? Que tal um duche gelado nessas cabeças?
2. De que está à espera Paulo Portas para ameaçar romper a coligação se o incompetente Gaspar não se demitir ou não for demitido? Parece que as sondagens do PP não andam famosas.
3. Estou distraída ou Seguro ainda não pediu a demissão, pelo menos, pelo menos, do Gaspar?
Cepa torta
Se esta sondagem hoje publicada no DN, depois de lhe ser dado o devido crédito, não significa que o PS tem que mudar de líder, alguém me diga o que significa.
Alternativas a montante
Há um mal-estar na Europa. É o Reino Unido que gradualmente se desliga e quem não se importe de ir empurrando, é a França que já ameaça mandar às urtigas a austeridade “à la façon germanique”, é Jean-Claude Juncker, ex-presidente do eurogrupo, a falar no perigo de guerra, são os italianos em caos político e a ameaçar com um referendo, os gregos na indigência, os portugueses a tentar disfarçar o indisfarçável, a Espanha agitada; é um distinto conselheiro económico alemão a dizer que quem não aguenta tem sempre a opção de sair do euro, é outro alemão a dar uma entrevista ao Público para dizer que não há alternativa às políticas atuais, acenando, por sua vez, com o Armagedão que aguardaria os países que abandonassem o euro (prova de que também na Alemanha há medo); há ainda a nova guerra de palavras entre Paul Krugman, que não está sozinho na América, e os comissários europeus obcecados e cegos com a austeridade. Enfim, as tensões vão-se intensificando à medida que se sentem as consequências dos eufemisticamente chamados “ajustamentos” e aumentam as desigualdades e a miséria numa parte significativa da Europa. A estrutura vai ter de ceder em algum lado e há formas muito pouco bonitas de tal acontecer.
A Alemanha tem uma política própria no meio desta crise, tão própria que se diria não partilhar uma moeda única. Aliás, controlando o BCE e as instituições europeias, é a política que mais a beneficia, ou vá lá, que menos a prejudica que se impõe aos restantes países. Estamos, por isso, agrilhoados. A atribuição de culpas desde o início a todos e a tudo o que mexia a sul do paralelo 48 N, mas nunca à arquitetura do euro, às discrepâncias entre as economias que fundaram o clube (um erro) e à inexistência de mecanismos de proteção da moeda contra crises e especuladores, levou a este beco sem saída em que o prosseguimento das atuais políticas, além de insustentável, só agrava os problemas e o simples parar para pensar é considerado uma cedência ao facilitismo, ou perigo de “moral hazard”, e vendido como um regresso ao despesismo “que nos trouxe até aqui”. Como se fosse o caso. Que, olhando para o globo e em particular para a América e para o continente europeu, afirmações como esta, mais quem as profere, não sejam de imediato pontapeadas para o lago mais próximo e ridicularizadas, eis uma coisa que não entendo.
Mas eis que na Alemanha também já há quem perceba os riscos e a inutilidade do esforço de salvar o que não tem salvação possível e proponha a saída do país do euro, ou a constituição de um novo clube, desta feita mais restrito. Estará na forja um novo partido – Alternativa para a Alemanha – que avançará provavelmente para as próximas eleições. Para já, o seu programa tem um único ponto, o que, não sendo muito, também não é pouco. A revista “Der Spiegel” fala sobre isso.
«Anti-euro political parties in Europe in recent years have so far tended to be either well to the right of center or, as evidenced by the recent vote in Italy, anything but staid. But in Germany, change may be afoot. A new party is forming this spring, intent on abandoning European efforts to prop up the common currency. And its founders are a collection of some of the country’s top economists and academics.
Named Alternative für Deutschland (Alternative for Germany), the group has a clear goal: “the dissolution of the euro in favor of national currencies or smaller currency unions.” The party also demands an end to aid payments and the dismantling of the European Stability Mechanism bailout fund.» (Ler mais)
As preocupações destes senhores, na sua maioria de direita, são também a erosão da democracia (nem sabem como estão certos), a falta de representatividade e de legitimidade das decisões, a visão de curto prazo das medidas tomadas a nível europeu, que visam apenas resolver os problemas da banca, e enfim, claro, as dificuldades crescentes em fazer passar no Parlamento alemão os sucessivos resgates e contribuições para os fundos e mecanismos europeus. Aparentemente tudo coisas sensatas. O único entrave a um possível sucesso deste grupo é o facto de a economia alemã não se estar a dar nada mal com o mal dos outros. Nada mesmo.
O bode expiatório
Reproduzo aqui, com a devida vénia, um excelente texto de Correia de Campos, ex-ministro da Saúde, hoje publicado no Público:
«Todas as sociedades tiveram o seu bode expiatório. O dia da expiação era um ritual para purificação da nação de Israel. Para a cerimónia, eram levados dois bodes, um deles era sacrificado e o outro, o bode expiatório, era tocado na cabeça, pelo sacerdote, que confessava os pecados dos israelitas e o enviava para o deserto, onde todos os pecados eram aniquilados. Para a direita nacional e sobretudo para a comunicação social que o temia, por imprevisível, Sócrates é o bode expiatório ideal. Está ausente, não pode falar sem provocar mais ruído que o já criado, dedica-se a coisas aparentemente esotéricas como a filosofia política, os seus apoiantes reduzidos a um quadrado defensivo. Ainda por cima, o partido que dirigiu com mão forte durante meia dúzia de anos esteve longe de se dispor a defendê-lo, com isso deixando-se também cair num fojo. Os sinais recentes de reunião podem aqui ajudar ao exorcismo clarificador. Até que tal suceda, os clarins da direita infrene espreitam a mais ténue imagem, escutam o mais vago rumor de movimento do visado. Certamente não deixariam passar em claro que o seu antigo e temido adversário de estimação emergisse da clandestinidade. O que quer que fosse o que fizesse, o emprego que aceitasse ou a que aspirasse, tudo seria objecto de inquisitória perseguição sob a forma de suposta investigação jornalística. Acontece que Sócrates aceitou funções de representação internacional de um laboratório suíço intervindo na área do sangue e seus derivados, com a reserva de o trabalho ser fora do país. Toda a sanha se projectou sobre o desempenho dessa empresa, entre nós, no tempo de Sócrates. Descobriu-se, pasme-se, que a empresa era um dos poucos fornecedores activos nos concursos centralizados que a Saúde então organizava. A passagem de centralizado a disperso, proposta pelos serviços competentes, parece racional. Mas tendo sido executada no seu tempo, todas as razões são boas para gerar suspeição e insídia. Tal como aconteceria se o processo fosse o oposto: a passagem de concursos descentralizados a centralizados, talvez até com agravada desconfiança. Faça Sócrates o que fizer, será sempre ele a turvar a água que o lobo pretende beber. Ele ou alguém por ele. A sua única sorte é não ter sido ele tomado como o outro bode, o que sofreu sacrifício imediato. Assim, como refere a antiga cultura, ele foi apenas tocado na cabeça e mandado para o deserto.»
Outros vícios além da política
Não há como negar que somos literalmente inundados por filmes americanos e ingleses, muito deles forçosamente bons. Mas tenho por hábito ver filmes de nacionalidades variadas, produzidos nos mais diversos pontos do globo, sendo rara a vez que me arrependo. Uma coisa que agora (re)começa a saber bem é ir ver filmes franceses. O cinema francês parece ter-se revigorado e estar em boa forma, como já tem sido assinalado, mesmo que o caminho da reconquista do público tenha passado por comédias simples. O filme “Alceste à bicyclette” não deixa de ser uma comédia, porém não totalmente ligeira. É em grande medida uma lição de bem representar. O argumento, escrito por Philippe Le Guay e por um dos dois atores principais do filme, Fabrice Luchini (que não há muito tempo vi no interessante “Dans la maison”), é uma livre e bem engendrada transposição para um contexto atual de «O Misantropo» de Molière. Gira basicamente em torno de dois atores – Serge Tanneur (o próprio Luchini) e Gauthier Valence (Lambert Wilson – uau! (quanto ao sobretudo branco, ainda estou a processar a informação visual)) – outrora colegas, mas há seis anos afastados devido, nomeadamente, ao retiro voluntário de Serge das lides artísticas, desiludido com o mundo dos atores e as relações pessoais.
Gauthier, que se tornou entretanto uma celebridade nacional graças ao seu papel de médico numa série televisiva de grande audiência, e com vontade de fazer algo mais sério, descobre o outro a viver na ilha de Ré (a meio da costa oeste da França – ocasião para promoção turística, nada a objetar), meio eremita e algo azedo, e lança-lhe o desafio de representarem em conjunto a famosa peça de Molière. Um interpretaria Alceste e o outro o mais otimista Philinte. Aqui, em torno da questão de saber se Serge aceita ou não e depois qual dos dois interpretará quem, começa um conflito de egos, por entre ensaios dos respetivos papéis, e que durará todo o filme a propósito de tudo e de nada, ora pondo em causa a amizade entre os dois homens ora facilmente a restabelecendo, mas com desfecho em aberto. Não vou desenvolver a história para não vos privar do prazer da descoberta, mas cabe-me aqui elogiar os excelentes momentos de representação, em vários registos, dos dois atores – ambos igualmente capazes de encher o ecrã, um mais pelo poderoso lado exterior do personagem, o outro pelo seu interior amargurado e contidamente rancoroso (um verdadeiro Alceste) – que protagonizam momentos, quem diria, genuinamente hilariantes em alternância com outros mais dramáticos e profundos, tudo isto numa ilha do Atlântico e entre passeios de bicicleta (uma delas sem travões) pelos sapais. Acresce o caráter plausível de toda a trama. Não sei se já estreou em Portugal, mas aqui fica uma chamada de atenção para a sétima arte francesa, que não está derrotada.
Outro vício que estou a desenvolver com imenso prazer é o das boas séries televisivas. Os vários episódios da série americana “Homeland” (primeira temporada) põem-te em estado de exaltação e dependência durante vários dias (comprei o pacote). A 3 euros o episódio, não se pode dizer que não haja aqui “value for money”. Já desespero pela segunda temporada, ainda não à venda, pois as tentativas de a ver em sites marados da Internet têm-se revelado infrutíferas. A série policial dinamarquesa “The Killing” é outro desassossego, senhores.
Enfim, com a triste conjuntura política, nada como mergulhar nestas histórias bem contadas e erguer de vez em quando o periscópio para ver se ainda falta muito. OK, ainda há tempo para observar o cortejo de palhaços que desfila pelas notícias.
Baixar o salário mínimo, deixa cá ver, como a Irlanda
Esqueçamo-nos por momentos da diferença abissal entre salários mínimos, que torna a comparação uma tolice. Um político que fala em público para apontar certos exemplos devia pelo menos informar-se se são exemplos de sucesso.
Sois tão rasca, senhores
Há uma parte do país que se conforma com a maldição e com a penitência que lhe inflige a dupla Gaspar/Passos, interrompida amiúde, e de forma aparentemente programada, pelas tropelias do bobo Relvas e pelos nós de gravata falantes do Dr. Portas e que, mesmo passando pior, entende que tudo isto é muito bem feito, em todos os sentidos que quisermos atribuir à expressão. Pobres coitados, não têm conhecimentos para mais. Possivelmente rezam e pensam no paraíso. Também há os chicos-espertos e os patos bravos que não cabem em si de contentes por lhes estarem a oferecer um mercado de escravos em pleno século XXI.
Há porém outra parte do país que, mais cultivada, fortemente prejudicada e atenta ao desempenho da clique governativa, sente verdadeira vergonha pela mediocridade, indigência e incompetência destes governantes. Envergonhados. Envergonhados de serem portugueses como eles. Talvez o silêncio das manifestações tenha a ver com a vergonha, um sentimento um tanto inesperado e algo incompatível com manifestações. Quantas pessoas não há em Portugal com o décuplo da cultura, da inteligência e da competência dos políticos atualmente a governar o país? O que pensam quando ouvem Passos, o penteado, a falar das suas políticas na Assembleia? Riem? Choram? Ganham úlceras? Não ouvem sequer? Pode ser divertido rebolarmo-nos de riso quando ouvimos um primeiro-ministro a invocar a redução do salário mínimo na Irlanda como um exemplo que Portugal deveria seguir, para no minuto seguinte tornar essa comparação disparatada e inútil antecipando-se, ele próprio, ao que alguém pudesse objetar, ressalvando que, porém, na Irlanda o salário mínimo era então muitíssimo mais elevado e que em Portugal o dito não tem descida possível, de tão mínimo que é. E que por isso tal medida nem ficou no Memorando. O problema é que este exemplo de tolice abunda e tudo isto é demasiado grave para ser considerado uma diversão. Portugal bateu no fundo. O governo é mentiroso, inculto, insensível, incompetente, fútil e com um descaramento jamais visto. Os seus comentadores televisivos repetem as mentiras até à náusea. O primeiro-ministro nem falar sabe! Relvas é só esgares. Gaspar lê modelos enquanto fala. É, aliás, a mediocridade que faz rastejar este governo perante os ditames de outros, começando Passos por rastejar perante o pausado Gaspar, e percebe-se porquê.
O respeito pela democracia e pelas instituições torna as pessoas decentes quase impotentes. Mandam-se farpas, como aqui se faz, mas não deixa de ser frustrante. Tenho vergonha de um ministro que se ajoelha frente ao alemão Schäuble, a quem pede constantemente desculpas por pequenas ousadias e sai da sala com vénias. Tenho vergonha só de pensar que um primeiro-ministro português possa ser olhado como um total imbecil num Conselho Europeu.
Se ao Governo juntarmos o ocupante de Belém, que em igual se não em maior medida descredibiliza o cargo que ocupa, tenho vergonha do meu país. Ao que chegámos.
E quantas desculpas já deve Freitas a Sócrates?
De uma entrevista de Freitas do Amaral hoje no Diário Económico:
«Freitas do Amaral assume as divergências que a determinada altura o afastaram de José Sócrates e diz acreditar que ele “não quis ficar para a História como o primeiro-ministro da austeridade”, deixando para o Governo seguinte os necessários cortes de despesa.
O país já fez as pazes com José Sócrates?
– Penso que não. E esta crise no PS – ou mini-crise – foi desencadeada por elementos próximos de José Sócrates. A primeira pessoa que fez uma declaração a dizer que havia uma crise de liderança no partido foi Santos Silva. Três dias depois veio Silva Pereira dizer que era preciso um novo congresso. Depois Vieira da Silva. Ora, independentemente de isto ter sido bom ou mau para o PS; isto denuncia uma certa precipitação do engenheiro Sócrates. Porque isto veio em consequência de almoços e jantares que ele promoveu. Alguns vieram em jornais. Enquanto o país estiver a sofrer, pelo menos metade do país dirá que isto foi o estado em que ele nos deixou.
Ora aqui está o que se chama um intriguista. Que sabe o homem sobre esta matéria? Não acabara Sócrates de aceitar uma proposta de emprego?
Guterres veio fazer um ‘mea culpa’ sobre a sua responsabilidade no estado do país. Sócrates ainda não o fez. Já o devia ter feito?
– Já, mas não está no feitio dele.»
É extraordinário o número de pessoas que atacam Sócrates na sua ausência, seguros da falta de resposta. Freitas do Amaral permite-se dizer, sempre que o entrevistam, o que não diria, aposto, diretamente na sua presença. Porque haveria Sócrates de pedir desculpa aos portugueses? Por ter lutado por – e conseguido enquanto não foi traído – impedir o resgate? É por isso que deve desculpas? Deve desculpas pelo que outros fizeram – deitarem ao lixo um acordo arduamente negociado? Deve desculpas por não ter cortado na despesa (parece que é isso que Freitas insinua)? Como assim? O défice em 2,6% antes da crise, e a dívida a diminuir não querem dizer nada? Quando é que Sócrates devia então ter cortado na despesa, segundo Freitas? Quando a Comissão Europeia e o Conselho decidiram, em 2009/10 planos de relançamento da economia (com fortes incentivos e apoios do BEI) para fazer face às primeiras consequências da crise do subprime? Devia Sócrates nessa altura ter dito “Não, peço imensa desculpa, mas as falências de empresas, o desemprego e a quebra de receitas são oportunidades únicas para voltarmos à pobreza que nos vai tão bem. É o que merecemos. Passem bem.”?
A maioria formada pela oposição no Parlamento a partir de Outubro de 2009 não diz nada a este suposto constitucionalista sobre certas dificuldades em fazer passar legislação e orçamentos, de que foi exemplo o fim das transferências para a Madeira?
É indecoroso da parte de Freitas do Amaral dizer de Sócrates o que diz, dando a entender, ou pelo menos não corrigindo quem sugere, que saiu do seu governo por divergências políticas, o que não é de todo verdade. Este senhor é uma vergonha. Além de um bocado tonto, claro – leia-se o que diz de Cavaco:
“Ele nunca foi ouvido por este Governo nas suas mensagens económicas. Se fosse uma pessoa vingativa, ou que gostasse de andar a fazer intrigas já estava a colocar mensagens em todos os jornais contra o Governo. E não está.”
Ah, ah! Afirmação mais tonta do que esta é difícl, atendendo à intriga máxima urdida no palácio de Belém contra um primeiro-ministro, apenas por não ser da sua cor política e para levar ao poder os e a da sua cor política.
As críticas que Freitas também tece na entrevista ao atual governo não são suficientes para apagar a sua falta de decência. Os pedidos de desculpa que deve a Sócrates são tantos quantas as entrevistas maledicentes que já deu.
“Pero si algún país cree que va a ser demasiado, se puede salir del euro”
Graças a este oportuno post do Miguel Abrantes, fiquei a saber o que pensa o consultor de economia do Governo alemão sobre os países do sul. A austeridade e a dor é o que vos resta, diz clara e displicentemente este alemão, mencionando mesmo Portugal; se não estão contentes, saiam do euro. O que, além de provocador, não deixa de ser curioso. Muito já devem ter recuperado os bancos alemães, pois ainda nos lembramos do quanto fez o diretório europeu para impedir que os gregos realizassem um referendo à permanência no euro em 2011. Aguardo para ver se esta tranquilidade e indiferença se manterá no caso da Itália. Desconfio que o sossego lhes acabe.
Cada vez estou mais convencida de que a nossa única saída da crise é mesmo a saída do euro. Mantendo-nos nós no clube, tal como está atualmente concebido e controlado, não haverá nem democracia, como cada vez mais se percebe, nem autonomia, nem perspetivas de futuro. Será o que a Alemanha quiser, sem hipóteses de haver sequer oposição a nível interno, quanto mais uma “credível”. Quando os imbecis que nos governam chegaram ao poder, ainda o rumo a seguir, mesmo ocupados pela Troika, podia ser um mais cauteloso e racional ou um mais ideológico e drástico. Optaram pelo segundo e a catástrofe está à vista – empobrecimento para além do suportável, economia destruída quase sem recuperação possível, uma geração totalmente perdida. E dizem-nos que nem assim a austeridade pode parar. A quem os substituir resta-lhe apanhar os cacos e… continuar a cumprir os ditames de Berlim. Por isso, não me parece tão trágica como no-la descrevem, nem mais trágica do que a situação atual, a saída da moeda única. Será mesmo esta a única proposta séria de uma oposição neste momento. Assim haja quem saiba explicar claramente o que está em jogo. Espero que a Itália ajude.
A manifestação silenciosa, ou fúnebre, segundo alguns, que decorreu no sábado e à qual não fui apenas por me encontrar no estrangeiro retrata também, quanto a mim, o desejo e ao mesmo tempo o receio de uma decisão que muitos sentem como inevitável e a única que, na ausência de um plano Marshall, faria sentido.
Um governo em pecado mortal
Vem hoje no Público uma súmula muito útil dos temas polémicos que marcaram o pontificado de Bento XVI, enumerados segundo palavras-chave. No domínio “Pecados” (os outros são Aborto, Bertone (Tarcisio), Capitalismo, Futuro, Homossexualidade, Intelectual, Islão, Pedofilia, Presépio, Reformas, Relativismo, Renúncia, Twitter e Vatileaks), informa-nos a jornalista:
“Com Bento XVI a lista dos pecados mortais aumentou em sete pecados. Passam a ser pecados as violações bioéticas, as acções que poluam o ambiente, a participação em experiências científicas “moralmente duvidosas” (nomeadamente manipulação genética), a acumulação de riquezas excessivas, o consumo e tráfico de droga, a criação de pobreza e tudo o que contribua para a injustiça e desigualdade social.”
A lista provoca-nos um longo suspiro, sobretudo se nos lembrarmos do fiasco histórico da relação entre a Igreja e a ciência, mas uma campainha toca quando lemos que “a criação de pobreza e tudo o que contribua para a injustiça e desigualdade social” passaram, com este papa, a ser pecado mortal. Então, ó Gaspar, Passos e Borges, ó Angela Merkel (apesar de luterana), estarem assim condenados não vos tira o sono? E como vão eleitores crentes (estou a pensar, entre outros, nesse expoente da fé chamado César das Neves) apoiar uns governantes que decidem empobrecer a população, louvando os benefícios de tal ato? Não estão a “criar pobreza”?
É verdade que a Igreja Católica Apostólica Romana prevê a confissão como forma espiritual de lixívia. Mas é caso para perguntar qual o prazo de validade dos produtos de limpeza “confissão” e “perdão”. 24 horas? Grande correria diária para o confessionário! Uma semana, se forem rezados cinco padres-nossos? Mesmo assim, será um desassossego. Abrem-se exceções e neste caso a validade do perdão é de 4 anos? Ah bom… o eterno conluio. O Governo não é católico e além disso há separação de poderes entre Igreja e Estado? Há pelo menos dois ministros muito devotos e praticantes – Paulo Macedo e Assunção Cristas. Pode-se perguntar, quanto à questão da separação, por que razão se pronuncia então a Igreja sobre atos políticos ao ponto de os declarar pecado mortal? Neste caso não está a pensar nos políticos? Então está a pensar em quem? E por aí fora seguiria a perguntar.
Já sem paciência para tanta notícia sobre um papa que renunciou, vejo mesmo assim alguma utilidade na divulgação e no esmiuçar de toda esta enorme vigarice institucionalizada. Está bem, é o negócio da morte e das almas, alguém tem que estar no ramo. É também o reino da fantasia, do qual não vem qualquer mal ao mundo, e, se há quem se tranquilize com uma boa e bonita história, porquê contestar? Muito bem, mas há quem se torture (por exemplo, com a falta de sexo) para cumprir os preceitos. Não gosto sobretudo é que venham com teorias do bem e do mal (o pecado), porque, como se vê, nem a Igreja sabe dizer com isenção o que isso é, nem quem decide verdadeiramente da vida de milhões de pessoas tem tais preceitos em conta. O que há para levar a sério?
Sonho alemão, pesadelo europeu
No Le Monde, um artigo nada meigo para os alemães (sim, a rivalidade já é antiga, mas sejamos objetivos) sobre o quadro europeu atual e os sinais vindos de Itália.
Dois excertos:
«Mais fustiger les Italiens pour leur vote semble aussi dérisoire que le roi de Perse Xerxes qui fit fouetter la mer pour avoir rompu un pont de bateaux sur l’Hellespont. Ils sont le deuxième peuple à se rebiffer après les Grecs et ne seront pas les derniers.»
++++++++
Nota: Ontem podia ter documentado o meu post sobre este tema com remissões para este artigo. Mas acontece que só hoje o li.
Maioria dos italianos já percebeu o que é a credibilidade?
Deixemo-nos de tretas. A credibilidade, tal como no-la querem vender as instâncias europeias e que o PSD e o CDS propagandeiam como uma grande conquista da sua coligação, um grande feito do Gaspar, é uma figura de estilo, um eufemismo para sujeição. Tendo havido um período inicial de dúvida, a realidade mostra cada vez mais que só é “credível” hoje em dia, para os lacaios de Angela Merkel e da alta finança europeia, o país que põe a sua população na miséria. Nem sequer é preciso pôr as finanças públicas em ordem, como se torna notório. É preciso é retirar poder de compra e direitos aos cidadãos. Por sadismo? Não. Porque isso tem vantagens para os países do Norte, como a Alemanha. Pessoas em desespero por falta de trabalho emigram. Quem os recruta e acolhe aproveita-se do manancial de mão-de-obra (não muçulmana) subitamente à sua disposição. Ainda ontem soubemos de mais uma incursão de alemães em solo pátrio para recrutamento de trabalhadores qualificados, desde engenheiros e enfermeiros até eletricistas. 600 deles e delas.
Esta crise é, de facto, uma oportunidade, mas não de desenvolvimento para os países do sul. Estes países investiram recursos próprios na formação dos que agora partem. Outros irão beneficiar dos seus conhecimentos e da sua juventude – por lá ficarão e por lá criarão prole. O esquema foi bem montado. Não admira que a Alemanha se continue a desenvolver. E dir-me-ão: mas as empresas alemãs não estão a ser generosas? Quem parte não vai em busca de uma vida melhor? Sim, vai. Quanto à generosidade, prefiro falar das condições do mercado, da lei da oferta e da procura, soberanamente explorada. Mas é evidente que tal situação deixa os países do sul sem perspetivas de futuro e com uma forte pressão sobre as contas da segurança social por via do envelhecimento da população.
Não critico os alemães que assim defendem a prosperidade do seu país. Critico é quem opta por contribuir para a prosperidade dos outros e não defende a prosperidade dos seus nem tem a noção do que está a acontecer. Por incompreensíveis que nos pareçam as opções eleitorais dos italianos, daqui os saúdo. Algo de muito injusto e revoltante está a acontecer na Europa da moeda única. E algo vai ter que mudar.
Nota à margem: Será assim tão difícil dizer Bersani e não Barsani? E Gril-lo (à italiana) em vez de Grilho (à espanhola)? Não só nas televisões se cometem imprecisões deste género, como também nos jornais – chegando-se ao absurdo de, hoje, no Público, se dizer em título “Barsani estende a mão ao movimento antipartidos de Grillo” e se escrever corretamente o nome do senhor – Bersani – em todo o corpo da notícia.
Dito por quem recorreu ao mais soez insulto para denegrir e derrubar um primeiro-ministro
Em Portugal vem-se assistindo a manifestações sucessivas do falhanço da autoridade democrática, da falência sem remédio de uma série de princípios da cidadania e da arrogância intolerável de uma gente que não respeita nada nem ninguém. Por sua vez, o culto do politicamente correcto que tem vindo a minar todos os valores na Europa e no nosso país parece impedir que sejam tomadas as medidas necessárias, não vá elevar-se alguma voz clamando aqui del-rei que estão a ser violados os direitos humanos, não vão surgir logo umas ONGs patéticas a vociferar internacionalmente no mesmo sentido.
[…]
Abaixo o politicamente correto. Tomem-se “as medidas necessárias” – calabouço.
Quando há razão na indignação
Quando Sócrates demitiu prontamente Manuel Pinho ou quando Manuel Pinho prontamente se demitiu na sequência de um gesto irrefletido (e relativamente inofensivo e até compreensível face aos impropérios do deputado comunista) em pleno hemiciclo, estavam tão só a cortar pela raiz a possibilidade, mais do que provável, de o episódio ser aproveitado posteriormente, em circunstâncias várias, pelos adversários para denegrir o governante e descredibilizar todo o Governo. Por muito simpático, empenhado, dinâmico e criativo que fosse Manuel Pinho, a sua permanência no Governo era insustentável. Saiu.
Quando Passos mantém Relvas no Governo na sequência de várias embrulhadas, mentiras e escândalos de cursos forjados e hipotético tráfico de influências (com a Tecnoforma) esperando que as pessoas esqueçam depois de assentes as sucessivas poeiras, é ou não é de esperar chacota e protestos de cada vez que o homem se insinua? Anormal seria ninguém se indignar. Porque não cortou Passos este “mal” (já que há inúmeros outros) pela raiz? Pelo menos este!
O que está a acontecer podem ser atitudes agressivas, radicais e tudo isso da parte de jovens exaltados seja qual for o governo e com gosto pela provocação. Mas eram expectáveis. E então numa universidade? Miguel Relvas já não devia estar no Governo há muito tempo. Passos não percebeu o que Sócrates e Pinho perceberam em três segundos. E o episódio com o antigo ministro da Economia nem sequer é comparável em gravidade ao “caso” Miguel Relvas nos seus lastimáveis capítulos.
Aqui há uns dias surprendi-me com o descaramento e a tranquilidade do Governo ao mandar Miguel Relvas, depois de um período de apagamento, falar na conferência de imprensa após o último Conselho de Ministros. O homem regressava às lides como se nada fosse. Estavam convencidos da falta de memória das pessoas. Por mim, reagi ao descaramento. Por isso, lamento discordar de ti, Valupi, desta vez, mas também eu me indignaria com a presença deste ministro numa instituição de ensino superior, frequentada por estudantes que não têm outro remédio para concluir o curso se não queimar as pestanas, muitos deles com dificuldades económicas e poucas perspetivas de futuro, no encerramento de uma conferência sobre … jornalismo, tendo sido precisamente a reação do ministro Relvas ao jornalismo que o tinha, a ele, por tema uma das que mais expuseram o seu calibre.
Não é mau que o Governo seja lembrado, e não foi com violência, dos nabos que o integram.
Pedir à Troika que mande responsáveis políticos “com capacidade de decisão”?
Não sei o que pensar deste pedido de Seguro, segundo os jornais, formulado em carta enviada ontem. Se por um lado é evidente que o trabalho levado a cabo pelos “técnicos” que nos visitam regularmente e cujas avaliações e contas têm por objetivo único reaver o dinheiro emprestado nos prazos acordados, sendo-lhes mais ou menos indiferente a situação social do país, está a levar o país ao desastre (como é de resto habitual), por outro lado todos já percebemos que o problema não é tanto nem só dos técnicos da Troika, mas da orientação política das instituições que os enviam e, sobretudo, sobretudo, dos governantes políticos locais que, no caso português, aplicam o programa com patológico e inédito zelo e regozijo, comportando-se não como defensores do bem-estar e dos interesses da população que governam, mas como técnicos das instituições credoras, só que ainda mais radicais. Mas no fundo, sim, o país está entregue a técnicos, nossos e de fora. E dos maus. Dos que falham todas as previsões e não têm qualquer visão económica para o país. Nisso Seguro tem razão.
O problema é que por detrás da atuação destes técnicos, incluindo o Gaspar, estão ideias e teorias políticas e estão também políticos. Serão esses que Seguro convoca? É que, para esses, o “ajustamento” faz-se levando o país à miséria, só sobrevivendo os mais fortes, leia-se os mais ricos, os restantes morrendo ou sendo obrigados a ir-se embora.
Por isso, a quem está Seguro a pedir que envie “responsáveis políticos”? À Troika? E que responsáveis políticos poderá “ela” enviar? Estará Seguro a sugerir a entrega da gestão política do país a uma entidade política estrangeira, ao Olli Rehn, o comissário finlandês, ao Barroso (credo!)? Ou será a um outro país, à Alemanha, que domina hoje em dia as instituições europeias? Quererá Seguro que venha até cá o Schäuble? Posso não estar a compreender o alcance profundo deste pedido, mas, para já, acho-o algo bizarro e inédito. Tão inédito quanto a atitude do Passos Coelho: somos o único país sob assistência do mundo cujo primeiro-ministro não discute com as instituições credoras a suavização das medidas impostas, aliás, propõe até o seu agravamento! Temos, portanto, um original no governo e um original na oposição. Pelos vistos em disputa pela ideia mais estapafúrdia. Desgraçadamente para nós.
Que tal ele próprio, Seguro, fazer uma oposição forte e contundente, que desmascare, uma por uma, cada medida errada tomada e os seus efeitos? Que torne a posição deste governo de alucinados insustentável e leve o país a mobilizar-se para discutir um verdadeiro programa, levado a cabo por políticos portugueses que amem o seu país?
Dito isto, não vou negar que, como “soundbyte”, o convite possa ter o seu efeito, pois é uma forma de dizer que estamos fartos de técnicos, de pessoas insensíveis, neles incluindo o Gaspar, e que principalmente erram os cálculos, e que é preciso um olhar político sobre os problemas da austeridade. Alguém que ponha bom senso no bando. A minha pergunta, no entanto, mantém-se: em que “responsáveis políticos com capacidade de decisão” está Seguro a pensar e por que razão arrisca expor assim a sua própria irrelevância?
Isto não nos diz imenso sobre a confiança que Seguro tem nele próprio, sobre a sua ambição e a sua luta (ou resignação) política atual?
Cavaco hiberna. Não ganha para mais
Perante os números desastrosos da execução orçamental e da economia divulgados pelo INE, o Governo preocupa-se exclusivamente com os erros de previsão, que irá procurar emendar, diz. Nunca se viu um bando de governantes tão completamente indiferente à situação económica, laboral e social do país que os elegeu. Uma situação que consideram natural e, logo, inconveniente corrigir. Pior, consideram errado corrigir. Aliás: não há nada a corrigir (a não ser as previsões), porque esta é, para eles, «a» correção.
Perante isto, haveria que haver alguém à altura de lhes fazer engolir em direto o rol de falsidades que diariamente lançam para o espaço público para justificar tão desvairadas execuções orçamentais – assentes no confisco de metade dos rendimentos das pessoas, deixando tudo à míngua, na transferência para o Estado dos fundos de pensões da banca ou na venda de empresas públicas históricas e bem geridas. Nada disto devia suscitar orgulho, mas os patetas orgulham-se. O argumento de fundo a que mais recorrem quando confrontados é o da situação catastrófica que lhes foi alegadamente deixada em herança (pressupõe-se que depois de em tudo colaboraram para prevenir essa “catástrofe”, não foi?) e que, pobres coitados, se esforçam por remediar. Esta é a versão. Deturpada. Mentirosa. Mentem, por um lado, porque sempre confessaram querer operar uma revolução na economia mal chegassem ao poder (que passava por destruí-la para dar lugar à Fénix), reconhecendo que a Troika lhes dava uma boa oportunidade. Para isso, era basicamente necessário retirar o Estado de onde não era chamado (a economia) e cortar umas gorduras. Acontece que, até agora, ainda não foram capazes de dizer aonde e a quê é que o Estado é chamado, apesar de já terem dado algumas pistas e muito pouco abonatórias, e que as gorduras afinal chamam-se pessoas, postos de trabalho e rendimentos. Mentem, por outro, porque já sabiam da situação em que colocaram o país ao chumbarem sucessivas medidas de contenção orçamental a partir do final de 2009 (e foram várias), altura em que já não havia maioria absoluta e a especulação financeira fazia estragos nos juros da dívida pública, e ao desprezarem irresponsavelmente o acordo patriótico estabelecido por Sócrates com as instituições europeias em Março de 2011 para evitar que caíssemos na situação da Grécia. Foram responsáveis. Fizeram cair o Governo. Deitaram para o lixo um acordo fundamental (que agora se preparam para reeditar, sobre milhares de emigrados, desempregados e destroços de empresas). Partilham das ideias neoliberais da Troika. Estão a executar as políticas que defendem, com ousadias jamais imaginadas. Porque culpam então o antigo Governo pela destruição atual do país?
Mais: alguém lhes pergunte se os números conhecidos afinal são bons ou são maus? É que nem isso dizem com clareza. Se respondem que este “ajustamento” é doloroso mas inevitável, então só podem achar que os números são bons e, nesse caso, não se compreende a descida à linha de fundo da “culpa é do Sócrates”. Se, pelo contrário, entendem que a situação está efetivamente difícil de controlar e o país a um passo do abismo, o que tem o Governo anterior a ver com isso, já que este é o seu (deles) programa? Não haverá ninguém naquela Assembleia que os confronte com estas contradições?
A narrativa leva ultimamente uns adornos: apesar do esforço para corrigirem os erros da “banditagem” que, além de construir obras faraónicas, “asfixiava a democracia”, como diziam, a tarefa está a revelar-se difícil (suspiram Luís Montenegro, Matos Correia, Ribeiro e Castro, etc.); a recessão na Europa, sabem como é. Porém, nesse esforço, o Governo inspira tal confiança aos mercados que até já vai dispensar a Troika, é apenas uma questão de escolha do melhor momento. Em suma, no fundo, são uns artistas. Tudo está a correr bem. Em que é que a saída da Troika vai melhorar a situação dos desempregados, dos pobres e da economia, não dizem, mas gostávamos bastante de saber.
Chegamos a 2013 e constata-se, portanto, que a estupidez dos eleitores e a sua responsabilidade neste programa os impede de protestar perante uma situação objetivamente trágica. Muitos dos que se vão embora também votaram nesta gente. No meio do desastre, a tranquilidade da maioria é absoluta, Portas incluído: até já o Relvas, não sei se repararam, esse perito em esquemas de duvidosíssima seriedade que nunca deveria ocupar um cargo governativo, nem na Abecásia, aparece com a maior das naturalidades a falar na conferência de imprensa que se segue ao Conselho de Ministros em representação do Governo!
Estou, por isso, convencida de que, por este andar, se amanhã o desemprego chegar aos 20%, a única coisa que acontece é vermos o Dias Loureiro a falar também em nome do Governo.
E não esquecer que querem fazer da água um negócio
O absoluto, o territorial e o absoluto territorial
Paulo Rangel especializou-se em juridiquês, que recentemente desenvolve em público, com algum maneirismo, diga-se, a propósito da lei de limitação de mandatos autárquicos. Uma lei, convém lembrar, da qual foi ele o co-autor. Hoje no Público disserta longamente sobre a democracia, as liberdades, a limitação das liberdades individuais, a constitucionalidade dessa limitação, etc., para em primeiro lugar responder aos que, como os comunistas, invocam as liberdades da Constituição para se eternizarem em cargos autárquicos e, em segundo, julgávamos nós, para fundamentar devidamente a sua posição sobre a dita lei. E parecia até que o barco argumentativo navegava em águas calmas, consensuais e sem nevoeiro. Não chegou, porém, a bom porto. Quando finalmente decide “clarificar” a sua conclusão, começa por declarar sem problema querer perceber-se a si próprio e depois enreda-se numa linguagem omissa e totalmente ambígua que ofusca qualquer pensamento transparente. Porque não diz Rangel claramente que o espírito da (sua) lei é a limitação meramente terrirorial dos mandatos? Porque se enrola em conceitos como a restrição parcial e a restrição temporária – e não complementa a frase “[…]num concelho ou freguesia não fica interdito de se candidatar a qualquer outra função ou de exercer qualquer outro cargo público” com um simples e esclarecedor “noutro concelho ou noutra freguesia”? E porque termina o parágrafo dando a entender, afinal, que a limitação é de funções (logo, absoluta e não territorial), dizendo que a suspensão de funções dura apenas quatro anos, findos os quais os visados já se podem candidatar à presidência de qualquer executivo autárquico? Irra, que confusão!
Paulo Rangel não evoluiu nada desde que o vi num programa da RTP Informação a meter as mãos pelos pés sobre esta mesma matéria. Conclui-se, por conseguinte, que a lei foi propositadamente deixada ambígua e Rangel faria melhor em não voltar ao tema se não o quer “desambiguar”.
Aqui fica o excerto em causa:
“O que tem de fazer-se é interpretar a norma em causa; não a dando, portanto, por interpretada à partida. É preciso, pois, ver qual é a intenção da lei (não a do legislador — que, como se sabe, de resto, ao tempo, ignorou a questão). Perscrutar, portanto, quais os fundamentos e as razões de ser da lei. E perceber se estes determinam uma restrição de carácter absoluto ou uma restrição de carácter territorial. Porque, valha a verdade, se a restrição operada pela lei tiver carácter absoluto em termos territoriais, ela nada tem de arbitrário, desproporcionado ou desrazoável. O presidente de câmara ou de junta que tenha exercido três mandatos num concelho ou freguesia não fica interdito de se candidatar a qualquer outra função ou de exercer qualquer outro cargo público. Ou seja a restrição é parcial, puramente parcial! Mais: está directamente relacionada com a função que exerceu efectivamente durante 12 anos (em detrimento, aliás, de outros cidadãos). Mas mais ainda: a restrição não será apenas parcial, será estritamente temporária! Passados quatro anos sobre a proibição, os visados já se podem candidatar à presidência de qualquer executivo autárquico, em qualquer circunscrição do país.”
