A aposta no tempo que pode sair cara

Olhando para a maneira como as elites alemãs estão a dirigir a resolução desta crise a nível europeu, é grande a tentação de lhes chamar incompetentes. Depois, olhando para o muito que os seus bancos tinham e têm ainda que recuperar, chamamos-lhes inteligentes por jogarem com o tempo, embora cruéis e anti-europeus. Os epítetos vão alternando ao ritmo dos sustos eurozónicos. Olhando para decisões como a que o Eurogrupo, sob a batuta de Schäuble e com as sugestões inestimáveis de Christine Lagarde, pretendeu impor agora a Chipre, voltamos aos desabonatórios e chamamos-lhes estúpidos, míopes, desastrados, em suma, novamente incompetentes. Mas a tentação é agora grande de lhes chamarmos também desnorteados e perdidos num contexto internacional que nunca sonharam existir. Esta história de erguer o dedo do meio aos oligarcas russos pode trazer uma nova dimensão ao caos e levar Putin a proteger gente da qual até nem estava exageradamente próximo. O Kremlin já se queixa de não ter sequer sido contactado em tempo oportuno sobre o resgate cipriota. Eles que são parte muitíssimo interessada.

No meio de todos estes acontecimentos, há, porém, uma atitude que é constante: os alemães, e os seus “aliados” do norte, não deixam de saber muito bem quem são os países que estão a admitir no seu clube. Sabiam o que eram Portugal e Espanha no início deste século e as respetivas insuficiências e necessidades; sabiam da organização da sociedade e da contabilidade gregas; sabiam que Chipre era, além de uma bandeira de conveniência para navios de vários países europeus, um paraíso fiscal e sabiam exatamente quem se servia dele. Nada disto impediu a admissão destes países no clube da moeda única. Porquê? Porque havia certamente algum interesse nisso: o alargamento de um império mercantil e sem barreiras e o acesso a recursos energéticos importantes. Depois de a crise financeira internacional pôr em causa a solidez da banca e o regime de fluxos financeiros no mercado único, voltaram-se para o interior e ordenaram o reembolso rápido do dinheiro emprestado e utilizado mais intensamente (e por seu próprio comando) num contexto específico de combate a uma crise. Gritaram, embora não o dizendo, que queriam o dinheiro de volta já e decretaram o “salve-se quem puder” e, por questões eleitoralistas, acusam agora aqueles com os quais viram vantagens em confraternizar de irresponsáveis, preguiçosos, pedinchões e oportunistas. Não lhes fica bem.
O tempo que pensam estar a ganhar até poderem descartar a gente do sul que veem como morena e folgazona pode não ser tudo. Já deviam saber que há imponderáveis e interdependências, além, claro, de mais mundo. A Rússia não é apenas a Gazprom. Obtusos e perigosos são adjetivos que não lhes ficam mal. Assentam-lhes historicamente que nem uma luva.

7 thoughts on “A aposta no tempo que pode sair cara”

  1. Muito bem, é isso . Já em 1966 perguntei a um director do Banco onde trabalhava porque razão não tínhamos conta aberto em nenhum banco de Chipre e ele respondeu: «aquilo é tudo muito volátil». E era verdade, o dinheiro era de gente da Arménia, da Macedónia, da Grécia e da Turquia. Não por acaso as cidades de Famagusta, Kirenya, Karavostassi e Limassol estavam na lista negra dos navios e os capitães declaravam não passar por lá…

  2. Penélope,
    esquecermo-nos do que foi a história passada leva a que por vezes nos esqueçamos da procura do espaço vital (lebensraum) da Alemanha.

    Como o espaço a leste se torna mais difícil de conquistar, pois a Rússia tem ainda muita força, parece-me que se viraram para o sul, e a cavalgada vai de vento em popa.

    Reparemos na pressão que se está a fazer sentir e onde. Grécia, Portugal, Chipre (os mais débeis), Espanha e Itália (os mais fortes).

    Quem se recorda da neutralidade holandesa, norueguesa, sueca e finlandesa durante o III Reich?

    Quem é que apoia o IV Reich que agora Merkel tenta impor?

    Será que o que nos está à frente dos olhos ainda não chega?

    Não se apercebem que ainda agora a Merkel se tentou impor ao presidente de Chipre para evitar que este negociasse com mais alguém para além da “troika”?

    Não se vê que a pretensão de dominação está subjacente ao esmagamento económico?

    A quem aproveitará uma guerra na Europa?

  3. uma guerra na Europa? Possível, até porque já começou. Querem ver que ainda temos de chamar os americanos mais uma vez, para dar uma ajudinha? ó acudam aqui que o velho* continente não se curou das tendências suicidas…

    velho era antes, agora é mais pr’ó decrépito

  4. É bem mais do que isso, a Alemanha e em especial a Finlândia não podiam perder esta oportunidade de se vingarem dos Russos e ao mesmo tempo destruírem todo o sistema bancário em que assenta a economia Cipriota, para depois com o pretexto da asfixia financeira do Chipre lançarem a mão aos recursos energéticos, para esse objectivo protelaram todas as negociações até terem o Presidente “deles”, não contaram com a variável democracia a que já não estão acostumados e isso foi lhes fatal inclusive para os cipriotas que assim que os bancos abrirem na próxima semana o mais certo é falirem tal será o levantamento massivo de capitais, e de nada valerá os avisos, ameaças, que o Chipre deve apenas recorrer à troika, o Chipre já só se salva com os russos e isto é uma questão geoestratégica até para os russos, por 15B€ até é barato!

  5. pois , agora no Sul faziam falta políticos a sério , diplomatas , estrategas , negociadores de alto gabarito empenhados no serviço aos seu países , ali a coçar as costas do Putin e a piscar-lhe o olho. e o que temos ? jotas de partidos de massas com palas de burros à bicha na manjedoura. ah , pois , as consequências da partidocracia são bué graves.

  6. @ Valupi:”Nada disto impediu a admissão destes países no clube da moeda única. Porquê?”

    A resposta é mais simples e nada tem a ver com altas conspirações (tenho muito pena, eu sei que a malta adora):

    Porque o Projecto Europa é uma opção ideológica, e as ideologias têm frequentemente o condão de omitir a realidade.

    Mas alguns ideólogos da primeira hora mais inteligentes estão agora a ser atormentados pelo monstro da dúvida:

    Jacques Delors, presidente da Comissão Europeia: “Eu sei como as pessoas sofrem nos países do sul, mas têm que ter a consciência que a culpa é dos erros dos seus líderes políticos e não do Euro. (…) Talvez eu seja demasiado pessimista, mas creio que eles não vão superar a crise. (…) As diferenças entre os países são muito grandes.”

    http://carmodarosa.blogspot.nl/2012/11/a-europa.html

    Mas um jovem intelectual holandês muito na berra actualmente, vai mais longe e diz que a culpa é mesmo do Euro:

    A questão não é se a União Europeia pode sobreviver, mas quando vai falecer. A escolha que se coloca é entre um recuo ordenado e gradual, ou um recuo repentino, caótico, talvez mesmo acompanhado de violência. Naturalmente que opto pelo primeiro cenário. Mas tendo em conta a cegueira da classe política actual, temo que seja o último cenário o que nos espera.

    http://carmodarosa.blogspot.nl/2012/11/pro-europa-e-contra-uniao-europeia.html

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.