Outros vícios além da política

Não há como negar que somos literalmente inundados por filmes americanos e ingleses, muito deles forçosamente bons. Mas tenho por hábito ver filmes de nacionalidades variadas, produzidos nos mais diversos pontos do globo, sendo rara a vez que me arrependo. Uma coisa que agora (re)começa a saber bem é ir ver filmes franceses. O cinema francês parece ter-se revigorado e estar em boa forma, como já tem sido assinalado, mesmo que o caminho da reconquista do público tenha passado por comédias simples. O filme “Alceste à bicyclette” não deixa de ser uma comédia, porém não totalmente ligeira. É em grande medida uma lição de bem representar. O argumento, escrito por Philippe Le Guay e por um dos dois atores principais do filme, Fabrice Luchini (que não há muito tempo vi no interessante “Dans la maison”), é uma livre e bem engendrada transposição para um contexto atual de «O Misantropo» de Molière. Gira basicamente em torno de dois atores – Serge Tanneur (o próprio Luchini) e Gauthier Valence (Lambert Wilson – uau! (quanto ao sobretudo branco, ainda estou a processar a informação visual)) – outrora colegas, mas há seis anos afastados devido, nomeadamente, ao retiro voluntário de Serge das lides artísticas, desiludido com o mundo dos atores e as relações pessoais.
Gauthier, que se tornou entretanto uma celebridade nacional graças ao seu papel de médico numa série televisiva de grande audiência, e com vontade de fazer algo mais sério, descobre o outro a viver na ilha de Ré (a meio da costa oeste da França – ocasião para promoção turística, nada a objetar), meio eremita e algo azedo, e lança-lhe o desafio de representarem em conjunto a famosa peça de Molière. Um interpretaria Alceste e o outro o mais otimista Philinte. Aqui, em torno da questão de saber se Serge aceita ou não e depois qual dos dois interpretará quem, começa um conflito de egos, por entre ensaios dos respetivos papéis, e que durará todo o filme a propósito de tudo e de nada, ora pondo em causa a amizade entre os dois homens ora facilmente a restabelecendo, mas com desfecho em aberto. Não vou desenvolver a história para não vos privar do prazer da descoberta, mas cabe-me aqui elogiar os excelentes momentos de representação, em vários registos, dos dois atores – ambos igualmente capazes de encher o ecrã, um mais pelo poderoso lado exterior do personagem, o outro pelo seu interior amargurado e contidamente rancoroso (um verdadeiro Alceste) – que protagonizam momentos, quem diria, genuinamente hilariantes em alternância com outros mais dramáticos e profundos, tudo isto numa ilha do Atlântico e entre passeios de bicicleta (uma delas sem travões) pelos sapais. Acresce o caráter plausível de toda a trama. Não sei se já estreou em Portugal, mas aqui fica uma chamada de atenção para a sétima arte francesa, que não está derrotada.

Outro vício que estou a desenvolver com imenso prazer é o das boas séries televisivas. Os vários episódios da série americana “Homeland” (primeira temporada) põem-te em estado de exaltação e dependência durante vários dias (comprei o pacote). A 3 euros o episódio, não se pode dizer que não haja aqui “value for money”. Já desespero pela segunda temporada, ainda não à venda, pois as tentativas de a ver em sites marados da Internet têm-se revelado infrutíferas. A série policial dinamarquesa “The Killing” é outro desassossego, senhores.

Enfim, com a triste conjuntura política, nada como mergulhar nestas histórias bem contadas e erguer de vez em quando o periscópio para ver se ainda falta muito. OK, ainda há tempo para observar o cortejo de palhaços que desfila pelas notícias.

11 thoughts on “Outros vícios além da política”

  1. Viste o filme LES FEMMES DU 6ÈME ÉTAGE do Philippe Le Guay com o actor Fabrice Luchini?

    Adorei :)

    Espero pelo “Alceste à Bicyclette”…

  2. Também sou apreciador do estilo francês, essas histórias do quotidiano filmadas sem necessidade de grandes meios de produção nem de complexas linguagens de realização, mas onde o texto e os actores podem brilhar.

  3. Penelope

    Espero que tenhas levado mantimentos suficientes no submarino, pois corres o risco de morrer de fome.
    Quanto ao filme, obrigado pela dica, pois sou apreciador do cinema francês. Na decada de 80, ví os filmes todos do Godard que passaram no Quarteto. Na década de 90 a trilogia “Bleu, Blanc, Rouge” de Kieslowski
    Mas o melhor filme não comercial que eu vi, foi o “Sacrifício” de Tarkovsky. Simplesmente brilhante!
    Quem não se lembra dos filmes do Almodóvar que passavam no Quarteto?
    Que saudades do Quarteto!!!

  4. gente multifacetada tem o aspirina.gosto do cinema frances e da musica,que depois do aparecimento dos beatles desapareceu.

  5. “Quem não se lembra dos filmes do Almodóvar que passavam no Quarteto?”

    deve ter sido no período que o gajo tinha nacionalidade francesa.

    “Na década de 90 a trilogia “Bleu, Blanc, Rouge” de Kieslowski”

    este deve ter ido a paris comprar tabaco.

    “Mas o melhor filme não comercial que eu vi, foi o “Sacrifício” de Tarkovsky.”

    outro que foi morrer a paris

    e lá ficámos sem saber que filmes franceses é que o aldrabão viu

  6. Ignatz

    Óh tótó! Disse filmes nao comerciais e lembrei-me do cinema Quarteto. Quem disse que o Almodóvar era francês?

    Não tenho culpa que os únicos filmes franceses que viste, foram os do Belmondo e do Louis de Fone.

  7. dizes que cinema françiú é contigo e para dar exemplos da tua cultura cinéfila citas filmes russos, espanhóis e polacos.

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