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Quem sabe faz, quem não sabe ensina

Cenas verdadeiramente cómicas, mas estranhas num mundo sem fronteiras comunicacionais.

Vi ontem, numa peça do Telejornal, o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, a dar uma palestra no Trinity College de Dublin em que explicava por meio de gráficos projetados em Power Point os desafios com que estava confrontado para corrigir o orçamento português de 2013 após o chumbo de algumas das suas normas pelo TC e também a pronunciar-se sobre a nossa taxa de desemprego e outras contrariedades numéricas que, na sua linguagem, devem ser acomodadas num orçamento retificativo. Tenho dificuldades em classificar o ar com que a nossa situação estava a ser apresentada e modelizada. Vejam vocês mesmos. Qualquer coisa entre o puro gozo académico de uma minhoca de gabinete, o auto-convencimento, o deleite em utilizar a língua inglesa e a esquizofrenia de quem não faz a mais pequena ideia de onde trabalha e do desastre que já causou.

Pois a minha palestra é esta:
Sabendo nós o que sabemos e sabendo a comunidade internacional o que o Eurostat sabe e publica sobre a aplicação prática a todo um país das teorias deste homem, aquele exercício é de um descaramento, de um alheamento e ao mesmo tempo de um ridículo sem medida. É certo que a audiência não era numerosa, mas será que alguém apresentou previamente o orador, mencionando o cargo que ocupa, eventualmente uma referência à evolução/deterioração dos nossos indicadores desde que o orador assumiu funções? É deveras lamentável, mas sintomático, que não tenha havido período de perguntas. Ou será que quem lá estava foi pago para assistir?
O Ministro Gaspar far-nos-ia a todos mais felizes se fosse ensinar.

Porque mantém Cavaco o país refém de um governo de incompetentes?

Quem ontem ouviu Manuela Ferreira Leite no seu programa de comentário na TVI24 não pode deixar de se interrogar sobre o tipo de afinidade política que terá neste momento com o seu amigo Cavaco Silva, cobardemente acoitado em Belém enquanto Gaspar desmantela meticulosamente o país. Resumindo de memória, eis o que disse a ex-líder do PSD:

– Não se podem fazer ajustamentos rápidos em período de recessão, muito menos de recessão profunda a nível interno e generalizada a nível externo (europeu);
– O nível de sacrifícios imposto até agora é totalmente desproporcionado em relação aos resultados obtidos e, por conseguinte, há que arrepiar caminho;
– A decisão do TC deveria (e ela esperava ingenuamente que assim fosse) ser uma oportunidade para inverter as políticas e aliviar a austeridade, nunca para a agravar;
– Obter-se-iam melhores resultados a nível do défice e da dívida se não se fizessem mais nenhuns cortes;
– Os anunciados cortes de 4000 milhões de euros na chamada despesa pública não são exequíveis nem vão ser executados, muito menos cortes de 5600 milhões, pois há que ter em conta que os mesmos se adicionariam aos 24 000 M€ já retirados da economia desde há dois anos, e considera que se estaria a cometer um hara-kiri coletivo se tal fosse levado por diante;
– Obrigar restaurantes a fechar e dizer que isso é bom porque muitos estavam a mais é, não só cruel, como revelador de quem não percebe que as mudanças no nosso tecido económico demoram uma geração; há que dar alternativas profissionais às pessoas que cessam essas atividades.
– Não sabe como se reconstrói um país a partir de cinzas. A Troika e o Governo deviam dizer que país pretendem desenhar.

E muito mais disse dentro desta mesma toada perigosamente esquerdista (ainda que não tenha faltado o inevitável “vivemos acima das nossas possibilidades”). Já não é a primeira vez, nesta legislatura, que a ouvimos proferir palavras duras contra a atual orientação política, mas que, no fundo, relevam apenas do mais elementar bom senso. Por isso, custa a acreditar que as não transmita e discuta pessoalmente com Cavaco Silva, assim como custa a acreditar que este aprove as técnicas laboratoriais de Vítor Gaspar e que não veja os resultados que estão a produzir não só nos ratinhos como nas paredes e estruturas do edifício.

Porque viabilizou então Cavaco, no sábado passado, a permanência de Gaspar no Governo? Terá Passos ameaçado com a demissão se Gaspar saísse, sabendo que tal faz tremer o Presidente? Ou não terá Passos sequer dado a Cavaco a oportunidade de o confrontar com essa exigência ao aparecer em Belém de braço dado com o Gasparzinho? Mistérios que vão pesando e de que maneira sobre as vidas de milhões de cidadãos.

Não vi o programa até ao fim, pelo que não sei se o jornalista lhe perguntou alguma coisa sobre o papel do Presidente da República. Lembro-me que, noutras ocasiões, MFL o desculpou e atirou o ónus para os deputados da maioria dizendo que, se a Assembleia continua a dar apoio ao Governo, não é o PR que o vai pôr em causa. Não importa se esta resposta dá cobertura a uma grande cobardia, a uma enorme indiferença, a um piramidal egocentrismo ou a grandes pecados de que Relvas ouviu falar, o meu receio é que MFL seja (ou tenha sido) bem capaz de a voltar a dar. Em nome da amizade. Acontece que Cavaco Silva é a única pessoa neste país que nos pode livrar do Gaspar (nem tem que haver eleições). E não adianta dizer que, se o Gaspar se for embora, nada de essencial vai mudar, porque toda a gente sabe que isso não é verdade. O homem é um caso patológico. É muito difícil aceitar que estejamos condenados às suas decisões.

Da série “Olha-m’este”

Depois de, no Governo, prestar serviço a um grande amigo, como fez questão de nos dizer, e a vários outros, nomeadamente na área dos negócios, será que Miguel Relvas nem para garantir o seu futuro profissional no setor privado teve talento?

O ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, que anunciou a demissão de funções governativas na passada quinta-feira, manifestou intenção de retomar o seu lugar de deputado no Parlamento, apurou o PÚBLICO.

Outra explicação poderá estar na necessidade de proximidade com o seu irmão siamês. Necessidade de qual dos dois é uma questão que deixo em aberto.

Seja como for, o seu eventual regresso ao Parlamento pode também ser comparado com a tentativa de palestra no ISCTE. Vão calar-se os deputados do Bloco de Esquerda e outros que pensam que se trata de uma provocação e de um descaramento inaceitáveis e contemporizar com o seu sorriso permanente de gato de Cheshire? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Mudanças só acontecem mudando

I. A ira de Passos contra o Constitucional é, por um lado, como já defendi, um exercício teatral – era mais do que previsível o chumbo de algumas normas e, além disso, as medidas “de substituição/compensação” agora ressuscitadas já estavam anunciadas há muito, apenas não havendo condições para as levar por diante; mas, por outro, o que é bem mais aviltante, é também para alemão ver. A atitude doentia de subserviência assumida por Gaspar e seguida por Passos (afavelmente e por absoluta ignorância) não é compatível com um espírito negocial em defesa do país, cuja situação é deveras catastrófica. Só de pensarem que teriam de contestar alguma opinião ou ditame dos alemães (e FMI) numa tentativa de aliviarem a austeridade e darem algumas hipóteses à economia, Gaspar e Passos ficam lívidos e desorientados. Não podem. Nem querem: engoliram e infetaram-se por completo com a teoria das virtudes da “desvalorização interna”, vulgo regresso à Idade Média de onde nunca deveríamos ter saído, e comportam-se como robôs programados. Neste quadro, resta-lhes vituperar contra o Tribunal Constitucional alto e bom som, para que chegue a Berlim. Fazendo uma figura triste, note-se, pois se há povo e políticos que respeitam o seu Tribunal Constitucional são os alemães.

II. Há quem esgote os adjetivos para maldizer o bando de alucinados que nos governa e, no entanto, não os queira derrubar. Não compreendo. A situação na hora atual é esta: o desvio orçamental criado por responsabilidade do Gaspar, em virtude do qual nos concederam uma pequena folga (que não dispensaria, ao que parece, cortes de 5000 milhões), agravou-se 0,8% do PIB com o chumbo do TC (inaceitável! dizem os cínicos da UE); as medidas com que ameaçavam afundar ainda mais a economia e que apenas esperavam por uma oportunidade para serem concretizadas vão agora avançar com uma feliz e oportuna desculpa; Gaspar não foi afastado, Passos não se demitiu e o Governo mantém-se com a mesma composição, agora reforçado com o beneplácito de Cavaco. Não se vislumbra, pois, a mínima alteração nem na política nem no comportamento político tido até aqui nem no nível de pressão junto da Troika, que é zero. Pelo contrário: ameaçam-nos com o pior dos delírios – a experimentação total, uma quase que solução final. Quando já toda a gente pensava que a ideia dos cortes nas funções do Estado tinha sido abandonada ou amenizada, anunciam que, por castigo, agora vai ser a doer. Esta é a situação. Por cada hora a mais que este bando de fanáticos se mantenha no poder, há um prego que se crava no caixão da nossa economia e do nosso orgulho enquanto povo. Com esta gente ao leme, é literalmente o fim.

Não vejo, portanto, que situação se poderia afigurar pior do que esta. Há fortes possibilidades de, em eleições, nenhum partido obter maioria absoluta? Há. E depois? Alguma coligação se poderá formar. E mesmo que não se forme, como em Itália, há que dizer ao mundo que as coisas não vão bem! Que estas políticas ditam o fim da democracia. De nada serve fingir que estamos no bom caminho e que tal vai ser reconhecido, pois já se percebeu que, na hora da verdade, quem manda na Europa tem a “recompensa” no fim da lista das prioridades. No topo tem a conta dos ganhos e das perdas e, nessa matéria, nós aproximamo-nos da irrelevância aritmética. Além disso, e por causa disso, é tempo de se equacionarem outros cenários, nomeadamente o abandono da moeda única, caso não seja aceite uma renegociação das condições. Não me parece que se aguente mais austeridade. E sobretudo já seria um grande benefício tirar de lá o Gaspar.

Uma encenação

Sem margem política para imporem os cortes que sempre pretenderam fazer na Educação, Segurança Social e Saúde, usam agora o TC como desculpa. O ar grave com que o PM declara esta “emergência” é o cúmulo do descaramento. Nojo.

A situação caricata de um dueto de cordas; que raio de perspetivas

Sabe-se desde o verão de 2012 que Miguel Relvas obteve num só ano uma licenciatura completa (36 cadeiras) numa universidade privada sem praticamente lá ter posto os pés e que apenas realizou provas a duas cadeiras, duas leram bem, que numa outra desapareceram as provas e que numa quarta, sendo obrigatória uma prova escrita, realizou apenas um exame oral (do qual não existem nem fotografias) sobre artigos seus publicados em jornais. Todas as outras cadeiras lhe foram atribuídas por equivalência – com base na experiência partidária profissional, política e associativa, uma prerrogativa que a lei consagra, sendo porém omissa quanto aos limites. Relvas entendeu, por isso, e sabe-se lá porquê, que 100% de equivalências poderia ser considerado um abuso, mas 90% era perfeitamente legal. Muito antes, ainda nem tinha começado tão feliz percurso universitário, já inaugurava alegre e premonitoriamente placas com o nome de Dr. Miguel Relvas. Quando rebenta o escândalo, que envolve também, como é óbvio, a Universidade Lusófona, o ministro da Educação não tem outra alternativa que não seja mandar a Inspeção-Geral de Educação e Ciência realizar um inquérito a esta mais que certa vigarice.

Acontece que, pela sua relação de interdependência e cumplicidade com o Primeiro-Ministro, o ministro Relvas, apesar da lista de casos polémicos que foi protagonizando desde que tomou posse, mantém-se todos os meses seguintes no Governo, como coordenador político, à espera que o ruído passe, sabendo que o seu colega da Educação o está a investigar (e sem grandes dúvidas sobre, pelo menos, o abuso da lei das equivalências universitárias). Como se passavam as coisas no Conselho de Ministros? E fora dele? O que coordenava Miguel Relvas, uma criatura trapaceira e sem saber algum, quando telefonava (se é que telefonava) ao ministro Crato e, já agora, a Vítor Gaspar e Paulo Macedo? Com Crato, coordenaria o melhor momento para anunciar ter sido considerado por ele abusador? O que fez este homem todos estes meses, além de colocar os amigos (e nem por isso sintonizados com ele) na RTP à custa de atropelos? E com que cara reunia Passos, com Relvas ao lado, o seu siamês, com os restantes ministros? E o que pensariam os ministros e secretários de Estado das tentativas públicas e descaradas de Relvas para ver a sua reputação, digamos assim, normalizada?

É evidente que Relvas ficou politicamente morto no verão de 2012. Mas, se quisermos ir mais fundo, num governo liderado por dois autênticos estarolas impreparados que têm que lidar com uma grave crise económica e financeira nacional e internacional, percebemos que quem está a mais, e desde o primeiro dia, são sobretudo os estarolas, que, no meio dos que convidaram para governar, devem ter feito uma figura digna de passar ao cinema mudo – indumentária Charlot. Não é que os outros tenham saído bem na fotografia. Todos, com ou sem curso superior e pós-graduação, levaram convictamente o país à pobreza e ao desastre.

Relvas saiu agora e por uma porta muito pequenina. Deixa um historial de disparates e uma imagem de pessoa furtiva e de má consciência. Caso não haja demissão do Governo, fica/sobra Passos. Engraçado é que, na prática, pouco muda. Passos não é nem nunca foi nada a não ser uma pose e uma voz. Assim continuará a ser, se souber e puder. Tudo o que diga respeito às relações com a troika e à gestão do dinheiro, e por conseguinte à política seguida, é Gaspar que decide. Afastar Gaspar implica arranjar alguém que aceite tomar o leme de um navio a afundar-se e sem capitão. Duvido que seja fácil de encontrar, mas também duvido que o Governo caia já. As pressões externas para se manterem devem ser fortes. A menos que a reposição de algum poder de compra com a devolução dos subsídios anime um pouco a economia, o país prosseguirá a incredulidade e sobretudo a agonia por mais dois anos e eventualmente com os mesmos protagonistas. Oxalá me engane. Afinal não é comum um dos siameses ganhar força anímica no preciso momento em que o outro a perde.

Diga «bajular» e pense em Carrilho

Manuel Carrilho parece ter ficado deveras perturbado com o regresso de Sócrates. O seu sobressalto acontece num momento em que parece ter visto no “elegante” mas frouxo Seguro uma oportunidade de regressar ao exercício de algum cargo político, passados uns anos da campanha pirosa e desastrosa para a Câmara de Lisboa, tendo já começado o pré-exercício de bajulação. Não contente com a nojenta crónica que publicou na semana passada sobre Sócrates, hoje volta à carga e apresenta outros ângulos do seu estado de alma. Vejamos, por exemplo, o que diz da narrativa do atual PS sobre a crise:

«À partida, este comentário semanal também não trará nada de bom para o Partido Socialista, por muito que Sócrates tenha dito que a sua presença televisiva irá equilibrar a proliferação de ex-líderes do PSD. Sobretudo porque, no seguimento de um curto mas vivo debate, o PS tinha acabado de consensualizar uma “narrativa” sobre a crise, a sua natureza e as suas causas.
E este consenso, muito importante na dificílima fase que o País vive, deu origem ao “Documento de Coimbra”, e integrou depois a moção que António José Seguro apresentou ao congresso. E foi precisamente o facto de esse consenso ser tão efetivo que, é bom lembrá-lo, justificou a não-candidatura de António Costa

Bom, quem viu o debate de ontem sobre a moção de censura teve uma excelente ocasião para confirmar o que muita gente vaticinou sobre a tal “consensualização” da narrativa sobre a crise: a atual direção do PS, apesar do “Documento de Coimbra”, continua a não responder a um único dos ataques do PSD baseados na “narrativa” do despesismo e da cegueira tão bem desmontada por Sócrates (e por muita outra gente do PS, diga-se). Seguro e os seus mais próximos continuam a não dizer nada perante a cassete da causa da crise posta a tocar pela direita, pactuando assim, para todos os efeitos, com tão básica, falsa e populista narrativa e facilitando a sua implantação. Mas era previsível. Carrilho só pode estar a brincar ao pretender convencer o leitor de que o acordado em Coimbra teve algum seguimento.

«É o seu momento de surpreender [refere-se a Seguro]. Apesar de tudo, continuo a pensar que Sócrates terá o espaço que Seguro lhe der, e que as coincidências podem tornar-se para ele num roteiro de surpresas

Ah, eis algo que estamos mesmo a ver. Bem pode Carrilho incentivar Seguro a surpreender-nos com algum rasgo estratégico. Ao fim de dois anos, já todos percebemos as suas imensas limitações. Seguro, quando surpreende, é invariavelmente pela negativa. Não tem talento nem perspicácia para a função e dizer que Sócrates terá o espaço que Seguro lhe der é um ensaio de humor involuntário que nos faz lançar sonoras gargalhadas perante a certeza do contrário. Carrilho e outros vão ter de munir-se de vários copos de água, pois vão ter de engolir em seco bastas vezes, aposto.

«A entrevista foi também negativa para o próprio por uma outra razão. É que, assumindo que regressa agora para “tomar a palavra” e “participar no debate político”, Sócrates o faz na fase mais degradada da história no serviço público de televisão, dando assim uma inacreditável caução à política do governo que diz querer combater, e logo num dos seus eixos centrais. Quem ganha com isto?»

Extraordinário. Então o facto de Sócrates ir à televisão pública subir as audiências e mais do que provavelmente criticar o Governo é dar “uma inacreditável caução à política do Governo”? E o facto de Carrilho ir à SIC Notícias (possivelmente baixar as audiências)? Significa que está a dar uma caução a quê? Às insinuações do Mário Crespo? À orientação política do Expresso? Do Balsemão? Ou será que Carrilho tem inveja do potencial de audiências de um canal aberto e preferia que Sócrates falasse num canal de cabo, de acesso mais restrito, ou não falasse de todo?

Carrilho termina com uma declaração surpreendente e com um desafio. Surpreende a sua sugestão de que o consenso sobre as causas da crise que o próprio diz ter sido atingido na reunião de Coimbra não seja precisamente coincidente com o que Sócrates disse na entrevista da semana passada. Para mim, era. A atual direção do PS é que continua a não o assumir. E Carrilho cai na contradição de reconhecer que a narrativa da direita sobre as causas da crise está errada, mas ao mesmo tempo aceitar que o povo (o da rua) a atire à cara de Sócrates com toda a legitimidade. A raiva, de facto, cega.
Finalmente, desafia Sócrates a ir para a rua: «não se limitar a animar o circus politicus da pastorícia ruminativa, o verdadeiro desafio do seu regresso não está nos ecrãs, mas na rua, explicando a sua narrativa cara a cara com os portugueses». Carrilho, se bem conheço o bicho, não vais gostar do que aí vem, por todas as razões e mais alguma.

Quando a nudez é provavelmente o único aspeto bonito

Sinceramente, não percebo a indignação com a divulgação de uma foto de Angela Merkel a caminhar despida à beira mar, datada de há pelo menos quatro décadas. Angela e as suas duas amigas, além de jovens e bonitas, estão com um ar feliz. A fotografia é bonita. Falar, neste contexto, de humilhação e de ódio parece-me completamente exagerado e deslocado. Não faço ideia dos motivos que levaram à publicação desta foto, mas, se a intenção era agredir a chanceler alemã com a mostra pública da sua própria nudez jovem, estou em crer que o tiro saiu ao lado. Do meu ponto de vista, trata-se até de um elogio, ao mostrar a faceta descontraída e, enfim, normal da política atualmente mais poderosa e eventualmente odiada da Europa. Quando muito, esta seria uma foto que, comparada com uma dos tempos atuais, serviria para mostrar os efeitos do implacável deus do tempo, que, convém lembrar, não poupa ninguém, nem o ou a autora desta divulgação nem os milhões que observam a chanceler hoje em dia. Pelo que será difícil alguém escarnecer do contraste. Assim sendo, o efeito é neutro a tender para o positivo. Imaginando-me alvo de uma manobra semelhante, tenho dificuldades em sentir-me violada na minha intimidade. Afinal a prática do (seu) nudismo era pública. E se Angela Merkel já foi descontraída o suficiente (e possivelmente ainda é) para expor com naturalidade o seu corpo, inclusivamente para uma câmara, não vejo porque não reagirá também descontraidamente e até com orgulho à publicação desta foto, embora suspeitando da intenção. Ah, e tomá-la como um incentivo à contenção alimentar.

O Expresso não foi avisado da conspiração de Belém

Henrique Monteiro, do Expresso, escreve hoje que, de Belém, “não lhe chegou” nenhuma conspiração contra o Governo (de Sócrates). Pois não. Será que, sendo o jornal o canal privilegiado de Cavaco, como pareceu sugerir ontem Ricardo Costa, só se Fernando Lima telefonasse a avisar é que a conspiração era um facto? Isto é para rir. Mas atenção, a história é outra. Pelo contrário, “chegou-lhe” uma conspiração contra Belém. Contra Belém, repito. Ah! Afinal Fernando Lima sempre telefonou, só que por outras razões. Pena é não termos ficado a saber na altura quando, como e com que fim conspirava o Governo contra Belém. Uma oportunidade perdida. Perdida na altura, mas recuperada agora sob a forma de insinuação.

Eis o que diz:

Eu, que sou insuspeito de gostar do Presidente ou de achar que o seu papel tem sido positivo, registo que Sócrates diz que ele conspirou. Pois bem, quando era diretor do Expresso não foi de Belém que me chegou uma conspiração contra o Governo, mas do Governo que me chegou uma conspiração contra Belém. Na verdade, que interessa isso agora? Apenas nos dá conta do tipo de pessoas a que estávamos e estamos entregues.”

Regista “que Sócrates diz que ele conspirou”? Henrique Monteiro a tomar-nos por parvos e a pretender nunca ter ouvido falar de tal coisa. Cavaco foi obrigado, na sequência do escândalo da inventona das escutas, a dar uma conferência de imprensa justificativa e absolutamente patética, em que do princípio ao fim não se percebeu patavina. Os jornalistas do Público que colaboraram na golpaça foram desmascarados e o JMFernandes foi até afastado. O esquema foi desmontado pelo DN com a publicação dos e-mails de dois jornalistas. Mas Henrique Monteiro não ouviu falar de nada! Este homem ou diz o que sabe ou seria melhor estar calado, pois já conhecemos a técnica. E olha o nível a que está o Correio da Manhã.

Subitamente, há comentadores a mais

Há gente que, de repente, descobriu que há comentadores partidários a mais. Que não devia sequer haver nas televisões comentadores que tivessem ocupado cargos governativos ou que fossem simplesmente políticos. Como se houvesse politólogos ou jornalistas totalmente isentos e imparciais. Não há, embora se façam passar por tal. O engraçado é constatar que, até ter sido anunciada a presença regular de Sócrates na televisão, ninguém reparara nesse fenómeno, que aliás não era considerado fenómeno algum (e possivelmente não é, analisado impessoalmente). Marcelo, um ex-dirigente partidário, a debitar semanalmente a sua visão intriguista, distorcida, maquiavélica e, no final, lúdica da política, sempre defendendo o seu partido, é algo tão natural como beber um vodka e comer um croissant. Marques Mendes, outro ex-dirigente partidário, a dar-se ares de grande conhecedor dos meandros da atual governação e a servir de canal anedótico de mensagens do Governo, também é naturalíssimo, instrutivo e até divertido. O próprio leva-se a sério. Bloquistas, comunistas e centristas, como Louçã, Otávio Teixeira ou Pires de Lima e Bagão Félix, a defenderem as perspetivas dos seus partidos, quando não os seus interesses pessoais e profissionais, nos ecrãs e a solo – todos uns queridos, afinal estão a esclarecer e a educar o povo com a sua sabedoria e a garantir a pluralidade. Agora, Sócrates, o alvo de todas as acusações, isso é que não. E que argumentam, em fim de prosa, para não parecerem censores? Ora, que a função é menor. Comentador? Os comentadores não valem nada, aquilo é uma comenda em fim de carreira, sem peso algum. Perguntam, aliás, o que faz um político a comentar a atualidade política? E por aí fora, notando nós o quanto já começou a campanha de desvalorização do que quer que seja que Sócrates tenha decidido fazer com o novo tempo de antena. Como os entendo.

O certo, meus caros, é que os comentadores andam há muito tempo por lá. E dizem o que dizem e de quem dizem. E o que dizem, como se fossem gurus, é reproduzido nos jornais. Os próprios sabem que vão ser citados no dia seguinte e arranjam frases a preceito. Da parte dos de direita, em clara maioria, é um círculo vicioso de maledicência focalizada e de falsificação que só pode ser contrariado, believe it or not, num primeiro momento, com uma entrada na dança ou, se quiserem, com a conquista da praça. Entretanto, se quiserem acabar com os políticos-comentadores, façam o favor. Não é difícil saber por onde começar.

Remodelação à moda do CDS

Nas mesmas declarações em que afirmam que o Governo deve ser remodelado, elementos do CDS presentes na reunião da comissão política do partido afirmam também que uma crise no executivo neste momento seria tudo menos desejável (Telmo Correia). A isto chama-se pressão insuportável sobre a outra força da coligação, então não? E o que dizer da exigência de substituição de Álvaro Santos Pereira e Miguel Relvas mas não a de Vítor Gaspar? Se acham, como dizem, que a austeridade foi longe demais e as medidas governamentais descuraram a economia, parece-me que o responsável por isso tem a cara do Ministro das Finanças, ou não? Olhando para as contas públicas, que satisfação traria aos portugueses e que frescura traria ao Governo a substituição de duas anedotas (sim, motivo para saírem, embora devessem ir acompanhados pelo líder do bando) e a manutenção do ministro que até agora decidiu a política orçamental e o modo de execução do Memorando? Gostais dele, senhores?

Considerações de sábado, antes de quarta*

Sócrates, contra a vontade de alguns, não morreu. Assim sendo, não deixou de falar com os amigos nem de consultar a internet, ler jornais e ver televisão, onde todos os dias é atacado, caluniado, responsabilizado por todas as desgraças acontecidas ao país. E isto num contínuo que não fez qualquer intervalo sanitário entre as campanhas de caráter, invenções de escutas e acusações de corrupção e de crimes contra o Estado de direito e o momento, em 2010, em que a inépcia da União Europeia se revelou em todo o seu esplendor e os países da moeda única ficaram entregues a si próprios, sem qualquer meio monetário de defesa contra especuladores. E quanto mais a situação económica e social se deteriora por cá e o plano dos estarolas, ainda mais radical do que o da aclamada Troika, prova as suas falsas premissas e a incompetência e impreparação de quem o gizou, mais o atacam. Sem resposta do próprio, os mentirosos sentem-se perfeitamente à vontade para o caluniarem e aviltarem, indo tão longe quanto a sua vilania e/ou delírio, e a falta de contraditório, o permitem. A atual direção do PS parece sentir-se bem com a situação, o que não deixa de indignar, além de aproveitar e muito à coligação – ao ponto de a afirmação de que Seguro, o líder da oposição, é o seguro do Governo estar perfeitamente correta. Quem tem discernimento suficiente para ir repondo a verdade sempre que tem para isso oportunidade está em desvantagem nítida face a quem calunia e mente dia após dia e abusa da técnica de puxar pelo que de mais canino e primário ainda existe na natureza humana (vide petição).

Perante isto, é de concluir que Sócrates regressa aos ecrãs porque entendeu ser o momento de dizer «basta»? Porque entendeu dever ser ele próprio e não outros a assumir a sua defesa? Porque está de tal maneira convicto da sua luta para impedir que o país caísse nas garras de troicas tradicionalmente impiedosas que sente que os portugueses lhe darão razão se devidamente esclarecidos e confrontados com o desastre que se seguiu às eleições de 2011? Pode ser tudo isto e, ciente de que o denegrimento mais acentuado da sua imagem seria num primeiro tempo inevitável, pode também ser uma estratégia pessoal de reentrada na vida política por gosto genuino pelo combate e ao mesmo tempo a oferta colateral aos portugueses, a cujas melhores qualidades gosta de apelar, de uma possibilidade de elevação do debate político, enriquecido agora com mais filosofia e mais mundo, acima do nível rasteiro onde a direita inculta e incompetente o coloca permanentemente. A estratégia é totalmente legítima, diga-se, e sobretudo muito “disruptive“. Nada que não lhe vá bem. Estonteados já ficaram muitos. Um ato de coragem e um enorme desafio, que coloca a barra para o próprio muito alta.

E agora a fórmula escolhida: porquê entrevista e, a partir daí, comentário regular? Ora, está bem de ver que uma simples entrevista seguida de novo desaparecimento atrás do muro de silêncio não mudaria nada no rame rame habitual das calúnias lusas; pelo contrário, intensificá-las-ia, anulando rapidamente o efeito das explicações/demonstrações. Depois, entrevistas já poderia ter concedido muitas. Não tenho dúvidas quanto ao interesse das televisões e dos jornais em entrevistá-lo, nem que seja para lhe perguntarem se continua a correr e se prefere os croissants e as baguetes aos pãezinhos com chouriço em forno de lenha. Não deve haver um único órgão de comunicação social em Portugal (pelo menos) que não tenha tentado arrancar-lhe uma entrevista. Exceto o Correio da Manhã que, apesar de especializado em perseguição e fabrico por encomenda, ou por causa disso, deve ter a noção dos seus limites. Mas uma entrevista é arma fraca para combater um vespeiro. Não me admiro, pois, que, ao aceitar dar uma entrevista, o direito de resposta ao tiroteio que se seguiria tenha sido invocado e reclamado pelo próprio. Estou a especular, claro, pode até ter sido o diretor de informção da RTP a propor a fórmula para assegurar o nível de audiências, mas parecer-me-ia natural, lógico e inteligente vindo de quem vem. Ir à luta e não proteger a retaguarda não fará o seu género. Pelo caminho e com o dinamismo introduzido por esta espécie de bomba de fragmentação, há fortes hipóteses de o país sair do marasmo. Por mim, brindo.

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*Próxima entrevista de Sócrates à RTP

Quantos são?

Há grandes movimentações na frente do comentário político, como num teatro de guerra, onde se inclui também a guerra de audiências, evidentemente. Os portugueses já são brindados com Marcelo, Marques Mendes, Morais Sarmento (brevemente), Bagão Félix (também brevemente) ou ranhosos sem partido como Medina Carreira no papel de comentadores residentes nos canais generalistas, num formato individual. Agora a TVI acaba de contratar Manuela Ferreira Leite como comentadora, embora para o seu canal de cabo. Com Sócrates no espaço público, é bem provável que descreva um arco e passe a dizer bem de Passos Coelho. Mesmo contando com os anunciados Vitorino e Jorge Coelho (RTP), suspeito que vamos assistir não ao regresso de Sócrates ao debate televisivo, mas ao de Asterix, o gaulês, agora na era da televisão. Da Gália e com a poção mágica(espero) já vem.
Temo (por eles) que não cheguem.

A aposta no tempo que pode sair cara

Olhando para a maneira como as elites alemãs estão a dirigir a resolução desta crise a nível europeu, é grande a tentação de lhes chamar incompetentes. Depois, olhando para o muito que os seus bancos tinham e têm ainda que recuperar, chamamos-lhes inteligentes por jogarem com o tempo, embora cruéis e anti-europeus. Os epítetos vão alternando ao ritmo dos sustos eurozónicos. Olhando para decisões como a que o Eurogrupo, sob a batuta de Schäuble e com as sugestões inestimáveis de Christine Lagarde, pretendeu impor agora a Chipre, voltamos aos desabonatórios e chamamos-lhes estúpidos, míopes, desastrados, em suma, novamente incompetentes. Mas a tentação é agora grande de lhes chamarmos também desnorteados e perdidos num contexto internacional que nunca sonharam existir. Esta história de erguer o dedo do meio aos oligarcas russos pode trazer uma nova dimensão ao caos e levar Putin a proteger gente da qual até nem estava exageradamente próximo. O Kremlin já se queixa de não ter sequer sido contactado em tempo oportuno sobre o resgate cipriota. Eles que são parte muitíssimo interessada.

No meio de todos estes acontecimentos, há, porém, uma atitude que é constante: os alemães, e os seus “aliados” do norte, não deixam de saber muito bem quem são os países que estão a admitir no seu clube. Sabiam o que eram Portugal e Espanha no início deste século e as respetivas insuficiências e necessidades; sabiam da organização da sociedade e da contabilidade gregas; sabiam que Chipre era, além de uma bandeira de conveniência para navios de vários países europeus, um paraíso fiscal e sabiam exatamente quem se servia dele. Nada disto impediu a admissão destes países no clube da moeda única. Porquê? Porque havia certamente algum interesse nisso: o alargamento de um império mercantil e sem barreiras e o acesso a recursos energéticos importantes. Depois de a crise financeira internacional pôr em causa a solidez da banca e o regime de fluxos financeiros no mercado único, voltaram-se para o interior e ordenaram o reembolso rápido do dinheiro emprestado e utilizado mais intensamente (e por seu próprio comando) num contexto específico de combate a uma crise. Gritaram, embora não o dizendo, que queriam o dinheiro de volta já e decretaram o “salve-se quem puder” e, por questões eleitoralistas, acusam agora aqueles com os quais viram vantagens em confraternizar de irresponsáveis, preguiçosos, pedinchões e oportunistas. Não lhes fica bem.
O tempo que pensam estar a ganhar até poderem descartar a gente do sul que veem como morena e folgazona pode não ser tudo. Já deviam saber que há imponderáveis e interdependências, além, claro, de mais mundo. A Rússia não é apenas a Gazprom. Obtusos e perigosos são adjetivos que não lhes ficam mal. Assentam-lhes historicamente que nem uma luva.