Num oportuno contraponto (dir-se-ia) a quem contesta o estudo de dois economistas de Harvard sobre a relação da dívida com o crescimento dos países, que esteve na base das políticas de austeridade, estudo com erros fundamentais que foram agora denunciados pondo toda uma estratégia em causa, um estudo recente do BCE vem dizer-nos que a média de ativos das famílias portuguesas, gregas, espanholas, italianas ou cipriotas é bastante superior à das alemãs. Ou seja, os países em dificuldades financeiras serão mais ricos do que a Alemanha. Esta conclusão é escarrapachada em capas de jornais e revistas do eixo norte da Europa, para grande gáudio dos leitores/eleitores e dos contribuintes para a nossa “salvação”, em tudo muito mais parecida com desgraça, mas enfim. O artigo da Spiegel tem até um subtítulo de choque – “Como os países europeus em crise escondem a riqueza”.
Conclui o estudo do BCE que, sendo assim, havendo tanto dinheiro nos países em dificuldades, esteja ele onde estiver, e beneficiando eles de empréstimos generosos de países dadores como a Alemanha, a ajuda não se justifica e os próprios países devem encontrar internamente meios para ultrapassar as dificuldades financeiras. Terá sido talvez já com base neste maravilhoso estudo que as contas bancárias dos cipriotas foram sugadas e, pior ainda, se anunciou que a solução poderia ser futuramente adotada noutros países?
In light of the new ECB study, a new discussion of the Euro Group’s bailout strategy is indeed necessary. So far taxpayers have born the risks of this strategy, by guaranteeing all loans the ESM has paid out to needy countries. Greece, Ireland, Portugal and Spain are already part of this group, and now Cyprus has been added to the mix.
Germany is already guaranteeing about €100 billion in loans. If even more countries request aid and can then no longer serve as donors, the amount of money guaranteed by the Germans could rise to €509 billion, according to an estimate by the German Taxpayers’ Association. This figure doesn’t even include the latent risks in the balance sheet of the European Central Bank (ECB).[…]In other words, taxpayers and ordinary savers are paying for the euro rescue efforts, which are primarily benefiting the rich in Europe’s most troubled economies. Their assets remain largely untouched, while the assets of their rescuers are melting away.
Não sei se o Excel do BCE também tem erros ou se há ali uma manipulação de dados em favor de um certo objetivo. Convém ler o artigo da Spiegel, que, apesar do título, mostra as várias perspetivas do problema e tem o cuidado de referir algumas das deficiências deste estudo, nomeadamente a desconsideração de dados como a percentagem de proprietários de habitações nos países do sul em comparação com a Alemanha – 80% para 44%-, o número de filhos por família, os anos a que se referem os dados, as razões para o acumular de poupanças nalguns países, o facto de se tratar de valores médios ou, enfim, a triste realidade nos países do sul que choca os olhos de qualquer um que os visite.
Como é óbvio, estudos destes, tanto um como outro, não contribuem o que quer que seja para acalmar as hostes nem para resolver sensatamente os problemas. Duvido que sejam os estudos económicos a causa direta de uma guerra, mas podem ser uma munição importante. Parece-me que começa a estar declarada.