Sabe-se desde o verão de 2012 que Miguel Relvas obteve num só ano uma licenciatura completa (36 cadeiras) numa universidade privada sem praticamente lá ter posto os pés e que apenas realizou provas a duas cadeiras, duas leram bem, que numa outra desapareceram as provas e que numa quarta, sendo obrigatória uma prova escrita, realizou apenas um exame oral (do qual não existem nem fotografias) sobre artigos seus publicados em jornais. Todas as outras cadeiras lhe foram atribuídas por equivalência – com base na experiência partidária profissional, política e associativa, uma prerrogativa que a lei consagra, sendo porém omissa quanto aos limites. Relvas entendeu, por isso, e sabe-se lá porquê, que 100% de equivalências poderia ser considerado um abuso, mas 90% era perfeitamente legal. Muito antes, ainda nem tinha começado tão feliz percurso universitário, já inaugurava alegre e premonitoriamente placas com o nome de Dr. Miguel Relvas. Quando rebenta o escândalo, que envolve também, como é óbvio, a Universidade Lusófona, o ministro da Educação não tem outra alternativa que não seja mandar a Inspeção-Geral de Educação e Ciência realizar um inquérito a esta mais que certa vigarice.
Acontece que, pela sua relação de interdependência e cumplicidade com o Primeiro-Ministro, o ministro Relvas, apesar da lista de casos polémicos que foi protagonizando desde que tomou posse, mantém-se todos os meses seguintes no Governo, como coordenador político, à espera que o ruído passe, sabendo que o seu colega da Educação o está a investigar (e sem grandes dúvidas sobre, pelo menos, o abuso da lei das equivalências universitárias). Como se passavam as coisas no Conselho de Ministros? E fora dele? O que coordenava Miguel Relvas, uma criatura trapaceira e sem saber algum, quando telefonava (se é que telefonava) ao ministro Crato e, já agora, a Vítor Gaspar e Paulo Macedo? Com Crato, coordenaria o melhor momento para anunciar ter sido considerado por ele abusador? O que fez este homem todos estes meses, além de colocar os amigos (e nem por isso sintonizados com ele) na RTP à custa de atropelos? E com que cara reunia Passos, com Relvas ao lado, o seu siamês, com os restantes ministros? E o que pensariam os ministros e secretários de Estado das tentativas públicas e descaradas de Relvas para ver a sua reputação, digamos assim, normalizada?
É evidente que Relvas ficou politicamente morto no verão de 2012. Mas, se quisermos ir mais fundo, num governo liderado por dois autênticos estarolas impreparados que têm que lidar com uma grave crise económica e financeira nacional e internacional, percebemos que quem está a mais, e desde o primeiro dia, são sobretudo os estarolas, que, no meio dos que convidaram para governar, devem ter feito uma figura digna de passar ao cinema mudo – indumentária Charlot. Não é que os outros tenham saído bem na fotografia. Todos, com ou sem curso superior e pós-graduação, levaram convictamente o país à pobreza e ao desastre.
Relvas saiu agora e por uma porta muito pequenina. Deixa um historial de disparates e uma imagem de pessoa furtiva e de má consciência. Caso não haja demissão do Governo, fica/sobra Passos. Engraçado é que, na prática, pouco muda. Passos não é nem nunca foi nada a não ser uma pose e uma voz. Assim continuará a ser, se souber e puder. Tudo o que diga respeito às relações com a troika e à gestão do dinheiro, e por conseguinte à política seguida, é Gaspar que decide. Afastar Gaspar implica arranjar alguém que aceite tomar o leme de um navio a afundar-se e sem capitão. Duvido que seja fácil de encontrar, mas também duvido que o Governo caia já. As pressões externas para se manterem devem ser fortes. A menos que a reposição de algum poder de compra com a devolução dos subsídios anime um pouco a economia, o país prosseguirá a incredulidade e sobretudo a agonia por mais dois anos e eventualmente com os mesmos protagonistas. Oxalá me engane. Afinal não é comum um dos siameses ganhar força anímica no preciso momento em que o outro a perde.