Ainda sobre as audiências de Marcelo vs. Sócrates

(pedindo desculpas à Guida pela repetição do tema)

Pensar que as audiências de Sócrates poderiam rivalizar com as de Marcelo (estou a excluir a novidade da estreia) é ignorar as diferentes personalidades de cada um, o respetivo historial televisivo, a substância dos respetivos programas, o seu motivo e as preferências dos espectadores. Marcelo é basicamente um “entertainer”, aparentemente, mas só aparentemente, objetivo e imparcial. É capaz, sim, de criticar o seu próprio partido e os governantes do momento, e daí o picante das suas palavras, e até de elogiar adversários. Mas com grande à-vontade distorce os factos, sempre benévolo para a direita, e lança interpretações maquiavélicas das atuações dos agentes políticos. Depois, traz uns livros, fala de instituições de solidariedade, chegou a trazer tortas do Algarve, fala amiúde da amizade com a ex-colónia de Moçambique, tudo coisas populares e simpáticas, e, pelo meio, usa a verrina que mais se adequa à intriga da semana, pouco importando que minta ou que diga a verdade. O brilhozinho nos olhos dá-lhe um ar traquinas e espertalhão. Estes são os ingredientes do sucesso, numa televisão que bate as audiências e as receitas de publicidade com telenovelas de enredos idiotas ou tenebrosos mas brilhante guarda-roupa, concursos ruidosos e “reality shows” degradantes. Assim como assim, os telespetadores já estão sintonizados no canal.

Acresce ainda que o “entertainer” Marcelo não quer exercer nem nunca exerceu qualquer função política de/com responsabilidade, para bem dele e de todos nós, exceto uma passagem pela direção do partido, de pouca dura e má memória, pelo que a descontração é grande. Marcelo faz, no fundo, o que mais gosta (fica carente quando não) e é bem pago por isso. Duvido é que quem o ouve o quisesse ver a presidir ao país e muito menos a governá-lo.

Sócrates é outro género, sendo a única semelhança o facto de protagonizarem agora um programa de comentário político. Sócrates pensa e pondera o que diz, leva aquela coisa a sério, manifestamente ainda lhe é difícil abandonar totalmente a atitude contida e responsável que foi obrigado a manter num cargo de seis anos como primeiro-ministro, exceto na primeira entrevista; mas não admira: acabou de chegar às lides televisivas ressuscitado de uma crucificação pública movida pela inveja e promovida por gente de um extremo baixo nível que continua por aí. Além disso, não está ali para divertir ninguém ao serão de domingo, aliás, nem a situação portuguesa se compadece com tal. É corajoso.

Insistir em comparar a clientela dos dois comentadores é, pois, um exercício inútil ou, de outro ponto de vista, talvez não, já que se sabe bem o que se pretende com ele, e não é por acaso que o Correio da Manhã repete os números da GfK a cada coluna. A TVI foi ainda assim simpática ao antecipar o tempo de Marcelo. Não precisava.

Mas compare-se, por favor, o que é comparável. Acho que Sócrates fez muito bem e não posso deixar de considerar bom sinal o facto de ter uma “clientela” selecionada.

30 thoughts on “Ainda sobre as audiências de Marcelo vs. Sócrates”

  1. A diferença entre José Sócrates e o Marcelo é portanto quantitativa, mas igualmente qualitativa: enquanto o milhão e meio que vê o Marcelo no dia seguinte já se esqueceu de tudo o que ele disse, as centenas de milhar que escutam Sócrates ouvem-no ao Domingo e ouvem depois os outros comentadores, durante a semana inteira, a criticar e a repetir o que ele disse! É uma diferença astronómica. COLOSSAL, mesmo…

  2. O Marco Paulo sempre vendeu mais que o José Afonso.
    Não sendo socrático (só quando me aborrecem muito), apreciei as suas prestações, de grande nível; e continuo a divertir-me com Marcelo, pois então!

  3. Estou um bocado no comprimento de onda de RAA.

    A verdade é que estes nossos extraordinários «liberais» não podem passar sem a aldrabice e a calúnia, ou pelo menos a má-fé da (muito) baixa política. E essa, na minha modesta opinião, é uma das chaves, juntamente com o chumbo do PECIV — por intolerável excesso de austeridade, recorde-se — da presente situação de impasse político.

    Ainda agora acabei de ouvir, no último «Ohos nos Olhos», a famosa luminária da constelação Pingo Doce que até ao socialista Medina Carreira — o tal que acha que o nosso problema é «não podermos imprimir dinheiro», como ele próprio encomendava, e aos caixotes (sic) — faz embasbacar de pasmada admiração, e dá pelo nome de Fátima Bonifácio, historiadora e autora de obras como «A Monarquia Constitucional (1807-1910)», a designar, depois de atribuir a tirada de 1906 relativa às cabeças de Luís XVI e D. Carlos, do deputado Afonso Costa, no parlamento monárquico, aos anos 1880, sistematicamente Sócrates por «o Filósofo»…

    Não saberá esta «cientista» da fundacao da pingadeira — onde pontifica ao lado dos inefáveis ex-esquerdalhos como ela António Barreto e Zita Seabra — que o curso de Sciences-Po era de filosofia política e económica, e não de filosofia tout-court?

    Ou seja, em política actual, como em história política, nao parece acertar muito. Mas lê o Correio da Manhã, lá isso lê com certeza…

  4. Ainda a propósito desta tristeza confrangedora que são os nossos «liberais» de facção Pingo Doce, repare-se na forma como Fátima Bonifácio se insurge, não contra as opiniões ou argumentos expendidos (que nem sequer cita), e sim, pura e simplesmente, contra a concessão da palavra ao «filósofo».

    Para quando um frente a frente Sócrates-Bonifácio?

    Alô, alô, Fátima Campos Ferreira, o mano não aprovaria, nalgum futuro Prós e Contras, nem que fosse só para quebrar a modorra?…

  5. Para quê comparar serradura com pão ralado? Claro que há mais gente a ouvir o “inteligentíssimo” Marcelo do que Sócrates, assim como há mais gente a preferir o Correio da Manha do que qualquer outro jornal de referência. Dêmos tempo ao tempo, porque a herança, q

  6. Penélope

    Amiga não percas o teu tempo a procurar encontrar interpretações, para o fraco desempenho de Sócrates como comentador.

    Depois, Sócrates não pensa nem pondera no que diz. Ele trás a “narrativa” decorado de casa. Além disto, ele não é contido, falta-lhe é desenvoltura no seu discurso. Quando tem de falar de assuntos que exigem conhecimentos, vê-se a falta de substrato do seu pensamento e a superficialidade dos seus conhecimentos sobre as matérias em debate.

    A cultura dele é de jornal. Está ao nível do Ignatz.

  7. Francisco Rodrigues, um dos nossos principais problemas políticos actuais, logo a seguir ao da inexistência de um verdadeiro partido liberal suficientemente pragmático para ter dado cobertura ao PECIV socrático e a todos os PECs necessários que se lhe seguissem, e ainda à frente do problema do vácuo presidencial, é o da vitória de Seguro no PS, sobre gente de muito mais qualidade, como Francisco Assis ou António Costa.

  8. Para quê comparar serradura com pão ralado. Claro que há mais gente a ouvir o “inteligentíssimo” Marcelo do que a ouvir José Sócrates. Também há mais gente a preferir o Correio da Manha a qualquer outro jornal de referência. Dêmos tempo ao tempo, porque a herança, que engloba anos e anos de Inquisição e de salazarismo, é bem pesada, deixou marcas profundas de ignorância, incultura e estupidez que não desaparecem de um dia para o outro.

  9. Em suma e concordando em absoluto com Penélope, também aqui se faz sentir, com uma inusitada intensidade, a célebre quadra de António Aleixo!

    A mentira para ser mentira
    E atingir profundidade
    Tem de trazer à mistura
    Qualquer coisa de verdade!

    E, claro que isto é tanto mais verdadeiro, quando em causa estiver um povo, como é o nosso caso, com pouco ou nulo sentido crítico, e por incapaz de se aperceber das “habilidades marcélicas”.

  10. Manojas

    Dêmos tempo ao tempo, porque a herança, que engloba anos e anos de Inquisição e de salazarismo, é bem pesada, deixou marcas profundas de ignorância, incultura e estupidez que não desaparecem de um dia para o outro.

    Dou-te toda a razão. O 25 de Abril só aconteceu à pouco tempo (39 anos), não tendo sido possível, reeducar o povo, de 40 anos de fascismo.

  11. “Dêmos tempo ao tempo, porque a herança, que engloba anos e anos de Inquisição e de salazarismo, é bem pesada, deixou marcas profundas de ignorância, incultura e estupidez que não desaparecem de um dia para o outro.”

    A autocrítica é coisa bela, mesmo que feita sem intenção.

  12. Ó Francisco Rodrigues, deves ter feito a quarta classe por equivalências…Olha que miminhos: “Ele (Sócrates) trás a narrativa decorada de casa”; seria “traz”, mas não fizeste os trabalhos de casa. Insistes na ignorância da gramática primária: ” O 25 de Abril só aconteceu à pouco tempo”. Pois foi, Francisco, há muito pouco tempo. A tua quarta classe foi feita há muitissimo tempo. Talvez por equivalências, à Relvas.

  13. Quando vejo e ouço Sócrates no seu comentário semanal, digo para comigo, eis as palavras que tardavam, no meio da geral mediocridade ou dos jogos de interesses subterrâneos.
    O que Sócrates diz é vital, enfrenta a “narrativa” e a manipulação reinantes. Dedo na ferida, consciências inquietas.
    Sobre o tal Marcelo, quem é essa criatura?

  14. “Não tenho tempo para rever o que escrevo. Mas obrigado pelo reparo.”

    não tens tempo, não pensas e sobretudo não sabes. não tens de quê.

  15. há espaço para todos e nem o Marcelo nem o Sócrates têm culpa das narrativas manhosas que fazem à volta das audiências. eu gostava de ouvir o Sócrates falar de livros e de filmes, por exemplo, saber mais do homem por dentro da política. fica aqui a sugestão para quando ele cá vier ler. :-)

  16. 3 em 1

    Fico à espera que tu me transmites um pouco da tua sabedoria. Pois tento nortear a minha vida, pela procura do conhecimento permanente.
    Mas não me venhas com a tua cultura jornaleira por favor!
    Mas, mais uma vez, obrigado pelo reparo!

  17. “procura do conhecimento permanente”??????? Ó Rodrigues, qual foi a parte da calinada citada que te esqueceste de rever?

  18. Há muito tempo que o programa do prof. Martelo na TVI é considerado como
    sendo de “Barbaridades” em contra-ponto a Variedades, logo … não se podem
    comparar “coisas” de natureza diferente!
    Só para cabal esclarecimento dos usuários do chafão “narrativas”, devem pagar
    os direitos de autor ao Pedro da Silva Pereira seu grande divulgador quando na
    TVI24 desfez o “altaneiro” Arnault pelo abuso das ditas quem diz narrativas diz
    cabalas e o “inteligente” meteu os pés pelas mãos!!!

  19. “Fico à espera que tu me transmites um pouco da tua sabedoria” (francisco rodrigues)

    E bem precisas, ó calino. Nem conjugar sabes. Deves ter sido aluno do Prof. Relvas, mas a meio tempo.

  20. Odette

    Infelizmente não fui aluno do Prof Relvas. Por muito básico que ele possa ser, ainda consegue ter mais ideias do que tu.
    Não consegui, ainda, ler nada da tua autoria, no blogue, que valesse a pena responder. Prometo que me vou aplicar mais, na conjugação correta dos verbos e tu prometes-me que irás escrever alguma coisa com mais substrato.

    tem um bom dia

  21. eu ouço as criticas de marcelo em direto,pois dá-me muito gozo constatar que quanto ao governo nem os seus, nele acredita.depois vou à rtp .pt ouvir socrates a falar de politica a serio a nivel nacional e internacional . marcelo, é mais um dos milhoes que a nela habita.socrates é diferente,conhece a europa e é tambem nela conhecido. todas as criticas que fizer, são escutadas ouvidas.no dia seguinte nos pros e contras, nogueira leite,veio repetir o que socrates disse sobre o bce,”que não se deve limitar a sua açao ao controlo do inflaçao.” o que marcelo diz ninguem lhe atribui grande importancia.a extrema esquerda,ouve marcelo em direto como convem,e depois vai às escondidas ouvir na net socrates,pois não quer que ele tenha muita audiencia. para concluir,gostava de saber, qual era a audiencia do “politologo” de direita, antes do regresso de socrates.

  22. Tem dó de ti, pá! Não apareces aqui uma única vez sem que em três palavrinhas não dês erros de palmatória, carago! VAI ESTUDAR, bacano!

    Agora é o “eu prometo (…)” e “tu prometes-me”, santa paciência, nmas alguém te dá crédito a escreveres “brutoguês” dessa maneira?

    Ó infeliz, desanda daqui pra fora e vai ler o correio da manha para a tasca lá da tua rua, chouriço…

  23. Porra

    Se não gostas da minha prosa, tens bom remédio, não a leias.

    Já agora, vai chamar francisquinho ao caralho!

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