Diga «bajular» e pense em Carrilho

Manuel Carrilho parece ter ficado deveras perturbado com o regresso de Sócrates. O seu sobressalto acontece num momento em que parece ter visto no “elegante” mas frouxo Seguro uma oportunidade de regressar ao exercício de algum cargo político, passados uns anos da campanha pirosa e desastrosa para a Câmara de Lisboa, tendo já começado o pré-exercício de bajulação. Não contente com a nojenta crónica que publicou na semana passada sobre Sócrates, hoje volta à carga e apresenta outros ângulos do seu estado de alma. Vejamos, por exemplo, o que diz da narrativa do atual PS sobre a crise:

«À partida, este comentário semanal também não trará nada de bom para o Partido Socialista, por muito que Sócrates tenha dito que a sua presença televisiva irá equilibrar a proliferação de ex-líderes do PSD. Sobretudo porque, no seguimento de um curto mas vivo debate, o PS tinha acabado de consensualizar uma “narrativa” sobre a crise, a sua natureza e as suas causas.
E este consenso, muito importante na dificílima fase que o País vive, deu origem ao “Documento de Coimbra”, e integrou depois a moção que António José Seguro apresentou ao congresso. E foi precisamente o facto de esse consenso ser tão efetivo que, é bom lembrá-lo, justificou a não-candidatura de António Costa

Bom, quem viu o debate de ontem sobre a moção de censura teve uma excelente ocasião para confirmar o que muita gente vaticinou sobre a tal “consensualização” da narrativa sobre a crise: a atual direção do PS, apesar do “Documento de Coimbra”, continua a não responder a um único dos ataques do PSD baseados na “narrativa” do despesismo e da cegueira tão bem desmontada por Sócrates (e por muita outra gente do PS, diga-se). Seguro e os seus mais próximos continuam a não dizer nada perante a cassete da causa da crise posta a tocar pela direita, pactuando assim, para todos os efeitos, com tão básica, falsa e populista narrativa e facilitando a sua implantação. Mas era previsível. Carrilho só pode estar a brincar ao pretender convencer o leitor de que o acordado em Coimbra teve algum seguimento.

«É o seu momento de surpreender [refere-se a Seguro]. Apesar de tudo, continuo a pensar que Sócrates terá o espaço que Seguro lhe der, e que as coincidências podem tornar-se para ele num roteiro de surpresas

Ah, eis algo que estamos mesmo a ver. Bem pode Carrilho incentivar Seguro a surpreender-nos com algum rasgo estratégico. Ao fim de dois anos, já todos percebemos as suas imensas limitações. Seguro, quando surpreende, é invariavelmente pela negativa. Não tem talento nem perspicácia para a função e dizer que Sócrates terá o espaço que Seguro lhe der é um ensaio de humor involuntário que nos faz lançar sonoras gargalhadas perante a certeza do contrário. Carrilho e outros vão ter de munir-se de vários copos de água, pois vão ter de engolir em seco bastas vezes, aposto.

«A entrevista foi também negativa para o próprio por uma outra razão. É que, assumindo que regressa agora para “tomar a palavra” e “participar no debate político”, Sócrates o faz na fase mais degradada da história no serviço público de televisão, dando assim uma inacreditável caução à política do governo que diz querer combater, e logo num dos seus eixos centrais. Quem ganha com isto?»

Extraordinário. Então o facto de Sócrates ir à televisão pública subir as audiências e mais do que provavelmente criticar o Governo é dar “uma inacreditável caução à política do Governo”? E o facto de Carrilho ir à SIC Notícias (possivelmente baixar as audiências)? Significa que está a dar uma caução a quê? Às insinuações do Mário Crespo? À orientação política do Expresso? Do Balsemão? Ou será que Carrilho tem inveja do potencial de audiências de um canal aberto e preferia que Sócrates falasse num canal de cabo, de acesso mais restrito, ou não falasse de todo?

Carrilho termina com uma declaração surpreendente e com um desafio. Surpreende a sua sugestão de que o consenso sobre as causas da crise que o próprio diz ter sido atingido na reunião de Coimbra não seja precisamente coincidente com o que Sócrates disse na entrevista da semana passada. Para mim, era. A atual direção do PS é que continua a não o assumir. E Carrilho cai na contradição de reconhecer que a narrativa da direita sobre as causas da crise está errada, mas ao mesmo tempo aceitar que o povo (o da rua) a atire à cara de Sócrates com toda a legitimidade. A raiva, de facto, cega.
Finalmente, desafia Sócrates a ir para a rua: «não se limitar a animar o circus politicus da pastorícia ruminativa, o verdadeiro desafio do seu regresso não está nos ecrãs, mas na rua, explicando a sua narrativa cara a cara com os portugueses». Carrilho, se bem conheço o bicho, não vais gostar do que aí vem, por todas as razões e mais alguma.

5 thoughts on “Diga «bajular» e pense em Carrilho”

  1. Li só, e apenas, o título e fiquei mais que esclarecido.

    É obvio que o Dr. Carrilho sofre de um insuperável complexo de inferioridade que a sua condição de filósofo potencia.

    Este indivívduo que, como diz, quando teve a responsabilidade de ir a votos se mostrou de uma mediocridade explendorosa, entregando a CM Lisboa de mão beijada à direita, acha que ainda merece alguma credibilidade?

  2. É extraordinário como um jornal, como o DN, cede espaço para as diatribes ressabiadas do carrilho.
    O que acrescenta este senhor ao debate público, aos grandes temas de interesse para Portugal? Nada, zero! Apenas o distilar de ódio a uma pessoa intelectual e politicamente superior a ele, como José Socrates. O cavalheiro(?) em questão foi um ministro da cultura, em tempo de vacas gordas, que para além de investimentos no seu gabinete ( de acordo com a imprensa da altura), também investiu no desenvolvimento cultural do País.
    Apareceu como candidato a presidente da câmara de Lisboa, sem se saber porquê, mas com o apoio de José Socrates. Perdeu miseravelmente, contra um candidato de 2ª linha, apesar do apoio do partido que tinha acabado de conquistar a maioria absoluta. Foi premiado por Jose Socrates com um tacho em Paris, onde se andou a pavoniar à custa do contribuinte Português. Tentou fazer política internacional à revelia do Governo português, e contra as decisões do MNE.
    O que o leva , portanto, a este ressabiamento? Talvez o psiquiatra possa explicar.
    Este carrilho, com letra pequena, não tem gabarito moral ou político, para intervir no debate sobre as grandes questões nacionais.

  3. antonio ribeiro, a retrete do seu ministerio foi a mais cara de portugal.tinha que ser, para arquivar em condiçoes a merda que debitava.

  4. a atirarem Sócrates, não aos cães, à rua não pensam que a campanha vindoura pode ser fatal: não para o ex-ministro, claro, mas para quem a vidinha no palanque está a correr mal.

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