Considerações de sábado, antes de quarta*

Sócrates, contra a vontade de alguns, não morreu. Assim sendo, não deixou de falar com os amigos nem de consultar a internet, ler jornais e ver televisão, onde todos os dias é atacado, caluniado, responsabilizado por todas as desgraças acontecidas ao país. E isto num contínuo que não fez qualquer intervalo sanitário entre as campanhas de caráter, invenções de escutas e acusações de corrupção e de crimes contra o Estado de direito e o momento, em 2010, em que a inépcia da União Europeia se revelou em todo o seu esplendor e os países da moeda única ficaram entregues a si próprios, sem qualquer meio monetário de defesa contra especuladores. E quanto mais a situação económica e social se deteriora por cá e o plano dos estarolas, ainda mais radical do que o da aclamada Troika, prova as suas falsas premissas e a incompetência e impreparação de quem o gizou, mais o atacam. Sem resposta do próprio, os mentirosos sentem-se perfeitamente à vontade para o caluniarem e aviltarem, indo tão longe quanto a sua vilania e/ou delírio, e a falta de contraditório, o permitem. A atual direção do PS parece sentir-se bem com a situação, o que não deixa de indignar, além de aproveitar e muito à coligação – ao ponto de a afirmação de que Seguro, o líder da oposição, é o seguro do Governo estar perfeitamente correta. Quem tem discernimento suficiente para ir repondo a verdade sempre que tem para isso oportunidade está em desvantagem nítida face a quem calunia e mente dia após dia e abusa da técnica de puxar pelo que de mais canino e primário ainda existe na natureza humana (vide petição).

Perante isto, é de concluir que Sócrates regressa aos ecrãs porque entendeu ser o momento de dizer «basta»? Porque entendeu dever ser ele próprio e não outros a assumir a sua defesa? Porque está de tal maneira convicto da sua luta para impedir que o país caísse nas garras de troicas tradicionalmente impiedosas que sente que os portugueses lhe darão razão se devidamente esclarecidos e confrontados com o desastre que se seguiu às eleições de 2011? Pode ser tudo isto e, ciente de que o denegrimento mais acentuado da sua imagem seria num primeiro tempo inevitável, pode também ser uma estratégia pessoal de reentrada na vida política por gosto genuino pelo combate e ao mesmo tempo a oferta colateral aos portugueses, a cujas melhores qualidades gosta de apelar, de uma possibilidade de elevação do debate político, enriquecido agora com mais filosofia e mais mundo, acima do nível rasteiro onde a direita inculta e incompetente o coloca permanentemente. A estratégia é totalmente legítima, diga-se, e sobretudo muito “disruptive“. Nada que não lhe vá bem. Estonteados já ficaram muitos. Um ato de coragem e um enorme desafio, que coloca a barra para o próprio muito alta.

E agora a fórmula escolhida: porquê entrevista e, a partir daí, comentário regular? Ora, está bem de ver que uma simples entrevista seguida de novo desaparecimento atrás do muro de silêncio não mudaria nada no rame rame habitual das calúnias lusas; pelo contrário, intensificá-las-ia, anulando rapidamente o efeito das explicações/demonstrações. Depois, entrevistas já poderia ter concedido muitas. Não tenho dúvidas quanto ao interesse das televisões e dos jornais em entrevistá-lo, nem que seja para lhe perguntarem se continua a correr e se prefere os croissants e as baguetes aos pãezinhos com chouriço em forno de lenha. Não deve haver um único órgão de comunicação social em Portugal (pelo menos) que não tenha tentado arrancar-lhe uma entrevista. Exceto o Correio da Manhã que, apesar de especializado em perseguição e fabrico por encomenda, ou por causa disso, deve ter a noção dos seus limites. Mas uma entrevista é arma fraca para combater um vespeiro. Não me admiro, pois, que, ao aceitar dar uma entrevista, o direito de resposta ao tiroteio que se seguiria tenha sido invocado e reclamado pelo próprio. Estou a especular, claro, pode até ter sido o diretor de informção da RTP a propor a fórmula para assegurar o nível de audiências, mas parecer-me-ia natural, lógico e inteligente vindo de quem vem. Ir à luta e não proteger a retaguarda não fará o seu género. Pelo caminho e com o dinamismo introduzido por esta espécie de bomba de fragmentação, há fortes hipóteses de o país sair do marasmo. Por mim, brindo.

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*Próxima entrevista de Sócrates à RTP

19 thoughts on “Considerações de sábado, antes de quarta*”

  1. Plenamente de acordo,resta-me smente dar as boas vindas a Sócrates, a ver se acabamos com este marasmo em que vivemos.

  2. subscrevo na integra o seu post.não tenho duvidas, sobre a oportunidade do seu regresso e dos beneficios para o pais.vamos ter oposiçao a partir de agora.ontem na rtp no programa de maria flor pedroso,ao ouvir o ex ? fascista ribeiro e castro malhar novamente no socrates,mais convicto fiquei que com o seu regresso nada ficará como dantes.acabaram -se os culpados sem direito a defesa,para se poder legitimar todas as malfeitorias que estão a levar a cabo no pais.o pcp e os seus concorrentes do bloco,à “liga dos ultimos” tambem não vão ficar satisfeitos,mas é a vida.por ultimo tenho a dizer-vos que mario soares foi duas vezes Pm,socrates pela idade e pela competência que todos lhe reconhecemos até os seus opositores como constatamos pela a reaçao corporativa da direita com muitos comunas e be a pôr tambem a sua assinatura na petiçao contra o seu regresso à rtp.( alguem se preocupou com os regressos de marques mendes,santana lopes (ex pm) e marcelo às tvs?) cagaço meus amigos e camaradas cagaço pelo regresso do grande e solidario josé socrates.

  3. Se considerarmos Miguel Relvas como mentor desta ida de José Sócrates para a RTP talvez possamos concluir que é uma jogada maquiavélica! Pode enfraquecer a RTP como resultado da diminuição das suas audiências (veja-se a adesão às petições contra a ida Sócrates como comentador!), tornando-a, assim, mais barata para os potenciais interessados na sua aquisição e, por outro lado, também pode contribuir para a desestabilização do PS.

  4. Penélope,

    não conheço Sócrates, não sou um apoiante indefectível do mesmo, mas vejo neste seu reaparecimento a têmpera de quem não está disposto a baixar os braços e a deixar esmigalhar todos os seus pontos de vista.

    É voz comum a sua teimosia, o seu voluntarismo, os seus acessos de irritação, o seu gosto por uma lutazinha política, enfim, o combate político.

    Não sei se será boa ideia o seu regresso neste formato, mas também não vislumbro como é que o mesmo poderia reaparecer em cena sem ser através de uma mega apresentação precedida de debate.

    Ninguém estará seguro das suas intenções. Não se sabe se ele vem apenas para tentar limpar a sua imagem, se vem para dar cabo do canastro de muito papagaio falante, se vem abanar o PS, se vem acagaçar a direita, se vem abanar apenas o Pais. Uma coisa é certa, passou a haver um tempo AS (antes de Sócrates) e DS (depois de Sócrates).

    Mesmo cometendo alguns erros, de todos os que se sentaram no cadeirão do governo foi o único que, depois do 25 de Abril, enfrentou os poderes estabelecidos e agarrados às suas prebendas e quintaizinhos.

    Um governante que tem contra si em simultâneo a esquerda, a direita e o próprio partido é obra. A esquerda por entender que as suas políticas eram de direita, a direita por entender que estava a ser desmantelada, o partido por ver que o aparelho estava a ser destruído.

    Os falsos unanimismos das reconduções de Sócrates no interior do partido, mostraram apenas que ninguém se quis opor a Sócrates dentro do partido depois de João Soares e Manuel Alegre o terem feito em 2004.

    Sempre que se perfila um candidato os unanimismos desaparecem, pois ainda agora se viu na eleição de Seguro em que os votantes nele foram de idêntico número dos de Sócrates (cerca de 24.000) mas o seu opositor teve também mais de 11.000 votos. Sócrates, na votação mais expressiva, num universo de 35.000 votantes teve então cerca de 78% dos votos.

    Até aí, a comunicação social soube dar a impressão que todos estavam do mesmo lado, como se todo o partido estivesse ao lado dele o que era bem diferente da realidade.

    Creio que se as televisões enveredarem pela guerrilha política a nível de comentadores o país, mais uma vez, perderá, pois o tempo será gasto em minudências em vez de se falar do que interessa.

    Sócrates, na minha humilde opinião, deve ser comentador, deixando para outras ocasiões a defesa do seu bom nome. Se atacado, deverá responder nos locais certos, pois nada morde mais os invejosos do que a serenidade e compostura. Deverá ser claro, frontal e fazer sentir aos caluniadores que perdido por cem, perdido por mil, encostando-os assim à parede. Deverá ser também contra-vapor em relação à UE, abrindo caminhos que já alguns começaram a encetar, fazendo valer a sua proverbial tendência para assumir guerras quase perdidas.

    Deixar correr para a sarjeta os habituais detratores que já muita gente não leva a sério, pois os cães (e cadelas) ladram, mas a caravana passa e, certamente, será o rei que vai à caça.

  5. teofilo.o aparelho em algumas secçoes como a de braga não estavam com socrates,(seguro estava lá…) mas o partido (militantes de base e não só,estavam com ele.quanto à ida para a tv,vai ver que vai ser benefico para ele e para o ps, e para o pais,pois agora sabem que a mentira vai ter resposta.começa com uma entrevista inicial onde vai repor muita verdade e depois vai comentar a actualidade politica com um jornalista a fazer-lhe companhia.as audiencias ao contrario do que dizem os “borradinhos de medo” vão aumentar,porque a direita vai dar-lhe muito material para ele trabalhar.estou inteiramente de acordo consigo quando diz que vai haver um depois de socrates em por portugal.

  6. Penélope

    Não creio que o Sócrates venha com a intenção de se defender e atacar os opositores. Se for para isso, então comete um erro, pois dará ideia que só vem à procura de vingança e será engolido.
    Sócrates terá hipóteses, se assumir erros do passado, apresentar ideias novas e soluções credíveis para Portugal. Só assim recuperará a credibilidade e poderá ser visto como uma verdadeira alternativa de poder.

    Um bom Domingo para ti.

  7. Francisco R.. gostaria que, se não fosse um incómodo muito grande para ti, listasses aqui aqueles que achas que foram os ‘erros do passado’, para as pessoas saberem do que se está a falar…
    Muito agradecido, se for caso disso.

  8. QualquerUm

    Amigo, escrevo neste blogue à três meses. Tudo o que tinha para falar sobre o Sócrates está dito. Se andaste distraído ou perdeste o comboio e chegaste só agora, tenho pena. Tens bom remédio, procura o que eu escrevi!

  9. dizia albert einstein,”que em tempo de crise só a imaginaçao é mais importante do que o conhecimento”.este governo não tem uma coisa nem outra.francisco,era bom que nos recordasses o que efectivamente criticavas em socrates,para depois confrontarmos com a realidade. vou-te dar uma novidade.sabias que o pib per capita portugues subiu entre 2007/2008 de 75.6 para 78% da media europeia? recordas-te que a herança da direita a socrates foi de um deficite 6.8% que o reduziu para 2.7%.pergunto porque se agravou a situaçao economica e financeira do pais com os mesmos protagonistas depois de 2008? hoje estamos piores em todos os indices e como tal temos que pedir contas a quem nos prometeu antes em campanha, já com o conhecimento do memorando, o que o joãopft fez o favor de nos recordar agora no aspirina.quem mente assim devia ser queimado em praça publica.

  10. Nuno cm

    Não venhas com números destes porque falta-me paciência para estar sempre a explicar.
    O Sócrates mal chegou ao poder, criou politicas de autoridade, aumentando os impostos. Por isso conseguiu descer o défice. Não foi por ter cortado na despesa ou criado mais receita pela via do crescimento. Depois, o pouco crescimento que se conseguiu ter, ficou-se mais a dever, ao aumento astronómico do endividamento publico e privado, do que à criação de riqueza, por aumento da produtividade.
    Agora, quanto à situação atual, se tiveres o cuidado de leres os pressupostos macroeconómicos que estão na base do PEC4, como, por exemplo, o crescimento mundial, não têm nada a ver com a realidade.
    Mais ainda, no PEC4 continua com uma previsão da balança comercial cronica negativa. Este Governo esta a conseguir inverter essa situação.
    Conclusão, se o Sócrates mantivesse no poleiro, hoje, iriamos no PEC15 e o desemprego estaria ao mesmo nível, ou pior do atual.

  11. Nuno cm

    Já agora, por termos andado a viver de orçamentos criativos e de imaginarmos um modelo económico para o país, ancorado nos serviços, é que estamos nesta situação.
    Tem juízo!

  12. A visão política de Sócrates e o que tentou fazer aquando do estrondo internacional tem muitos apoiantes – nas últimas eleições eram quase 30%.
    Não concordo com aideia de ter políticos a fingir de “comentadores”, mas precisamos de um contraponto à visão dos outros “comentadores” que proliferam nas tvs.

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