Mudanças só acontecem mudando

I. A ira de Passos contra o Constitucional é, por um lado, como já defendi, um exercício teatral – era mais do que previsível o chumbo de algumas normas e, além disso, as medidas “de substituição/compensação” agora ressuscitadas já estavam anunciadas há muito, apenas não havendo condições para as levar por diante; mas, por outro, o que é bem mais aviltante, é também para alemão ver. A atitude doentia de subserviência assumida por Gaspar e seguida por Passos (afavelmente e por absoluta ignorância) não é compatível com um espírito negocial em defesa do país, cuja situação é deveras catastrófica. Só de pensarem que teriam de contestar alguma opinião ou ditame dos alemães (e FMI) numa tentativa de aliviarem a austeridade e darem algumas hipóteses à economia, Gaspar e Passos ficam lívidos e desorientados. Não podem. Nem querem: engoliram e infetaram-se por completo com a teoria das virtudes da “desvalorização interna”, vulgo regresso à Idade Média de onde nunca deveríamos ter saído, e comportam-se como robôs programados. Neste quadro, resta-lhes vituperar contra o Tribunal Constitucional alto e bom som, para que chegue a Berlim. Fazendo uma figura triste, note-se, pois se há povo e políticos que respeitam o seu Tribunal Constitucional são os alemães.

II. Há quem esgote os adjetivos para maldizer o bando de alucinados que nos governa e, no entanto, não os queira derrubar. Não compreendo. A situação na hora atual é esta: o desvio orçamental criado por responsabilidade do Gaspar, em virtude do qual nos concederam uma pequena folga (que não dispensaria, ao que parece, cortes de 5000 milhões), agravou-se 0,8% do PIB com o chumbo do TC (inaceitável! dizem os cínicos da UE); as medidas com que ameaçavam afundar ainda mais a economia e que apenas esperavam por uma oportunidade para serem concretizadas vão agora avançar com uma feliz e oportuna desculpa; Gaspar não foi afastado, Passos não se demitiu e o Governo mantém-se com a mesma composição, agora reforçado com o beneplácito de Cavaco. Não se vislumbra, pois, a mínima alteração nem na política nem no comportamento político tido até aqui nem no nível de pressão junto da Troika, que é zero. Pelo contrário: ameaçam-nos com o pior dos delírios – a experimentação total, uma quase que solução final. Quando já toda a gente pensava que a ideia dos cortes nas funções do Estado tinha sido abandonada ou amenizada, anunciam que, por castigo, agora vai ser a doer. Esta é a situação. Por cada hora a mais que este bando de fanáticos se mantenha no poder, há um prego que se crava no caixão da nossa economia e do nosso orgulho enquanto povo. Com esta gente ao leme, é literalmente o fim.

Não vejo, portanto, que situação se poderia afigurar pior do que esta. Há fortes possibilidades de, em eleições, nenhum partido obter maioria absoluta? Há. E depois? Alguma coligação se poderá formar. E mesmo que não se forme, como em Itália, há que dizer ao mundo que as coisas não vão bem! Que estas políticas ditam o fim da democracia. De nada serve fingir que estamos no bom caminho e que tal vai ser reconhecido, pois já se percebeu que, na hora da verdade, quem manda na Europa tem a “recompensa” no fim da lista das prioridades. No topo tem a conta dos ganhos e das perdas e, nessa matéria, nós aproximamo-nos da irrelevância aritmética. Além disso, e por causa disso, é tempo de se equacionarem outros cenários, nomeadamente o abandono da moeda única, caso não seja aceite uma renegociação das condições. Não me parece que se aguente mais austeridade. E sobretudo já seria um grande benefício tirar de lá o Gaspar.

9 thoughts on “Mudanças só acontecem mudando”

  1. O seu texto, cara Penélope, é simplesmente brilhante.
    Diz-nos o que todos compreendemos (quando de boa-fé,
    quando pensando intelegentemente), e exprime com clarividência
    este momento trágico em que Portugal parece afundar-se.
    De facto, neste momento, um dos nossos principais problemas é
    a dificuldade em vislumbrar soluções novas, eventualmente radicais.
    Porque Portugal não pode sucumbir à mediocridade, nem à velhacaria
    armada em redenção da Pátria.
    Por isso, pergunto, que mal viria ao mundo (ao país), começar por
    exigir o fim da moléstia, isto é, a resignação do actual presidente da
    República? (Perigos?) (Benefícios?)

  2. “Vem, tornarei o continente indissolúvel,
    farei a mais esplêndida das raças
    que o sol jamais clareou,
    farei terras magnéticas divinas
    com o amor dos camaradas,
    com o duradouro amor dos camaradas.

    Hei de plantar o companheirismo
    denso como o arvoredo a margear
    todos os rios da América,
    e ao longo das margens dos grandes lagos
    e pelos prados todos
    farei cidades inseparáveis
    umas com os braços nos ombros das outras
    com o bem humano amor dos camaradas.

    A ti, ó Democracia, de mim
    é isto – para te servir, ma femme!
    A ti, por ti, vou estes cantos entoando”.
    Whitman, Walt. Folhas das Folhas da Relva

    Pois é, hoje substituem-se os cânticos à Democracia e ao Estado de Direito, pelas promessas de amor eterno aos mercados financeiros e à contabilidade. Enfim, novos tempos, que não auguram nada de bom…

  3. And they’ve brought their fascist boot boys
    And they’ve brought the boys in blue
    And the whole Trade Union Congress
    Will be at the party too
    And they’ll all hold hands together
    All standing in a line
    ‘Cause they’re privatising Santa
    This merry Christmas time

    http://www.youtube.com/watch?v=yyMNqSoHHhQ

  4. Passos Coelho é como aqueles tipos que, quando lhe acontece alguma coisa má no trabalho, chega a casa embriagado (neste caso, embriagou-se com a sua própria ideologia) e bate na mulher e nos filhos.

    É este o primeiro-ministro que temos…

  5. A coisa está mesmo a ficar preta. Se até no Aspirina já se admite “outros cenários, nomeadamente o abandono da moeda única”!

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