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O que dizia Gaspar em 2011?

Gaspar prepara-se para dispensar uma centena de milhar de funcionários públicos por via de rescisões. Uma medida que, em outubro de 2011, declarou perentoriamente ser inexequível. Ouçam a sua voz pausada na TSF:

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=2064552

(via Tiago Antunes (Twitter), que escreve um artigo sobre o tema no Diário Económico)

Repare-se como, na altura, Gaspar se referia a esta medida como uma alternativa terrível e não exequível aos cortes então decididos. Recusava-a, portanto. Mas não é que não a desejasse. Entretanto, milhares de milhões de euros de cortes depois, as rescisões passaram a ser totalmente exequíveis. Não demos por nada, mas a partir de que momento destes dois anos conseguiu o país enriquecer ao ponto de poder arcar com esta despesa?

De mentira em mentira, de contradição em contradição, esta pandilha radical prossegue a sua agenda de razia social, perdão, o “bonito” ajustamento português.

Gaspar, como Portas, anda claramente a divertir-se

Tal como Portas, Gaspar não trocaria por nada deste mundo o seu atual papel de ministro. Ambos encontram um extremo gozo no exercício do cargo. Gozo esse que é reforçado pelo facto, no caso de Portas, de ter a chave da manutenção da coligação e, no caso de Gaspar, de ser ele o primeiro-ministro.

Vejamos o Gaspar. Em nossa casa, ou seja, em Portugal, e como delegado da Troika e líder de um governo com maioria absoluta, prossegue impávido e sereno uma política radical de empobrecimento do país, de despedimentos, de desmantelamento do Estado social e das políticas públicas, de indiferença pela sorte dos cidadãos e de grande conluio com os credores visitantes, apenas apostado no regresso aos mercados que inseriu como grande objetivo nos seus cálculos, como se isso aliviasse alguém ou sequer a dívida pública, ou como se a Troika fosse para ele algum fardo de que se quisesse libertar (disse aliás, ainda ontem, que o ajustamento de Portugal não é imposto pela Troika).

No estrangeiro, diverte-se agora (por pressentir uma ligeiríssima mudança de vento) a entremear o habitual discurso económico-argumentativo-demonstrativo (que mantém) com declarações impensáveis que pretendem transmitir as preocupações que muitos lhe gritam aos ouvidos em Portugal quanto ao desemprego galopante e à miséria que se vai instalando, mostrando-se assim muito patriótico e defensor do contrato social de um Estado civilizado.

Tudo isto é uma farsa. Basta atentarmos no novo programa “de ajustamento” a que decidiu sujeitar o país nos próximos 3 anos para concluirmos que o homem se anda a divertir à grande e à inglesa não só com experiências económicas como também com exercícios teatrais à nossa custa.

Novidade, novidade, foi o discurso do ministro das Finanças português, que defendeu que “a fragmentação financeira que existe actualmente exacerba o custo associado ao ajustamento e funciona como um choque de competitividade negativo para o pais sob ajuda externa”, acrescentando que a “UE tem de respeitar o que eu considero um princípio: permitir aos Estados que assegurem aos seus cidadãos os direitos sociais que estes exigem”.

[… ]Embora satisfeito com o sucesso da colocação da primeira emissão nos mercados de dívida pública portuguesa a 10 anos, reconhece que o desemprego é um problema irresolúvel, a não ser que seja posto em marcha um programa de políticas activas de emprego.

Nota: Sobre o “sucesso” da nossa ida aos mercados, não perder este artigo de Rafael Barbosa no JN:
http://www.jn.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=3206441&opiniao=Rafael+Barbosa#_page0

Após a heresia, Barroso renova os votos de fé em Merkel

“What is happening in France and Portugal is not Merkel’s or Germany’s fault … The crisis and their problems are not a result of German policy or the fault of the EU. It is the result of excessive spending, lack of competitiveness and irresponsible trading in the financial markets,” he said.

He added that Chancellor Merkel is “one of the only [leaders], if not the only leader at the European level who best understands what is going on.”

(Barroso, em entrevista ao jornal alemão “Die Welt am Sonntag“)

A Europa é dirigida por lacaios sem orgulho nenhum, cujo único objetivo é assegurar futuros lugares. O que aconteceria de tão grave se Barroso, o presidente da Comissão Europeia, mostrasse alguma dessintonia em relação a Angela Merkel, sobretudo agora que milhões de desempregados e pobres forçam a entrada nas folhas Excel? Possivelmente algo de bem melhor do que aquilo que está a acontecer neste momento em muitos países europeus, cada vez mais em quase todos. Possivelmente também uma melhor imagem pública do próprio. Ah, mas talvez perdesse a oportunidade de uma terceira candidatura ou o apoio a um novo cargo internacional, ambos desfechos importantíssimos para o problema de dezenas de milhões de cidadãos europeus.

Portas, o rei da demagogia

Tendo-se reservado dois dias de suspense para meia hora de glória, Paulo Portas vem agora assumir o papel do comunicador habilidoso da nova austeridade (coisa em que é bem melhor do que Passos, reconheça-se), arvorar-se no campeão da defesa dos reformados, da não redução de salários (?) e da “racionalidade e justiça” das novas medidas. Continua a não explicar, porém, em que se traduzirão os cortes de milhões nos ministérios que permitem poupar as pensões. Também dizer que nenhuma destas medidas reduz o poder de compra quando estão previstos despedimentos de 30000 pessoas é descaramento a mais.
Quanto às razões de fundo para tão grande corte nas despesas (6500 milhões), atribui-as ao Tribunal Constitucional, com isso e com tudo o mais alinhando pelo discurso aldrabão e negacionista do PSD. A parte do regresso aos mercados, como se a nossa dívida não tivesse aumentado para valores estratosféricos e o segundo resgate não fosse inevitável é falácia e demagogia em estado puro.

Em suma, Portas veio salvar a pele do seu partido, e dele próprio, mas, claro, fica. Como não? Adora.

A verdade é que a agenda não sufragada se está a cumprir

Como estamos lembrados, Sócrates governou ao centro, embora ao centro-esquerda. E governou bem. Com profissionalismo, competência e visão (a crise financeira internacional e o discurso culpabilizante da Alemanha infelizmente permitiram que, a partir de 2010, o acusassem de coisas que não fez nesta crise ou nem poderia jamais evitar; a condição de governo minoritário (pelos motivos já conhecidos) fez o resto). Mas o facto é que, além da inveja suscitada, tirou margem de manobra ao então PSD centrista, que ficou sem rei nem roque.

Depois de uma série de lideranças desastrosas, o jovem e inexperiente Passos (ou alguém por ele) lembrou-se então de fazer a diferença ocupando o espaço extremista até aí desconsiderado em Portugal e que nem o CDS, com a sua dimensão, conseguira preencher – uma direita como nunca houvera em Portugal, provocatória e arrogante, supostamente revolucionária e anti-Estado, anti-preguiça, anti-“despesismo”, anti-leis laborais demasiado protetoras, anti-escola pública, anti-SNS, etc. etc. Uma frescura à espera de quem a plantasse. À primeira reação negativa da opinião pública face à “frescura” da proposta de revisão da Constituição, e próximo de uma campanha eleitoral, decidiu o candidato suspender o paleio destravado que então debitava e que ignorava pormenores tão simples como a partilha de uma moeda única e dar início ao discurso das gorduras, que não, não eram nem salários, nem subsídios (“que disparate”), do não aumento de impostos, pelo contrário, a sua diminuição, e das outras medidas prontinhas a aplicar, pois já tinham todas sido estudadas e dariam um resultadão.

Passos tinha, portanto, uma agenda política, que escondeu temporariamente, inspirada e apoiada por ex-financeiros e neoliberais como António Borges ou Braga de Macedo, os mesmos que pouco diferem dos Olli Rehns e Selassiés desta vida, e, sob a batuta do não eleito Gaspar, aqui caído sabe-se lá por obra de quem, está finalmente a cumpri-la. De tal maneira que não podemos sequer dizer que a derrapagem das contas públicas de 2011 e 2012 no valor de 4000 milhões de euros tenha sido um desaire, um erro ou um desastre para a credibilidade do Gaspar, nem sequer, no dizer dos cínicos, um acidente de percurso. O programa desta gente acolhe bem estes supostos desvios. Fazem parte. Se não tivessem acontecido, com que argumentos avançaria Gaspar para o despedimento de dezenas de milhares de funcionários públicos e para a redução drástica dos seus salários, um ponto essencial da dita agenda?

Não restam, pois, grandes dúvidas de que o próximo desastre orçamental dará o pretexto que faltava para a privatização do ensino e da saúde. Se os deixarem, claro.

O pormenor mais importante a reter aqui é que nada disto foi votado pelos eleitores chamados “oscilantes”, neste caso duplamente enganados: pelo PSD, que em eleições não disse claramente ao que vinha, e pelo CDS, que foi eleito com mais votos do que o habitual porque se propôs refrear os ímpetos do parceiro, coisa que até agora ninguém o viu fazer.

Neutralizado Cavaco Silva, e muito gostaríamos de saber porquê, pois ainda há poucos meses se insurgia contra a espiral recessiva, que agora se confirma e acentua, estes tratantes continuarão o seu caminho, independentemente das consequências.

Não me surpreenderia, além disso, que todo este programa estivesse a ser executado em conluio com a Troika e que, inclusivamente, a suspensão da próxima tranche faça parte da estratégia concertada com o Gaspar que consiste em apresentar os novos cortes e despedimentos como inevitáveis … ou não receberemos o dinheiro. Porque isto acontece, repare-se, tendo ao leme um fanático “cumpridor” e numa altura em que muitos países europeus começam a exigir com algum sucesso uma flexibilização da austeridade. Basta ler a introdução ao Documento de Estratégia Orçamental, onde é dito aos credores que, até 2011, nada mais fizemos a não ser errar, pecar e folgar e que agora merecemos todos os castigos e devemos confiar religiosamente nas promessas deste nosso salvador, para confirmar que só pode haver aqui concertação. Eles conhecem-se todos.

Sim, impasse. Mas não há um que sempre dure, portugueses

Está visto que, com Passos e Gaspar, a cada curva da espiral recessiva, aguarda-nos mais um buraco, cuja cobertura nos leva a nova descida, depois a nova curva e assim sucessivamente até já nada restar do país, muito menos população jovem que assegure o seu futuro. O discurso oficial, proferido por cima de derrapagens colossais, é de que não há alternativa a esta austeridade, tendo mesmo Passos avançado ontem claramente que ou era isto ou saíamos do euro. O que, dito assim, é uma ameaça: sair do euro seria ainda pior.

Por estas e outras razões, e porque este desgraçado governo vai manter-se até ao fim da legislatura com a bênção de Cavaco e as cantorias de Portas debruçado na janela, vale muito a pena ler a entrevista que João Ferreira do Amaral dá hoje ao jornal i.

E para percebermos como o primeiro passo para a saída «a bem» do euro não é fácil e esbarra com contradições, aqui ficam uns excertos.

Fala no seu livro de uma saída controlada do euro: negociada, anunciada previamente sem segredo, com um conjunto de medidas que vão ao ponto de parte das aplicações financeiras se manterem em euros. É possível uma saída controlada?
É, mas para isso é imprescindível que haja um acordo com as autoridades comunitárias, quer o Banco Central Europeu, quer a Comissão Europeia. Isso é possível porque a nossa saída beneficiará também os países que estão no euro, já que fará desaparecer um factor de instabilidade que é ter uma economia que não aguenta estar na moeda única.

Há economistas que consideram impossível uma saída calma da zona euro, e exemplificam com o crédito à habitação: se os empréstimos ficarem em euros, as famílias vão à falência, se os empréstimos passarem a escudos, os bancos que pediram dinheiro ao estrangeiro em euros vão à falência…
A minha sugestão é que as dívidas, nomeadamente as do crédito a habitação, mantenham o seu contravalor em euros, mas que a diferença resultante da desvalorização seja assumida pelo Estado, que ele substitua o devedor nessa parte, financiando-se o Estado através de empréstimos do Banco de Portugal
.

[…]Mas não acha que é difícil sair do euro quando o único partido político que manifesta dúvidas em relação ao euro é o PCP?

Sim, mas mesmo que os outros tenham dúvidas não o podem dizer. Nenhum político pode dizer que é a favor da saída do euro. No dia em que o disser já não pode ir para o governo, porque, se for para o governo, dir-se-á que vamos sair do euro, e aí o pânico e a especulação vão gerar-_-se. Mesmo que haja políticos convencidos de que devemos sair do euro, nunca o poderão dizer, para não causar pânico nos mercados.

Então se ninguém pode dizer, como é possível conseguir o consenso político e social para sair?

Aquilo que devia ser feito, não quero dizer que possa ser feito, não tenho grandes ilusões em relação às elites portuguesas, era decidir a saída a um nível muito restrito para manter o segredo e depois, no dia em que fosse anunciado o período transitório, em que seriam tomadas medidas de excepção, tomadas essas medidas a decisão devia ser ratificada pelo parlamento. Para mim não está em causa que tenhamos de sair do euro, de uma forma ou outra vamos ter de sair, a não ser que aconteça um milagre de iluminação na zona euro. O que está em causa é a forma de sair. Ou preparamos a saída ou seremos forçados a fazê-lo com custos muito maiores para a população.

Ou ainda:

[…]

Vista desta forma, esta política é uma soma de incompetências. Não é possível olhar para ela como um programa claro de destruir o modelo social europeu para reforçar os lucros de alguns sectores no processo de globalização?
Se fosse assim deveria ser dito, porque isso só se pode fazer com uma grande mobilização social. Se eles quisessem dizer: estamos a fazer isto porque a Europa não aguenta a concorrência crescente dos países emergentes na economia global, então o melhor seria criar uma base de apoio para fazer este programa
.

Sairemos do euro «a mal».

Gaspar é surdo?

Claro que temos que reagir aos desenvolvimentos económicos, algo que fazemos na Alemanha”, afirmou Schaeuble. “Não somos burocráticos, não somos estúpidos”.
“Se a economia se deteriorar, não se reforça a tendência negativa através de mais cortes”, acrescentou
.

Não sei se o Gaspar ouviu isto e, se ouviu, o que pensa fazer no(s) próximo(s) Conselho(s) de Ministros. Extraordinário(s) e dedicado(s) aos cortes. Também não sei se Schäuble se referia à economia espanhola, alemã ou europeia em geral. Nada é claro nesta Europa às aranhas com preconceitos, fantasmas, heranças genéticas de grandeza e uma crise bancária.

Se se refere à economia espanhola, não se percebe por que razão não é Portugal contemplado por um programa bilateral semelhante, urgente, que não espere pela Comissão, pois se há economia deteriorada é a nossa. Também não se percebe a razão de mais cortes.

Se se refere à economia alemã, ah, ah, os ratos entraram nos aposentos reais e o rei teve que saltar da cama.

Seja como for, há motivos de sobra para suspender o Conselho de Ministros.

Já nada nos surpreende, mas mesmo assim

É estranho que o Governo precise, através de Poiares Maduro e Álvaro Santos Pereira, de chamar o PS para um diálogo com vista a um consenso sobre crescimento. Crescimento, repare-se. Provavelmente a única matéria no mundo que suscita o consenso nacional, planetário, galático e até universal, pois sabe-se que até o universo se encontra em expansão.

Dir-se-ia que um governo com maioria absoluta apenas apelaria à colaboração do maior partido da oposição caso precisasse de garantir uma certa paz social para aplicar medidas difíceis e impopulares e fosse forçado a garantir a vigência dessas medidas para além da legislatura por imposições externas, dado estar em curso um programa de ajuda. Chamar o PS para subscrever medidas de crescimento é, no mínimo, desnecessário e sem virtude aparente. Pelo que o mais certo é tratar-se de uma estratégia assente em esperteza saloia.

Suponhamos que Seguro aceita dialogar e até subscrever as medidas em causa. Seria esse gesto interpretado como tendo igualmente subscrito os cortes que se anunciam a todo o momento, embora tardem? Para efeitos de Troika e de paz social, são afinal esses que importam.

E se, para precaver tal interpretação a todos os títulos abusiva, Seguro recusar o convite? Passará a ser acusado de não querer medidas para o crescimento? Aí temos que rir, mas, do que conhecemos do personagem, seria útil Seguro ser aconselhado, para a resposta, por gente inteligente.

Ou será que, indo ainda mais longe, uma vez entrado em São Bento atraído pelo isco da discussão sobre crescimento à volta de umas torradas, a ideia seja sequestrar o homem até ele assinar a próxima austeridade do Gaspar?

Aguardemos, pois, para ver se o Tozé quer mesmo ir lanchar com os meninos daquele Jardim Infantil. Fazer amigos, sei lá.

O dirigente nacional do PS, Miguel Laranjeiro, disse este sábado, em Santa Maria da Feira, que a carta enviada esta semana pelo Governo ao secretário-geral do partido, António José Seguro, para um novo encontro de trabalho para debater o plano do ministro da Economia para o crescimento chega com “dois anos de atraso”.

Em declarações aos jornalistas à entrada para o XIX Congresso Nacional do PS, que decorre no Europarque, em Santa Maria da Feira, o secretário nacional dos socialistas para a organização declarou que se o “convite é sério não faz sentido que se meta nos jornais antes de o interlocutor responder”.

Curtas, quentes e boas

I- Teorias e práticas

A atuação de Gaspar até pode basear-se em teorias e modelos económicos considerados ciência certa (e agora, ó desastre, dados como falsos). Mas a atuação dos líderes alemães nesta crise no que respeita aos países em dificuldades pouco tem a ver com elaboradas teorias económicas que explicam as recessões e o crescimento. Tem exclusivamente a ver 1) com a melhor maneira e a mais rápida de recuperarem o dinheiro emprestado e darem solidez aos seus próprios bancos, que também tinham alinhado nas práticas de casino, e 2) com a preservação do euro por enquanto, dadas as consequências catastróficas previstas, por enquanto, repito, para a Alemanha em caso de desmembramento do clube da moeda única.

Assim sendo, é utópico pensar que a queda em desgraça de uma certa teoria sobre a relação da dívida pública com o crescimento leve os alemães a reverem as suas posições e a inverterem o rumo da política europeia. A última coisa com que estão preocupados é mesmo com a maneira de pôr os países do sul a crescer. A primeira todos sabemos qual é.

II – Um líder encravado

Segundo uma sondagem divulgada hoje pelo jornal i, o PS de Seguro perde 8 pontos percentuais num só mês. Esta sondagem pode ser disparatada, eventualmente inventada ou, pelo contrário, estar muito correta e os inquiridos estarem apenas a atravessar um momento de mau humor. No entanto, confesso que me surpreendia o Seguro e o seu partido atual serem 8 pontos mais bem vistos do que Passos Coelho e o atual governo. Apresentar uma moção de censura e no mesmo dia escrever uma carta à Troika como que a pedir desculpa é de uma estupidez (mais uma) a toda a prova. Conviria o PS ter presente que, para o povo, se a política a seguir for a mesma, mais vale que o seu executor seja amigo íntimo do credor, sobretudo se este tiver garras.

III – Grau máximo da amizade é, pelos vistos, fazer figuras tristes só para defender um amigo

Manuela Ferreira Leite, no seu espaço de comentário de ontem, meteu literalmente as mãos pelos pés ao tentar não ver no discurso de Cavaco nada de contraditório com o que ela própria nos tem dito na televisão sobre as políticas do Governo. Quando abandonou o assunto «Cavaco e o discurso do 25 de abril», ficou outra e retomou a linha combativa anti-austeridade, sem se preocupar minimamente com as contradições. Chegará isto para ascender ao patamar de popularidade comentarista de Marcelo?

Não há pachorra para estes alemães

Segundo a famosa revista Der Spiegel, o pressuposto de que os funcionários das instituições europeias esquecem as suas identidades nacionais e só trabalham para o interesse geral e a unidade da Europa não passa de um mito. Mas atenção, segundo se deduz desta leitura, são só representantes do sul que transformam esse princípio num mito. O artigo dá como exemplo um português e um italiano e fica-se por aí.
O “deslize” de Barroso sobre os limites da austeridade terá sido, segundo o articulista, um grito de alma de um homem que, quer se tenha dado por ela quer não, tem uma nacionalidade. Neste caso, portuguesa. E Portugal não está bem. Teria sido levado àquele desabafo por pressão das perguntas de uma jornalista da Dow Jones e do Wall Street Journal, por sua vez uma mulher de nacionalidade … grega. Paternalismo do autor do artigo, gente? Não sei que mais lhe chame. Mas dispensava-se esta compreensão.

In Monday’s conversation, it is likely that not only Barroso’s nationality played a role in the discussion, but also that of Stevis, a Greek national who is a journalist with Dow Jones and the Wall Street Journal. After a prominent Greek blogger began tweeting about her plea on behalf of Greeks, journalist Stevis proudly tweeted back, “Hey! That was me!”

(Clicar para ler o artigo completo)

Aproveita o articulista para lembrar que também Mario Draghi se teve de esforçar para provar aos nórdicos que não estava ali para defender os interesses da Itália ou restaurar velhos hábitos do país, como o da inflação elevada (“estamos de olho m ti, ó Draghi!”).

Mas o que é extraordinário neste tipo de artigos é que nunca por nunca ser se aponta o dedo a alemães que, em lugares de topo em instituições financeiras (o Bundesbank) ou políticas alemãs e europeias, ou através de manobras de bastidores e interpostas pessoas (Monti, Gaspar, Barroso e outros), nada mais fazem senão defender os interesses atuais da Alemanha, a sua pátria.

A Europa toda está submetida às ordens germânicas, incluindo o BCE, e estes idiotas ainda temem que alguém ouse pô-las em causa em favor de qualquer outro país, por mais tímida, murmurada e desmentida que seja a maneira como o faz. E depois vêm com paternalismos desculpá-los.
Neste momento, ai de quem contrarie ou irrite a Alemanha, mas são os alemães, que orientam toda a ação das instituições europeias neste crise, os campeões da neutralidade. Extraordinário.

Viva o 25 de Abril!

Celebraram um pacto

Nuno Crato tem-se revelado um mestre na ciência da aldrabice. Tudo começou com os números falsos que atirou para o ar na Assembleia da República com o maior dos desplantes a propósito da Parque Escolar (na altura, inseriam-se na linha dos “desvios colossais” do Gaspar). Estava dado o mote também na Educação, o que na altura chegou a surpreender, dada a auréola de credibilidade que acompanhava a cabeça de Crato. Não tardou a assistirmos às trapalhadas nas colocações de professores, aos avanços e recuos nos vínculos, nas contratações e nos agrupamentos de escolas, às promessas várias e vagas não cumpridas, percebendo-se cada vez mais a ideia de escola que lhe vai na mente – um modelo Estado Novo, segregador, impositivo, a que só faltarão, por enquanto, as reguadas e a Mocidade Portuguesa.

Ontem, quem teve oportunidade de o ouvir no Telejornal a propósito da alteração do programa de Matemática dos 1.º e 2.º ciclos não pôde deixar de confirmar o seu total alinhamento pela cartilha desta espécie de governo. Ao dizer que o conteúdo dos programas não muda, ou praticamente não muda, laborou de imediato em dois equívocos: afinal não muda em relação a quê? Por entre frases escorregadias, percebi (será que percebi mal?) que, desde o ano passado, está em teste um novo programa nalgumas escolas e que é em relação a esse que não há grandes mudanças. Mas e em relação ao que estava em vigor na esmagadora maioria das escolas? E qual a grande justificação? O que disse sobre isso foi muito pouco. Fiquei com a sensação de que, quando muda, é só para se demarcar da “peçonha socialista” anterior, cujas vitórias menospreza, e em nome da tal ideia mítica da escola antiga. Depois, a questão dos manuais: é ou não é necessário adquirir novos manuais? Atendendo ao que acabo de dizer, não se percebeu. Que manuais têm os miúdos neste momento? Crato disse que os poucos ajustamentos que haviam sido introduzidos seriam facilmente acrescentados pelos professores nas aulas, pelo que não seriam necessários novos manuais. Mas, da forma como eu entendi, só pode haver dúvidas. Mais uma vez, o tom com que tal foi dito não transmitiu muita certeza.

Na questão da forma de ensinar a disciplina, disse que, anteriormente, era dado demasiado ênfase a esse tipo de instruções nos programas, mas que agora seria dada total liberdade pedagógica aos professores, pois o que interessava eram os conteúdos e as metas de aprendizagem. Mas onde é que isto é novidade? Não percebi onde queria chegar. Os professores são obrigados atualmente a dar as aulas de uma só maneira? E o que estaria tão mal nos conteúdos anteriores?
Também ontem se soube da mentira sobre o uso das calculadoras nestas idades. Não são usadas.

Em que momento da sua entrada em funções se reuniram estes farsantes à volta de uma mesa e, de punhos unidos, juraram usar a falsidade com toda a arte e engenho de que fossem capazes?

Fantoches

Now, having said this, I know this will also not respond to the concerns of the unemployed citizen in Greece or Portugal or many other countries we could quote. That is why I also think that we are reaching the limits of the current policies. The current policies are of course appropriate in terms of reducing the biggest challenge that we have today which is the challenge of unsustainable debt, public and private, the need to deleverage, the need to put Europe on a sound footing so that Europe can be more competitive and can have growth again, but growth that is sustainable, because what we have learned, and this is for me the biggest lesson of the crisis, and I think a lesson that we have not yet all completely drawn, is that growth based on debt is not sustainable. Growth based on unsustainable public or private debt is artificial growth and what we need is to have growth that is sustainable, namely based on increased competitiveness in Europe. This is what we need. This is the greatest lesson to draw from the crisis.

Durão Barroso está especializado em discursos e declarações que dizem tudo e o seu contrário, mas mais importante ainda, discursos que não colam minimamente com a prática da instituição a que preside (basta lembrarmo-nos do Olli Rehn ou do Simon O’Connor, das suas comunicações regulares e de tudo o que têm feito ou mandado fazer para nos pôr no “bom caminho”).

Podem ler na íntegra as declarações do Barroso aqui. Verão as sucessivas pérolas do dizer e não dizer.
As políticas estão corretas, diz ele, mas é difícil para os cidadãos compreendê-las e aceitá-las e para os politicos explicá-las (logo, o também por cá conhecido problema de comunicação – vamos rir?). A austeridade chegou aos limites, mas as políticas são apropriadas porque são a única maneira de reduzir as dívidas acumuladas (apesar de as agravarem). Só assim os países poderão partir para o crescimento (só que não partem, antes regridem décadas). Há desemprego e miséria em muitos países, e isso é preocupante, mas as medidas estruturais foram muito importantes (apesar de não terem criado um único posto de trabalho e terem contribuído para destruir milhares, não terem reduzido os défices, terem destruído as economias e apagado o futuro do mapa). E por aí fora.
Como ousa este homem falar na competitividade da Europa, quando, a nível interno, as instituições europeias (através do não papel do BCE) impõem uma brutal perda de competitividade às empresas do Sul face às do Norte devido aos diferentes custos de financiamento? E como pode haver crescimento sem dívida?

Este homem é um pateta, sem qualquer poder de afirmação. Pessoas como esta não percebem que são o principal motivo do descrédito da “Europa”. A Comissão Europeia é suposto ser uma instituição supranacional, não uma sucursal do Bundestag.

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O puxão de orelhas
Uma nota só para acrescentar que, embora o homem já tenha interiorizado o chicote alemão quando fala em público, daí resultando discursos mentirosos e contraditórios como o indicado acima, mesmo assim não escapou a um puxão de orelhas de um porta-voz de Angela Merkel pelo que disse sobre os limites da austeridade, tendo-se visto obrigado a “esclarecer” o deslize (isto é, pedir desculpas públicas através do seu porta-voz).

Querido tontinho

Cenas pouco edificantes

I – Não é bonito de observar um ministro das Finanças a apresentar junto dos nossos credores, em dois continentes, em vez de argumentos fortes para obter melhores condições para o seu país, nada mais que as suas credenciais de obediência, para que o premeiem flexibilizando-lhe as metas do défice e concedendo-lhe prazos mais alargados para o pagamento da dívida. Se não incomodar muito. Ah, e por favor, deixem-no regressar aos mercados. Por favor. Ele queria tanto! E que se mostra eternamente agradecido quando o consegue, apesar de levar atrás de si uma obra desastrosa. É triste, é humilhante e fá-lo passar por burro. Faz lembrar um aluno a quem recomendaram que estudasse 5 horas por dia e tivesse decidido, para demonstrar diligência e aplicação, estudar 10, tendo com isso emagrecido, apanhado um esgotamento e ficado na iminência de chumbar. Nem vos digo nem vos conto de que maneira se olha para uma pessoa destas. E para o país que representa.

II- A pessoa atrás mencionada anda, entretanto, também a dar conferências enaltecendo as vantagens de reduzir a dívida dos países para menos de 90%, condição sem a qual supostamente não haverá crescimento. Nessas ocasiões cita, com ares de estudioso e conhecedor, um estudo de dois economistas de Harvard. Acontece que não só se demonstrou que o estudo contém erros crassos e não tem credibilidade, como o conferencista é a mesma pessoa que conseguiu a proeza de, à frente de um governo há 2 anos, aumentar em 25% a dívida do país em vez de a diminuir. Esta ave rara mantém-se no governo, sendo o principal, ou melhor, o único trunfo de um primeiro-ministro iletrado. O que diz isto dos governantes de um país, e do próprio país?

Hello, Grécia!

Já está. A subserviência de Gaspar serviu-lhe de pouco, como se previa. De asneira em desnorte até à curva em que a Troika mostra as garras. Ou assim parece (admito que haja encenação ou combinações entre compinchas).

Segundo ouvi nas notícias, a conclusão da 7ª avaliação está dependente, além de um novo programa de cortes, também da existência de um “consenso” com a oposição e parceiros sociais. Já vimos este filme. Envolve chantagem e não é bonito de ver. Eventualmente, vai começar a ouvir-se falar em referendos sobre a permanência no euro e outras coisas já vistas, como direções de partidos pressionadas e em consequente conflito com militantes e eleitorado, partidos radicais excitados, etc. Será que não há ninguém que acabe com isto?

Para já, guerra de estudos

Num oportuno contraponto (dir-se-ia) a quem contesta o estudo de dois economistas de Harvard sobre a relação da dívida com o crescimento dos países, que esteve na base das políticas de austeridade, estudo com erros fundamentais que foram agora denunciados pondo toda uma estratégia em causa, um estudo recente do BCE vem dizer-nos que a média de ativos das famílias portuguesas, gregas, espanholas, italianas ou cipriotas é bastante superior à das alemãs. Ou seja, os países em dificuldades financeiras serão mais ricos do que a Alemanha. Esta conclusão é escarrapachada em capas de jornais e revistas do eixo norte da Europa, para grande gáudio dos leitores/eleitores e dos contribuintes para a nossa “salvação”, em tudo muito mais parecida com desgraça, mas enfim. O artigo da Spiegel tem até um subtítulo de choque – “Como os países europeus em crise escondem a riqueza”.
Conclui o estudo do BCE que, sendo assim, havendo tanto dinheiro nos países em dificuldades, esteja ele onde estiver, e beneficiando eles de empréstimos generosos de países dadores como a Alemanha, a ajuda não se justifica e os próprios países devem encontrar internamente meios para ultrapassar as dificuldades financeiras. Terá sido talvez já com base neste maravilhoso estudo que as contas bancárias dos cipriotas foram sugadas e, pior ainda, se anunciou que a solução poderia ser futuramente adotada noutros países?

In light of the new ECB study, a new discussion of the Euro Group’s bailout strategy is indeed necessary. So far taxpayers have born the risks of this strategy, by guaranteeing all loans the ESM has paid out to needy countries. Greece, Ireland, Portugal and Spain are already part of this group, and now Cyprus has been added to the mix.
Germany is already guaranteeing about €100 billion in loans. If even more countries request aid and can then no longer serve as donors, the amount of money guaranteed by the Germans could rise to €509 billion, according to an estimate by the German Taxpayers’ Association. This figure doesn’t even include the latent risks in the balance sheet of the European Central Bank (ECB).

[…]In other words, taxpayers and ordinary savers are paying for the euro rescue efforts, which are primarily benefiting the rich in Europe’s most troubled economies. Their assets remain largely untouched, while the assets of their rescuers are melting away.

Não sei se o Excel do BCE também tem erros ou se há ali uma manipulação de dados em favor de um certo objetivo. Convém ler o artigo da Spiegel, que, apesar do título, mostra as várias perspetivas do problema e tem o cuidado de referir algumas das deficiências deste estudo, nomeadamente a desconsideração de dados como a percentagem de proprietários de habitações nos países do sul em comparação com a Alemanha – 80% para 44%-, o número de filhos por família, os anos a que se referem os dados, as razões para o acumular de poupanças nalguns países, o facto de se tratar de valores médios ou, enfim, a triste realidade nos países do sul que choca os olhos de qualquer um que os visite.

Como é óbvio, estudos destes, tanto um como outro, não contribuem o que quer que seja para acalmar as hostes nem para resolver sensatamente os problemas. Duvido que sejam os estudos económicos a causa direta de uma guerra, mas podem ser uma munição importante. Parece-me que começa a estar declarada.

Consenso, querem eles

Não há consenso possível (porque se trataria de um pacto eleitoral suicidário) enquanto o programa for o agravamento da recessão económica e dos números do desemprego através da continuação dos cortes (o “escavar o buraco”) nem enquanto o ministro das Finanças for o Vítor Gaspar nem enquanto for esta a orientação política do Governo nem enquanto for este o Governo.
Seguro tem hoje duas reuniões para o afirmar.

Ainda sobre as audiências de Marcelo vs. Sócrates

(pedindo desculpas à Guida pela repetição do tema)

Pensar que as audiências de Sócrates poderiam rivalizar com as de Marcelo (estou a excluir a novidade da estreia) é ignorar as diferentes personalidades de cada um, o respetivo historial televisivo, a substância dos respetivos programas, o seu motivo e as preferências dos espectadores. Marcelo é basicamente um “entertainer”, aparentemente, mas só aparentemente, objetivo e imparcial. É capaz, sim, de criticar o seu próprio partido e os governantes do momento, e daí o picante das suas palavras, e até de elogiar adversários. Mas com grande à-vontade distorce os factos, sempre benévolo para a direita, e lança interpretações maquiavélicas das atuações dos agentes políticos. Depois, traz uns livros, fala de instituições de solidariedade, chegou a trazer tortas do Algarve, fala amiúde da amizade com a ex-colónia de Moçambique, tudo coisas populares e simpáticas, e, pelo meio, usa a verrina que mais se adequa à intriga da semana, pouco importando que minta ou que diga a verdade. O brilhozinho nos olhos dá-lhe um ar traquinas e espertalhão. Estes são os ingredientes do sucesso, numa televisão que bate as audiências e as receitas de publicidade com telenovelas de enredos idiotas ou tenebrosos mas brilhante guarda-roupa, concursos ruidosos e “reality shows” degradantes. Assim como assim, os telespetadores já estão sintonizados no canal.

Acresce ainda que o “entertainer” Marcelo não quer exercer nem nunca exerceu qualquer função política de/com responsabilidade, para bem dele e de todos nós, exceto uma passagem pela direção do partido, de pouca dura e má memória, pelo que a descontração é grande. Marcelo faz, no fundo, o que mais gosta (fica carente quando não) e é bem pago por isso. Duvido é que quem o ouve o quisesse ver a presidir ao país e muito menos a governá-lo.

Sócrates é outro género, sendo a única semelhança o facto de protagonizarem agora um programa de comentário político. Sócrates pensa e pondera o que diz, leva aquela coisa a sério, manifestamente ainda lhe é difícil abandonar totalmente a atitude contida e responsável que foi obrigado a manter num cargo de seis anos como primeiro-ministro, exceto na primeira entrevista; mas não admira: acabou de chegar às lides televisivas ressuscitado de uma crucificação pública movida pela inveja e promovida por gente de um extremo baixo nível que continua por aí. Além disso, não está ali para divertir ninguém ao serão de domingo, aliás, nem a situação portuguesa se compadece com tal. É corajoso.

Insistir em comparar a clientela dos dois comentadores é, pois, um exercício inútil ou, de outro ponto de vista, talvez não, já que se sabe bem o que se pretende com ele, e não é por acaso que o Correio da Manhã repete os números da GfK a cada coluna. A TVI foi ainda assim simpática ao antecipar o tempo de Marcelo. Não precisava.

Mas compare-se, por favor, o que é comparável. Acho que Sócrates fez muito bem e não posso deixar de considerar bom sinal o facto de ter uma “clientela” selecionada.