A verdade é que a agenda não sufragada se está a cumprir

Como estamos lembrados, Sócrates governou ao centro, embora ao centro-esquerda. E governou bem. Com profissionalismo, competência e visão (a crise financeira internacional e o discurso culpabilizante da Alemanha infelizmente permitiram que, a partir de 2010, o acusassem de coisas que não fez nesta crise ou nem poderia jamais evitar; a condição de governo minoritário (pelos motivos já conhecidos) fez o resto). Mas o facto é que, além da inveja suscitada, tirou margem de manobra ao então PSD centrista, que ficou sem rei nem roque.

Depois de uma série de lideranças desastrosas, o jovem e inexperiente Passos (ou alguém por ele) lembrou-se então de fazer a diferença ocupando o espaço extremista até aí desconsiderado em Portugal e que nem o CDS, com a sua dimensão, conseguira preencher – uma direita como nunca houvera em Portugal, provocatória e arrogante, supostamente revolucionária e anti-Estado, anti-preguiça, anti-“despesismo”, anti-leis laborais demasiado protetoras, anti-escola pública, anti-SNS, etc. etc. Uma frescura à espera de quem a plantasse. À primeira reação negativa da opinião pública face à “frescura” da proposta de revisão da Constituição, e próximo de uma campanha eleitoral, decidiu o candidato suspender o paleio destravado que então debitava e que ignorava pormenores tão simples como a partilha de uma moeda única e dar início ao discurso das gorduras, que não, não eram nem salários, nem subsídios (“que disparate”), do não aumento de impostos, pelo contrário, a sua diminuição, e das outras medidas prontinhas a aplicar, pois já tinham todas sido estudadas e dariam um resultadão.

Passos tinha, portanto, uma agenda política, que escondeu temporariamente, inspirada e apoiada por ex-financeiros e neoliberais como António Borges ou Braga de Macedo, os mesmos que pouco diferem dos Olli Rehns e Selassiés desta vida, e, sob a batuta do não eleito Gaspar, aqui caído sabe-se lá por obra de quem, está finalmente a cumpri-la. De tal maneira que não podemos sequer dizer que a derrapagem das contas públicas de 2011 e 2012 no valor de 4000 milhões de euros tenha sido um desaire, um erro ou um desastre para a credibilidade do Gaspar, nem sequer, no dizer dos cínicos, um acidente de percurso. O programa desta gente acolhe bem estes supostos desvios. Fazem parte. Se não tivessem acontecido, com que argumentos avançaria Gaspar para o despedimento de dezenas de milhares de funcionários públicos e para a redução drástica dos seus salários, um ponto essencial da dita agenda?

Não restam, pois, grandes dúvidas de que o próximo desastre orçamental dará o pretexto que faltava para a privatização do ensino e da saúde. Se os deixarem, claro.

O pormenor mais importante a reter aqui é que nada disto foi votado pelos eleitores chamados “oscilantes”, neste caso duplamente enganados: pelo PSD, que em eleições não disse claramente ao que vinha, e pelo CDS, que foi eleito com mais votos do que o habitual porque se propôs refrear os ímpetos do parceiro, coisa que até agora ninguém o viu fazer.

Neutralizado Cavaco Silva, e muito gostaríamos de saber porquê, pois ainda há poucos meses se insurgia contra a espiral recessiva, que agora se confirma e acentua, estes tratantes continuarão o seu caminho, independentemente das consequências.

Não me surpreenderia, além disso, que todo este programa estivesse a ser executado em conluio com a Troika e que, inclusivamente, a suspensão da próxima tranche faça parte da estratégia concertada com o Gaspar que consiste em apresentar os novos cortes e despedimentos como inevitáveis … ou não receberemos o dinheiro. Porque isto acontece, repare-se, tendo ao leme um fanático “cumpridor” e numa altura em que muitos países europeus começam a exigir com algum sucesso uma flexibilização da austeridade. Basta ler a introdução ao Documento de Estratégia Orçamental, onde é dito aos credores que, até 2011, nada mais fizemos a não ser errar, pecar e folgar e que agora merecemos todos os castigos e devemos confiar religiosamente nas promessas deste nosso salvador, para confirmar que só pode haver aqui concertação. Eles conhecem-se todos.

3 thoughts on “A verdade é que a agenda não sufragada se está a cumprir”

  1. Muito bem, Penélope!

    Quanto a Cavaco Silva. Nesta revolução neoliberal de Passos, o nosso presidente bem poderia fazer o papel de um Melo Antunes; só que o seu perfil é mais o de um António de Spínola, dado que foi o autor da nossa adesão apressada e imprudente ao “pelotão da frente” do euro. Por isso, Cavaco tem hoje tanta margem de manobra para travar Passos como Spínola tinha para travar Vasco Gonçalves. Só lhe resta esperar que Gaspar se estampe ao comprido; o que decerto acontecerá quando os cortes de 6 mil milhões provocarem uma saída desgovernada e impreparada de Portugal do euro.

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