Arquivo da Categoria: Penélope

Quando é que a “staff team” e o “Executive Board” do FMI se sintonizam?

Os economistas do FMI acabam de publicar um documento de avaliação do resgate da Grécia em 2010, em que reconhecem inúmeros erros de estimativas e erros na própria receita.

«O FMI admite erros significativos nos remédios do programa da Grécia e nos efeitos que estes teriam na economia grega. O resgate, segundo o FMI, terá sido uma operação feita para “dar tempo à zona euro para criar uma ‘firewall’ para proteger outros membros vulneráveis e evitar efeitos potencialmente severos na economia mundial”.»

Fonte: JN

Isto é o que se chama brincar com coisas sérias. Estas pessoas estudaram e são pagas o suficiente para não poderem ignorar as consequências num dado país daquilo que estavam a preconizar e a impor.

Não vou aqui remeter para todos os posts, artigos de jornais, livros e análises económicas que, há mais de dois anos, vêm dizendo que o resgate da Grécia (e não só) e os violentos termos em que foi feito, e que significariam uma tragédia social e económica sem fim, mais não eram do que uma forma de a Europa, numa altura de egoísmo centralizado, ganhar tempo. Ganhar tempo para, perante a ameaça iminente de colapso da Zona Euro com a saída de um só país, medir a gravidade do que se estava a passar e analisar se podia não fazer grande coisa enquanto a Alemanha e seus satélites continuassem bem, ganhar tempo para os bancos do norte se recomporem e recuperarem o dinheiro emprestado, ganhar tempo enquanto as transferências de depósitos se intensificava, enfim, ganhar tempo enquanto se faziam experiências. Toda a gente viu, toda a gente soube e muita gente o disse.

Quanto à flexibilização dos critérios, dizer também que o país não preenchia três dos quatro critérios para o resgate, mas mesmo assim tê-lo resgatado por não haver alternativa, é chover no molhado. Porque já está.

Não sei se o FMI considera agora que a Grécia devia ter sido deixada falir e sair do euro. Parece-me evidente que tal não iria acontecer, pelo que este reconhecimento póstumo dos chamados erros e do desrespeito de critérios é inútil. A menos que tenha consequências nos programas concretos em curso. Caso contrário, mais valia estarem calados. Até porque, como diz o documento logo na introdução, esta análise não representa a posição dos órgãos dirigentes do FMI.

>“The views expressed in this document are those of the staff team and do not necessarily reflect the views of the government of Greece or the Executive Board of the IMF

Então, quando saberemos a posição do conselho de administração? É divergente? E as divergências internas trazidas para a praça pública pretendem o quê? Limpar a má imagem da instituição, que continua alegremente a arrasar países ou a aliar-se a quem os arrasa, como no caso da Europa?

Mas, enfim, tendo em conta que esta gente trabalha no FMI e vai ser citada e acusada, como é o caso, o que nos interessa reter e questionar é o seguinte:

1) Se a ideia foi construir o tal “firewall”, parece não ter funcionado plenamente, ou seja, não funcionou para todos os países, porque, depois da Grécia, houve mais dois resgates, três se contarmos Chipre, e dois países – a Espanha e a Itália – estiveram à beira de resgates, dada a degradação das suas condições. Apenas a dimensão das suas economias impediu a mesma solução. O BCE interveio para baixar os custos de financiamento, mas a UE impôs-lhes condições draconianas de quase resgate e a situação não parece estar a melhorar. Aliás, toda a Zona Euro está entre a recessão e a depressão. Que conclusões tiram? Não têm nada a ver com isso? Mas são ou não membros da Troika? Houve também erros no que respeita a outros países? Não houve? Estão a cometer-se erros neste momento? Está tudo a correr bem? Ou faz parte do marketing do FMI só reconhecer os erros passados dois ou quatro anos e milhões de desempregados depois, ah, e através dos “staff teams”?

2) Está à vista que o programa aplicado a Portugal foi igualmente e comprovadamente errado, pelo que não se compreende que o não digam também, quando todos os indicadores da dívida, da economia, do défice, do desemprego, etc., estão no vermelho e a piscar há não sei quantos trimestres, deixando Portugal literalmente sem baterias. Quando sai o documento sobre Portugal? Com a dívida nos 130% do PIB e a economia numa desgraça, esperamos uma autocrítica semelhante, embora receie que nos valerá de tanto como irá valer à Grécia.

Desregulado no ar

Não vejo outra explicação para o facto. O avião que levou António Borges para Nova Iorque não devia ter ainda aterrado, seguramente, quando este consultor do Governo português proferiu as seguintes afirmações numa conferência realizada no quadro dos «Pan European Days», uma iniciativa da Euronext:

“Em vários países, como em Portugal, a situação podia ser “rapidamente” ultrapassada se “fosse mudado o ambiente dominado pela regulação e a ideia de que é preciso proteger o empregador do funcionário e o funcionário do empregador”. (Ah, a regulação! Tudo desregulado é que é bom. Foi assim que se evitaram as jogatanas financeiras que nos trouxeram até aqui, não foi? Ah, esperem. Foi ao contrário. E que diabo quererá dizer a última parte da frase, aquela do funcionário e do empregador?)

“Estamos agora a decidir como país se vamos ter um crescimento rápido ou se vamos satisfazer-nos com a mediocridade”, disse, acrescentando que o país precisa de melhorar a competitividade da sua economia e reformar o Estado, que “é muito grande e muito, muito pouco eficiente”. (A boa decisão é a seguinte: despedem-se 100 000 funcionários públicos, acaba-se com o Estado e é ver o crescimento disparar para os 200 km à hora. Dito a 10 000 metros de distância da Terra)

“O processo europeu está a desenvolver-se, a ganhar momento, e os países que foram mais atingidos pela crise, como a Irlanda e Portugal, são os que vão sair mais beneficiados”. (Ganhar momento, Portugal beneficiado – Hello torre de controlo! Borges ainda no ar)

“A Europa tem estado a pôr a casa em ordem, algo que os Estados Unidos ainda precisam fazer.” (Decididamente, não pisou ainda solo americano e já dá conselhos. Mas, Obama, filho, pensando bem, tu contrata-me este cérebro. Olha só para o vosso estado calamitoso e compara-o com o da Europa)

Fonte

As coisas que nunca importa dizer

I – A superficialidade politiqueira

Marcelo Rebelo de Sousa, sempre analisando a atividade política do ponto de vista dos ganhos e perdas para (a popularidade d)o Governo, mas nunca para os portugueses, afirmou ontem, referindo-se ao Ministro das Finanças:

Eu sempre disse que Vítor Gaspar era uma mais-valia, mas acho que começa a ser… é, uma patente menos-valia do Governo. Era uma mais-valia por causa do prestígio externo”, contudo, “os erros e o discurso que faz internamente são de tal forma desastrosos que não compensa o que tem de prestígio externo”, adiantou.

“Acho que é um problema do Governo e acho que findas as [eleições] autárquicas o primeiro-ministro tem de pensar mesmo” em substituir o responsável pelas Finanças “se não é um problema excessivo do Governo.

A preocupação de Marcelo é, portanto, o bom ou o mau nome que Gaspar dá ao Governo. Além disso, como não podia deixar de ser, preocupa-o também o problema do “discurso”, uma desculpa já gasta, e dos erros, do tipo “o homem engana-se muito”. Quanto às consequências concretas das suas opções para o país, zero. Não é isso que importa. Siga a festa.

II – Cheiro a mofo e histórias da carochinha aplicadas à economia

João César das Neves devia deixar-se de análises económicas e ir pregar para um púlpito. Aí, contaria com a benevolência de muitos. Assim, é uma vergonha.

Diz-nos JCN hoje no DN que o Estado é “amigo do alheio”, o que significa que anda a usar o dinheiro dos outros para alegadamente sustentar a sua vida de luxo. Suspiramos, rimo-nos, envergonhamo-nos ou atiramo-lo ao lago?

“Quando o Orçamento do Estado lida com cerca de metade do que o país tem, há mesmo muita gente a viver de dinheiro alheio.”

Não sei bem qual a ideia desta afirmação, potencialmente falsa, mas contam-nos pessoas bem informadas que o papel do Estado é redistribuir parte da riqueza produzida por um país, quer sob a forma de prestações sociais, quer de reformas, quer de serviços. É isto o Estado social –verbas de todos, em escalas progressivas, para todos. O peso das despesas do Estado em percentagem do PIB já foi quantificado e é inferior à média europeia. Quando não havia Estado social e apenas os ricos tinham direito e acesso a cuidados médicos, boa educação e reformas na velhice, o Estado, de facto, não gastava praticamente um tostão. Será isso que Neves pretende?
O Estado terá sempre de lidar com o dinheiro alheio. Não há país que não o faça, assim como não há país que não se endivide. Todos os Estados gerem dinheiro alheio. As dívidas dos países europeus antes da crise de 2008 eram dinheiro alheio e perfeitamente sustentáveis. Deixaram de o ser face ao aumento especulativo das taxas de juro e às falências, que fizeram cair as receitas e aumentar as prestações sociais. Portugal só não gere o seu próprio dinheiro porque pertence ao clube da moeda única e não tem liberdade para utilizar os instrumentos tradicionais de combate às crises, nem possibilidades de imprimir moeda. Mas também nada disso importa. O que importa é escamotear tudo isto e centrar a prédica na moral. Nem sei porque não veio à baila o demónio e as suas tentações.

“A União Europeia trouxe novos cambiantes ao processo, permitindo viver de dinheiro longínquo. É incrível que tantas pessoas se sintam com direito à riqueza de regiões que nunca viram nem conheceram. Se o capital nacional fosse para longe, ficariam horrorizadas, mas acham normal exigir uma parte da fartura alemã.”

Ninguém aqui se sente com direito a nada. Não é assim que as coisas funcionam na economia. Se as regiões ricas não quiserem emprestar dinheiro às mais pobres, podem não o fazer, mas duvido que tal seja do seu interesse. Assim como foi do interesse alemão a criação da moeda única e os fluxos de capitais do norte para o sul, fonte da tal “riqueza dessas regiões nunca vistas”, assim também é agora do interesse alemão a manutenção da austeridade nos países do sul e as consequentes transferências inversas de capitais e poupanças do sul para os seus bancos (sim, horrorizamo-nos). A bancarrota dos Estados do sul e a sua saída do euro poriam a Alemanha em muitos maus lençóis. Segundo estudos, em péssimos lençóis. Estamos todos ligados. Mas isto que importa a JCN?

“O paroxismo do processo surgiu com a globalização de capitais, que permite usar dinheiro de desconhecidos. Em si mesmo, o crédito não significa obter fundos alheios, pois pagaremos amanhã o que gastamos hoje. Mas numa crise financeira como a actual, há fortes probabilidades de nunca se pagar, o que muda tudo.”

Ainda bem que, afinal, JCN reconhece que o crédito não são fundos alheios e que nós pagaríamos – evidente que pagaríamos, se nos cobrassem juros decentes, se tivesse sido posto um travão à especulação na altura certa e se tivéssemos instrumentos próprios para gerir a nossa crise interna. Tal não foi feito por razões já conhecidas. Mas, é claro, nada disto importa. E sim, se deves um milhão ao banco, é o banco que tem um problema.

O púlpito, please. Histórias destas, carregadas de moral pacóvia, precisam do enquadramento apropriado.

O ódio irracional, doentio, freudiano a Sócrates toldava a visão a muita gente

Manuela Ferreira Leite, uma mulher cheia de bom senso. Mas isso é agora. E sem precisar de mudar de óculos. Só por se sentir interiormente menos perturbada.

Manuela Ferreira Leite disse também que a diminuição do número de funcionários públicos está a ocorrer a um ritmo maior do que o recomendado pela troika e com a mudança do estatuto de despedimento, que não foi pedida pelos credores.

A social-democrata considerou por isso que é difícil alguém conseguir responder se há funcionários públicos a mais, admitindo que em alguns sectores pode haver e noutros não e lembrando que houve trabalhadores que já saíram e que não foram substituídos.

Para a ex-ministra faltam estudos para perceber o impacto da redução em determinados sectores e do que se pretende para o futuro. “Se se quiser aumentar a escolaridade obrigatória e combater o insucesso escolar, se calhar já não há professores a mais”, exemplificou.

Ferreira Leite mostrou-se ainda céptica em relação ao real impacto das medidas do governo para administração pública na consolidação orçamental.

“Não vejo no curto prazo benefícios orçamentais e vejo a médio e longo prazo consequências gravosas para a instituição administração pública. Temos de ter cuidado em não abalar as nossas instituições”, alertou.

Um governo em gozo de maioria absoluta

Não há que andar com rodeios – este Governo está perdido no seu labirinto e o Ministro das Finanças optou por prosseguir até às últimas consequências a aplicação de um modelo que gizara enquanto técnico de gabinete, apesar do seu evidente falhanço. Mas sejamos tenebrosos: não é tanto “apesar de”, mas por causa do seu evidente falhanço. Quando tudo arde, que resta ao incendiário se não deleitar-se com a beleza da morte? Depois, normalmente, suicida-se, mas não vai ser esse o caso de Gaspar.

Mas existe outro elemento igualmente grave na situação atual. Dada a falta de transparência e a identificação perfeita entre o que o ministro pensa e o que é defendido publicamente pela Troika de credores, não é possível destrinçar – e Gaspar faz questão de manter a nebulosa – entre o que são as decisões de um e as exigências dos outros. Assim, nada garante aos portugueses que os despedimentos e os cortes anunciados, logo, o agravamento da austeridade num momento de tão comprovado desastre, sejam imposições dos credores, de cumprimento obrigatório. Porém, o facto é que, se não são, os credores dão-lhes total cobertura. Estão, evidentemente, tranquilos. Não só não moram em Portugal, como também terão orgulho em parir (para nos mantermos numa temática recente) um bom exemplo. Ou forjar um, o que em nada resolve a nossa situação económica.

Assim sendo, depois de aprisionado Cavaco Silva pelas suas próprias limitações ou por agentes políticos bem informados, o Governo, pela mão de Vítor Gaspar, sentado na maioria absoluta que ainda lhe resta, pratica como nunca o exercício da mentira, sobre o passado e sobre os seus próprios atos, insulta instituições como o Tribunal Constitucional, inventa realidades, brinca ao investimento, internacionaliza o circo na Europa, junto de Wolfgang ou de Jeroen, usa e abusa dos cargos de nomeação governamental e contrata e contrata e contrata todos os assessores que pode para os gabinetes ministeriais.

Por mais chantageado ou gagá que Cavaco se encontre, deixar prosseguir este desvario é a maior irresponsabilidade de que um presidente da República jamais virá a ser acusado.

Não é isto extraordinário?

Toda a razia atual é feita em nome dos ganhos de competitividade. Dois anos volvidos, somos ou não mais competitivos? A resposta é um rotundo NÃO. Piores que nós, na Zona Euro, só a Grécia. É o que nos diz a instituição que avalia estes aspetos dos países – o International Institute for Management Development (IMD), no seu relatório anual.

Entre os pontos fracos do país ao nível empresarial, o IMD destaca o acesso ao crédito. A inexistência de crescimento económico, a fraca resiliência económica, a elevada taxa de desemprego, nomeadamente o elevado desemprego entre os jovens, também pesam negativamente. No indicador da eficiência governamental, os factores que mais prejudicam a competitividade portuguesa são os encargos fiscais, a elevada dívida pública e ainda a coesão social.

Como aspectos positivos de Portugal, o IMD destaca as infra-estruturas, a mão-de-obra qualificada, as leis de imigração e as energias renováveis.

“Os rankings são baseados em quatro pilares principais. Um deles é o desempenho económico e, por comparação internacional, é possível verificar que Portugal não tem bons indicadores relativos à economia doméstica, nomeadamente o desemprego”, sublinha Anne-France Borgeaud.

Em suma, desregulámos o mercado de trabalho, reduzimos os custos do trabalho, cortámos em cada salário e reforma para, alegadamente, pagarmos a dívida, provocámos com isso a falência de empresas e o aumento em milhares das pessoas desempregadas, entristecemos o país, para agora sermos informados de que todas essas medidas não só não pagam dívida nenhuma como também não a estancam e, mais surpreendente, tiram competitividade ao país.

E escusa a direita de argumentar com os efeitos fantásticos desta violência no longo prazo, pois nenhuma das vítimas atuais jamais o viverá em idade ativa. A brincadeira está a sair cara de mais no curto e no médio prazos. Esta novilíngua que pretende criar com as palavras (como “ajustamento” e “ganhos de competitividade” (perdas, na verdade)) uma realidade diferente da que existe tem de acabar. Portugal não está a ficar mais competitivo, pelo contrário, e, se está a ajustar alguma coisa para melhor, é o futuro de Vítor Gaspar.

No meio de tão miserável quadro, não posso deixar de destacar o parágrafo que refere os aspetos positivos, os únicos que nos restam – todos eles herança do governo anterior, que, a propósito, certamente manejaria com muito mais cuidado as cordas do programa de resgate, que outros tornaram inevitável. Sejam os avaliadores quem sejam, os alicerces de um país diferente estavam, reconhecidamente, lançados. Este interregno experimentalista mas essencialmente punitivo é uma das páginas mais negras da nossa História.

A guerra na Europa é entre os países que bebem vinho e os que bebem cerveja

Há uma interessante querela comercial em curso com a China (é uma constante). Pressionado pelos produtores de vinho nacionais, o Governo chinês está a pensar impor uma taxa sobre as importações de vinho europeu (como sabemos, maioritariamente francês, mas também italiano e espanhol). O mais provável é que, a par dessa razão, se trate também de uma estratégia diplomática chinesa que visa tirar partido das atuais dissonâncias intraeuropeias, sobretudo entre o par franco-alemão. A velha questão de dividir para reinar, agora totalmente facilitada pela dispensabilidade de provocar a divisão, pois já existe (a este propósito, ler isto).

Entram agora em cena os painéis solares. A França, de certa forma em retaliação e fortemente prejudicada pelo dumping chinês, esse sim bem real, resolveu propor uma taxa europeia sobre a importação de painéis solares da China, vendidos aqui a um preço imbatível graças aos já conhecidos fatores das ajudas de Estado e dos custos laborais, o que ameaça seriamente a nossa produção. A Alemanha, interessada em chorudos negócios com a China, cujo primeiro-ministro está de visita, opõe-se. Este tema foi ontem tratado numa reportagem no telejornal francês.

A conclusão do jornalista – que faz o título deste post – não podia ser mais expressiva e realista.

Ser cego e/ou obtuso é isto

O problema da Europa é que não é suficientemente competitiva a nível mundial. Muitos de nós conseguíamos ganhos dentro da União Europeia: Portugal exportando para a Espanha, o meu país exportando para a Alemanha. Mas agora, com a Europa sem grande crescimento, temos todos de encontrar oportunidades lá fora. É por isso que temos de ser todos mais competitivos.

Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo

Ó homem, e porque é que a Europa está agora “sem grande crescimento” e sem perspetivas de o vir a ter? E porque é que tinha de chegar a esta situação? E porque é que não saímos dela? E porquê…? (estou a engasgar-me)

Convém ler a entrevista dada por este senhor a Teresa de Sousa, do Público, e testar o nosso grau de contenção ao lermos, de cada vez que lhe é lembrada a desgraça causada por estes programas, que tudo isto é necessário para melhorar a competitividade. Melhorar a competitividade. Melhorar a competitividade, ouviram? Melhorar a competitividade! Matar o consumo, mas melhorar a competitividade. Expulsar milhares de cidadãos, mas melhorar a competitividade. Criar um exército de desempregados, mas melhorar a competitividade, ah, e fazer reformas estruturais. Empobrecer os que ficam, mas melhorar a competitividade. Matar o mercado único, mas melhorar a competitividade.
A Europa já não existe, nem quer existir. Nem como mercado comum. É assim que estamos.

E nem estas últimas declarações o ilibam de repetir a cartilha dominante na Europa. Além de me parecerem erradas.

E como já disse, creio que a CE está certa quando diz que, quando a economia enfrenta grandes problemas, devemos permitir um pouco mais de tempo. O problema continua a ser que, se levarmos demasiado tempo, a recuperação da economia também levará mais tempo.

É isto sequer verdade?

Gaspar deve ir embora, se não quer prestar contas aos portugueses

Vítor Gaspar admitiu hoje que, segundo as novas regras europeias, Portugal poderá ser beneficiado com novas flexibilizações nas metas do défice público, mas considerou que perguntas que vão no sentido de saber se o Governo já está a trabalhar nisso são de “uma enorme deselegância”.

Deselegância? Há enormes problemas com Vítor Gaspar e dispenso-me de enumerar os académicos e técnicos. Mas esta veneração, este temor doentio de suscitar a ira dos “deuses” da Europa ultrapassa todas as marcas.

Siga o circo porquê?

Neste país de opereta em que o primeiro-ministro não existe, não se percebe se Vítor Gaspar e Cavaco Silva fazem ambos parte de um mesmo Governo, se de repente se concertaram e reina a harmonia ou se olimpicamente se ignoram e agem em total autonomia e eventualmente em divergência.

Vítor Gaspar parece não se desviar um milímetro da postura que assumiu quando aqui chegou: subserviência para com os credores e zelo muito superior ao admissível e ao que lhe era exigido, aplicação rigorosa de um modelo austeritário que idolatrava baseado em teorias neoliberais que pretendem reduzir as funções do Estado ao mínimo dos mínimos, empobrecer os trabalhadores para tornar as empresas competitivas face à Europa de Leste, à Índia e à China e aumentar o desemprego quase sem limites como forma de exercer pressão sobre os salários. Toda a sua política piorou o que já de si seria mau. É nessa linha que o vemos a prestar contas e pedir ajuda a Schäuble, o seu grande protetor, e a repetir de forma patética que o “ajustamento” está a ser bonito, a correr muito bem e que estamos prontos para o investimento, enquanto impõe mais 4800 milhões de euros de cortes e, com eles, dá nova machadada na procura e na economia. Mas continua em funções. Porquê, não se sabe.

Ao mesmo tempo, porém, Cavaco resolveu assumir algumas iniciativas que parecem interferir na esfera do executivo. Não contente com a convocação do Conselho de Estado para discutir a política pós-Troika (não esquecer que este órgão meramente aconselha o Presidente), como se lhe competisse a ele, decidiu também, segundo se lê no Expresso, reunir, em Julho, economistas “de vários quadrantes” (imaginamos quais são) para continuar a discutir o mesmo tema, dir-se-ia que na mira de construir uma solução para os problemas da economia, mostrando não ter qualquer confiança em Vítor Gaspar e pensando que o orienta de alguma maneira.

Tudo isto é preocupante. Das duas, uma. Ou Cavaco, aborrecido na Presidência, arranjou forma de se divertir (já que enfrentar na rua o povo hostil está fora de questão) brincando aos primeiros-ministros como antigamente, quando era feliz (e Gaspar, cínico, deixa-o brincar), ou anda a querer mostrar a Gaspar que há alternativas ao seu rumo ou falta dele. Mas há ainda uma terceira hipótese: manobras de diversão enquanto Gaspar faz o trabalhinho, com o qual Cavaco passou a concordar inopinada e incondicionalmente, o que demonstra um grau supremo e nunca visto de cooperação e comprometimento. O que nos leva a perguntar o que terá mudado desde o discurso da espiral recessiva, agora já não um receio, mas uma trágica realidade.

Toda esta estranheza de papéis e a nebulosa que reina nos dois principais órgãos de soberania é ao mesmo tempo causa e sintoma da podridão da nossa democracia. Um governo incompetente e desmotivado, mas obrigado a arrastar o espetáculo, um ministro das Finanças que tudo falha mas se atém obstinadamente ao seu modelo, buscando a proteção de uma potência estrangeira com interesses divergentes dos nossos, e obrigado também a números circences como conferências a elogiar o modelo falhado ou discursos otimistas sobre novas etapas radiosas, proferidos sobre canhões. Em cena também, o artista convidado Paulo Portas, a quem a vida não corria mal, mais fita menos fita, mas cujos passos maiores que a perna o podem levar, entretanto, a fazer umas contas mais sérias. Introduz suspense. Ousará romper?

O agora oficialmente “palhaço” de Belém optou por se juntar a esta tropa fandanga, para ainda maior descrédito de todos. Mais dois anos disto, ó Paulo Portas?

E enquanto o teletransporte não passa de desejo

Esta ideia de substituir o asfalto por painéis solares, embora não concretizável em dois dias, parece-me genial.

The idea is as simple as it is ingenious. Wherever roads are laid, solar panels could go instead. They would generate electricity, which would in turn be fed into the grid. Thus, oil is conserved twice: Electric cars could be charged with the energy produced by the panels, and the panels would replace the use of asphalt, the production of which requires petroleum.

(ler mais na Der Spiegel)

Despesismo, por favor, regressa. Estávamos tão certos!

O que há com o diabo?

O jornal i não para de nos informar sobre o aumento de casos de “possessão demoníaca” e sobre o recrudescimento do exorcismo na frente católica, assim como sobre a reentrada do Diabo (com maiúscula) nas homilias do novo papa Francisco. Quase todos os dias há atualizações.

Para mim, que observo de fora, o Diabo faz todo o sentido e introduz a indispensável harmonia no edifício religioso – não se compreenderia que existisse um ser infinitamente bom e misericordioso, que nunca ninguém viu, mas alguns dizem sentir, e não existisse o seu contraponto, um ser mefistofélico que tudo faz para desviar os pobres homens da rota do paraíso. E que também nunca ninguém viu, mas cuja ação malévola, pelos vistos, alguns sentem. Ah, que seria do bem sem o mal? Da bonança sem a tempestade?

Mas somos também informados de que apenas podem ser exorcizadas as pessoas que não tenham doença física ou mental e de que a Igreja está a recrutar especialistas para a ajudarem a avaliar os diferentes casos. Empregos, portanto, boa notícia. Não li qualquer estudo sobre o perfil ou a origem das pessoas que atualmente se consideram possuídas, mas estou em crer que da América Latina não vêm apenas maçãs e uvas chilenas, carne argentina ou frutos tropicais para a Europa. Um papa para apascentar as almas que também aqui têm rumado também já veio. Faz sentido.

Publicidade da casa

O nosso Vega9000 saltou hoje para toda uma página do DN pela mão da Fernanda Câncio. Com fotografia e tudo. Para quem não sabia, além de blogger, o Vega9000 tornou-se um famoso tuiteiro. A assunção da personalidade do Passos Coelho e do respetivo “pensamento” numa conta Twitter é o tema do artigo da Fernanda Câncio.

Malta mais cusca, se quiserem ver com os vossos olhos, toca a comprar o jornal, porque em linha não parece estar acessível. Mas deixo mesmo assim a transcrição do texto:

Desempregado de 39 anos, humorista amador, resolveu começar a ‘ imitar’ o PM. Já foi levado a sério até por um repórter do ‘ Wall Street Journal’.
Na quarta-feira, Edward Harrison, do site de especialistas em economia e finanças Credit Writedowns, citou, no seu Twitter, traduzindo-a para inglês, uma frase atribuída a @ Passos_ PM: “A economia contraiu 3,9% portanto vamos redobrar a austeridade e cortar mais”, imediatamente retuitada (citada) pelo repórter do Wall Street Journal Charles Forelle. Quatro minutos depois, uma seguidora portuguesa avisava-o: “Edward, não sei se sabe mas essa conta é satírica.” Resposta: “É muito satírica porque é muito verdadeira. :-).”

Nuno Salgueiro filiou-se no PS em 2002, depois de Ferro perder as legislativas para Durão. (foto)

Nuno Salgueiro, 39 anos, designer industrial no desemprego e atualmente estudante de Engenharia Mecânica no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, engasga-se a rir ao comentar a ocorrência. Não é a primeira vez que alguém assume que a sua conta satírica Pedro o PM (@ Passos_ PM), em cuja nota biográfica se lê “Oriento a minha vida pelos 5 pês: Pedro, Pai, Primeiro- ministro, Patriota e Pin. Também faço farófias” é mesmo do primeiro-ministro português – há mesmo, diz, quem o insulte pensando que está a insultar Passos Coelho na cara –, mas desde que foi criada, em dezembro de 2012, ainda não tinha sucedido com especialistas estrangeiros de finanças. Certo é que Nuno, que se assina @ Vega9000 no Twitter e no blogue Aspirina B, algumas vezes usa frases “verdadeiras” de Passos (assinalando-as com um asterisco nesse caso). E a ideia de base do seu exercício é mesmo a de ser difícil distinguir os seus tuites “a gozar” daquilo que o primeiro-ministro diz. “‘ Surgiu- me quando estava a ouvir um discurso de Passos e a comentá- lo no Twitter. Disse: ‘ Vou escrever dois ou três tuites em passês’, aquele tipo de discurso em que se começa a dizer uma coisa e se acaba a dizer outra completamente diferente. Aí lembrei-me de criar uma conta especificamente para isso. E é muito fácil de fazer, basta olhar para os discursos dele com olhos de ver. A ideia é desconstruir o que ele diz, que parece sério e pomposo mas é completamente sem sentido. E de vez em quando escrevo mesmo tal qual o que ele disse, assinalando com asterisco, e parece na mesma uma anedota.” A piada vai ao pormenor de a conta @ Passos_ PM só seguir outras duas: a de Merkel e a de Schäuble (o ministro das Finanças germânico).

Mantendo a sátira em balizas éticas – “Nunca uso família a não ser a Laura [ mulher de Passos], mas isso porque o próprio usa” –, Nuno, casado, com dois filhos ( um rapaz e uma rapariga) e militante do PS desde a derrota de Ferro Rodrigues contra Durão (“Eu e a minha namorada, hoje mulher, falávamos de nos inscrevermos e pensámos: ‘ Se há boa altura para o fazer é agora.’”), anota a diferença entre o discurso de ódio, pessoalizado, que existiu contra o Governo de Sócrates e a oposição atual. “Agora, que a situação do País é muito pior, não se vê isso. Ainda bem, mas é uma diferença muito curiosa.” Recorda por exemplo que o blogue onde escreve, o Aspirina B, chegou a ser acusado, até por Pacheco Pereira, de ser pago pelo Governo. “Olho para essas coisas que Pacheco Pereira disse e escreveu e penso ‘ que pena, que desperdício.’ É uma pessoa muito inteligente que se deixou levar para a coisa fácil, para os caminhos do ataque pessoal. É como ver um filósofo brilhante a discutir e a dizer ‘ A tua mãe é isto.”
A propósito de mães, o tweet até agora mais popular do Pedro o PM foi a elas alusivo: “Bom dia da mãe. Para celebrar, decretei q hoje o estacionamento no aeroporto é grátis. Demorem o tempo q quiserem a despedir-se dos filhos.” Mas o autor ficou surpreso com o sucesso de outro, muito mais elitista: “Boa tarde. Devido a uma embalagem suspeita evacuámos o ministério das finanças. Afinal era um livro de Keynes, por isso evacuámos outra vez.”

Tratando Paulo Portas como “o Terceiro” ( por Passos ter dito numa entrevista que o ministro dos Negócios Estrangeiros é a terceira figura do Governo) e usando de uma ironia tão subtil como arrasadora, de que o tweet “Bom dia. É falso que o governo esteja a negociar o segundo resgate. Quando vier, aceitaremos sem qualquer negociação” é um bom exemplo, Nuno Salgueiro pede meças aos humoristas profissionais que têm contas no Twitter. Além de, claro, ao primeiro- ministro.

Contradições do suicida de Notre-Dame

O ensaísta de extrema-direita que ontem se suicidou no altar da catedral de Notre-Dame em Paris tinha uma visão nacionalista e xenófoba da França. Era contra os imigrantes e contra o que chamava “o crime” da “grande substituição da população da França e da Europa”. Numa carta de despedida, lida numa rádio conotada com a direita, a Radio Courtoisie, escreveu:

«Je crois nécessaire de me sacrifier pour rompre la léthargie qui nous accable. J’ai choisi un lieu hautement symbolique que je respecte et admire. Mon geste incarne une éthique de la volonté, je me donne la mort pour réveiller les consciences assoupies. Alors que je défends l’identité de tous les peuples chez eux, je m’insurge contre le crime visant au remplacement de nos populations. Je demande pardon par avance à tous ceux que ma mort fera souffrir. Ils trouveront dans mes écrits récents la préfiguration et les explications de mon geste. »

Declarações grandiosas e intensas, sem dúvida.

Recentemente, e daí a importância mediática do seu gesto, vociferou e mobilizou-se contra o casamento dos homossexuais. Mas a mistura dos temas “nacionalismo identitário” e “homofobia” revela a grande confusão que iria na sua cabeça perturbada, eventualmente causa direta do suicídio:

«Le projet de mariage gay a été ressenti comme une atteinte insupportable à l’un des fondements sacrés de notre civilisation », écrit-il. Ce mardi matin, il postait un article intitulé « La manif du 26 mai et Heidegger », dans lequel on pouvait lire : « Il ne suffira pas d’organiser de gentilles manifestations de rue pour l’empêcher. […] Elle devrait permettre une reconquête de la mémoire identitaire française et européenne, dont le besoin n’est pas encore nettement perçu ».

Como se fossem os islamistas a aprovar o novo casamento. Pelo contrário. Estou em crer que muitos dos que engrossam as manifestações algo surpreendentes a que assistimos em França serão muçulmanos. Acontece que, se há “civilização” que facilmente considerará, quando porventura um dia for questionada, tal casamento “um atentado insuportável a um dos seus fundamentos sagrados” é a civilização islâmica no seu estado atual de radicalização: não só não reconhece qualquer direito aos homossexuais, como também não admite homossexuais. Um grande, gigantesco, ponto em comum, portanto, entre a civilização deste francês puro-sangue e a deles, a dos “afro-magrebinos”, que Dominique Venner se esqueceu de ter em conta.

Sem prejuízo do combate a religiões, leis e práticas retrógradas, um combate de todos os dias em França e noutros países, e que será sempre necessário enquanto houver pensamento e racionalidade, este é mais um a quem não faria mal estudar melhor a história e a geografia da humanidade e, sobretudo, a sua própria origem.

300 desgraças depois

E depois de diabolizarem Sócrates até ao intolerável (e até à sua queda):

Na quinta-feira, no programa “Quadratura do Círculo”, na SIC Notícias , o histórico do CDS disse que foram os partidos que agora integram a coligação governamental que forçaram a entrada das três instuições em Portugal com o objetivo de pressionar o Governo da altura, ou seja, o de José Sócrates.

Lobo Xavier diz que nem mesmo a chanceler alemã Angela Merkel queria que o resgate a Portugal fosse feito da forma como foi.

«No princípio a senhora Merkel não queria uma intervenção concertada, regulada, com memorando, este aparato formal de memorandos com regras, promessas e compromissos tudo medido à lupa», adianta Lobo Xavier.

Pacheco Pereira realça que este «formato foi desejado como instrumento de pressão externa para a política interna», considerando que «houve alguém que desejou e que o utilizou de forma teórica e política.
Neste debate, tanto Pacheco Pereira como Lobo Xavier chamaram ao primeiro-ministro “aprendiz de feiticeiro“.

Estás a gozar com os teus pobrezinhos, ó Ângela

Enfim, perante o descalabro generalizado que a cada dia se confirma, a chanceler alemã entendeu dizer-nos que, sem coordenação económica, a zona euro não resiste. Mais vale tarde do que nunca, embora gostássemos que desenvolvesse o seu raciocínio para percebermos quem vai ditar o plano económico europeu e com que finalidade. Mas saca de um exemplo algo inusitado para ilustrar as discrepâncias existentes (devidas, segundo ela, à falta de coordenação?).

Se um de nós gasta 3,5% do PIB em pesquisa e outro 0,1%, e isto acontece há mais de 20 anos, vai haver tal tensão dentro da moeda que não seremos capazes de a manter junta”, adiantou.
“Por isso, [é preciso] mais coordenação, não apenas na política orçamental, mas na política económica também.

Ah como gostaríamos, os bons portugueses (esqueçam o Gaspar), de poder investir pelo menos 2% do PIB na investigação! Sócrates sabia o quanto! Mas como compreender que seja o investimento de cada Estado em investigação o primeiro exemplo que ocorre à líder europeia de desequilíbrio dentro da zona? Ainda por cima causador de tensões? E os salários, e o emprego, e as condições sociais, e a saúde, e o ensino? A isto chama-se gozar com os pobrezinhos, que ela própria, com tanto empenho, tem ajudado a criar.

A quem interessar possa

Diz o Expresso que Sócrates viajou hoje em executiva e Passos Coelho em económica num voo de Paris, cumprindo a regra que impôs ao executivo.

Tão perto e tão longe, o primeiro viajou em classe económica, obrigado pela regra que impôs a todo o governo no início do mandato. Livre de tais constrangimentos, o ex-primeiro e comentador dominical da RTP viajou em executiva. Onde, aliás, era o único passageiro.

Pois viajei no mesmo voo que o Gaspar na quarta-feira passada e estou em condições de confirmar que o ministro não respeitou a dita regra, viajando em executiva.

É isto importante? É. Para responder às parvoíces do Expresso.

A política do “entretanto” ou do “entreter”

A França e a Alemanha preparam-se para apresentar aos outros países da União Europeia (UE) uma iniciativa em favor do emprego jovem inspirada no New Deal concebido pelo presidente americano Franklin Roosevelt para reconstruir a economia do país depois da grande crise dos anos 1930. […]

O jornal (Rheinische Post) precisa que o plano é apoiado por “grandes empresas” e inclui o envolvimento do Banco Europeu de Investimentos (BEI) — a instituição financeira da UE — através da concessão de crédito às empresas que se comprometam a contratar jovens. […]

No início de 2012, a Comissão Europeia já tinha lançado a criação de “grupos de acção” nos oito países com taxas mais elevadas de desemprego jovem — Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, Itália, Eslováquia, Letónia e Lituânia — para os incitar a reafectar ao combate ao desemprego jovem os fundos estruturais comunitários de apoio ao desenvolvimento das regiões mais desfavorecidas que lhes estão atribuídos entre 2007 e 2013 mas que não estavam a ser utilizados. Apesar da iniciativa, reconheceu ontem László Andor, comissário europeu responsável pela política social, no fim do ano o desemprego jovem continuou a subir em Portugal e na Itália para cerca de 38% dos jovens, em Espanha para quase 56% e na Grécia para mais de 58%.

(Fonte: Público de hoje)

Esta ideia de que a principal medida a tomar para reduzir o desemprego jovem é conceder estímulos às empresas para a contratação de gente nova é absolutamente extraordinária no contexto atual. Não se contratam jovens nem se contrata ninguém porque não há procura. E não há procura porque há, no melhor, contenção salarial e, no pior, cortes salariais acentuados e aumento dramático do desemprego. Generalizados na Europa. Logo, redução do poder de compra. Além do medo do futuro, que não induz consumo. Continuar a insistir numa solução que situa a crise do emprego na falta de crédito às empresas ou na falta de dinheiro para contratações, ainda por cima perante provas de que as medidas de estímulo não funcionam se nada de mais profundo for feito, é prosseguir na via do discurso enganador tão a gosto dos alemães e continuar a não querer atacar a raiz dos problemas. Hollande está a revelar-se, para já, um Sarkozy não assumido no que toca à Alemanha (eleitorado “oblige”), obrigado em nome do prestígio imperial da França (?) e do seu papel de segundo motor da aeronave europeia a não cortar os laços com a maior potência económica da Europa, sob pena de ficar a liderar um clube de «indigentes», neste momento verdadeiramente depauperados, famélicos e pés descalços. Quem quereria?

O grande problema desta crise europeia é que, depois do estoiro da bolha financeira internacional que teve como principais responsáveis os bancos, todos por cá compreendemos o problema de todos. A solidariedade quebrou-se, ninguém tem a coragem de romper e há quem não tenha sequer interesse em romper, porque o drama dos outros lhe é favorável. Mas as populações europeias estão a acumular tensões.

Um dia, não sabemos em que circunstâncias e com que protagonistas, abandonar o discurso estigmatizante, parar com a austeridade, atribuir um novo papel ao BCE e concertar a política económica poderiam ainda salvar o Euro. Mas esse dia não consta de nenhum calendário conhecido. Assim, é cada vez mais tarde. E cada vez mais impossível.