Um governo em gozo de maioria absoluta

Não há que andar com rodeios – este Governo está perdido no seu labirinto e o Ministro das Finanças optou por prosseguir até às últimas consequências a aplicação de um modelo que gizara enquanto técnico de gabinete, apesar do seu evidente falhanço. Mas sejamos tenebrosos: não é tanto “apesar de”, mas por causa do seu evidente falhanço. Quando tudo arde, que resta ao incendiário se não deleitar-se com a beleza da morte? Depois, normalmente, suicida-se, mas não vai ser esse o caso de Gaspar.

Mas existe outro elemento igualmente grave na situação atual. Dada a falta de transparência e a identificação perfeita entre o que o ministro pensa e o que é defendido publicamente pela Troika de credores, não é possível destrinçar – e Gaspar faz questão de manter a nebulosa – entre o que são as decisões de um e as exigências dos outros. Assim, nada garante aos portugueses que os despedimentos e os cortes anunciados, logo, o agravamento da austeridade num momento de tão comprovado desastre, sejam imposições dos credores, de cumprimento obrigatório. Porém, o facto é que, se não são, os credores dão-lhes total cobertura. Estão, evidentemente, tranquilos. Não só não moram em Portugal, como também terão orgulho em parir (para nos mantermos numa temática recente) um bom exemplo. Ou forjar um, o que em nada resolve a nossa situação económica.

Assim sendo, depois de aprisionado Cavaco Silva pelas suas próprias limitações ou por agentes políticos bem informados, o Governo, pela mão de Vítor Gaspar, sentado na maioria absoluta que ainda lhe resta, pratica como nunca o exercício da mentira, sobre o passado e sobre os seus próprios atos, insulta instituições como o Tribunal Constitucional, inventa realidades, brinca ao investimento, internacionaliza o circo na Europa, junto de Wolfgang ou de Jeroen, usa e abusa dos cargos de nomeação governamental e contrata e contrata e contrata todos os assessores que pode para os gabinetes ministeriais.

Por mais chantageado ou gagá que Cavaco se encontre, deixar prosseguir este desvario é a maior irresponsabilidade de que um presidente da República jamais virá a ser acusado.

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