Portas foi ao aeroporto de Figo Maduro esperar Passos, que regressava de Berlim. Passos, por sua vez, tinha recusado a demissão de Portas e afastado ao mesmo tempo a sua própria demissão, porque no dia seguinte ia a Berlim. A ânsia de Paulo Portas em saber ao vivo o que achara Berlim da situação criada pela sua zanga cá na província só tem semelhança, em impulsividade, com a carta de demissão escrita numa madrugada mal despertada. Mal podia esperar pelo teor do raspanete. Correria depois a meditar na melhor forma de se redimir.
Assim, mais pose menos pose, mais jogos de palavras menos jogos de palavras, nada farão que contrarie Berlim. O que cada um pensa, sente e quer tem, pois, muito pouca importância por estes tempos que correm. Sorte de Passos, que não pensa nada. Está à vista que nada nas relações entre estes governantes e entre eles e o povo português funciona. Porém, cedendo ao ridículo, regressam à carteira e prometem portar-se bem. Bem em relação a quem é o que veremos. Ah, mas a partir de agora, deixam a linha telefónica com Berlim aberta em permanência.
O programa de resgate afundou o país. Está tudo mal, ninguém no Governo sabe o que fazer. Gaspar, que, convém lembrar, achava antes de partir que tínhamos chegado à fase do investimento com ponto de exclamação, conseguiu escapulir-se contando a Schäuble o que lhe acontecera num supermercado. Os que ficam terão que puxar mais pela imaginação se quiserem bater com a porta. Para já, mal podemos esperar pela justificação que Portas nos dará (e que não mencione Berlim) para a transformação de uma decisão irrevogável numa totalmente revogável e da recusa de uma ministra na sua inquestionável aceitação. Fazer de fantoche é isto. Mas, caso se tenham esquecido, é em Portugal que governam e é aqui também que levarão um enorme piparote no traseiro mais dia menos dia. A única hipótese de tal não acontecer é esta crise ter contribuído para uma reavaliação das linhas da austeridade, lá está, por parte de Berlim, e a loucura de cortes parar hoje mesmo. Se assim for, fez bem Portas em arrastar a “reforma do Estado” até à sua demissão e à agitação que se lhe seguiu. As piruetas e mortais encarpados à retaguarda ser-lhe-ão convictamente perdoados. Será isto uma impossibilidade? Dir-se-ia que é. Mas aluno mais cumpridor das orientações europeias nesta crise não há, nunca houve e nunca haverá. Deixar cair o país seria o maior fracasso de Berlim e da Troika. Nas próximas semanas Portas terá, portanto, o destino marcado. E Passos também, eternamente por arrasto. Ou uma versão mais desagradável do que o cuspo atirado a Gaspar ou a glória. Estás a ver, Portas?