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Cambada de garotos. Todos

Passos é tonto e, forçado a substituir o desaparecido Gaspar, (já) não dispunha da mínima credibilidade para conseguir recrutar alguém de peso para a pasta das Finanças. A escolha de Maria Luís não lembraria ao diabo mais velho. Na falta de pessoas disponíveis, e não esquecer que teve oito meses para resolver o assunto, devia ter-se demitido. A não ser que seja tão burro quanto parece e tenha achado que MLA era mesmo a pessoa mais indicada para ocupar o cargo neste momento. Não me surpreenderia.

Mas Paulo Portas não é melhor. A menos que durante a noite de ontem tenha tido uma revelação damascena que o precipitou para a escrivaninha, reagiu a tamanha estupidez ao sabor do que foi lendo e ouvindo na comunicação social, blogosfera e redes sociais. Aparentemente, a veemência da recusa da nova ministra das Finanças não foi imediata. Demorou até perceber o erro político e as suas consequências. E então foi mau, muito mauzinho. Na manhã da posse da nova ministra, demite-se, tornando a cerimónia caricata e humilhante. Ao mesmo tempo, pasme-se, hesita em manter os seus ministros nos cargos. Até agora, não sabemos se ficam, se saem. Isto é ridículo. Será que ousará recuar e fazer um discurso em torno da gravidade do momento, ficando, mas mediante a exigência de substituição da nova ministra só para não perder muito a cara? Mais uma vez, não me surpreenderia. Aqui há que ter em conta as pressões do exterior, que devem ser enormes. Passos vai a Berlim, entretanto. Não me surpreenderia tão pouco que fizesse um acordo de incidência parlamentar com o PSD. Neste momento, tudo é possível. Claro que, se continuar atento ao que se vai dizendo, a margem para recuar é quase nula e ficará melhor na fotografia se for claro no abandono da colaboração com um primeiro-ministro tão incompetente.

E que dizer de Cavaco? Ou não sabe de metade do que se passa, ou tem medo de intervir, ou sacode a água do capote, ou as três ao mesmo tempo. Logo agora que tinha adotado este governo com um amor inusitado e um exagero protetor serôdio! Imagino que alguns circuitos neuronais fiquem danificados nestas 24 horas, mas se agarre à boa alternativa de nada fazer.

Por fim, Seguro, o garoto que se segue. Uma comunicação totalmente coxa, envolta em descabida pose de Estado, mui respeitadora de Sua Excelência o senhor Presidente da República, de apelido o palhaço. Não sabia o que dizer, não dissesse nada. Teria sido melhor, porque o espetáculo está montado e fala por si.

Verdadeiros e incompreendidos, coitados

A história da relação deste governo com a verdade já vai longa, pelo que qualquer dia dos últimos dois anos seria apropriado para alguém dizer que este governo não mente. Particularmente apropriado é o dia de hoje, depois de se saber das mentiras das Finanças sobre os “swaps” – proferidas tanto pela Secretária de Estado, perante o Parlamento, como pelo próprio Ministro, por omissão, em comunicado. No entanto, para o inenarrável e mui crente César da Neves, tais mentiras (e a lista já vai longa), convenientemente omitidas da suas crónicas, serão pecadilhos que o Misericordioso perdoará às portas do paraíso, porque, se há governo sincero, é este. Vejamos a argumentação:

O povo gosta que lhe mintam. Agora tem um Governo que diz a verdade e considera-o o pior de sempre, muito inferior aos anteriores, que nos convenceram de todas aquelas aldrabices que geraram a crise. Uma conclusão plausível do paradoxo é que o povo quer que o enganem.

Se este Governo diz a verdade não é por ser melhor. A situação é que é pior. Portugal bateu na parede e chegou a um estado em que as alternativas boas não existem e a conjuntura impede ilusões. Por isso, relutantemente, os ministros estão a dar más notícias, revelar o desastre, impor sacrifícios inevitáveis. Agora já não é possível aos responsáveis ocultar a realidade e vender fantasias. Mas o povo não quer isso.

“As aldrabices que geraram a crise” – repare-se como se aldraba e calunia com todo o à-vontade com a palavra aldrabice convenientemente não especificada.

Quanto à mentira ou à verdade sobre a situação económica e financeira do país, perante uma parede destruída por uma locomotiva acelerada demais e na via errada, que palavras restam? “Olhem, aconteceu, é um facto”? Ou: “É verdade. Mas não fui eu”? É esta “sinceridade” que o povo deveria admirar??

Relativamente às razões por que a situação é pior, muito pior, esperaremos sentados uma crónica verdadeira de JCN.

As novas regras sobre a falência de bancos garantem mesmo a não intervenção dos Estados?

Segundo as novas regras da UE, a partir de 2018 o dinheiro dos contribuintes não mais poderá ser chamado a pagar a falência de bancos mal geridos. Socorrerão o banco em dificuldades os acionistas, os credores, os detentores de obrigações e, se necessário, os depositantes de montantes superiores a 100 000 euros. Mas será que a regra vai funcionar? De acordo com um artigo hoje publicado na revista Der Spiegel, não. Sobretudo se os bancos em vias de falir forem bancos importantes em Paris, Londres ou Frankfurt. Uma das razões pode ser o historial de desrespeito de regras pelos Estados. Além disso, bastaria que um Estado considerasse e apresentasse a ajuda como um empréstimo bem remunerado, para os dinheiros públicos terem o mesmo destino que até agora, muitas vezes alegando-se que os contribuintes não gastarão um tostão (atendendo aos potenciais ganhos após o restabelecimento do bom estado de saúde do banco).

But the problem lies in the word, “rule.” Financial markets, politicians and citizens have long become accustomed to the EU countries following their self-imposed rules for only as long as they suit them. The Maastricht criteria were forgotten as soon as Germany wanted to borrow more money than it was allowed. And how about the ban on sharing debt liability across the currency union? That was history the moment the union began to fear the consequences of a Greek default. The list goes on and on.

The test for the new banking rules, as well, will not be passed until they are applied to a major bank in the heart of the EU – not in Cyprus, but in London, Paris or Frankfurt. And even then, they will have to be pushed forward against tremendous pressure from the banking lobby, and despite all the economic risks. Experience to date does not suggest that this will ever happen.

Porém, o jornalista parece esquecer o ponto em que bate esta medida. Não são os grandes bancos os visados, embora nesse caso, sim, é claro que o desrespeito das regras fosse quase uma inevitabilidade. São os outros, de preferência da Europa não central. E com os receios legítimos dos depositantes de bancos da periferia, assistiremos à transferência de fortunas ou depósitos mais avultados de empresas e particulares para bancos mais centrais e seguros (os sistémicos para a UE), que reforçarão a resistência a falências ao ponto de ficarem imunes, ou para offshores. E a prazo, não será a concentração e as fusões, como no setor aéreo? Talvez até surjam bancos “low cost“, seja lá isso o que for. Provavelmente é essa a intenção, mas há os entretantos que geram uma insegurança enorme.

Esta medida oferece, à primeira vista, uma boa solução para o risco soberano. Mas será que, numa segunda vista, todo o alcance do acordo foi tido em conta por todos?

“Esta crise voltou a colocar o homem no centro das decisões” – diz a nova nutricionista Isabel Jonet

Isabel Jonet escreveu uma Carta ao Futuro, transcrita pelo Jornal de Negócios. A presidente do Banco Alimentar parece satisfeita e realizada com o facto de 1% da população do mundo ocidental ter posto os restantes 99% a “regressar à essência das coisas” para poder ela própria enfim avançar sem barreiras para a plenitude dessas mesmas coisas. Será para ela a ordem natural das, mais uma vez, coisas. Quanto à visão bucólico-higiénico-purificadora que esta senhora nos expõe (ou será ao Futuro?) sobre a crise, só posso dar-lhe a palavra. Possivelmente sublima o que vê transportando-se para a estratosfera – uma apreciação benigna, diga-se, pois IJ podia dar-se muito bem com César das Neves.

Aproveitando a oportunidade cruel da crise para reflectirmos naquilo que vínhamos fazendo erradamente e para rectificarmos um curso permitiu lançar novas bases para uma sociedade, talvez uma civilização, sustentável. O esforço para regressar à essência das coisas permitiu deixar aos nossos filhos e netos uma herança menos pesada.

O repensar do modelo, permitiu um novo desenvolvimento das economias, contribuindo para recuperar os níveis mínimos de confiança e repor os fluxos normais de acesso ao crédito, crucial para fazer face ao desemprego, fundamental para o crescimento.

O Estado teve um papel insubstituível, o que lhe compete. Mas a sociedade civil aceitou o seu papel reeducando comportamentos e readquirindo sobriedade na forma de viver, nas opções pessoais. Recuperando valores que são a pedra basilar de todas as sociedade. Humanizando. Voltando a colocar o Homem no centro das decisões. […]

[…]Foi exigido um regresso ao essencial, um despojamento de tudo aquilo que vinha invadindo as nossas vidas, sem lhes acrescentar valor.

Teixeira dos Santos

Bem o ex-ministro das Finanças. Um abismo entre a sua seriedade e a leviandade da Judite. No entanto, apesar desta estar sobretudo, se não exclusivamente, preocupada com paixões/vinganças/cortes de relações, com a eterna culpabilização de Sócrates e outras questões picantes que constam das telenovelas da sua estação e de continuar a não perceber ao que nos levou o pedido de ajuda – afinal mantém um belíssimo emprego – Teixeira dos Santos não deixou de confirmar a tensão que existiu na altura com José Sócrates. E aqui, como não podia deixar de ser, o orgulho falou mais alto: fazendo embora claros elogios à intuição política do então primeiro-ministro, não reconheceu a sua própria deslealdade. Que existiu, de facto. É certo que perdoável, como o próprio Sócrates já há muito deve ter reconhecido. Mas, oh desgraça, já me estou a orientar pelo espírito da Judite. De facto, tudo isto já se intuiu há muito do que se foi lendo e das declarações do próprio José Sócrates, e a verdade é que esta entrevista foi muito mal conduzida, pouco ou nada tendo de análise política. E teria sido interessante reservar pelo menos uma última parte para conhecer a perspetiva do antigo ministro das Finanças sobre a austeridade à moda europeia. Com outro entrevistador, a conversa merecia ter sido mais longa.

Deixem-se de tretas. Qual reforma do Estado?

Tivemos uma reunião do Conselho de Ministros anunciada sem pompa mas num local com circunstância. Tudo indiciava uma longa maratona até à refundação do Estado. Três horinhas apenas depois, qual o resultado? Uma pose conjunta para a fotografia, umas declarações totalmente ocas do novo Ministro da Propaganda e Paulo Portas a meditar se o pé que tem dentro do governo é suficiente para ser responsabilizado pela próxima hecatombe.

Ninguém assumiu que o dia era ontem de aprovação do guião de Paulo Portas para a reforma do Estado, mas o Conselho de Ministros informal, em Alcobaça, nem fechou o esboço da reforma, até porque, sabe o Correio da Manhã, o texto não tinha ainda os contributos do ministro dos Negócios Estrangeiros. Algo que surpreendeu alguns dos seus pares.

Mais, o documento distribuído continha, apenas, as orientações dadas por cada ministério há alguns meses, e nos casos da Saúde e da Justiça, foram redesenhadas versões minimalistas. Sem desvendar o seu guião de reforma do Estado, Portas ter-
-se-á comprometido a apresentar a versão na próxima reunião. A meta para fechar o documento é 15 de julho, data do início da oitava avaliação da troika
.

E note-se que estou a citar o Correio da Manhã.

Lei da rolha no Governo. Só fala o Poiares Maduro

A notícia, no DN, das conferências de imprensa diárias é surpreendente. Acusado de falta de coordenação política, de declarações contraditórias e de má comunicação das medidas tomadas, o Governo resolveu agora calar todos os ministros e só deixar falar o ministro da propaganda. Outros, só com ele ao lado.

Para além do enjoo que tal dose provocará e da menorização do Parlamento, esta ideia peregrina lembra países ditatoriais. Além de que o novo protagonista, por um lado, revela não perceber que o problema está mesmo é nas medidas e, por outro, não é garante de coisa nenhuma que valha a pena, pois no pouco tempo que exerce funções governamentais já se revelou pouco diferente de Relvas. De modos que, se o ministro não selecionar previamente os jornalistas, teremos carnaval todo o ano. E, se os selecionar, a animação será de outro género, fora das conferências de imprensa, que até poderão ser boicotadas, e aí haverá razões para dizer que os portugueses contestam demasiado.

Mas atenção, segundo o Jornal de Negócios, esta ideia não está ainda bem amadurecida, ou afinada, e afinal não é para já, porque em Julho “há muitos jornalistas de férias”. Veem? Eles já hesitam e eu já me estou a rir a bandeira despregadas quando o novo sistema de comunicação ainda nem começou.

O “DN”, que avançou esta tarde com a notícia, diz que os encontros começam na próxima semana, mas ao Negócios, o gabinete de Poiares Maduro não deu essa garantia. “Existe essa intenção. Mas não posso garantir que comece já na próxima semana. A certa altura percebemos, até em conversa com os jornalistas, que muitos entram de férias no mês de Julho”, referiu o assessor de imprensa, dizendo que no limite poderão ter início só depois do Verão, embora a “intenção seja começarem o quanto antes”. A mesma fonte acrescentou ainda que “o modelo está ainda a ser afinado”.

No fundo, somos todos o Tribunal Constitucional

E voltamos à discussão das candidaturas autárquicas.

A Lei n.º 46/2005 sobre a limitação dos mandatos autárquicos estipula o seguinte:

1—O presidente de câmara municipal e o presidente de junta de freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos, salvo se no momento da entrada em vigor da presente lei tiverem cumprido ou estiverem a cumprir, pelo menos, o 3.º mandato consecutivo, circunstância em que poderão ser eleitos para mais um mandato consecutivo.

2—O presidente de câmara municipal e o presidente de junta de freguesia, depois de concluídos os mandatos referidos no número anterior, não podem assumir aquelas funções durante o quadriénio imediatamente subsequente ao último mandato consecutivo permitido. […]

O que há de estranho e até de errado na redação destes parágrafos? Para começar e terminar, a expressão “o presidente de”. A expressão original, saída da Assembleia, era, como sabemos, “o presidente da”. Mas, findo o prazo para a contestação da versão publicada pela Casa da Moeda, é a versão com o “de” que vigora.

Se a versão original – “o presidente da câmara” – permitia de alguma e muito forçada maneira a interpretação de que se trata da câmara a que atualmente se preside, ficando de fora e em aberto todas as outras, a alteração introduzida pela Casa da Moeda retira uma parte dessa possibilidade mas é indutora de nova ambiguidade ao não mudar também o artigo definido para o indefinido no que respeita ao presidente. Se a intenção era melhorar o português – e temos que concordar que a expressão “o presidente da câmara” no contexto de uma lei como esta não faz sentido sem mais precisões – e respeitar o suposto espírito da lei (a não perpetuação dos autarcas nos cargos), o resultado ficou aquém do desejado. Se ao menos a lei dissesse:

Um presidente de câmara e um presidente de junta de freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos, salvo ….”

evitar-se-ia um pouco mais esta alegada confusão sobre a concretização da câmara ou da junta de freguesia, centrando a questão na função, o que não acontece totalmente neste primeiro parágrafo. Mas já acontece no segundo. Com efeito, no n.º 2, o que está em causa é “assumir funções” de presidente de câmara e, por conseguinte, a ideia é não haver mais presidência de câmara (ou de freguesia), seja ela onde for, para quem já tenha exercido essa função durante três mandatos consecutivos. Ficámos assim com uma lei, mais uma, redigida num português pouco recomendável, que também já não era recomendável na sua versão original. Mas o n.º 2 parece claro quando se refere às funções e remete para as de “presidente de câmara”.

Em conclusão, as hipóteses de Seara e Menezes jogam-se apenas num primeiro parágrafo ambíguo, assim possa ele ser separado do segundo, coisa que, a meu ver, não pode.

Só gostaria de saber por que razão não se colocam as ideias claramente em cima da mesa e/ou perante os portugueses, que têm certamente uma palavra a dizer sobre esta importante matéria, e se redige depois uma lei clara que permita a um presidente em funções há 3 mandatos consecutivos candidatar-se a qualquer outra câmara. Ou não. A nenhuma outra antes de quatro anos, ponto final.

Crise europeia: novo árbitro para a segunda parte, please

Boas verdades na “The Economist” (sugiro a leitura integral do artigo)

[…]The Brussels machine is not a government. Rather, it is designed to generate compromise and consensus, usually through a slow-moving legislative process. National leaders tend to appoint pliable and second-rate commissioners. Nobody should be surprised when the institution fails to respond well.

[…]

The air in Brussels is now thick with a feeling of fin de régime. The commission is tired. Legislative work, for instance on the next steps to create a banking union, has more or less stopped, pending the German election in September. It may be hard to do much afterwards as the European Parliament prepares for next May’s European elections. Then the horse-trading for Brussels jobs will begin in earnest: by the autumn of 2014 the EU must find replacements for Mr Barroso and Mr Van Rompuy, as well as a new foreign-policy supremo (currently Catherine Ashton). Add to the mix the next secretary-general of NATO and, perhaps, a permanent head of euro-zone finance ministers.

[apesar do que foi dito lá acima, a revista acha que] The role of commission president remains crucial. The euro may have been saved for now, but much still has to be done. To judge from the ugly mood among leaders, Mr Barroso cannot expect the third term that he sometimes hints at. A new referee will surely be called in for the game’s second half.

Um Durão Barroso “vergável” perdeu, mesmo assim, as hipóteses de renovar. A falta de independência não compensa.

Relatório sobre as PPP – quem escreve com os pés, argumenta com o quê?

Para além de, em matéria de conteúdo, pouco trazer de novo ao que já ouvimos da boca do PSD/CDS nos seus ataques ao Governo anterior, de repetir as insinuações contra Paulo Campos e outros governantes socialistas (já repudiadas e respondidas, mas os esclarecimentos foram ignorados), de concluir invariavelmente que o grave disto tudo foram os erros de previsão do tráfego (o que em anos mais distantes da crise era compreensível) e de desconsiderar o facto de os encargos se distribuírem ao longo de 30 anos e de haver milhões de beneficiários futuros, o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito às PPP, que o Valupi tão gentilmente aqui nos facultou, está cheio de erros de português.

Aqui ficam apenas algumas pérolas.

– As opções políticas que serviram de base ao lançamento de Parcerias Público Privadas são o maior factor de influência do seu sucesso/insucesso (ponto 4) (?)

– indeminização (várias ocorrências)

– não lhe trás (ponto 26)

– as previsões foram avaliados (ponto 31)

– défice de tráfego regulares (ponto 32),

– só se revela eficaz se alterações nas formas de validação dos títulos de transporte implicando um investimento não previsto (ponto 37)

– que concluiu vantagem no seu lançamento (ponto 53)

– A Comissão sabe que nesse mesmo dia que estava agendada (ponto 57)

– a Comissão entende que se aparentam indícios de gestão danosa (ponto 64)

– maior eficiência na necessidade pública (67)

– apuramento do Value for Money do modelo SCUT (112)

– garantia assinada pelo governo anterior que previa que se determinados eventos ocorressem; (a frase termina aqui) (ponto 167).

– (acordo ortográfico à escolha do freguês) acionista, mas objectivos; projetados, mas projectos

O ponto 183 encerra o relatório, mas termina com um ponto e vírgula.

Já somos duas

A ex-líder do PSD Manuela Ferreira Leite disse segunda-feira à noite que “teria tido imenso prazer” em que o ex-primeiro-ministro José Sócrates “tivesse enfrentado a ‘troika'” e tomado “as medidas terríveis” do programa de ajustamento

.

1. Não sei se estas afirmações devem ser interpretadas como um desafio/provocação a alguém que se inveja e sempre se invejou e admirou, como sincera curiosidade sobre o que faria alguém que se inveja e sempre se invejou e admirou, ou como palavras de solidariedade com um governo a cujo radicalismo e incompetência MFL não tem poupado críticas. Neste último caso, é muito estranho. E incongruente. Nada que já não tenhamos observado na ex-presidente do PSD, muito devido à sua ligação ao presidente da República mais patego e rancoroso de que há memória.

2. Seja como for, em 2011, MFL e muitos outros no PSD, e a oposição em peso, clamavam contra a falta de credibilidade do Governo e não compreendiam e protestavam contra a resistência de Sócrates à vinda da Troika.

3. É claro que José Sócrates “enfrentaria a Troika” com uma atitude muito diferente da subserviência do Gaspar. Aliás, não é Ferreira Leite que diz que não há mas devia haver gritaria nas reuniões regulares de avaliação? Pois é. Se bem me lembro, já na discussão do programa original houve gritaria, sendo Sócrates considerado osso difícil de roer nas negociações. Como pode MFL duvidar de que ouro galo cantaria?

4. Seria mesmo assim irónico que o homem que mais lutou contra o resgate fosse executar o programa que lhe vinha acoplado e que ele a todo o custo quis evitar. Mas os eleitores lá sabiam o que faziam. E MFL não os esclareceu devidamente na altura.
Agora todos temos pena.

João Pinto e Castro, bolas

Lia com imenso gozo os seus artigos no Jornal de Negócios e nos blogues em que escrevia. Tinha um estilo original e cativante. Vi-o uma ou outra vez na televisão e admirei o seu à-vontade, a sua inteligência, a sua clareza, a simplicidade. Por mero acaso, jantei com ele e com um grupo de amigos com quem viajara, em Bruxelas, não há muito tempo, em setembro do ano passado. Enfim, não foi bem um jantar, pois não passei da entrada: uma indisposição forte de um dos presentes fez-me sair disparada para as urgências. Problema resolvido, não voltei a vê-lo, naturalmente. Mas recordo bem um João falador, jovial, bem disposto, aparentemente são que nem um pero, com quem era extremamente fácil “embalar” em conversa. No hotel e no trajeto para o restaurante, houve ainda tempo para descobrirmos um conhecimento comum e falarmos dos filhos distribuídos por esta Europa.

Continuei a lê-lo com prazer. Recentemente, estranhei o seu silêncio nos jornais e na blogosfera, mas atribuí-o a milhentas razões. Nunca, mas nunca, a esta.

Os puros do Ocidente

Começo a ficar um bocado farta dos candidatos a heróis que, volta meia volta, com aparente desapego à vida, exacerbado sentido moral e valentia, decidem mostrar ao mundo as terríveis malfeitorias e os tenebrosos atentados à vida privada cometidos pela administração americana em nome da segurança e da luta contra o terrorismo. O terrorismo, note-se, essa fantasia, esse delírio em nome do qual somos obrigados praticamente a despir-nos em todos os aeroportos do planeta.

Depois de Bradley Manning e Assange, foi agora a vez de Edward Snowden, um informático subcontratado pela Agência Nacional de Segurança norte-americana, divulgar uns documentos secretos e dar de seguida o salto para Hong Kong, na China, e daí sabe-se lá para onde, para “revelar” que os serviços secretos controlam as comunicações de todo e cada americano (e “beyond”) na Internet e redes telefónicas. Como se o Google ou o Facebook ou simplesmente as empresas de telecomunicações não o pudessem fazer ou não o façam e sem qualquer controlo político!

O texto a seguir transcrito, que me parece bastante equilibrado, é um bom contrapeso para a histeria reinante nos media, a qual, pelos vistos, nem sequer tem correspondência com o que pensam os supostamente “devassados” cidadãos americanos. Com efeito, num inquérito realizado há uns dias na América, 62% dos inquiridos consideraram que o combate ao terrorismo tem prioridade sobre a proteção da vida privada. (Washington Post (sem link): “A large majority of Americans say the federal government should focus on investigating possible terrorist threats even if personal privacy is compromised, and most support the blanket tracking of telephone records in an effort to uncover terrorist activity, according to a new Washington Post-Pew Research Center poll.”)

Transcrevo excertos do texto de David Simon, que, apesar de considerar inevitável (e legal) o acesso às comunicações, tem a lucidez suficiente para ver que nem tudo está bem (e por isso merece ser lido na íntegra):

“When the government grabs every single fucking telephone call made from the United States over a period of months and years, it is not a prelude to monitoring anything in particular. Why not? Because that is tens of billions of phone calls and for the love of god, how many agents do you think the FBI has? How many computer-runs do you think the NSA can do — and then specifically analyze and assess each result? When the government asks for something, it is notable to wonder what they are seeking and for what purpose. When they ask for everything, it is not for specific snooping or violations of civil rights, but rather a data base that is being maintained as an investigative tool.

There are reasons to object to governmental overreach in the name of law enforcement and anti-terrorism. And it is certainly problematic that our national security apparatus demands a judicial review of our law enforcement activity behind closed doors […]

[…] But those planes really did hit those buildings. And that bomb did indeed blow up at the finish line of the Boston marathon. And we really are in a continuing, low-intensity, high-risk conflict with a diffuse, committed and ideologically-motivated enemy. And for a moment, just imagine how much bloviating would be wafting across our political spectrum if, in the wake of an incident of domestic terrorism, an American president and his administration had failed to take full advantage of the existing telephonic data to do what is possible to find those needles in the haystacks. After all, we as a people, through our elected representatives, drafted and passed FISA and the Patriot Act and what has been done here, with Verizon and assuredly with other carriers, is possible under that legislation.

De como os ateus só pensam em comida

Imperdível. César das Neves explica-nos hoje, a partir do quarto parágrafo da sua crónica (ou será sermão?), como as necessidades desta vida, mesmo as vitais, pouco são face à realidade que “não vemos e não tocamos”, “o transcendente”.

Depois de um introito sobre as nossas dificuldades e privações atuais, palavras de esperança como estas:

O ser humano participa de um profundo drama existencial. Não é possível viver sem se colocar as perguntas fundamentais: Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Que faço aqui? Na turbulência quotidiana estas interrogações apagam-se, mas todos os humanos, de todos os tempos e culturas, inevitavelmente as colocam em alguma forma.

Vivemos a primeira época que faz enorme esforço para silenciar a ansiedade primordial. Desde o Iluminismo um punhado de ideologias tenta defender a tese ingénua de que a realidade se limita ao que vemos e tocamos. Num esforço hercúleo de autodecepção, impõem a limitação do homem às funções vitais, recusando qualquer aspecto transcendente. A atitude tem razões louváveis e pragmáticas, defendendo a justiça social e direitos humanos contra a hipocrisia de muitos religiosos. Mas nunca drasticamente a existência daqueles mesmos que diz defender.”

[…] A recessão afecta todos, e todos sofrem injustiça, cortes, austeridade. Mas a forma como cada um enfrenta o sofrimento faz toda a diferença. O ateísmo da maioria dos activistas introduz no drama económico elementos devastadores.”

[…]Quem não tem a perspectiva da eternidade só pode ver uma crise financeira como o inferno. O único resultado plausível é o desespero.”

Resumo:

Irmãos que tendes fome, buscai consolo no Além. Sede místicos, que isso passa. Teletransportai-vos.

Conclusão:

Afinal, há quem consiga caminhar sobre brasas sem se queimar. É tudo uma questão psicológica. Mesmo assim, com limites e normalmente contra remuneração. Ateus.

Novo dicionário – Significados de não vacilar*

Aguentar, aguentar.

Ir a Fátima rezar.

Mendigar.

Emigrar.

Conformar-se com a sua sorte.

Confiar em Gaspar, um criado de Schäuble.

Compor um hino aos novos restauradores de Portugal.

Submeter-se, esperançado, a um programa de requalificação na FP.

Ir para o desemprego devidamente requalificado.

Esperar sem um grito pelas próximas eleições.

Permitir que PR confunda 10 milhões de portugueses com o seu umbigo ou com a sua pele.

Ver êxito na desgraça.

Obedecer.

Não largar o pote.

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* “Não podemos vacilar”, afirma Cavaco Silva

As “Caras da Semana” com cognomes ou algo do género

Não sei a opinião dos ilustres leitores, mas se há rubrica do Público que considero sem jeito é a intitulada “Caras da Semana”, na edição dos domingos. Não que tenha algo contra este tipo de apreciações semanais breves. Rubricas semelhantes, principalmente sobre acontecimentos da semana, existem em muitas outras publicações. É antes a forma escolhida. Passo a explicar. Ocupando o fundo de duas páginas consecutivas, em pequenas colunas, a rubrica elege algumas personalidades, nacionais ou internacionais, mostra a respetiva foto, identifica-as pelo nome e resume a razão de ser do seu destaque numa espécie de subnome, tipo “o impreparado”, ou “a alcoviteira”, ou ainda “o inteligente”, antes de nos dizer, em poucas linhas, o que fez ou não fez de bem, ou de mal, a pessoa em causa. Claro que o perigo de ficarem para a posteridade com tal classificativo é nulo, porque felizmente as semanas passam a galope. Mas ainda assim…

Hoje, temos, por exemplo, António José Seguro, o Preparador, Francisco José Viegas, o Displicente, Barack Obama, o Hipervigilante, etc. Como veem, estas escolhas de atributos são sem graça, ridículas, descabidas ou enganadoras. Vemos Seguro em muitos papéis, mas no de preparador de laboratório não vemos. Também apelidar Obama de hipervigilante me parece sem estilo, sem gosto, sem requinte, sem sentido político. Ainda se, ao menos, se abstivessem de usar o artigo definido, talvez encorajassem mais o leitor a ir ler o resto. Assim, não há semana em que o meu comentário não seja “This sucks” ou, em português, “Mas isto é o quê, um cognome, uma carta do Tarot?”. Na dúvida e desgostada, mudo de página.

É deslocado e francamente mau este misto de cognomes de reis de Portugal, como “D. João III, o Piedoso”, ou “D. Sebastião, o Desejado”, e de horóscopo/ cartas do Tarot (o tamanho da coluna lembra até uma carta), como “Gémeos – a Morte”, “Carneiro – a Papisa”. Já se melhorava esta secção, senhora diretora.

Um dos mais violentos artigos contra a Europa

O relatório de ontem da equipa de economistas do FMI e a resposta da Comissão inspiraram Ambrose Evans-Pritchard, do Telegraph, a escrever um dos mais violentos artigos contra a política europeia, capaz de fazer Olli Rehn (e não só) perder os óculos e a compostura. Aqui deixo pequenos excertos:

“The European Commission defended itself yesterday, saying a debt restructuring in 2010 would have caused havoc in the bond markets and virulent contagion. This is true, but what kind of a defence is that?
Yes, everybody feared a chain-reaction of sovereign defaults reaching Italy and Spain, but this was entirely because the ECB was recklessly refusing to carry out its responsibility as a lender of last resort, the ultimate purpose of any central bank. In doing so, it was endangering the entire global financial system.
You can trace this paralysis to Maastricht and the nature of the ECB mandate, but as the Draghi (OMT) backstop for Italy and Spain has since demonstrated, what it really showed was that a lot of ECB governors were out of their depth, or pursuing naked national agendas, or both, and hiding behind what are in reality very elastic treaty clauses)
[…]
What we see is a near perfect exhibit of what is wrong with the European Project. There is no mechanism of accountability. The buck stops nowhere.
I don’t wish to pick on Economics Commissioner Olli Rehn, although one’s patience runs out after listening to the Commission’s retort that the IMF is “plainly wrong”.

[…]
Yet Mr Rehn is the titular official in charge. The Troika is “his” baby. If he were the finance minister of a democratic state he would surely have to resign after such blistering demolition of his tenure.
The fact that nobody ever resigns for botched policies in the EU system (Pace, the Santer Commission: the exception that proves the rule) should not deter Mr Rehn from falling on his sword from a high sense of honour. Such a gesture would clear the air, and mark a recognition that the policy formulae of EMU must be swept away to allow for recovery.”

(Na íntegra aqui)