Se, de acordo com a recente sondagem da Pitagórica, 77% dos inquiridos defendiam o entendimento entre PSD, CDS e PS, só podemos concluir que António José Seguro deu uma explicação extremamente frouxa das razões que o levaram a romper as negociações e adotou uma posição neste processo que, se alguma coisa fez, foi credibilizar um presidente da República golpista e chico-esperto à procura da boa reputação há muito perdida e contribuir para reerguer um governo implodido. Não há outra justificação. E as razões que poderiam ter sido invocadas por Seguro eram tantas e de tal ordem que deveriam até ter sido suficientes para nem sequer aceitar sentar-se à mesa. A principal delas seria a perversão da democracia através da anulação do principal partido da oposição, não por passar a fazer parte do governo (sem passar por eleições), mas por continuar na oposição neutralizado e tolhido. Ainda mais tolhido do que o habitual graças à já cansativa elegância do seu líder.
É por esta e outras atitudes que o secretário-geral do PS não descola nas sondagens. Hesita, não se distancia do Presidente da República (esse expoente de lisura e boas intenções e grande defensor do interesse nacional), namora o poder sem dele participar (fatal), recua sempre e aparentemente por pressões internas (transmitindo uma imagem de fraqueza), pede eleições mas não para já, enfim, se há líder inseguro num partido de oposição é este.
As sondagens devem ser lidas de diversas perspetivas, nem sempre na mais imediata. Neste caso, numa perspetiva de fundo, Seguro permitiu que as negociações fossem vistas como uma iniciativa positiva e promissora para a governação do país, coisa que devia saber ser mentira, e Cavaco como grande patriota (comentários para quê, quando vemos a pátria nos negócios da Quinta da Coelha e BPN?) e, assim sendo, o seu rompimento só pode ter sido visto como algo para lamentar. Por outro lado, Seguro, sendo totalmente alheio a esta crise, também mostrou falta de confiança na sua própria alternativa. Daí muitas pessoas acharem que seria melhor ter-se juntado aos estarolas. Maior sinceridade é impossível.
As luminárias que lideram atualmente o partido socialista deviam saber, além disso, e dizer, que as mesmas pessoas que respondem às sondagens lamentando a falta de consenso são as mesmas que, mais adiante, culpariam e penalizariam o PS por não ter assumido uma alternativa, entregando-a inteirinha a partidos sem préstimo. É isto, a par da responsabilidade nula nesta crise e da ausência de lógica na sua convocação para a resolver, que um líder da oposição com personalidade deveria ter dito e não disse.
As opiniões são moldáveis consoante o que se ouve no espaço público. E o que se ouviu foi o secretário-geral do PS, que, repito, não teve a mínima responsabilidade no eclodir da crise governativa, a mínima que fosse, achar muito bem prestar-se ao mais miserável número político jamais visto que consistiu em aceitar conversar obedientemente com um governo que o próprio PR considerara uns dias antes inapto para governar, não lhe dando sequer posse, nem na sua versão remodelada, um governo com resultados desastrosos, um governo humilhado com a perspetiva de eleições antecipadas e por isso mesmo também muito pouco interessado no êxito das negociações (agarrado ao pote como está). Nada disto foi desmontado pelo PS. Seguro aceitou dar ao Governo um estatuto que definitivamente perdera.
Na prática, Seguro tem medo do Presidente. Talvez lhe fizesse bem ver cinco vezes por dia o vídeo que o Valupi oportunamente aqui colocou com as declarações de Sua Excelência sobre os lucros auferidos com a venda das ações ao BPN. Talvez umas sessões de triste realidade o fizessem acordar e perceber o tipo de personagens com que os socialistas têm de haver-se. Estará sequer interessado?
Aos leitores, informo que este meu post é mais do que “malhar no ceguinho”.