Arquivo da Categoria: Penélope

“Pazinhos, com licença”, expressão que deve estar a fervilhar na cabeça do CDS

Perante o “beauty contest” indigente a que temos assistido, em que mal os candidatos dão a volta na passadeira já se ouve um coro de apupos e saltam tabuletas com nota zero, é tempo de perguntar o que acontece se ninguém estiver interessado em juntar-se a um governo PSD que tenha Passos como primeiro-ministro e o resto da pandilha, cada vez mais reduzida, a ocupar a quota de cargos que cabe ao partido? Passarão as pastas por atribuir para o CDS? Ainda vamos ver o Bagão Félix nas Finanças, como ministro?

Para o partido do táxi, o casamento com um medíocre está a revelar-se uma oportunidade nunca sonhada.

A loucura, a loucura

PSD, filhos! Afinal, convidam um homem para Secretário de Estado do Tesouro, dão-lhe posse e agora, perante as acusações de notória falta de ética política e, enfim, de sentido mínimo da política, põem a hipótese de Pais Jorge ter cometido um ilícito criminal merecedor de averiguação judicial? Meus amigos, não vos pagamos para integrarem um infantário. Ninguém acusou Pais Jorge de criminoso. Por aqui, acusámos a Ministra de total inépcia política com esta escolha e o novel Secretário de Estado de tergiversar e depois mentir sobre uma profissão anterior que colidia com aquela para que foi nomeado.

Ó suas bestas, o homem já disse que esteve nas reuniões!

Demais é demais. Depois de o próprio Secretário de Estado ter admitido, quando confrontado com documentos comprovativos, que esteve em três reuniões com membros do gabinete de José Sócrates para tentar (e não conseguir) vender contratos swap ao então Governo para o ajudar a esconder dívida do controlo do Eurostat, qual é a ideia, se não aprofundar o ridículo, do estratagema agora arranjado de acusar os jornalistas de forjarem um documento? O nome de Pais Jorge consta de outro organigrama do Citi? Mas o homem esteve nas reuniões! E quem nos garante que a versão agora paginada (ah, este pormenor é mesmo determinante) não foi, ela sim, forjada? Não esquecer que foram precisas 12 horas para engendrar uma saída que pudesse manter o Secretário de Estado em funções. Eles sabem bem porquê. Caído este escudo, a Ministra fica ainda mais vulnerável.

Chama-se a isto cair na lama e comprazer-se em nela chafurdar. Um divertimento que mete bastante nojo a quem assiste, diga-se. A náusea deste espetáculo já vai demasiado longa.

A SIC tinha revelado, na segundafeira à noite, um documento de 2005 com propostas de contratos swap a adquirir pelo Estado português, onde consta o nome do actual secretário de Estado do Tesouro quando este era responsável do Citigroup. E afirmava ter havido três reuniões entre o Governo de José Sócrates e os responsáveis do banco, entre eles Joaquim Pais Jorge, nas quais uma das matérias tratadas era precisamente a tentativa de venda de contratos swap.

Depois dessa notícia, o actual secretário de Estado do Tesouro confirmou àquela estação de televisão ter participado em reuniões em S. Bento com assessores do então primeiro-ministro, algo que não fizera na passada sexta-feira, no briefing do Governo, quando disse não se recordar. Mas insistiu no que então dissera: “As responsabilidades relativas à concepção, elaboração e negociação de produtos derivados não era e nunca foram da minha competência”.
Ao fim da manhã de ontem, no primeiro briefing do Governo desta semana, o secretário de Estado adjunto do ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional garantiu que tinham sido “detectadas inconsistências problemáticas” quanto à ligação entre a apresentação dos contratos swap que vieram a público e a presença do actual governante. Para Pedro Lomba, o objectivo do Governo ontem era “descobrir a verdade dos factos”.

No documento divulgado pela comunicação social, o nome do agora secretário de Estado surge no organigrama da equipa do Citigroup. A função que lhe é atribuída é a de director para a área denominada como “Citibank Coverage”. No organigrama aparecem também Paulo Gray, então director-geral do Citigroup para Portugal e Espanha e agora directorgeral da StormHarbour, a consultora escolhida pelas Finanças para avaliar os swaps nas empresas públicas, e mais seis elementos.[…]

Em relação aos contactos com o Estado português em 2005 e 2006, fonte do Governo da altura afirma que Joaquim Pais Jorge esteve presente em várias reuniões com membros do gabinete de José Sócrates, algo que o actual secretário de Estado confirma. A dúvida está nos temas tratados por este responsável.

O assunto que mais horas ocupou nesses encontros foi o da titularização dos créditos fiscais e da Segurança Social realizada pelo Citigroup com o Estado português em 2003, quando à frente do Governo estava Durão Barroso. Em 2006, havia do lado do Citigroup o receio de que a cobrança das dívidas fiscais não fosse a suficiente para reembolsar os títulos que tinham sido vendidos pelo Citigroup a investidores internacionais. No entanto, de acordo com as mesmas fontes, ao mesmo tempo que debatia a titularização e os seus problemas, os responsáveis do Citi sugeriram a utilização de um swap que, a troco de pagamentos futuros, reduzia o valor do défice público.

Fonte: Público (sem link)

A verdade é esta

Se, de acordo com a recente sondagem da Pitagórica, 77% dos inquiridos defendiam o entendimento entre PSD, CDS e PS, só podemos concluir que António José Seguro deu uma explicação extremamente frouxa das razões que o levaram a romper as negociações e adotou uma posição neste processo que, se alguma coisa fez, foi credibilizar um presidente da República golpista e chico-esperto à procura da boa reputação há muito perdida e contribuir para reerguer um governo implodido. Não há outra justificação. E as razões que poderiam ter sido invocadas por Seguro eram tantas e de tal ordem que deveriam até ter sido suficientes para nem sequer aceitar sentar-se à mesa. A principal delas seria a perversão da democracia através da anulação do principal partido da oposição, não por passar a fazer parte do governo (sem passar por eleições), mas por continuar na oposição neutralizado e tolhido. Ainda mais tolhido do que o habitual graças à já cansativa elegância do seu líder.

É por esta e outras atitudes que o secretário-geral do PS não descola nas sondagens. Hesita, não se distancia do Presidente da República (esse expoente de lisura e boas intenções e grande defensor do interesse nacional), namora o poder sem dele participar (fatal), recua sempre e aparentemente por pressões internas (transmitindo uma imagem de fraqueza), pede eleições mas não para já, enfim, se há líder inseguro num partido de oposição é este.

As sondagens devem ser lidas de diversas perspetivas, nem sempre na mais imediata. Neste caso, numa perspetiva de fundo, Seguro permitiu que as negociações fossem vistas como uma iniciativa positiva e promissora para a governação do país, coisa que devia saber ser mentira, e Cavaco como grande patriota (comentários para quê, quando vemos a pátria nos negócios da Quinta da Coelha e BPN?) e, assim sendo, o seu rompimento só pode ter sido visto como algo para lamentar. Por outro lado, Seguro, sendo totalmente alheio a esta crise, também mostrou falta de confiança na sua própria alternativa. Daí muitas pessoas acharem que seria melhor ter-se juntado aos estarolas. Maior sinceridade é impossível.

As luminárias que lideram atualmente o partido socialista deviam saber, além disso, e dizer, que as mesmas pessoas que respondem às sondagens lamentando a falta de consenso são as mesmas que, mais adiante, culpariam e penalizariam o PS por não ter assumido uma alternativa, entregando-a inteirinha a partidos sem préstimo. É isto, a par da responsabilidade nula nesta crise e da ausência de lógica na sua convocação para a resolver, que um líder da oposição com personalidade deveria ter dito e não disse.

As opiniões são moldáveis consoante o que se ouve no espaço público. E o que se ouviu foi o secretário-geral do PS, que, repito, não teve a mínima responsabilidade no eclodir da crise governativa, a mínima que fosse, achar muito bem prestar-se ao mais miserável número político jamais visto que consistiu em aceitar conversar obedientemente com um governo que o próprio PR considerara uns dias antes inapto para governar, não lhe dando sequer posse, nem na sua versão remodelada, um governo com resultados desastrosos, um governo humilhado com a perspetiva de eleições antecipadas e por isso mesmo também muito pouco interessado no êxito das negociações (agarrado ao pote como está). Nada disto foi desmontado pelo PS. Seguro aceitou dar ao Governo um estatuto que definitivamente perdera.

Na prática, Seguro tem medo do Presidente. Talvez lhe fizesse bem ver cinco vezes por dia o vídeo que o Valupi oportunamente aqui colocou com as declarações de Sua Excelência sobre os lucros auferidos com a venda das ações ao BPN. Talvez umas sessões de triste realidade o fizessem acordar e perceber o tipo de personagens com que os socialistas têm de haver-se. Estará sequer interessado?

Aos leitores, informo que este meu post é mais do que “malhar no ceguinho”.

Como terá a U. Católica chegado aos 32% para o PSD?

Nova sondagem. Depois dos 3% para o CDS apurados ontem pela Universidade Católica, os resultados da Eurosondagem, 25-31 julho, parecem-me bem mais credíveis (e ainda mais se tivermos em conta os resultados da sondagem i/Pitagórica).

O trambolhão tem sido grande para os “estarolas”, mas convém não exagerar em relação ao Portas. E convenhamos que uma subida do PSD para mais de 30%, como apurou a UC, era coisa muito estranha.

PS: 37.4% (+0.4)
PSD: 24.4% (-0.6)
CDU: 12.5% (+0.5)
CDS-PP: 7.7% (-0.3)
BE: 7.5% (-0.5)

Mister Swaps foi para Secretário de Estado do Tesouro. Uau!

Desenganem-se com a interjeição. Na verdade, nem nada admiramos nem já nada nos admira neste governo. Chegámos é a uma fase em que damos por nós a pedir mais escândalo. A coisa vicia. E o Governo não se faz rogado. Isto é um divertimento. Em cima do fogo, mas um divertimento, que agora também envolve o Palácio das Laranjeiras.

Miss Swaps está agora na companhia certa (ler, a propósito, o excelente post do Valupi, aqui em baixo). O ar indignado com que esta mulher se apresenta no Parlamento como se nunca tivesse ouvido falar em tal coisa, não soubesse o que fazer e a sua atuação dependesse do que Costa Pina lhe tivesse transmitido! Please.

Tudo para a rua – Passos, Maria Luís, Rui Machete, Campos Ferreira, Joaquim Pais Jorge, Portas, o dos torpedos, e tutti quanti. Uma vez na rua, passem por Belém e levem o padrinho. Temos vergonha.

As saídas ou a saída de Maria Luís

Maria Luís, Ministra das Finanças, decidiu afinal apresentar-se antes das férias na Comissão de Inquérito. É evidente que, depois de rebentada a polémica com as suas sucessivas afirmações e acusações e o consequente contraditório, a ideia será atalhar o mal enquanto é tempo para o Governo poder rearrancar na máxima frescura (coloco-me na perspetiva deles, os que se proclamam frescos e que, como sabemos, pretendem também que o caso Rui Machete seja esquecido). Assim, restam-lhe quatro opções:

1. Pedir desculpa pelas “imprecisões” e corrigir as declarações. Solução menos má, mas altamente improvável. Arcará mesmo assim com a responsabilidade pelo agravamento das perdas potenciais com os ditos contratos.

2. Atirar a responsabilidade para outros membros do Governo, como Vítor Gaspar, ou Moedas, um elemento menos exposto, que poderá ter dado instruções para não se começarem as negociações dos swaps de imediato. Neste caso, este seria chamado à Comissão, mas já não seria a ministra que estaria em causa. Porém, as mentiras proferidas não seriam apagadas.

3. Persistir na mentira com novas mentiras. Totalmente desaconselhado. Fonte poderosa de instabilidade para o Executivo. Seria a demissão certa, mais mês menos mês.

4. Contra-atacar com acusações ao Governo anterior, ou aos gestores envolvidos. Opção arriscada atendendo ao cargo que ela própria ocupou na REFER. Também teria de basear-se em argumentos muito sólidos e estar preparada para a abertura de uma guerra com elementos do PSD, muitos deles gestores das empresas em causa. Além de não esclarecer a questão da demora na tomada de medidas.

Nenhuma destas opções é boa para Maria Luís. Também não me parece que vá à Comissão para apresentar a demissão. Assim, tudo indica que a polémica não vai morrer hoje. E, se não morrer, recomeça com mais força em setembro.

A ideia da nomeação desta senhora para o cargo de ministra das Finanças saiu da brilhante cabeça de Passos, possivelmente enquanto se penteava.

Ui, “imensa ternura”

O secretário-geral do PS escusou-se hoje a comentar as declarações de Mário Soares sobre a forma como anunciou a rutura das negociações para a ‘salvação nacional’, realçando apenas a “imensa ternura” que tem pelo fundador do partido.

“Tenho uma imensa ternura e um imenso carinho pelo doutor Mário Soares. Ligam-me a ele relações de grande amizade. Não farei nenhum comentário”, disse António José Seguro.

A reação de Seguro é ofensiva, possivelmente para além de qualquer perdão. Tratar Soares como um “avozinho” a quem se desculpam alguns “devaneios” não augura nada de bom.

Virgens, meninos e burros

Toda a gente já percebeu que o tema dos swaps foi trazido para a Assembleia pelo Governo para atacar, mais uma vez, o governo anterior numa altura em que a derrapagem orçamental de 2012 prometia causar sérios danos na estabilidade do Executivo e na sua capacidade para impor novas medidas de austeridade. Agora que o tiro lhes saiu pela culatra, pois a habitual leviandade não lhes permitiu avaliar devidamente a porta-voz escolhida para a campanha, vem Maduro dizer em defesa da colega que o assunto está a ser desviado do ponto principal, que, pobres deles, são meros bombeiros a braços com uma terrível missão que apenas estão a procurar cumprir e que, nessa qualidade, não podem ser acusados de nada. De nada?

Ao fim de um ano e meio em que deixaram duplicar os potenciais prejuízos com os referidos contratos vêm imputar responsabilidades aos outros e acusá-los de não lhes terem dito nada? Na realidade, ao responsabilizar o governo de Sócrates pelas perdas potenciais de mais de 3000 M€ em 2013, pretendendo assim justificar a necessidade de imposição de novos e pesados cortes, MLA esqueceu-se que ela própria esteve altamente comprometida, enquanto diretora financeira da REFER, com a celebração de parte desses contratos, que sabia perfeitamente do que se tratava e o que implicavam e que teve conhecimento na altura certa, pouco depois da sua entrada em funções no XIX Governo, dos riscos iminentes que representavam todos os que eram especulativos (estávamos em plena crise financeira, as más surpresas sucediam-se). Soubemos depois que até lhe foram transmitidas instruções para lidar com o problema. Coisa que também esqueceu.

Só estes esquecimentos lhe permitiram assumir no Parlamento o papel de virgem Maria, pouco inteligente e tudo, pois aceitou enveredar sem olhar para o espelho por um caminho de omissões e mentiras, só para desviar as atenções do clamoroso falhanço da equipa das Finanças. E-mails e declarações de antigos responsáveis institucionais comprovam agora que a teia que teceu a está a aprisionar, sendo difícil deixar de mentir. Este comportamento, apesar de lhe parecer natural atendendo aos meios políticos em que se move, é totalmente inaceitável segundo as regras democráticas. Não há tática política que a desculpe. Não há férias parlamentares que lhe valham. Além disso, é inadmissível que tenha recusado ir novamente à Comissão de Inquérito e, no mesmo dia (ontem), tenha ido “explicar-se” a um canal de televisão – a SIC. Cobardia, falta de ética, má consciência e esquivação a um dever institucional. Qual destes classificativos não compreende, Maria Luís? Deseja fazer o papel de Miguel Relvas e arrastar-se até mais não? Olhe que Portas, o seu colega que não gostava de si, não vai ajudar.

O programa de assistência para o qual a direita nos empurrou (com a prestimosa ajuda da extrema-esquerda) teve consequências trágicas para o país do ponto de vista económico e social. Mas do ponto de vista político as consequências não deixam de ser dramáticas. Estamos (estaremos, estaríamos?) condenados, com o beneplácito do Presidente da República, a ter um governo de farsantes, incompetentes e mentirosos até ao final da legislatura. Com epicentro em Passos Coelho. Não é, pois, de estranhar nem de criticar que a oposição se agite e crie instabilidade a cada instante. Nunca se viu um governo assim! Para além das regras da democracia, que devem ser cumpridas por quem detém o poder, mesmo pelos muito burros, há limites para o que a inteligência dos portugueses pode tolerar.

Findo o interlúdio, como aceitar uma ministra que mente no Parlamento?

Nesta direita só há farsantes. Cavaco resolveu aliar o seu gosto pelo golpismo à tendência para a patetice e fazer nova triste figura, acabando por meter a viola no saco. Agora corrige o tiro com a exigência de uma remodelação diferente da anunciada por Passos e Portas e ordenando ao Governo que apresente uma moção de confiança para daqui a uns tempos, na próxima crise, poder dizer que nada pode fazer porque o Governo tem a confiança do Parlamento.

Voltamos, entretanto, aonde estávamos. Maria Luís Albuquerque (MLA) mentiu no Parlamento quando declarou não lhe ter sido transmitida nenhuma informação relevante sobre os swaps quando assumiu a pasta de secretária de Estado no atual Governo. A par da demissão irrevogável de Portas, era aqui exatamente que estávamos, ou seja, na tomada de posse de uma nova ministra com fortes motivos para, em vez de ser promovida, ser demitida do anterior cargo, quando Cavaco resolveu avançar com uma manobra de diversão.

Graças à atividade da Assembleia da República, os pontos nevrálgicos da recente crise virão, um a um, de novo à tona de água. A irrevogabilidade da demissão de Portas e a troca da fidelidade à palavra dada por um punhado de cargos virão já a seguir como tema de chacota. A tinta que ocultou temporariamente estes episódios teve uma duração de algumas semanas. Não mais.

No caso de MLA, a oposição não pode deixar passar as falsas declarações da nova ministra, já confirmadas por vários, demasiados protagonistas. É um desrespeito pelas instituições, eventualmente punível. No caso de Paulo Portas, a sua cambalhota de há duas semanas e a ligeira machadada nas suas desmesuradas ambições governativas imposta por Cavaco vão estar-lhe coladas na testa enquanto se mantiver no Governo. A anunciada e adiada reforma do Estado, que continuará a seu cargo, obrigá-lo-á a um exercício difícil de retórica ou a uma colisão catastrófica com os parceiros sociais … ou com a ministra das Finanças. E há ainda a negociação com a Troika.

A relação entre os dois ministros também vai ser um grande ponto de interesse. Sem superintender à atividade da ministra (e se esta se mantiver em funções), Portas ficará de novo com margem para distanciamento, críticas ou recados, ainda por cima ancorado no novo ministro da Economia, tudo indica que do CDS, com o qual não poderá deixar de se solidarizar em matéria de estímulos ou redução de impostos.

O potencial para conflitos não desapareceu, como está bom de ver. Se não rebentarem entre membros do Governo, há fortes probabilidades de eclodirem com os portugueses.

Disparates e perplexidades

1. Disse Cavaco Silva que, em 75% dos países europeus de média dimensão, como Portugal,
existe a prática da negociação e do compromisso entre partidos. Ora, isso acontece entre partidos que irão governar em coligação. Não entre os partidos que governam e partidos da oposição. Seria um absurdo em matérias de princípio. Se não é para existir oposição, então que vão todos para o governo. O que Cavaco pretendia era que o PS desse o seu apoio às políticas do Governo sem fazer parte dele. Tendo o governo maioria absoluta, estamos mesmo a ver o bom acolhimento que as propostas do PS teriam e o interesse que este tinha em fazê-las vingar.

2. Como pode o Presidente anunciar que o Governo vai apresentar uma moção de confiança?

3. E afinal que governo vai continuar em funções? Ou a escolha dos seus membros enquadra-se no “não abdicarei dos poderes que a Constituição me atribui”, ou seja, Cavaco reserva-se o direito de não aceitar algumas propostas de remodelação?

Capítulo a seguir ao próximo: vai Portas aceitar a humilhação?

Sua Excelência não deseja eleições já. Também resulta claro dos capítulos precedentes que não deseja eleições nunca, pelo menos enquanto o PSD estiver no poder ou estiver em vias de o perder. No próximo capítulo, vê-lo-emos, portanto, a anunciar ao país que, perante a falta de entendimento entre os três partidos do arco da governabilidade, manterá o governo PSD-CDS em funções, como já declarara. Mas, para não se enxovalhar, vincará que não será na composição anterior à proposta de remodelação, tal não faria sentido, pois foi a própria coligação que entendeu ser inevitável redistribuir pastas para conseguir aguentar-se. Porém, também não será na composição que atribuiria um peso desmesurado e desproporcionado a Portas e ao CDS, e que grande mal-estar deve ter provocado em históricos do PSD próximos de Sua Excelência, como Manuela F. Leite, proposta imediatamente antes do reativo e espertalhão discurso da dita Excelência e, quiçá, motivo de peso para a sua intervenção confusa.

Sua Excelência exigirá, pois, que a remodelação do executivo seja consentânea com os resultados das últimas eleições. Portas terá, assim, de remeter-se a uma posição que Sua Excelência considere adequada. E em 2014, haverá novas eleições? Não. Essa era a cenoura acenada a Seguro, caso este aceitasse neutralizar/anular o partido como alternativa. Não aceitou, logo, a cenoura perde pertinência. Siga o governo até 2015, mas com uma mão do Cavaco. Os olhos passarão a estar postos em Portas.

Claro que nada disto obsta a que Cavaco surpreenda de novo o público com nova reviravolta no enredo, já que está a tomar o gosto pela brincadeira.

Ó Seguro, raspa-te daí

Impressiona constatar que, no PS, não se ouve quem sabe. Pedro Silva Pereira é dos políticos mais lúcidos e competentes que conheço. O resumo que hoje faz, no Diário Económico, dos motivos e intenções das chamadas negociações tripartidas promovidas por Sua Excelência é totalmente claro. Não se percebe o que anda o atarantado Seguro a fazer ao alimentar tamanha palhaçada e a levar a sério a esperteza saloia do habitante de Belém.

[…]A verdade é que a intervenção do Presidente envolveu um salto lógico insanável: misturou a crise política gerada no interior do Governo de coligação PSD/CDS (sobre a qual nada decidiu, a não ser pré-anunciando eleições antecipadas em 2014) com o acordo a celebrar entre os partidos do Governo e o Partido Socialista. O primeiro efeito desta mistura explosiva, para além de prolongar a indefinição quanto à situação do Governo (colocado em “plenitude de disfunções”), foi escamotear totalmente as responsabilidades do Governo pelas consequências do seu falhanço e da crise política que provocou: aquilo que era uma crise causada pelo escandaloso desentendimento entre os dois partidos da coligação pareceu tornar-se, sem que se tivesse percebido porquê, numa crise de desentendimento entre os três partidos signatários do Memorando original, a qual só podia ser resolvida com a participação “patriótica e responsável” do Partido Socialista – sob pena, claro está, do fogo do inferno.

[…]

Hermeneutas precisam-se

A bem da Nação, aguardamos esclarecimentos na página Web da Presidência da República sobre a comunicação de ontem ao país, já que a confusão vai grande.

Afinal:

1. O Governo remodelado por proposta dos dois partidos da coligação é ou não é empossado? Eu interpretei que sim, mas há quem interprete que não.

2. Se não, qual o Governo que se mantém em funções e qual a função de Portas? Não passará a sua decisão revogada de novo a irrevogável, voltando a não haver Governo?

3. Nesse caso, qual a solução para Portugal dispor de um Executivo no imediato?

4. Se o Governo que se mantém em funções é o mesmo que até agora, com exceção do ministro das Finanças, quem nos garante que tal governo ainda existe?

5. A antecipação das eleições para junho de 2014 está dependente do acordo de salvação nacional a celebrar entre os três partidos do arco da governabilidade? Está ou não está?

6. Na ausência de tal acordo, a legislatura segue até 2015? Se sim, com que governo?

7.O que quis dizer Cavaco com “outras soluções no quadro institucional”?

8. Quando e em que circunstâncias devem essas soluções ser encontradas?

9. Que caraças espera o Presidente que o atual primeiro-ministro e o líder do outro partido da coligação façam no imediato? Que concordem com o que propõe? E isso é exatamente o quê?

10. Há na cabeça do Presidente alguma intenção de que o atual governo seja substituído já e agora por um governo tripartido?

E a lista poderia prosseguir.

De facto, a única informação clara a extrair desta comunicação é a de que não haverá eleições este ano na sequência da crise política aberta e mesmo isso é o que veremos, pois o Governo pode demitir-se. Tudo o resto é deixado à interpretação de cada um. Se Cavaco não consegue ir mais longe na definição das suas ideias, deixando todo o país em suspenso, pois que tome a decisão irrevogável e largamente compreendida de se demitir. Nesse caso, pode apresentar a justificação mais confusa, mais vaga ou, pelo contrário, mais detalhada e clara de que for capaz. Não interessa. Ficaremos todos felizes e aliviados.

Se conseguires, Portas, ainda te erguemos uma estátua

Portas foi ao aeroporto de Figo Maduro esperar Passos, que regressava de Berlim. Passos, por sua vez, tinha recusado a demissão de Portas e afastado ao mesmo tempo a sua própria demissão, porque no dia seguinte ia a Berlim. A ânsia de Paulo Portas em saber ao vivo o que achara Berlim da situação criada pela sua zanga cá na província só tem semelhança, em impulsividade, com a carta de demissão escrita numa madrugada mal despertada. Mal podia esperar pelo teor do raspanete. Correria depois a meditar na melhor forma de se redimir.

Assim, mais pose menos pose, mais jogos de palavras menos jogos de palavras, nada farão que contrarie Berlim. O que cada um pensa, sente e quer tem, pois, muito pouca importância por estes tempos que correm. Sorte de Passos, que não pensa nada. Está à vista que nada nas relações entre estes governantes e entre eles e o povo português funciona. Porém, cedendo ao ridículo, regressam à carteira e prometem portar-se bem. Bem em relação a quem é o que veremos. Ah, mas a partir de agora, deixam a linha telefónica com Berlim aberta em permanência.

O programa de resgate afundou o país. Está tudo mal, ninguém no Governo sabe o que fazer. Gaspar, que, convém lembrar, achava antes de partir que tínhamos chegado à fase do investimento com ponto de exclamação, conseguiu escapulir-se contando a Schäuble o que lhe acontecera num supermercado. Os que ficam terão que puxar mais pela imaginação se quiserem bater com a porta. Para já, mal podemos esperar pela justificação que Portas nos dará (e que não mencione Berlim) para a transformação de uma decisão irrevogável numa totalmente revogável e da recusa de uma ministra na sua inquestionável aceitação. Fazer de fantoche é isto. Mas, caso se tenham esquecido, é em Portugal que governam e é aqui também que levarão um enorme piparote no traseiro mais dia menos dia. A única hipótese de tal não acontecer é esta crise ter contribuído para uma reavaliação das linhas da austeridade, lá está, por parte de Berlim, e a loucura de cortes parar hoje mesmo. Se assim for, fez bem Portas em arrastar a “reforma do Estado” até à sua demissão e à agitação que se lhe seguiu. As piruetas e mortais encarpados à retaguarda ser-lhe-ão convictamente perdoados. Será isto uma impossibilidade? Dir-se-ia que é. Mas aluno mais cumpridor das orientações europeias nesta crise não há, nunca houve e nunca haverá. Deixar cair o país seria o maior fracasso de Berlim e da Troika. Nas próximas semanas Portas terá, portanto, o destino marcado. E Passos também, eternamente por arrasto. Ou uma versão mais desagradável do que o cuspo atirado a Gaspar ou a glória. Estás a ver, Portas?

Acocorar-se perante os credores é isto

Devem por esta altura chover telefonemas de Berlim e também de Bruxelas para forçar a manutenção do Governo. É o que tem acontecido noutros casos, nomeadamente com a Grécia. Não me admiraria, por isso, que Cavaco Silva estivesse também ele com rédea curta decidida por Merkel (e encantado com tal, diga-se). A avaliar pelo que se vai sabendo, a solução encontrada é agora a saída de Portas e a permanência do CDS na coligação. Visto de fora, parece simples. Visto de dentro, é um mar de interrogações e atropelos. Como, quem, sob a orientação de quem? Ficam os atuais ministros, vêm outros? Elege-se um novo líder à pressa? Que mandato terão, com que cara se apresentarão e que acordo de coligação assinarão os ministros que permanecerem?

A não demissão de Passos tresanda a instruções de fora. A não atuação de Cavaco não só, mas também. Portas, atabalhoadamente, resolveu ser autónomo e vai pagar caro e em dois balcões: fica sem cargo no Governo e sem cargo no partido.

Aparentemente, qualquer governo que daqui saia, desde que mantenha a maioria absoluta, vai aguentar-se, porque é essa a vontade da Alemanha, totalmente respeitada e reverenciada pelos estarolas agarrados ao pote. Cavaco não vai fazer nada e as manifestações não têm levado a lado nenhum que signifique o derrube do Governo. Pelo menos não tem sido esse o padrão, nem aqui nem na Grécia. Falo do derrube, não dos efeitos de pressão.

Assim vamos. Uma direita vergonhosa, incompetente, decadente e vergada. Uma Europa à deriva, mas controleira e perniciosa. Portugal, porém, não pode desistir da democracia. Nem que tenha de ir para a rua defendê-la. A situação interna não é pura e simplesmente sustentável. Os problemas são demasiado graves para sermos governados por um bando de palhaços, que provocando embora grande galhofa, não resolvem nada e só desgraçam o país.