Findo o interlúdio, como aceitar uma ministra que mente no Parlamento?

Nesta direita só há farsantes. Cavaco resolveu aliar o seu gosto pelo golpismo à tendência para a patetice e fazer nova triste figura, acabando por meter a viola no saco. Agora corrige o tiro com a exigência de uma remodelação diferente da anunciada por Passos e Portas e ordenando ao Governo que apresente uma moção de confiança para daqui a uns tempos, na próxima crise, poder dizer que nada pode fazer porque o Governo tem a confiança do Parlamento.

Voltamos, entretanto, aonde estávamos. Maria Luís Albuquerque (MLA) mentiu no Parlamento quando declarou não lhe ter sido transmitida nenhuma informação relevante sobre os swaps quando assumiu a pasta de secretária de Estado no atual Governo. A par da demissão irrevogável de Portas, era aqui exatamente que estávamos, ou seja, na tomada de posse de uma nova ministra com fortes motivos para, em vez de ser promovida, ser demitida do anterior cargo, quando Cavaco resolveu avançar com uma manobra de diversão.

Graças à atividade da Assembleia da República, os pontos nevrálgicos da recente crise virão, um a um, de novo à tona de água. A irrevogabilidade da demissão de Portas e a troca da fidelidade à palavra dada por um punhado de cargos virão já a seguir como tema de chacota. A tinta que ocultou temporariamente estes episódios teve uma duração de algumas semanas. Não mais.

No caso de MLA, a oposição não pode deixar passar as falsas declarações da nova ministra, já confirmadas por vários, demasiados protagonistas. É um desrespeito pelas instituições, eventualmente punível. No caso de Paulo Portas, a sua cambalhota de há duas semanas e a ligeira machadada nas suas desmesuradas ambições governativas imposta por Cavaco vão estar-lhe coladas na testa enquanto se mantiver no Governo. A anunciada e adiada reforma do Estado, que continuará a seu cargo, obrigá-lo-á a um exercício difícil de retórica ou a uma colisão catastrófica com os parceiros sociais … ou com a ministra das Finanças. E há ainda a negociação com a Troika.

A relação entre os dois ministros também vai ser um grande ponto de interesse. Sem superintender à atividade da ministra (e se esta se mantiver em funções), Portas ficará de novo com margem para distanciamento, críticas ou recados, ainda por cima ancorado no novo ministro da Economia, tudo indica que do CDS, com o qual não poderá deixar de se solidarizar em matéria de estímulos ou redução de impostos.

O potencial para conflitos não desapareceu, como está bom de ver. Se não rebentarem entre membros do Governo, há fortes probabilidades de eclodirem com os portugueses.

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