Hermeneutas precisam-se

A bem da Nação, aguardamos esclarecimentos na página Web da Presidência da República sobre a comunicação de ontem ao país, já que a confusão vai grande.

Afinal:

1. O Governo remodelado por proposta dos dois partidos da coligação é ou não é empossado? Eu interpretei que sim, mas há quem interprete que não.

2. Se não, qual o Governo que se mantém em funções e qual a função de Portas? Não passará a sua decisão revogada de novo a irrevogável, voltando a não haver Governo?

3. Nesse caso, qual a solução para Portugal dispor de um Executivo no imediato?

4. Se o Governo que se mantém em funções é o mesmo que até agora, com exceção do ministro das Finanças, quem nos garante que tal governo ainda existe?

5. A antecipação das eleições para junho de 2014 está dependente do acordo de salvação nacional a celebrar entre os três partidos do arco da governabilidade? Está ou não está?

6. Na ausência de tal acordo, a legislatura segue até 2015? Se sim, com que governo?

7.O que quis dizer Cavaco com “outras soluções no quadro institucional”?

8. Quando e em que circunstâncias devem essas soluções ser encontradas?

9. Que caraças espera o Presidente que o atual primeiro-ministro e o líder do outro partido da coligação façam no imediato? Que concordem com o que propõe? E isso é exatamente o quê?

10. Há na cabeça do Presidente alguma intenção de que o atual governo seja substituído já e agora por um governo tripartido?

E a lista poderia prosseguir.

De facto, a única informação clara a extrair desta comunicação é a de que não haverá eleições este ano na sequência da crise política aberta e mesmo isso é o que veremos, pois o Governo pode demitir-se. Tudo o resto é deixado à interpretação de cada um. Se Cavaco não consegue ir mais longe na definição das suas ideias, deixando todo o país em suspenso, pois que tome a decisão irrevogável e largamente compreendida de se demitir. Nesse caso, pode apresentar a justificação mais confusa, mais vaga ou, pelo contrário, mais detalhada e clara de que for capaz. Não interessa. Ficaremos todos felizes e aliviados.

17 thoughts on “Hermeneutas precisam-se”

  1. Ola,

    O que eu percebo da intervenção é que as respostas às perguntas acima decorrem dos dois unicos pontos mais ou menos claros no que ele disse :

    1. Não assumo a responsabilidade de empossar o governo saido do recente acordo entre Portas e Passos, nem a convocação de eleições antecipadas.

    2. Quanto ao resto, lavo as mãos e seja o que deus quiser.

    Por pudor, vou abster-me de qualificar o sentido de responsabilidade do mais alto magistrado da nação. Mas uma coisa temos que reconhecer, ele percebeu perfeitamente em que pais é que esta…

    Boas

  2. o possóilo já disse que não dissolve coisa nenhuma e neste momento a ordem é: entendam-se-e-depois-supliquem-aprovação-ao-chefe, entretanto há-de aparecer o marcelo a chamar-nos estúpidos com uma tradução presidencial e o mini mendes a revelar o terceiro buraco do milagre gaspar.

  3. Não especulo sobre a intenção do presidente, mas lá fora os acontecimentos das duas últimas semanas tem o mesmo efeito que teve a fuga de D. João VI e de toda a corte para o Brasil, na sequência da 1ª invasão francesa. Lá fora ficaram a saber que se insistirem em ocupar o país não vão ter governo local com autoridade para lhes prosseguir a agenda.

  4. Não entendo nenhuma das dúvidas da Penélope.

    O Governo legítimo mantém-se em funções, de gestão corrente, como o de Sócrates a partir do 23 de Março de 2011.

    Portas é menistro dos Estrangeiros, M.ª Luís Albuquerque das Finanças e Álvaro na Economia. Ainda.

    Passos mantém-se formalmente como 1º-menistro e Seguro líder do PS. Ainda.

    Agora começam as conversações informais para o Governo de Salvação Nacional, sob os auspícios de Belém, e quando estiverem concluídas o PSD despacha o Passos, o CDS o Portas e o PS o Seguro. Vão todos jogar ao pau com os ursos (incluindo os da CDU e do BE)…

    O fulcro deste nó górdio será, óbviamente, o PS, que assinando o compromisso pode ter Legislativas antecipadas lá para Junho. Até lá, impede que os facínoras se mexam à vontadex no “cockpit” e evita surpresas desagradáveis quando voltar a receber as pastas mais quentes.

    A paga é ajudar o Cavaco a terminar o mandato com um mínimo de dignidade (era agora ou nunca, ele sabe-o bem) e garantir ao PSD o despacho definitivo do Passos com uma saída honrosa, evitando a sua humilhação nas urnas em Setembro.

    O CDS para já pode brincar ao Bloco Central alargado, mas após as Legislativas logo se verá. É o fim do Portas.

    E o PS tem tempo para se livrar do emplastro do Seguro e aparecer de cara lavada a disputar o eleitorado aos extremistas do BE e do PC, que assim ficam com o campo todo aberto para a indignação e a paródia das manifes inócuas.

    Quanto aos Banqueiros, à Merkel e ao Durão Barroso, evita-se que a panela estoire antes das eleições alemãs, que vale bem uns sobressaltos nas Bolsas, e garante-se que, mesmo que não venham a poder ganhar tanto, diminuem os riscos de perder tudo.

    Cavaco foi bem aconselhado. Parece outro. Terá feito a tal operação de troca do cérebro com algum xadrezista?

  5. Se todo este triste espectáculo não é o grau zero da política…

    Não estará na hora de questionar sériamente a sanidade mental do homem?

  6. Vergonhoso. Cada um lança com pompa o próximo acto de uma ópera bufa palaciana dominado apenas pelos seus rancores ou desejos, sem o mínimo pudor ou noção do que andam a fazer ou da responsabilidade que têm.

    Tudo o que vejo me dá a volta ao estômago, o que não sei desperta-me os mais maquiavélicos pensamentos (estarão a fazer chantagem sobre Portas? Terão já feito sobre Cavaco?)

    E assim vamos andando, com jovens angustiados e sem futuro em Portugal, com pessoas sem poderem fazer face aos compromissos financeiros e com medo de perder tudo até a dignidade, com empresas a fechar, relações laborais que se desfazem na desgraça do desemprego, empreendedores sem capacidade ou ânimo para começar de novo, pelo menos não aqui. Portugal está a deitar fora o que de mais forte e vivo tem e a esmagar os que não podem sair.
    E esta gente sem qualidade ou visão entretêm-se em jogos florais e vinganças desqualificadas.

    Ia perguntar o que fizemos para merecer isto, mas… Votámos neles não foi?
    Aposto que ainda vai haver quem ache que o Cavaco fez bem em chamar o PS, o consenso alargado, o puxão de orelhas ao filhote que se portou mal….
    Populismo e água benta.

  7. Cá para mim, com os ultravioletas muito assanhados, houve alguém que andou a passear nos jardins de belém sem chapéu de palha. Isso paga-se… logo, cuidado com o tempo. Eu, por exemplo, não saio de casa sem consultar o boletim meteorológico e a astrologia do meu signo… Safa !….

  8. Este leitor de textos,escritos sabe-se lá por quem,(será o homem que inventou a treta das escutas?ou o ex.administrador do bpn?),já nos conduz pelos caminhos do surreal.F Soares que me desculpe mas,o problema não consiste em passear ao Sol sem chapéu,na minha modesta opinião, a questão coloca-se noutra dimensão:será que o homem já confunde o chapéu com um gelado?
    Haja alguém que nos valha!…

  9. @edie,
    isso foi o prof. marcelo a dar umas pinceladas num quadro indecifrável. Em Nova Iorque e em Bruxelas devem estar tão estupefactos, que nem piam. Pois isso de interpretar tal pintura é tarefa assaz complexa; se para um tuga é complicado, para um gentio ainda pior.

    Um dia destes, os fantasmas irados de salazar e de thomaz saem ao encalço do prof. marcelo, perorando contra ele e contra o seu mentor, marcello caetano; contra o velho por ter escancarado as portas da união nacional a tanto traidor da pátria; contra o novo por lhe continuar a obra, defendendo as suas pífias descendências.

  10. edie, os fantasmas do salazar e o américo thomaz não são justos, coisíssima nenhuma (parafraseando o salazarinho fujão)

  11. perorar Datação: 1589 cf. Arrais

    n verbo
    intransitivo
    1 concluir um discurso
    Ex.: o orador começou a p. quando o público já estava cansado
    transitivo indireto e intransitivo
    2 falar com afetação, com pretensão
    Ex.:
    transitivo direto e transitivo indireto
    3 defender, falar a favor
    Ex.:

  12. …o espírito demoníaco do ditador perorava, enfrentando a plateia laranja. Com a passagem para o além, a sua veneranda pronúncia acentuara-se; e a audiência, assoberbada com a sucessão de fonemas sibilados, nunca haveria de descobrir se o espírito de salazar estivera a perorar em subtil elogio ou sibilina maledicência…

  13. @tôino houaiss
    perorar, “orar” prefixado por “per”; salazar profere uma oração em tom enfático. O fantasma esforça-se, de modo a ser ouvido pelos homens.

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