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“Calor no estilo”. Desculpe, onde??

Complete o provérbio: “Dezembro frio, calor no…”. E a resposta é… estio. Estio? Não! Estilo, é que é.

Não vale a pena entrarmos pela questão superior dos provérbios de que nunca ninguém ouviu falar. Manuela Moura Guedes, sem nada de excitante que fazer depois da extenuante missão “CSI Lisbon – Operation philosopher” de há uns três anos, entrou com verdadeiro estilo na RTP, como apresentadora de um concurso. De tal maneira o estilo é a sua imagem de marca, que vai ao ponto de inventar provérbios “difíceis” só para que deles conste a palavra que elegeu para si, ou, mais prosaicamente, para salvar a face. Nada de novo. A tendência para a criatividade vigarista já vem de longe.

Depois de acusações, alegando falsas opções de resposta para completar o provérbio “Dezembro frio, calor no…”, um dos desafios do concurso Quem Quer Ser Milionário emitido no passado dia 26 pela RTP1, a apresentadora quebrou o silêncio e garantiu, através das redes sociais, que não existiu qualquer erro. “Há dois provérbios sobre o ‘Dezembro com frio…”, um mais conhecido, ligado ao estio, outro ligado ao estilo. São, pelo menos, dez as fontes que sustentam esta afirmação”, começa por explicar Manuela Moura Guedes.

“Foi escolhido no Quem Quer Ser Milionário o provérbio menos conhecido porque a concorrente já estava a responder a uma pergunta de nível 8, mais difícil. Provavelmente seria o outro, o do estio, se estivesse num nível mais baixo. (…) O que me parece ridículo é fazer considerações sobre gaffes e coisas afins partindo do princípio que ‘estio’ não faz parte do vocabulário de qualquer português com uma formação académica normal. Valha-nos esta erudição!”, concluiu a apresentadora.

Uma bomba argumentativa, esta MMG. Até nos faz calor no estilo.

Não é cego o que não quer ver. É hipócrita e fanático

Com a nona avaliação da Troika a decorrer – ou o “nono exame regular” na formulação técnica, pausada e finalmente enjoativa de Vítor Gaspar -, lê-se no Público e ouve-se nas televisões que a saída do ex-ministro das Finanças do Governo deixou a Troika em pânico perante o risco de incumprimento do programa de resgate.

Leram bem, é mesmo isso que dizem. O programa estava a ser um sucesso e Vítor Gaspar era um génio.

“[…] Em Bruxelas, a frustração pelo que é visto como uma mudança de atitude do Governo desde a saída de Vítor Gaspar é imensa, de tal forma que não só Portugal passou a ser posto no mesmo saco que a Grécia, como passou mesmo a perder na comparação face às reformas realizadas por Atenas nos últimos 18 meses.” […]

[…] “Neste momento, Portugal não cumpre nenhuma das condições para obter um programa cautelar”, refere uma das fontes ouvidas.[…]

Ora, esta versão do que se vem passando desde há uns meses em Portugal só pode ter três explicações: ou na Europa não tiveram conhecimento da carta de demissão de Vítor Gaspar e ainda estão convencidos que o homem foi demitido, ou só leram a parte em que ele se refere à pouca recetividade de outros membros do Governo à sua política, ou seja, a tal “falta de coesão” de que o Governo de Passos é acusado na carta, ou, terceira hipótese, mais plausível, sabem tudo, conhecem tudo, mas fazem de conta que a demissão do ex-ministro nada teve a ver com o fracasso das medidas.

A verdade, porém, é que Gaspar disse claramente que os resultados das suas medidas foram desastrosos. Numa passagem da sua carta, pouco antes do parágrafo em que nos introduz no delírio do investimento com ponto de exclamação, lê-se o seguinte:

“O incumprimento dos limites originais do programa para o défice e para a dívida, em 2012 e 2013, foi determinado por uma queda muito substancial na procura e por uma alteração na sua composição que provocaram uma forte queda nas receitas tributárias. A repetição destes desvios minou a minha credibilidade enquanto Ministro das Finanças.”

Depois refere o problema “muito grave” do nível de desemprego e a decisão de assumir as suas responsabilidades – passando-as para outros.

A carta é, obviamente, contraditória, porque ao mesmo tempo que fala na impossibilidade de impor um determinado programa por falta de apoio (e de liderança) do Governo (e do Tribunal Constitucional e das pessoas que protestaram contra a TSU, etc.), fala também na evolução inesperada, por outras palavras, no agravamento da situação, que minou a sua credibilidade. Em suma, no fracasso.

Afinal queria o apoio para quê? Para continuar a falhar? Para continuar a experimentar? Para passarem uma esponja sobre tudo o que fizeram e voltarem-se para o investimento? Com a sua cara e o seu passado? Mas seria isso que a Troika queria, afinal? Céus, esta gente é mesmo débil e a carta tradu-lo bem. Uma mísera carta e uma confusão imensa apenas para não confessar uma panóplia de erros, seus e de outros.

Mas voltando ao que me traz aqui, estranha-se que a Troika, em vez de reconhecer que a receita não estava a funcionar, sendo por isso que o ministro foi à vida e sendo também por isso que nos estamos a aproximar da Grécia – e até sentir alívio por ter outros interlocutores e um bom pretexto para rever a dureza do programa, venha dizer agora que lamenta a saída de Vítor Gaspar, o lacaio cumpridor que incumpriu tudo o que pôde. Como considerar garante de uma certa política um homem que saiu descredibilizado pelos resultados dessa mesma política? Serão cegos? Não me parece. A hipocrisia desta gente é que não tem limites. A dúvida está apenas em saber se são sádicos e entendem, esfregando as mãos, que ainda há muito mais por destruir ou se simplesmente não querem perder a face e mantêm um discurso duro para guardar as aparências. Inclino-me mais para a primeira hipótese.

Enquanto houver Crato, não haverá inglês na primária pública. Ponto final.

Era intenção de Nuno Crato acabar mesmo com as aulas de inglês no primeiro ciclo, nas escolas públicas. Só perante a chuva de críticas, não só dos seus opositores partidários, como também de membros do PSD, decidiu congeminar uma saída airosa para a asneira anunciada. Assim, protagonizando uma das mais extravagantes fugas para a frente da sua carreira, anunciou que o inglês passaria, isso sim, a fazer parte do programa curricular do primário, embora sem dizer quando e, para o como, pediu ao Conselho Nacional de Educação, um órgão consultivo, para pensar no assunto e nas modalidades práticas (o que não exclui que, bem instruídos, os membros do CNE não apresentem uma análise que desaconselhe a aprendizagem de uma segunda língua tão cedo; tudo é possível). Quer isto dizer que jamais tinha passado pela cachimónia de Crato fazer da língua inglesa uma disciplina curricular nos primeiros anos de ensino, e possivelmente continua a não passar. Não terá, pois, qualquer pressa em implementar tal medida. Os alunos e os pais entretanto habituam-se. Portugal não sobreviveu tantos anos sem inglês? O Conselho Nacional pode tranquilamente entrar num processo de meditação prolongada, que ninguém lhe pedirá contas, muito menos resultados (que possivelmente nem está habilitado a produzir). Coincidência ou não, há dias ouvi o mesmo ministro dizer que os primeiros anos são para aprender a língua materna. É verdade. Mas há muitas maneiras, todas elas adaptadas à idade e aos conhecimentos dos alunos, de irem tomando contacto com aquela que é já hoje a língua universal, indispensável para o futuro de qualquer criança.

E assim vamos de farsas no que toca à educação. As declarações de Crato foram vendidas e, mais importante, compradas como positivas. Nas televisões, os jornalistas contrapõem sistematicamente a quem critica o ministro que “ele prometeu que passaria a ser disciplina curricular”, sem minimamente referirem a enorme e abstrusa pirueta do ministro, prova, para quem esteja atento, de que tamanha ideia nunca atravessara o mais pequeno dos seus neurónios. Pelo contrário. Era uma fonte de poupança ideal. Sobretudo se eleita à sorrelfa. Entretanto, teremos miúdos mais bem preparados do que outros para os mesmos desafios. Até quando, ninguém sabe. E o próprio nem se interessa.

Mija

sofia galvão

No final do percurso, Passos Coelho encontrou outra mulher, que lhe manifestou apoio, dizendo-lhe “vamos para a frente”, e a quem respondeu: “Sabe como se diz na minha terra, não é? Para trás mija a burra. Sempre para a frente”.

Há uns dias, apanhei por mero acaso um debate na TVI24 entre Sofia Galvão (em cima), Fátima Bonifácio, Carvalho da Silva e Pedro Lains. Às tantas, e reagindo à exposição de Sofia Galvão – a advogada passista que invocou no ano passado a regra de Chatham House para tornar opaco um debate sobre a reforma do Estado, onde se poderiam revelar intenções inaceitáveis – Carvalho da Silva classificou de paleio o discurso do Governo sobre a melhoria da situação económica e sobre a nossa vida passada, alegadamente vivida acima das nossas possibilidades. Paleio, reparem. Vi Sofia Galvão indignar-se, por trás dos óculos que lhe acorujam os olhos, com o tipo de linguagem utilizada por Carvalho da Silva, a qual seria imprópria e impeditiva de qualquer debate sério, ali mesmo lhe passando um raspanete. Vá-se lá saber porquê, esta mulher tem-se em alta conta e está convencida de que frequenta algum tipo de aristocracia. Mas o pobre do “paleio” até parece uma palavra poética perante o verdadeiro basismo linguístico do amigo primeiro-ministro de Dona Sofia Galvão. Aguardo, pois, os comentários indignados da gente que constitui a casta finérrima desta advogada e especialista em Direito do Urbanismo, ou da própria, às expressões boçais amiúde utilizadas em público por Coelho, nomeadamente na Assembleia da República.

Sobre Fátima Bonifácio, a avaliar pela direção do cabelo, suponho que a própria se deve arrepiar com a lenga-lenga insana que repete, aprendida certamente nos discursos de Angela Merkel.

Estabilidade política

A excelente desmontagem que o Câmara Corporativa aqui faz do processo de apropriação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) pela pandilha do pote prova bem o talento particular que os membros deste executivo mostram para irem alimentando a fogueira da indignação que constantemente os chamusca e em que acabarão por arder. Mas, gente, o que ouvimos é que o país não pode suportar mais instabilidade política! Infelizmente, estamos inocentes.

Esqueçamos a TSU e o que provocou. A ministra das Finanças nunca devia ter tomado posse, mas tomou, e nunca devia ter obedecido às instruções de lançar mão dos swaps para os atirar ao governo anterior. Mas obedeceu. Sem pensar. Além da sua fragilidade técnico-política, assinou praticamente a sua sentença de morte, precedida de um auto-provocado mas merecido calvário, ao enveredar por um caminho que forçosamente a levaria a mentir repetidamente no Parlamento. Pedir a sua demissão é até demasiado polido.

Rui Machete já por duas vezes reconheceu que mentiu, estando sempre à espera de escapar às críticas e para isso desaparecendo longas temporadas dos radares. Está protegido 1) por um primeiro-ministro que, desde que surgiu na cena política, nunca parou de mentir e/ou proteger mentirosos, pelo que devia ser o primeiro a ir embora e 2) por um presidente da República que partilhou com ele – Machete – a negociata da compra e venda de ações da SLN sem que se sentisse sequer beliscado. E ainda há quem diga mal da Constituição. Machete nunca devia ter sido escolhido para ministro. Mas foi. Exigir a sua demissão é criar instabilidade política? Não a exigir é aceitar que se conspurque a democracia.

De Relvas e Portas – o demagogo – nem vale a pena falar. Maduro dedica-se à propaganda aldrabona com roupagens universitárias – tendo sido mandado calar por Marcelo, ordem a que, pelos vistos, obedeceu – e agora Marco António tornou-se o caceteiro-mor e lançador de poeira para os mais desprevenidos. Um provocador, portanto. Quer este senhor, queixando-se das incoerências do FMI, apagar da memória coletiva as declarações do seu amigo Coelho no início do mandato – que não considerava uma cruz o programa da Troika e que, na realidade, esse seria de qualquer modo o seu programa. Ele agita, mas não quer instabilidade política. Tenho a certeza.

Finalmente, Nuno Crato. A coberto da falta de dinheiro vai colocando a escola pública sob uma pressão tal que já ninguém tem dúvidas de que a quer destruir e entretanto desacreditar, para finalmente nos apresentar um dia destes um estudo que demonstra como as escolas privadas são dez vezes mais eficazes do que as públicas. Não interessa o verdadeiro porquê. Em nome da liberdade, nunca nada as impedirá de selecionarem os alunos. A consagração de uma casta de privilegiados parece ser o seu objetivo, porque a sociedade é assim mesmo e quem é pobre é burro. Mas enfim, conhecendo nós os votantes do PSD, é bem possível que, apresentando as coisas ao eleitorado neste estilo totalmente salazarento, haja quem o queira a governar. Uma peninha que, a par dessa enorme qualidade de contra-civilizacionário, também não escape à sede de pote que esteve na origem da nossa desgraça recente. O episódio relatado pelo Miguel Abrantes mostra como em má hora decidiu entrar para a política e como teria feito melhor em manter uma certa aura de cientista, ou pelo menos de divulgador científico, que nem lhe assentava mal. É escandalosa a forma como até a FCT está a querer abastardar. Aposto que dirá que é em nome da qualidade! Como é possível?

Tenho noção de que estou a contribuir para a instabilidade política, não é?

Dissolução da Zona Euro. Acordem os detalhes depressa

Um documento de trabalho do banco central polaco propõe a dissolução da Zona Euro

Working papers do not reflect the views of monetary policy committees of central banks, but central banks usually make sure that the papers are not openly contradicting their own message. We are just wondering what the purpose is behind this paper by Stefan Kawalec and Ernest Pytlarczyk, entitled: Controlled dismantlement of the Eurozone, A proposal for a New European Monetary System and a new role for the European Central Bank. The authors are a former deputy finance minister and a chief economist of Commerzbank subsidiary. They argue the eurozone was now threatening the EU, as it is unrealistic to believe that the current austerity policies are likely to work. Defending the euro at all costs may lead to political collapse, and a disorderly breakup. Their proposed alternative is for the euro to remain the currency of the least competitive countries, with the strong countries to leave first – to be followed by a new system of currency co-ordination.

Fonte

Grande óbice: Com o que está a ganhar à custa da desgraça dos outros, a Alemanha não pode estar interessada.

Simpatizamos com Olivier Blanchard, mas o seu papel no FMI é intrigante

Para que servem os relatórios da equipa do economista-chefe do FMI?

Diz-nos hoje o Público que:

Num relatório ontem tornado público, uma equipa de técnicos do Fundo Monetário Internacional, liderada pelo economista-chefe Olivier Blanchard, faz um novo e mais completo mea culpa sobre as políticas orçamentais defendidas pela instituição desde o início da crise financeira de 2008.

Como sabemos, já não é a primeira vez que nos chegam relatórios deste teor, elaborados pela mesma equipa, e que estão normalmente em contradição com a política defendida e imposta pela cúpula do FMI.

No editorial, o Público faz depois uma breve síntese de três das contradições do FMI quanto à política de austeridade seguida e chama “cata-vento” à instituição.

1) Efeitos positivos de confiança podem ter um papel positivo face às adversidades dos cortes na despesa; os efeitos de confiança não são importantes. 2) Uma consolidação orçamental rápida é o meio mais eficaz para restaurar a saúde das finanças públicas; pelo contrário, esta via pode mesmo ser autodestrutiva. 3) A consolidação à base da despesa é a mais sustentável; pelo contrário, ela tende a aumentar as desigualdades e a ameaçar o crescimento. Não são partidos em debate aceso a dizer isto, é uma mesma instituição que diz uma coisa e quase o seu contrário em momentos diferentes. E o mais grave é que essa instituição é o Fundo Monetário Internacional (FMI), membro da troika que, de novo, agora nos visita. Será o FMI, por uma vez, capaz de se entender quanto ao que, na verdade, deve ser feito no caso da dívida soberana portuguesa? Ou deve Portugal resignar-se a ser uma dócil cobaia neste inacreditável catavento de soluções?

O relatório da equipa de Olivier Blanchard fala na necessidade de “limites de velocidade” para os programas de austeridade. Mas o economista-chefe do FMI não parece ter grande influência nas políticas do organismo onde trabalha, o qual disse e continua a dizer que a austeridade é para continuar e as metas são para cumprir. Caberá então perguntar por que razão não se demite, uma vez que as suas análises parecem ir parar sistematicamente ao cesto dos papéis.

Mas também é estranho constatar que, apesar de parecer torpedear tudo o que diz Christine Lagarde, não é demitido. Afinal, pagam-lhe para quê? Para fazer com que os países em dificuldades se sintam gozados?

Mas admitamos que, desta vez, Christine Lagarde concorda com a análise do seu economista-chefe e lhe pretende dar seguimento prático. Não seria melhor o FMI assumir a sua divergência em relação à Comissão (leia-se Alemanha) e ao BCE e seguir uma via de relacionamento com os países em causa independente, mais coerente com o que pensa? Ou não?

Entretanto, há pelo menos dez milhões de pessoas vítimas de experiências, mesmo estando os credores alertados por muita e informada gente para as consequências e os maus resultados das mesmas. Ninguém é responsabilizado?

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ADENDA:

Não posso deixar de assinalar o ridículo que é ver Marco António Costa a acusar o FMI de hipocrisia institucional, lamentando a sua inflexibilidade, quando sabemos que o governo do qual fez parte declarou identificar-se plenamente com o programa de austeridade da Troika (e portanto, do FMI), dispondo-se mesmo a ir mais longe…

O porta-voz do PSD, Marco António Costa, acusou hoje o Fundo Monetário Internacional (FMI) de “hipocrisia institucional”, alegando que esta instituição faz “proclamações muito piedosas em relatórios”, mas tem sido “inflexível” nas negociações.

Mentir, omitir e falar que é uma tristeza

Dirigindo-se aos dirigentes e apoiantes do PSD presentes no claustro da Pousada de Viseu, Passos Coelho interrogou: “Se vos fosse dado a escolher contrair dívida em 2011, em 2010, em 2009, em 2008, em 2000, em 99 – que foi quando esta dívida pública foi gerada, foi nestes últimos quinze anos -, se vos fosse dado a escolher a cada um ‘querem em 2013 pagar quase oito mil milhões de euros de juros de dívida’, os senhores tinham dito ‘queremos’?”.
“Alguém aqui teria dito, ‘com certeza, eu não me importo de prescindir de saúde, de educação, de segurança social, e prefiro pagar juros da dívida que vamos contraindo’? Alguém teria dito isso? Com certeza que não”, prosseguiu

O que se terá passado em 2008, 2009 e 2010 para que, sendo o governo o mesmo de 2005, 2006 e 2007, a dívida tenha aumentado? Ou, nas palavras desta espécie de primeiro-ministro, “tenha sido escolhido contrair dívida”? Conta aí, ó Passos. Que escolha foi essa? E depois conta aos outros. Não sejas egoísta, nem vigarista.

Este é um exemplo de como o PSD fala para ignorantes ou pulhas, pois não consta que alguém tenha saído da sala. Outro exemplo: Passos omite os anos de 2011, 2012 e 2013 das suas contas, justamente aqueles em que a dívida pública mais aumentou, por coincidência sob a sua responsabilidade. Omite as consequências dos buracos que as suas políticas radicais abriram e que, esses sim, estão a destruir o que resta de serviços públicos de saúde e educação e de poder de compra de milhões de portugueses. E com a agravante de tal ser propositado. Ser cínico, hipócrita e falar para simplórios é isto.

Canzoada

A direita adora que Seguro continue a liderar o PS. É ver os comentários e as “notícias” de alguns jornalistas a dar conta de que Seguro está a ser encostado à parede, de que António Costa está só com um pé na Câmara e, finalmente – haja alguém pequeno mas com coragem – de que tudo isto é um plano urdido por Sócrates. Por quem mais, ó gente? Pois não salta à vista de todos que Seguro é uma pessoa cheia de sentido de oportunidade política, carisma, acutilância, ideias? Como é que há malvados que pensam sequer em identificar-lhe os defeitos e as responsabilidades? Não é, ó Marques Mendes? Ó Marco António Costa? Ó Marcelo?

Ainda ontem, Marques Mendes, um dos muitos crânios com que o PSD se apresenta aos portugueses:

«O ex-líder do PSD afirmou na SIC que José Sócrates está a tentar “lançar uma OPA sobre o PS de Seguro” “através de António Costa”

Há gente no PSD que transfere os enredos medíocres das telenovelas portuguesas para a política. Vi uma única vez, e apenas durante dez minutos, este programa de comentário de Marques Mendes. Bastou: indigente demais para os meus ouvidos. Coscuvilhice patética e por vezes até em surdina, como entre velhinhas pudicas. Até já nos cafés e tascas se ouvem conversas mais inteligentes de gente com bem menos formação. Estes pobres de espírito, que se acreditam mesmo indignados com o que estão a dizer e pretendem indignar os outros, são a guarda avançada da estratégia da direita, que consiste em lançar poeira e intriga para a praça pública para melhor prosseguirem os seus intentos. E está à vista que o seu intento neste caso particular é segurar o Tozé.

Se a realidade fosse assim simples como javarda é a forma de fazer política do PSD, que catástrofe estaria então à espera de acontecer para os portugueses se Seguro fosse substituído caso obtivesse maus resultados nas autárquicas com as escolhas que fez? Ui. E de novo ui! Mas seria sem dúvida uma tragédia para os vermes do PSD. Daí a pressa em transformar o líder do PS em vítima de outros. Sobretudo do Outro. Porque dele próprio não convém. Dá-lhes tanto jeito.

Terrorismo de Estado e terrorismo externo – devemos chamar os russos?

Com mentiras e vozes melodiosas, o atual governo tem levado a cabo das medidas mais violentas da nossa história recente. A redução brusca de salários e pensões tem sido dura de aceitar. Com mangueiradas sucessivas e gases lacrimogéneos, enxotaram-se já dezenas de milhares de pessoas – as mais jovens e mais capazes, não dispostas a perder a dignidade. Os que ficam são amiúde brindados com bombas de mau cheiro, lançadas da boca de Passos e de Maduro. O afogadilho com que se implementaram tais medidas tornou a nossa situação económica ainda pior e aquilo a que agora assistimos, ou seja, mais violência sobre os funcionários públicos, não é mais do que uma tentativa para tapar os buracos abertos pelo fanatismo. Por este andar, a missão não estará nunca terminada. Escrevem-se páginas de terror atualmente. Salários e pensões de miséria e a promessa de uma sociedade cada vez mais desigual – cortesia de Nuno Crato.

Na reabertura do ano político, recomeça a conversa da Troika que não vai deixar não sei o quê, que exige, que ameaça e por aí fora. O medo, em suma. Até termos um governo que defenda claramente o nosso interesse e o nosso nível de vida europeu, e que seja visto como tal, é impossível destrinçar o que nasce na cabeça destes liberais desapiedados e ignorantes e na cabeça da chamada Troika. Sabemos hoje que ambos são mentirosos e trabalham em conluio – encomendam relatórios e estudos mutuamente para justificarem a receita cozinhada. Não tenho a menor dúvida de que tudo farão para ganhar as eleições de 2015 e que, atendendo ao estado catatónico do povo, são bem capazes de o conseguir. E tenho a certeza de que a estratégia para lá chegarem passa pelos elogios a Seguro, que entretanto adormeceu e ao mesmo tempo bloqueou o partido. Assim, seria até do interesse do PSD não ganhar as autárquicas. Pior é impossível.

Out of Syria

A frutaria por onde passo todos os domingos é de um sírio. Antes de eu ir de férias, já o pobre homem – menos de cinquenta anos, baixo e magro, pacífico, simpático, mas com determinação suficiente para enxotar da loja radicais prosélitos – não descolava os olhos da televisão para acompanhar a par e passo o que se passava no seu país, suponho que através da Al Jazeera ou da Al Arabiya (a televisão não está virada para o cliente). Durante anos num vaivém constante e despreocupado entre a secção pública e privada da loja (a família mora por cima), passou a ser difícil, a partir de certa altura, para quem entrava, descobri-lo. Apesar de arrumada, a loja dir-se-ia abandonada, não fora o som do que parecia ser um rádio (afinal era mais do que isso). Quem entra é agora obrigado a anunciar-se ou a perguntar se há alguém. Só então a figurinha emerge detrás do balcão, onde passa horas sentado a olhar ansiosa e amarguradamente para o ecrã.
Dantes, muitas vezes lhe perguntei se ia à Síria no verão. Algumas vezes respondeu que sim. Mas isso foi há muito tempo. Ultimamente a resposta mais do que pronta é : “Oh, não, não. E onde? A minha terra já nem existe.”

Voltei lá ontem. Escondido, como já me esquecera.
– “Ah, está aí. A Síria? Aquilo está mal, não é?”
– “Os americanos. Vão atacar! Está quase!”. Ainda ofegante da ginástica, eu própria me vi bruscamente obrigada a regressar a este mundo. Os americanos, claro! Mas estava o homem revoltado? Absolutamente não. O tom denotava temor e respeito. Mas não revolta.
– “Mas já não se estavam a matar uns aos outros?”, perguntei. “Como acabar com aquela desgraça? Não será melhor pararem (mesmo forçados) e negociarem?”

Foi então que reparei numa chama na ponta do balcão. “Ah, uma vela! E grande!” Entre o angustiado e o envergonhado, lá me disse (desconfia que não ligo muito a deuses): “Sabe o que é? É para o nosso deus. É para ver se nos ajuda.” E sorriu inquieto, deitando novo olhar ao ecrã, mas sem dúvida muito crente no seu gesto. Que mais fazer? Era o seu país. Aquele que, como me confirmou, já não existe. A Síria de há 40 anos acabou.

Historicamente, nada há de novo nesse facto. A Síria já encolheu e esticou tantas vezes quantas foi possível e já mudou de mãos outras tantas. Mas há e haverá sempre sírios. E Síria. Com as fronteiras ali, mais ao lado ou mais para baixo. E existe a nostalgia da Síria na cabeça dos emigrantes. E na nossa (ler o hilariante “Na Síria”, de Agatha Christie).

Este homem tem a noção de que nada ficará na mesma quando terminar esta guerra. A aldeia que já não existe possivelmente renascerá com nova gerência. A ele resta-lhe acompanhar, de longe.

Mas o curioso é que, apesar dos combates já irem ferozes há muito tempo e as vítimas serem já quase incontáveis, só agora entendeu que merecia ser acendida uma vela.

“Agora é a sério”, dirão certamente muitos e pensará ele também. A sério, pois é.

Ocorreu-me que a noção de um polícia do mundo não tem tantos anticorpos como se pensa. Parece, para muitos, uma inevitabilidade e uma necessidade. Para os árabes da rua, não sei se a ideia de que existe alguém capaz de castigar neste mundo (e ao mesmo tempo um grande inimigo, um infiel) não se enquadrará na sua ordem de valores. Para os instigadores mais acima na hierarquia, ter um inimigo é uma glória. É a forma como concebem a vida. Não é para não os desiludir que Obama atacará, evidentemente. Mas percebo-o. Seria melhor não fazer nada? Ou sequer não dizer nada?

Portas e Maria Luís – a viajar para se conhecerem melhor

O recente périplo dos dois ministros por Bruxelas, Frankfurt e Washington tinha por objetivo, segundo nos informaram, uma negociação com os verdadeiros responsáveis políticos da Troika das condições do nosso “ajustamento” (antes da chegada dos chamados técnicos). A menos que em Washington tudo mude (?), não terá passado afinal de uma visita de estudo ou, permito-me imaginar, de uma conversação a dois em novo e sempre agradável cenário, e isso na melhor das hipóteses, pois nada garante que tenham rompido o bloqueio mútuo. Como nos lembramos, Maria Luís era até há pouco tempo uma escolha de Passos Coelho inaceitável para Portas.

E por Portugal, que andam os dois a fazer? Segundo o jornal Público, com base em informações dos gabinetes de Barroso e de Olli Rehn, nenhuma alternativa de cortes na despesa ou proposta de revisão da meta do défice foi apresentada pelos dois governantes. Nem o mínimo sinal de vontade de negociar ou flexibilizar seja o que for. Donde se conclui que a viagem não passou de uma forma agradável de sanar um conflito, sob a capa de uma muito séria renegociação do nosso último memorando (ou “flexibilização dos termos do programa”), uma grande ambição de Portas (que se dizia crítico de Gaspar), ao qual nunca faltou e continua a não faltar garganta.

Eis o que diz o Público (sem link):

[…]Bruxelas, que tem acompanhado o debate interno e no interior do Governo sobre o ritmo do ajustamento económico e financeiro, aguardava com expectativa a primeira visita de Portas no seu novo cargo que inclui as relações com a troika, devido sobretudo ao tom crítico que tem utilizado sobre as exigências do programa.
De acordo com o que o PÚBLICO apurou, no entanto, o vice-primeiro-ministro não avançou de forma concreta em Bruxelas com nenhuma das reivindicações que tem vindo a fazer em termos de flexibilização dos termos do programa, a começar pela meta de 4% do PIB fixada para o défice orçamental de 2014.
As alternativas que poderão vir a ser contempladas pelo Governo para substituir as medidas de redução de despesas públicas que foram chumbadas pelo Tribunal Constitucional também não foram abordadas em detalhe nos encontros de terça-feira de Portas e Albuquerque com Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, e Olli Rehn, comissário europeu responsável pelos assuntos económicos e financeiros.[…]

Planeta terá aquecido 2 graus só no último mês

Digo eu. Tal a azáfama diplomática e correrias intercontinentais que estão a ter lugar a propósito da Síria. Desde a China e a Austrália até aos Estados Unidos, passando pelo Irão, Israel, Arábia Saudita, Rússia, Turquia, França e Reino Unido. Sem contar a que decorre a propósito do Egito (e do Afeganistão). Mais a atividade frenética dos serviços secretos respetivos e o tráfico de armas.

E que diz Putin agora, senhores? «La Russie “prête à agir” si les preuves sont “convaincantes”». Aguardam-se os próximos capítulos. Obama fará tudo para não perder a face. Envolver a Rússia seria uma maneira. Resta saber a que preço.

“Question time” à portuguesa

Há na BBC um programa semanal em que cidadãos fazem presencialmente perguntas a um político ou personalidade ligada aos Media. Chama-se “Question Time“. Não questiono o modo de seleção dos cidadãos que fazem as perguntas, que me parece muito razoável (ver aqui convite à participação), basta ver os programas, assim como não vou questionar o modo como será feita essa seleção em Portugal. Carlos Daniel, que será o moderador de um programa do mesmo tipo que a RTP1 porá no ar brevemente, parece-me um jornalista suficientemente isento para poder liderar tal processo. A ideia é, portanto, de louvar.

A minha perplexidade é a seguinte: então um programa que, ao contrário do inglês, e em total absurdo, irá para o ar apenas duas ou três vezes por ano começa precisamente antes de umas eleições autárquicas e com o primeiro-ministro? Não podia esperar por outubro porquê?

“Homo piropensis” – espécie em vias de extinção. Devia ser preservada

Há reservas de aprovação que não convém extinguir. Não desgosto de piropos. Há mesmo alturas na vida em que são uma bênção dos céus. Ainda que alguns surjam apenas de andaimes… Mas nem todos. Nesta inusitada polémica (Júlio, estou contigo), entro tarde e apenas e tão só para agradecer a todos aqueles que algum dia me acharam ou acharem boa (interpretação livre da palavra) e merecedora de delícias mil. O meu muito e muito obrigada. Não que tivesse dúvidas, mas o mundo é injusto, como todos sabemos. Não é o caso do “homo piropensis“: é de uma justiça infalível. Pelo menos ele! Depois, como não render-me a quem se mostra assim indiferente à minha alma traiçoeira, negra de ruindade ou simplesmente absorta, lembrando-me o que sou bem capaz de ser? Para eles vai então o meu sorriso, ainda que disfarçado. Ou um piropo também. Se valer a pena.

António Barreto, o consenso é este: há muito que o senhor não diz nada de jeito

António Barreto foi à Universidade de Verão do PSD falar ao gosto da plateia. Ou assim pareceu. Ou assim queria. Pelo menos nos conceitos ou temas invocados: consenso e falta dele, PPP, swaps, etc. Tudo palavras gradas ao atual PSD, que decidiu utilizá-las recentemente como armas de arremesso. Remetendo para uma hipotética idade de ouro em que teria havido consenso em Portugal, Barreto escamoteia as circunstâncias da nossa recém-nascida democracia, o que é inadmissível num sociólogo. Além disso, afirmar que a sustentabilidade da democracia está em causa por não haver consenso é uma contradição nos seus termos.

Entretanto, para não assumir um discurso inteiramente passista (que os tempos não vão de feição para aldrabões), deixa no ar e não deixa (ver em baixo o extraordinário aparte “retirem a parte moral disto”) a ideia de escândalos, corrupções e promiscuidades, sem nunca especificar ou minimamente aprofundar, ao mesmo tempo que reconhece que Portugal progrediu muito nos últimos 20 anos. Um malabarista, também nessa arte com pouco talento, pois lançando ao ar bolas tão douradas e cintilantes, frustra em vez de deslumbrar a assistência – a direta lá presente e a indireta. Uma tangerina seca, este senhor. Nem a laranja ousa alçar-se.

Basta ouvir um qualquer debate parlamentar, basta ouvir qualquer “diálogo” entre oposição e situação, oposição e o Governo e nós percebemos que o consenso está quebrado e percebe-se que não há maneira de conseguir um novo consenso, disse hoje durante a Universidade de Verão do PSD, que está a decorrer desde segunda-feira, em Castelo de Vide (Portalegre).

“A democracia portuguesa viveu graças a três ou quatro grandes fatores, vamos-lhe chamar os pilares da democracia, um deles foi um certo e relativo consenso político entre dois grandes partidos e mais um ou dois pequenos e fez-se uma Constituição”, recordou durante a iniciativa em que deu uma aula sobre “Um Retrato de Portugal”.

O sociólogo defendeu ainda que “vai ser difícil” o entendimento entre o mundo da política, do negócio e da economia, aliança que durou vários anos e que foi quebrada por causa da crise financeira.

“Já não é possível fazer negócios como há dez anos, autoestradas como há dez anos, já não é possível fazer ‘swaps’ como há dez ou há cinco anos, já não é possível fazer PPP [Parcerias Público-Privadas] como há 10 anos ou há 15, ou há 8 anos ou há seis anos”, disse.

Estes fenómenos, – que parecem fenómenos de banditismo, corrupção, promiscuidade, chamem-lhe o que quiserem, retirem agora a parte moral disto […]

O sociólogo, que fez um balanço “positivo” sobre o desenvolvimento de Portugal nas últimas década, sublinhou ainda que “o alegre viver” que durou “20 anos” entre o negócio e a política “está em causa”.[…]

[…] Ainda agora uma parte da responsabilidade do que se passa com estes sistemas eleitorais, as candidaturas e elegibilidades, está evidente uma parte de responsabilidade política, pura e simples, mas também da responsabilidade judicial”, declarou.

Responsabilidade judicial??

Machete e o teste da mentira

Parece que, com este governo, quem é convidado a dele fazer parte deve passar, bem cedo e com distinção, um teste da mentira. Seria bom, mas infelizmente não há recurso a qualquer polígrafo. O teste consiste em provar publicamente que se é tão bom ou melhor a mentir quanto os restantes membros do Executivo. Suponho que depois da aprovação no exame se abrem garrafas de champanhe no Conselho de Ministros.

A lista de casos já vai longa: começa no primeiro-ministro, que pressupôs (e acertou) que o povo português apreciava quem dominava a arte; Relvas, um exímio; Gaspar, um talento escondido e rebuscado; Maria Luís, quem diria, nasceu politicamente a mentir; Poiares Maduro aprendeu num ápice, nem nos dando tempo de conhecer a sua outra “persona”, dizem que de académico sério e incapaz de falsidades; Pais Jorge tentou, mas todos vimos como chumbou; muitos outros membros do Governo inventam realidades todos os dias, ecoadas pelos fiéis comentadores políticos de direita, cujo discurso deveria revolver as entranhas de qualquer cristão inteligente. Mas nada é menos certo. Estas pessoas são a cola do clube dos aldrabões, pelos vistos não condenado.

Hoje apresenta-se à prova Rui Machete. Em comunicado, e depois de se saber que as ações da SLN adquiridas em nome da FLAD, enquanto era seu presidente, tinham sido pagas a um preço bem superior (2,2 euros) ao que ele próprio pagara a título pessoal (1 euro – ele mesmo o declarou à comunicação social), vem agora dizer que foram afinal compradas também a 2,2 euros. Sendo agora Ministro dos Negócios Estrangeiros, foi ingénuo e desprevenido ou está simplesmente xexé, dada a importância do caso? Onde está a verdade? Haverá champanhe?
Este “equívoco”, como lhe chama, e que demorou algumas semanas a descobrir, é duvidoso e difícil de compreender. Se tem documentos, que os mostre. Mas isto que não sirva para ocultar os anos em que presidiu ao conselho superior da SLN sem se ter apercebido minimamente do que lá se passava. Nem todos os portugueses são ou querem ser como o PPD.

“Só duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, mas não estou seguro sobre o primeiro” – Albert Einstein

Também nós estamos absolutamente seguros do segundo, no que toca aos humanos do PSD. O PSD entrou num estado tal que seria de todo aconselhável parar e pedir ajuda, sob pena de isto acabar num suicídio coletivo. Em 2005, havia bancos, entre os quais o Citibank, a tentar vender produtos derivados a governos e empresas públicas, alguns deles com grande benefício para o banco e altos riscos para as contas do Estado. Numa dessas investidas, realizaram-se reuniões com os assessores do primeiro-ministro José Sócrates. Que fizeram estes? Disseram que iam pensar (deliberação consignada na expressão “Visto. Com interesse”) e remeteram para o superior hierárquico mais próximo, o qual pediu parecer ao IGCP. Este instituto, que, por definição, gere a dívida pública, analisou a proposta em pormenor e decidiu-se pela negativa. O “swap” não foi aceite.

O que haverá de anómalo nestes procedimentos? Nada. O que há, e já o sabíamos, é um desconhecimento total por parte do PSD da estrutura da governação e do processo decisional.

Vir agora dizer estes disparates é a prova provada da total horda de garotos, desesperados, tontos e enraivecidos, que tomou conta do país.

O PS devia responder com imaginação e… piedade. O caso é patológico.

Falar mal, pensar pior

Fernando Seara, candidato expectante à Câmara de Lisboa, dá hoje uma entrevista ao Público. Não serei eu a exigir aqui que a linguagem utilizada numa conversa oral não enferme de qualquer erro ou incongruência semântica ou gramatical. No entanto, há limites quando a dificuldade de expressão resulta em respostas ilógicas, quando se traduz em frases paupérrimas ou, um pouco mais grave, quando é acompanhada por uma dificuldade de compreensão. Vejamos este excerto da entrevista:

Mas esta é uma lei de limitação de mandatos autárquicos. O espírito do legislador não era evitar mais de 12 anos?

Não conheço o espírito do legislador, porque eu, na altura, estava na direcção política do PSD e, portanto… Um dos meus poemas nos últimos tempos nessa matéria é “tenho um conjunto de pessoas que não tomam fosgluten”, que é aquele medicamento para a memória.

Está a referir-se a quem?

Estou a referir-me ao medicamento para a memória. A lei resultou de uma proposta originária do PS para a limitação de mandatos na Região Autónoma da Madeira[…]

[…]Acho estranho que a limitação territorial só seja situada ao nível da impugnabilidade nas câmaras e não seja nas freguesias. Acho estranho que o BE, e particularmente o deputado João Semedo, sempre dentro da busca da lei, admita que haja foragidos da lei nas freguesias. Acho estranho essa incoerência do BE.

De que foragidos da lei é que está a falar?

Estou a falar de situações similares à nossa, àqueles que são atingidos por essa situação do BE. Apenas focalizar nos titulares autárquicos dos municípios e não das freguesias. Acho estranho, principalmente para um partido que todas as semanas proclama a igualdade. Sabe uma coisa? O BE já pertence em parte ao clube da República, porque quer apenas perturbar na secretaria alguns, não tem a busca de todos,[…]

Fonte: Público (sem link)

Depois de um Relvas que mal articulava duas frases com mais de cinco palavras; de um primeiro-ministro que, em declarações não preparadas e por vezes nas preparadas, utiliza uma linguagem imprópria do cargo que ocupa; depois de um Marco António Costa que embrulha verbos em papel de adjetivo e aldraba como vendedor de feira, perdendo amiúde a ligação à Terra e transformando o diálogo numa conversa de surdos, só posso aconselhar o PSD a dedicar a próxima universidade de Verão a cursos intensivos de língua e literatura portuguesas. Seria um primeiro passo para uma maior sofisticação do pensamento.