Simpatizamos com Olivier Blanchard, mas o seu papel no FMI é intrigante

Para que servem os relatórios da equipa do economista-chefe do FMI?

Diz-nos hoje o Público que:

Num relatório ontem tornado público, uma equipa de técnicos do Fundo Monetário Internacional, liderada pelo economista-chefe Olivier Blanchard, faz um novo e mais completo mea culpa sobre as políticas orçamentais defendidas pela instituição desde o início da crise financeira de 2008.

Como sabemos, já não é a primeira vez que nos chegam relatórios deste teor, elaborados pela mesma equipa, e que estão normalmente em contradição com a política defendida e imposta pela cúpula do FMI.

No editorial, o Público faz depois uma breve síntese de três das contradições do FMI quanto à política de austeridade seguida e chama “cata-vento” à instituição.

1) Efeitos positivos de confiança podem ter um papel positivo face às adversidades dos cortes na despesa; os efeitos de confiança não são importantes. 2) Uma consolidação orçamental rápida é o meio mais eficaz para restaurar a saúde das finanças públicas; pelo contrário, esta via pode mesmo ser autodestrutiva. 3) A consolidação à base da despesa é a mais sustentável; pelo contrário, ela tende a aumentar as desigualdades e a ameaçar o crescimento. Não são partidos em debate aceso a dizer isto, é uma mesma instituição que diz uma coisa e quase o seu contrário em momentos diferentes. E o mais grave é que essa instituição é o Fundo Monetário Internacional (FMI), membro da troika que, de novo, agora nos visita. Será o FMI, por uma vez, capaz de se entender quanto ao que, na verdade, deve ser feito no caso da dívida soberana portuguesa? Ou deve Portugal resignar-se a ser uma dócil cobaia neste inacreditável catavento de soluções?

O relatório da equipa de Olivier Blanchard fala na necessidade de “limites de velocidade” para os programas de austeridade. Mas o economista-chefe do FMI não parece ter grande influência nas políticas do organismo onde trabalha, o qual disse e continua a dizer que a austeridade é para continuar e as metas são para cumprir. Caberá então perguntar por que razão não se demite, uma vez que as suas análises parecem ir parar sistematicamente ao cesto dos papéis.

Mas também é estranho constatar que, apesar de parecer torpedear tudo o que diz Christine Lagarde, não é demitido. Afinal, pagam-lhe para quê? Para fazer com que os países em dificuldades se sintam gozados?

Mas admitamos que, desta vez, Christine Lagarde concorda com a análise do seu economista-chefe e lhe pretende dar seguimento prático. Não seria melhor o FMI assumir a sua divergência em relação à Comissão (leia-se Alemanha) e ao BCE e seguir uma via de relacionamento com os países em causa independente, mais coerente com o que pensa? Ou não?

Entretanto, há pelo menos dez milhões de pessoas vítimas de experiências, mesmo estando os credores alertados por muita e informada gente para as consequências e os maus resultados das mesmas. Ninguém é responsabilizado?

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ADENDA:

Não posso deixar de assinalar o ridículo que é ver Marco António Costa a acusar o FMI de hipocrisia institucional, lamentando a sua inflexibilidade, quando sabemos que o governo do qual fez parte declarou identificar-se plenamente com o programa de austeridade da Troika (e portanto, do FMI), dispondo-se mesmo a ir mais longe…

O porta-voz do PSD, Marco António Costa, acusou hoje o Fundo Monetário Internacional (FMI) de “hipocrisia institucional”, alegando que esta instituição faz “proclamações muito piedosas em relatórios”, mas tem sido “inflexível” nas negociações.

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