Não é cego o que não quer ver. É hipócrita e fanático

Com a nona avaliação da Troika a decorrer – ou o “nono exame regular” na formulação técnica, pausada e finalmente enjoativa de Vítor Gaspar -, lê-se no Público e ouve-se nas televisões que a saída do ex-ministro das Finanças do Governo deixou a Troika em pânico perante o risco de incumprimento do programa de resgate.

Leram bem, é mesmo isso que dizem. O programa estava a ser um sucesso e Vítor Gaspar era um génio.

“[…] Em Bruxelas, a frustração pelo que é visto como uma mudança de atitude do Governo desde a saída de Vítor Gaspar é imensa, de tal forma que não só Portugal passou a ser posto no mesmo saco que a Grécia, como passou mesmo a perder na comparação face às reformas realizadas por Atenas nos últimos 18 meses.” […]

[…] “Neste momento, Portugal não cumpre nenhuma das condições para obter um programa cautelar”, refere uma das fontes ouvidas.[…]

Ora, esta versão do que se vem passando desde há uns meses em Portugal só pode ter três explicações: ou na Europa não tiveram conhecimento da carta de demissão de Vítor Gaspar e ainda estão convencidos que o homem foi demitido, ou só leram a parte em que ele se refere à pouca recetividade de outros membros do Governo à sua política, ou seja, a tal “falta de coesão” de que o Governo de Passos é acusado na carta, ou, terceira hipótese, mais plausível, sabem tudo, conhecem tudo, mas fazem de conta que a demissão do ex-ministro nada teve a ver com o fracasso das medidas.

A verdade, porém, é que Gaspar disse claramente que os resultados das suas medidas foram desastrosos. Numa passagem da sua carta, pouco antes do parágrafo em que nos introduz no delírio do investimento com ponto de exclamação, lê-se o seguinte:

“O incumprimento dos limites originais do programa para o défice e para a dívida, em 2012 e 2013, foi determinado por uma queda muito substancial na procura e por uma alteração na sua composição que provocaram uma forte queda nas receitas tributárias. A repetição destes desvios minou a minha credibilidade enquanto Ministro das Finanças.”

Depois refere o problema “muito grave” do nível de desemprego e a decisão de assumir as suas responsabilidades – passando-as para outros.

A carta é, obviamente, contraditória, porque ao mesmo tempo que fala na impossibilidade de impor um determinado programa por falta de apoio (e de liderança) do Governo (e do Tribunal Constitucional e das pessoas que protestaram contra a TSU, etc.), fala também na evolução inesperada, por outras palavras, no agravamento da situação, que minou a sua credibilidade. Em suma, no fracasso.

Afinal queria o apoio para quê? Para continuar a falhar? Para continuar a experimentar? Para passarem uma esponja sobre tudo o que fizeram e voltarem-se para o investimento? Com a sua cara e o seu passado? Mas seria isso que a Troika queria, afinal? Céus, esta gente é mesmo débil e a carta tradu-lo bem. Uma mísera carta e uma confusão imensa apenas para não confessar uma panóplia de erros, seus e de outros.

Mas voltando ao que me traz aqui, estranha-se que a Troika, em vez de reconhecer que a receita não estava a funcionar, sendo por isso que o ministro foi à vida e sendo também por isso que nos estamos a aproximar da Grécia – e até sentir alívio por ter outros interlocutores e um bom pretexto para rever a dureza do programa, venha dizer agora que lamenta a saída de Vítor Gaspar, o lacaio cumpridor que incumpriu tudo o que pôde. Como considerar garante de uma certa política um homem que saiu descredibilizado pelos resultados dessa mesma política? Serão cegos? Não me parece. A hipocrisia desta gente é que não tem limites. A dúvida está apenas em saber se são sádicos e entendem, esfregando as mãos, que ainda há muito mais por destruir ou se simplesmente não querem perder a face e mantêm um discurso duro para guardar as aparências. Inclino-me mais para a primeira hipótese.

8 thoughts on “Não é cego o que não quer ver. É hipócrita e fanático”

  1. É o medo dos mercados.
    Não somos nós que devemos ter medo deles, é a Europa de Merkl que está aterrada com os mercados. Se Portugal volta a estar na baila , se há necessidade de segundo resgate significa que os mercados irão reagir penalizando-nos não só a nós mas a todo o euro.
    Parece que a banca alemã continua de saúde dúvidosa…
    Para se salvarem não hesitam em sacrificar o sul, mas de nada adiantará. Esta loucura colectiva que tomou conta dos politicos europeus não vai acabar nada bem.

  2. A questão foi clarificada pelo presidente do BCE o tal Draghi que, deixou claro
    haver, ainda, em Portugal uns anéis para vender, ao desbarato … não sei se,
    também estava a incluir o ouro depositado no BdP ???
    Há muito que se sabe ser a Alemanha a principal beneficiária com a chamada
    críse das dívidas soberanas, ganham em dois “carrinhos” poupam nos juros
    a pagar (no último ano mais de 40 mil milhões de euros) como, a sua banca
    comercial ganha nos empréstimos aos países em dificuldades, tapando os bu-
    racos criados pelas perdas da sub-prime em 2008 !!!

  3. …o ‘gato vadio’ bateu bem no ponto…hoje o que move a «troika» não é uma estratégia é antes uma navegação à vista à espreita dum qualquer milagre de ultima hora…lembra-me esta situação caricata em que a politica europeia se meteu um conto de Nabucov ‘uma questão de honra’…o que o conto retrata (apesar do titulo) é sobretudo de uma questão de desonra e da fé de todos os falhados nos milagres de última hora…ei-los nesse ponto sem retorno…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.