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Numa entrevista à TSF, na qual foi questionado sobre a aparente incapacidade de o principal partido da oposição descolar nas sondagens, Vitorino considerou “surpreendentes” algumas das críticas feitas à liderança socialista. “Porque, se olhar para o panorama europeu, o único Partido Socialista que está na oposição e que tem uma indicação de voto na ordem dos 37% é o PS português. O que se aproxima mais deste número é o Partido Trabalhista inglês, que tem 33%. Se olhar aqui para a vizinha Espanha, o PSOE tem 28% de indicações de voto. E o próprio SPD alemão, que acabou de disputar eleições, teve um resultado bastante medíocre de 26%, isto é, três pontos acima do que tinha tido nas anteriores eleições”, sustentou. O reparo do antigo responsável político surgiu um dia depois de o ex-Presidente ter dito, no lançamento de um livro que, “se o PS fosse um bocadinho mais activo, tinha 90%, com certeza”. Ainda assim, o ex-comissário europeu reconheceu que “o PS, neste momento, não é ainda a alternativa que pudesse motivar uma alteração radical do panorama político português”.
[…] E deixa um aviso que é dirigido também (e muito) aos que no PS têm levantado a voz para usar como bandeira os falhanços do Governo: “Para a credibilidade do país, é necessário que não se suscite qualquer dúvida sobre a capacidade que temos de pagar a dívida.”
Fonte: Público
Ressalvando a defesa da independência do Tribunal Constitucional, as declarações de António Vitorino (AV) são um bocado estranhas, mormente no que respeita à dívida. Achará AV que, por este caminho, teremos capacidade para a pagar integralmente? Mistério. Sobre a crise, parece não ter nada a dizer sobre a (defeituosa) arquitetura do euro nem sobre o peso que ela exerceu na violência do embate e o que continua a exercer na nossa capacidade individual para a ultrapassarmos. Parece alinhar pelo discurso dos impotentes ou conformados que entendem que é “comer e calar”, como se estivesse tudo bem com o BCE e com a arrogância alemã, que entretanto não quer abandonar o clube do qual somos sócios. Também parece não lhe ocorrer nada de crítico sobre o agravamento de uma crise nacional já de si agravada pela irresponsabilidade de quem deitou borda fora o apoio europeu negociado por Sócrates, agravamento provocado pelas experimentações do Gaspar, como se a continuação do saque aos salários e pensões nada tivesse que ver com, nem fosse a correção de, estrondosos falhanços de quem ambicionou ir além do que lhe era pedido. Parece, enfim, nada ter a contestar às políticas punitivas de quem manda na Europa, como se fosse aceitável que as decisões tomadas face aos erros, trafulhices e abusos cometidos pela Grécia (onde a irracionalidade europeia começou) pudessem ser generalizadas a todo e qualquer país e como se fosse desadequado reclamar outro tratamento. De joelhos, portanto.
Mas vamos à sua afirmação de que, e nas minhas palavras, “muita sorte têm os socialistas portugueses de ainda terem 37% nas sondagens, porque noutros países europeus, etc., etc.». Contextualizando estas afirmações, ou seja, atentando a que foram proferidas na sequência das afirmações de Mário Soares a exigir mais ao PS, dir-se-ia que AV vê não só no atual Governo português um conjunto de pessoas perfeitamente respeitáveis, competentes, sinceras e patrióticas, enfim normais (como os outros governos de direita europeus a que indiretamente se refere), como também em António José Seguro um líder à altura das circunstâncias, ou, pelo menos, possuidor de muitos méritos. Mas será que vê mesmo isso, ou que quer que outros o vejam (a AJS) assim? Cada um que especule.
E, a propósito, convém perguntar o seguinte: os 37 % serão por causa do Seguro ou apesar do Seguro? Ou serão independentes do Seguro? Bom, é evidente que, quem acha que são por causa do Seguro pode ter duas apreciações subjacentes: (1) que é uma belíssima percentagem de intenções de voto ou, pelo contrário, (2) que se trata de uma percentagem muito baixa relativamente ao que poderia e deveria ser, tendo em conta o tipo de governo que temos. Vitorino parece comentar a situação com base na primeira apreciação. Assim sendo, revela, entre outras coisas, pouca ambição e, pior do que isso, pouca convicção quanto às virtudes da social-democracia ou sequer de uma alternativa ao atual governo. De passagem, lá reconhece que o PS não é ainda uma alternativa verdadeira. Pois não. Voltamos, então, ao princípio: se fosse, teria com certeza mais intenções de voto. Não podia deixar de ter. E o líder não tem nada a ver com isso?
Não me esqueci da hipótese de o PS obter 37% independentemente do Seguro. Esta hipótese remete para a séria possibilidade de a alternância entre os dois maiores partidos poder estar enraizada nos eleitores portugueses ao ponto de, na sua maioria, confiarem ora num ora noutro para a gestão do país. Nesse caso, tanto faria lá estar Seguro como Juvenal Nabiça. A mudar, os eleitores não optam pelos partidos radicais da extrema-esquerda. Mas é legítimo perguntar: não seria melhor ambicionar uma maioria clara? Não faria diferença outro tipo de liderança? É evidente que faria. Mas Vitorino lá terá as suas razões para consolar o Seguro.