Dos argumentos mais curiosos que tenho lido para “provar” que Rui Tavares não está a tentar criar um partido a oito meses das eleições europeias para poder continuar no Parlamento Europeu é a invocação da sua recusa em integrar as listas do PS, para as quais terá sido convidado e que lhe garantiriam um lugarzinho certo em Bruxelas (uma semana por mês, em Estrasburgo). Esta recusa constituiria, portanto, a prova provada de que RT não é oportunista e está verdadeiramente interessado em formar um novo partido em Portugal, para se bater por um programa nacional. Mais do que curioso, este argumento é falacioso e revela um certo desconhecimento do que é o PE. O PE não é um sítio para onde se vá não fazer nada e apenas ganhar dinheiro e que exige apenas que se seja eleito por um partido, seja ele qual for. O facto é que há por lá diferentes visões da Europa e do mundo e se trabalha para diferentes objetivos políticos. Há famílias partidárias, que estão distribuídas por grupos, por vezes com diferenças não evidentes para nós. Rui Tavares não integra neste momento o grupo dos socialistas nem o dos comunistas (ou assim), onde esteve enquanto simpatizou com o Bloco. Decidiu integrar os Verdes, ou seja, um grupo designado em inglês “The Greens/European Free Alliance” (como veem, está lá o ecologismo e o conceito de “Livre”, que dará nome ao futuro partido). Bate certo. Ou não?
E o argumento é falacioso porque escamoteia o facto de ter sido o próprio Rui Tavares a decidir, a meio do mandato, abandonar o grupo parlamentar em que se insere o Bloco de Esquerda e passar a integrar, justamente não os socialistas, mas aquele que já referi. Repito, Rui Tavares tem estado a trabalhar com os Verdes europeus. É para lá que quererá voltar, naturalmente. E, atendendo ao espaço partidário supostamente aberto em Portugal pelo descrédito do Bloco e pela irrelevância dos Verdes enquanto partido ecologista autónomo, entendeu certamente que tem hipóteses de conquistar aderentes para a causa. É tão simples quanto isto. Rui Tavares não é, nunca foi e, confirma-se, não quer fazer parte dos socialistas. Nem como independente. Possivelmente já lhe bastou a independência dentro do Bloco. Encontrou melhor companhia e uma razão para se envolver convictamente. Bom para ele. Por razões que só ele saberá, o seu projeto é, pois, diferente do dos socialistas, embora, para mim, francamente indefinido. Mas está no seu direito. A atual liderança do PS também não entusiasma (nem sequer os socialistas). Mas, muito me espantaria que, a formar-se o partido Livre, Rui Tavares não encabeçasse a lista para o Parlamento Europeu. Parece-me uma impossibilidade. Daí as minhas dúvidas, expressas aqui há dias, de que o novo partido saiba exatamente qual a sua missão nacional e seja capaz de ter um líder nacional. Mas isso é lá com eles. Não me venham é com “provas” destas. O PE tem várias portas.
Só para terminar, gostaria de sublinhr que a aspiração de ir defender um qualquer ideal europeu para o Parlamento Europeu é tão legítima como qualquer outra. Hoje em dia criam-se partidos por esta Europa fora por razões bem mais estranhas, desinteressantes e até assustadoras. Assim arranje apoiantes. O problema é quem cá fica e a fazer o quê. E com que programa verdadeiramente diferenciador.