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Esperem, afinal Rui Tavares não quer ir para o Parlamento Europeu?

Dos argumentos mais curiosos que tenho lido para “provar” que Rui Tavares não está a tentar criar um partido a oito meses das eleições europeias para poder continuar no Parlamento Europeu é a invocação da sua recusa em integrar as listas do PS, para as quais terá sido convidado e que lhe garantiriam um lugarzinho certo em Bruxelas (uma semana por mês, em Estrasburgo). Esta recusa constituiria, portanto, a prova provada de que RT não é oportunista e está verdadeiramente interessado em formar um novo partido em Portugal, para se bater por um programa nacional. Mais do que curioso, este argumento é falacioso e revela um certo desconhecimento do que é o PE. O PE não é um sítio para onde se vá não fazer nada e apenas ganhar dinheiro e que exige apenas que se seja eleito por um partido, seja ele qual for. O facto é que há por lá diferentes visões da Europa e do mundo e se trabalha para diferentes objetivos políticos. Há famílias partidárias, que estão distribuídas por grupos, por vezes com diferenças não evidentes para nós. Rui Tavares não integra neste momento o grupo dos socialistas nem o dos comunistas (ou assim), onde esteve enquanto simpatizou com o Bloco. Decidiu integrar os Verdes, ou seja, um grupo designado em inglês “The Greens/European Free Alliance” (como veem, está lá o ecologismo e o conceito de “Livre”, que dará nome ao futuro partido). Bate certo. Ou não?

E o argumento é falacioso porque escamoteia o facto de ter sido o próprio Rui Tavares a decidir, a meio do mandato, abandonar o grupo parlamentar em que se insere o Bloco de Esquerda e passar a integrar, justamente não os socialistas, mas aquele que já referi. Repito, Rui Tavares tem estado a trabalhar com os Verdes europeus. É para lá que quererá voltar, naturalmente. E, atendendo ao espaço partidário supostamente aberto em Portugal pelo descrédito do Bloco e pela irrelevância dos Verdes enquanto partido ecologista autónomo, entendeu certamente que tem hipóteses de conquistar aderentes para a causa. É tão simples quanto isto. Rui Tavares não é, nunca foi e, confirma-se, não quer fazer parte dos socialistas. Nem como independente. Possivelmente já lhe bastou a independência dentro do Bloco. Encontrou melhor companhia e uma razão para se envolver convictamente. Bom para ele. Por razões que só ele saberá, o seu projeto é, pois, diferente do dos socialistas, embora, para mim, francamente indefinido. Mas está no seu direito. A atual liderança do PS também não entusiasma (nem sequer os socialistas). Mas, muito me espantaria que, a formar-se o partido Livre, Rui Tavares não encabeçasse a lista para o Parlamento Europeu. Parece-me uma impossibilidade. Daí as minhas dúvidas, expressas aqui há dias, de que o novo partido saiba exatamente qual a sua missão nacional e seja capaz de ter um líder nacional. Mas isso é lá com eles. Não me venham é com “provas” destas. O PE tem várias portas.

Só para terminar, gostaria de sublinhr que a aspiração de ir defender um qualquer ideal europeu para o Parlamento Europeu é tão legítima como qualquer outra. Hoje em dia criam-se partidos por esta Europa fora por razões bem mais estranhas, desinteressantes e até assustadoras. Assim arranje apoiantes. O problema é quem cá fica e a fazer o quê. E com que programa verdadeiramente diferenciador.

Ao LIVRE, votos de felicidades. Mas vejamos

Estar livre do Bloco dá alegria a muita gente e é motivo para celebrar. Não duvido. Com flores e tudo. E o já “livre” Rui Tavares, como de resto qualquer cidadão, tem todo o direito e toda a liberdade de formar um novo partido. Mas, para nos convencer de que o seu projeto é mais do que a mera necessidade de conseguir uma base de apoio para continuar no Parlamento Europeu depois de ter rompido com os bloquistas, vai ter que esclarecer muita coisa.

Por exemplo, no campo dos princípios:

1. O nobre princípio de «Libertar Portugal da dependência financeira e do subdesenvolvimento económico e social» difere em quê exatamente do valente e patriótico, porém juvenil e indefinido “Que se lixe a Troika”? Conviria precisar, descrevendo os cenários possíveis.

2. «Traçar um modelo de desenvolvimento para o país assente na valorização das pessoas, do conhecimento e do território». Muito bem. Concordo. Eram apostas de Sócrates: educação, formação, ciência, universidades. Mas estavam Rui Tavares e os seus putativos apoiantes de acordo ou em desacordo com elas? Na altura não dei por nada que denotasse um, pequeno que fosse, entusiasmo. Eventualmente um embrião de entendimento? Que ideias novas/diferentes inspiram agora este propósito?

3. No capítulo do «Europeísmo», o que entendem por “expansão da soberania”? Do que tenho lido dos escritos de RT, não me parece que seja o reforço da soberania de cada Estado (o que seria contrário ao “ideal europeu”) ou a expansão da soberania de Portugal a Espanha ou, vá lá, à Galiza e seguramente também não a expansão da soberania da Alemanha sobre outros. Como expandir então a soberania de Portugal? Ampliando a zona económica exclusiva em volta das ilhas? Não vejo qualquer outra possibilidade. Bom, mas talvez se refira à transferência de poderes nacionais para um poder central europeu, com respeito pela soberania de cada um. Tarefa difícil. Nesse caso, qual a representatividade dos diferentes países? De onde governaria esse governo a Europa? De Roma, como há dois mil anos? Ou de Berlim? Bruxelas é uma hipótese? Em que medida isso nos “libertaria da dependência financeira”? Como se compatibiliza essa visão federalista com a lei do mais forte a que a Europa está sujeita hoje em dia e de que não se livraria possivelmente? Para voltar ao Parlamento Europeu e reclamar essa nova ordem europeia, há que ser mais específico.

4. No que toca à vontade de ter uma palavra, vaga ou precisa, numa instituição europeia para a defesa de um ideal, estamos esclarecidos. RT quer. E gostaria. Mas, se não for eleito, fica em Portugal a liderar o partido das papoilas? E se for eleito, quem liderará o partido e que com que finalidade nacional? Uma aliança com o PS ou apenas a destruição do Bloco?

5. E por falar em liderar: considera Rui Tavares e consideram os seus apoiantes que tem o perfil apropriado, ou seja características mobilizadoras, para líder de um partido português, antes de europeu? Rui Tavares é pouco conhecido e sempre manteve um perfil baixo.

A vertente ecológica e o seu peso também precisam de ser esclarecidos. Se não, fica a dúvida se não será apenas uma maneira de os eleitos deste partido integrarem o grupo dos Verdes no Parlamento Europeu (grupo Verdes/Aliança Livre Europeia), para onde Rui Tavares se transferiu, e onde não estão inseridos os eleitos do Bloco (GUE/NGL).

Concordando com o post do Valupi ali em baixo, acho, no entanto, que, ambições pessoais de Rui Tavares à parte, a liberdade de formar um partido é incontestável e que o principal rombo se deverá operar no Bloco, o que não é mau. Por isso, entendam-se ou desentendam-se. A menos que o Bloco em peso decida abandonar o radicalismo e aquela liderança bicéfala que não funciona e aderir ao novo partido, para a governabilidade do país à esquerda pouco deve acrescentar.

Vasco P. Valente em esforço

Lendo o artigo de hoje de Pulido Valente no Público sobre a estória de miséria moral e corrupção que foi a atuação dos apoiantes de Passos nas redes sociais nos anos que precederam a sua chegada ao poder, agora desvendada na Visão por um dos intervenientes, de nome Moreira de Sá, vi-me à beira de constatar que o principal e mais duramente visado por tais campanhas, José Sócrates, não seria sequer mencionado pelo colunista. Seria demais, mas vontade não lhe faltou de limitar estas práticas de esgoto às vítimas por quem nutre simpatia – Manuela Ferreira Leite e Paulo Rangel. A prova de que com grande esforço incluiu na sua crónica o antigo primeiro-ministro está na formulação arranjada: um breve, de passagem “Ou para vexar um político particular (no caso, parece que Sócrates)”. Parece?? Como parece? Foi tudo dito preto no branco! Miserável.

Se as ditas campanhas não tivessem também beliscado “gente séria” do PSD, aposto que Pulido Valente nem uma linha dedicaria ao assunto.

Irlanda: não foi bem assim

Lê-se na Forbes que o grande feito da Irlanda em dizer adeus à Troika e voltar ao mercado sem rede tem mais a ver com a impossibilidade política de a Europa aprovar as linhas de crédito do ESM e, logo, um programa cautelar, dados os meandros das negociações interpartidárias alemãs para formar um governo, do que com a excelente saúde financeira do país, resultante da boa conclusão de um programa de austeridade.

There is, of course, a narrow political benefit to the Irish government from this “clean” exit, so they can triumph the full restoration of “sovereignty.” However, I don’t think they are so cynical as to have made this decision purely for that populist reason. Instead, my assessment is that the precautionary credit line could not be arranged now because it was politically impossible and that the Irish government are merely putting a brave face on what is a bad outcome.

The political problem is that credit lines from ESM require the approval of all euro area member states and this was not going to be possible now. Germany still does not have a government as Angela Merkel’s CDU continue negotiations with the SPD to form a coalition. During these negotiations, the SPD has regularly insisted that they would not support an ESM credit line for Ireland unless the country followed a series of highly specific policy recommendations.

SPD requirements for approval of a credit line included raising the corporate tax rate and introducing a financial transaction tax. The SPD also ruled out any deal that involved used funds from the credit line to recapitalize banks.

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Irá Portugal a tempo? O que fará o BCE? Perguntas e mais perguntas. A confusão política e monetária é total.

Embuste cinematográfico

Ir ver o último filme de Ridley Scott, com argumento de Cormac McCarthy, depois de ter visto a admirável série «Breaking Bad» não lembraria ao diabo. O problema é que me lembrou a mim. Resultado: a memória fresca da série fez bailar todo o tempo na minha cabeça a seguinte pergunta: terão Scott e McCarthy visto a série? Se não viram (coisa em que não acredito), deviam ter visto… e aprendido. Se viram, o filme não passa de uma reles imitação de cenas de antologia construídas por Vince Gilligan (eu sei que algo de semelhante existe na realidade e que este autor não tem o exclusivo da sua narrativa, et pourtant…) e, pior do que isso, do seu aproveitamento comercial no grande ecrã, agora que sabem que “está na moda”, para vender os fetiches de McCarthy – sangue a jorrar em primeiro plano, cabeças sem corpo e vice-versa, técnicas de assassínio macabras mas sofisticadas aqui – utilizando grandes vedetas da atualidade, como Brad Pitt, Penélope Cruz, Xavier Bardem, Cameron Diaz e Michael Fassbender. Ou seja, os dois juntaram o útil ao agradável, a fome com a vontade de comer. Mas o filme é francamente mau.

Fassbender, o “Counsellor“, é um erro de casting total (e como eu o acho um excelente ator!). Não só não tem perfil para aquele papel, como o próprio papel, ou seja a personagem que interpreta, é um absurdo total. Não tem pura e simplesmente cabimento num contexto daqueles. Caberá na cabeça de alguém um advogado filantrópico e cheio de bons sentimentos, amante perfeito, fiel e sincero, estabelecer uma sociedade com um safado e debochado de um líder de cartel (Bardem), sem ter a mínima noção de onde se está a meter? Cartelista esse igualmente sinceramente apaixonado, mas por uma sabidona de uma Cruela (C. Diaz), ex-bailarina, capaz de fazer a espargata, semi-nua, sobre o pára-brisas de um automóvel, e que, nas horas livres de sexo, controla toda a pirâmide do tráfico e se sai a rir de toda a gente, tal filme de série B? Escusado será dizer que há margem para Bardem se sentir inseguro, apesar do ar esgroviado.

Nada tenho contra a denúncia pelo audiovisual da violência extrema que grassa naqueles perímetros fronteiriços que mais parecem vespeiros. Mas, mais uma vez, há muito de gratuito na maneira de o mostrar neste filme. É um exercício plástico. Nada ali é contextualizado e o discurso pseudo-moralizante, qual coro grego, “intelectual” e “profundo” de Brad Pitt num meio como aquele quase não se acredita. E no entanto ele fá-lo muito bem.

Com que então a crise política de julho

Fala-se muito por aí do drama que foi a crise política do passado mês de julho. Fala disso a direita, procurando arrepiar-nos e como pretexto para não mais largar o poder, e também fala disso a esquerda em tom acusador para o Governo, como se não fosse isso mesmo que a oposição desejava, para que a situação pudesse ser clarificada por via de eleições. Enfim. Fala disso, inclusivamente, o FMI, no seu mais recente relatório sobre Portugal (e dando de barato que não foi o Governo português a escrevê-lo, como aconteceu com um documento de há um ano assinado pela mesma instituição, só que agora mais sofisticadamente), no qual adverte que a coligação se deve manter estável, sob pena de.

Ora, se bem nos lembramos, foi Vítor Gaspar o primeiro a romper a “estabilidade” governativa, demitindo-se com uma autocrítica em que reconheceu o falhanço das suas previsões e políticas, que também começavam a suscitar oposição dentro do PSD e de outros membros do Governo. Além da oposição do país em geral. Gaspar era um experimentalista curioso no que a papéis dizia respeito, totalmente irresponsável e um político amador. Deu-se mal com a experiência governativa e foi ele a espoletar a crise do verão, dizendo adeus. Paulo Portas, sempre oportunista, aproveitou para colher alguns dividendos eleitoralistas, arrogando-se o defensor de políticas diferentes, nomeadamente dando a entender que o busílis estaria no modelo das negociações com a Troika, que deveriam focar-se mais na recuperação da economia. Foi por isso que se mostrou intolerante em relação à nova ministra das Finanças, que via, e bem, como continuadora do radicalismo e da bajulação de Gaspar. Mas todas essas visões e atitudes já são história. Das piruetas entretanto dadas nem vale a pena falar. Estão à vista de todos.

Dizer que as taxas de juro da dívida pública começaram a subir devido à anunciada decisão irrevogável de demissão de Portas é um tanto ou quanto questionável. Até parece que tudo estava a correr lindamente até aí e que seriam umas hipotéticas eleições a pôr tudo (ou seja, tudo o que estava a correr tão bem) em causa. E até parece que Gaspar não se demitiu por estar tudo justamente a correr mal. Dizer que o programa de resgate, sob a batuta do ministro das Finanças, não estava a dar qualquer resultado positivo, não melhorando nenhum indicador e aproximando Portugal de um novo resgate, já me parece, pelo contrário, inquestionável e uma razão mais do que plausível para o que se passou naquele verão. Mas esta perspetiva foi simplesmente apagada do espaço público. Para isso contribuiu o peso mediático de Portas. O que se fez entretanto? “Reset” e recomeçou tudo praticamente no ponto onde estávamos, tal qual, apenas com um punhado de novos atores secundários.

O que pretendem, pois, os credores, ou o Governo, para que tudo “continue a correr tão bem”? Nada de diferente. Querem mesmo convencer-nos de que tudo está a correr bem. Um país europeu que tenta resolver os seus problemas equiparando-se ao Bangladesh não tem qualquer futuro, mas, para quem cá não vive ou para os que vão acumulando riqueza à custa da miséria alheia, o que é que interessa?

Eu francamente penso que, chegados aqui, se entrou numa espiral de loucura. Portas e Pires de Lima transformaram-se em soldados obedientes e deixaram de ver qualquer necessidade de fazer diferente. Pelo contrário. A par de um discurso sobre uma viragem, um milagre económico, o pior que já passou, etc., anunciam-se cortes e mais cortes, inclusive para 2015, já depois de o programa ter supostamente terminado. As mentiras continuam a bom ritmo. Maduro está encarregado da propaganda e da desinformação mais desavergonhada, mas também não sabe o que anda a fazer nos intervalos daquela atividade (vejam-se os ziguezagues em relação à RTP). A fuga dos jovens, verdadeira causa da baixa do desemprego, continua a não preocupar minimamente nenhum responsável (nem Crato, nem Coelho, nem ninguém). Fala-se agora em baixar vovamente os salários a toda a gente, e não só aos funcionários públicos, para reduzir ainda mais a procura e dar a última machadada na economia. Está tudo louco? Para distrair as atenções, apresenta-se uma porcaria de documento a que se chama Guião para a Reforma do Estado e, duas semanas depois, anuncia-se que o PSD vai apresentar outro muito melhor. Como e quando vai acabar esta vergonha? Crise de julho? Foi pena não ter ido às últimas consequências.

Um BCE independente, sobretudo de preconceitos, é o busílis

Segundo a imprensa alemã, a decisão de Mario Draghi, o presidente do BCE, de baixar a taxa de juro de referência para 0,25 % na semana passada não terá sido bem acolhida pelos políticos, economistas e instituições alemãs (bancos, seguradoras, etc.). No mínimo, é controversa, pois, segundo os editorialistas, poderá afetar as poupanças e as pensões. Hans Werner Sinn, o presidente do instituto IFO de estudos económicos, afirmou mesmo que “Draghi abusou do sistema monetário europeu, concedendo aos países do sul empréstimos baratos, que nunca obteriam no mercado de capitais”. Oh! Indignação máxima. Os medíocres do sul só têm direito a ser castigados e a expiar os seus pecados. E a agradecer por isso. Tudo o que contrarie este regime é inadmissível. Juros próximos do zero? Só para as empresas alemãs. Não se percebe é o que está um país que atingiu um nível tal de perfeição a fazer num clube de indigentes. Ou espera lá… se calhar lucra com isso.

A decisão do BCE, que contou com os votos contra de um quarto dos 23 membros do Conselho de Administração do banco, incluindo os representantes alemães – Jens Weidmann (presidente do Banco Central Alemão) e Jorg Asmussen (político do Partido Social-Democrata) – prendeu-se, oficialmente, com o risco de deflação em muitos países da zona euro. É que a crise está longe do fim e, neste mar de incertezas em que propositadamente a fazem navegar, assume de vez em quando novos e (não tão) inesperados contornos. Ora, os alemães, que consideram sacrilégio a mínima referência a uma hipótese de inflação, começam a identificar Mario Draghi com os interesses italianos e a sussurrar, segundo o Financial Times, aqui citado, que a zona euro está a ser gerida pelo Banco de Itália. Diz o jornal económico alemão Handelsblatt que (e cito a Der Spiegel em inglês) “an alleviation of refinancing for selected euro-zone countries is also not in the ECB’s mandate”. Não ? E agora?

Acontece que, para um meridional, o BCE não parece uma má instância para se travar a luta pela moeda única e pelo equilíbrio de poderes. Pelo contrário. Supostamente, o BCE não é o Bundesbank e o seu mandato abrange toda a zona euro, não apenas a Alemanha. Pode ser mesmo daqui que sairá o primeiro peixe podre em direção à cara de alguém nesta paz, lá está, podre e sacrificial.

O Henrique cantou e depois dançou

Na semana passada, li a última página da revista do Expresso, a cargo de um tal Comendador Marques de Correia, pseudónimo do jornalista Henrique Monteiro, que a utiliza para escrever cartas de temática variada, pretensamente com humor requintado, à “antiga”. Raramente tem piada. O tema da carta naquele dia era a entrevista dada na semana anterior por Sócrates – embirração patológica de Monteiro – assim como o seu livro sobre a tortura nas democracias, e a ideia era, mais uma vez, fazer humor, desta vez troçando da ignorância que Sócrates revelara sobre Kant, nomeadamente ao referir-se à obra «Metafísica dos Costumes», que, segundo HM, não existia. De calinada em calinada, o que ele queria arrogantemente dizer era que só estavam habilitadas a falar de Kant pessoas como ele, nunca um qualquer indigente ex-primeiro-ministro, que decerto nunca lera nada. “Tu não me mexas no Kant”, poderia ser a súmula do que passava pela cachimónia do trocista Monteiro. E, de facto, arrogou-se um profundo, profundíssimo conhecedor da obra do filósofo. Tão profundo que Sócrates devia ter pensado, antes de falar, na sua (do pobre Monteiro) hipersensibilidade a imprecisões e leituras erradas. Teve azar. O ódio, a inveja, o despeito ou a pura criancice toldaram-lhe o discernimento e a memória e não acertou uma. Não só não mostrou humor nenhum como também se estatelou ao comprido.

Evidentemente que tanta arrogância assente em asneiras merecia uma resposta. Teve-a hoje, no caderno principal do jornal (infelizmente não há link). Num longo texto, abençoado de fina ironia, Sócrates esmaga-o, encostando-o a uma coluninha em que o vemos a rodopiar ainda tonto, enquanto sugere uma espécie de irem lá para fora falar (?), atira um derradeiro “Cantas bem, mas não me alegras” e insinua que o texto que o desfaz é de outro. Triste cena. Triste “gente séria”.

Consenso e diálogo sobre premissas aldrabadas

Se há coisa que é repetida até à náusea pela direita e chega a ser assimilada por alguma esquerda é que qualquer outro governo não faria muito diferente do atual, dadas as imposições externas. Permito-me duvidar. E duvidar muito. Devia ser obrigatório duvidar. Para começar, sabemos a quem interessam afirmações como essa. E sabemos também, desta aviltante experiência de dois anos e meio, o quão fácil (e eficaz) é mentir. Assim, nada do que o Governo diz sobre as medidas que toma ou afirma ter de tomar, a Troika, as negociações, as reuniões em Bruxelas e o que debitam os porta-vozes, o Estado e a sua reforma urgente, nada, dizia eu, é de confiar. Basta, além disso, abrir um pouco os olhos para perceber que muitas das que foram tomadas nestes dois anos e meio (incluindo as propostas mais recente e provocatoriamente delineadas naquela espécie de rascunho de Portas) nada têm a ver com exigências externas. São um programa de uma certa direita, jamais sufragado, agora oportunistamente posto em prática.

As primeiras medidas tomadas em 2011, que foram muito mais longe em dureza do que o estabelecido, tiveram consequências desastrosas, intencionais ou não. Que depois os resultados dessa irresponsabilidade os tenham obrigado a sucessivas “correções”, insistências e invocações da Troika não significa que o partido alternativo de governo tenha de assumir conformadamente a alegada inevitabilidade, que, em última análise, o levaria a desistir de assumir o poder e, por conseguinte, reorientar a bússola das prioridades. Um novo governo será com certeza diferente. Chegámos a um ponto em que até um governo do PSD com outros protagonistas seria diferente.

É no quadro desta tentativa de desvalorização da alternância que o PSD e o CDS pretendem agora, cada vez com mais insistência e descaramento, que o PS se junte ao seu programa político. Repare-se que não é um convite para participar em negociações com a Troika ou para resolver problemas da economia ou para acordar a aplicação dos fundos estruturais e muito menos para discutir uma estratégia de defesa do interesse nacional nas instâncias europeias. O que o Governo quer é que o PS subscreva o programa de desmantelamento puro e simples do Estado, apresentando-o como inevitável. Mas a intenção é também, na passada, cortar as vazas ao maior partido da oposição nas próximas eleições. Vendo bem, é uma nova versão da ideia congeminada por Cavaco há uns meses e que, no fundo, pretendia manhosamente encurralar o PS. O facto de, nesta parte da minha exposição, ter forçosamente de entrar o Seguro, desmoraliza-me. O ideal seria ele dar lugar a outro. Como tal parece impossível, dada a blindagem que instaurou no partido, ainda reúno energias para, pelo menos, dizer que, se o homem for eleito (mesmo em coligação) a história do que quer a Troika, do que poderia passar a querer e não passa, e do que querem estes desmiolados do governo ficará, pelo menos, tirada a limpo. Já não é pouco.

Humilhação

Lieblinge”:

Vocês fazem tudo o que nós queremos e ainda mais do que achávamos possível. Vocês são uns fofinhos – dóceis, obedientes, atentos aos nossos caprichos, gratos e reconhecidos. O vosso primeiro-ministro compensa bem a impreparação e a inexperiência com a assunção do papel de porta-voz da nossa mensagem de comedimento e humildade. Apreciamos igualmente o bom seguimento que foi dado aos nossos telefonemas para o atrevido ministro Portas no verão passado e, ainda antes, para o vosso Presidente da República, para que evitasse repetir declarações como a da “espiral recessiva” e, pelo contrário, disciplinasse as intervenções e proferisse, quando quebrasse os silêncios, notas de otimismo e empenho na estabilidade. Foram os dois muito lindos. Têm cumprido. Para mostrarmos a nossa satisfação, abrimos as nossas empresas aos vossos jovens engenheiros e a todos os que vierem por bem. Não esperem, porém, que lhes paguemos os mesmos salários que aos nossos compatriotas. Como compreenderão, e sei que compreendem, há muitos outros à porta. A escolha é um favor que vos fazemos. Como tal deve ser encarada. É também o povo alemão que no-lo exige. Sabemos que já integraram esta perspetiva no vosso discurso público, o que só joga a vosso favor.

Como previmos, o consumo interno tem diminuído em Portugal e isso é uma boa notícia. Olhem para nós. Não nos peçam, porém, para olhar para vocês.

Mas, caros Pedro, Paulo e Maduro, vocês são também um problema. De tão burros e obedientes e face aos maus resultados obtidos em termos de défice e de dívida, corremos o risco de ver a nossa estratégia desacreditada. Sobretudo a nível internacional, onde não governamos, e onde os nossos excedentes começam a ser notados. Por isso, lamentamos mas iremos continuar a insistir nos cortes. Não nos resta outra opção. Não que consideremos que tal colida com o vosso pensamento. De facto, não prevemos para vocês, Governo, dificuldades em impô-los. Mas começam a ouvir-se demasiadas vozes dissonantes. Aqui perto, trataremos do Barroso e do Draghi como sempre.

Chegam-nos notícias de que os mais vivos e saudáveis de entre vós já deixaram o país. Não podemos deixar de apreciar a injeção de sangue novo que tal representa para o projeto europeu central, ao mesmo tempo que nos convém perfeitamente o exército de zombies que engrossa nas periferias. Sabendo que não desesperarão, aconselhamos mesmo assim a que aguardem, com a ajuda de deus e do César das Neves. Por nós, ajudar-vos-emos como se ajudam os pobres e miseráveis: com esmolas. O tempo que for preciso. Nada receiem, pois.

Assinado:

Governo do melhor povo do mundo

Perguntas inocentes

É verdade que o arquivamento de um processo de investigação não era até agora comunicado ao interessado?? Como assim?

A procuradora-geral da República afirmou hoje que, a partir de agora, o arquivamento dos processos administrativos vai ser comunicado ao interessado, na sequência do anúncio, feito na quarta-feira, relativo ao homólogo de Angola, João Maria de Sousa.

No caso do Procurador de Angola, já é mau demais suspeitarmos que algo sobre essa matéria terá sido, pelo contrário, comunicado a Rui Machete. Mas será mesmo verdade que o processo foi arquivado há uns meses, ou a notícia sobre essa data é um expediente para, por um lado, “amaciar” as relações com José Eduardo dos Santos e, por outro, a solução para não parecer que o poder político interferiu com a Justiça, ou forçou uma decisão favorável, na sequência do mal-estar criado com Angola?

Cultos – foi assim que aconteceu

Se vivêssemos uns bons séculos lá para trás, na Venezuela, estaríamos a assistir em direto à génese de uma religião. Nicolás Maduro tenta por todos os meios criar uma aura mítica em torno da figura do desaparecido Hugo Chávez (pobre do homem, que nunca se atreveu a ir tão longe) e, para si, o estatuto do S. Pedro da religião cristã. E para quê? Sem surpresa, em última instância, para se preservar no poder. Se há massas dispostas a serem alienadas, e pelos visto há algumas, estarão aqui reunidos os ingredientes para cozinhar um novo culto. O culto de Maria também teve os seus momentos fundadores, as suas “visualizações”, como sabemos. Mas será assim? Será ainda possível? Sabemos as motivações de Maduro. Não serão diferentes das dos seus antepassados de há um par (ou dois, ou três) de milénios. Também têm pontos em comum com as de há um século, por cá. Infelizmente para ele, o mercado do divino já está um tanto ou quanto saturado hoje em dia e não tarda a bolha santa rebenta-lhe na cabeça. Graças ao petróleo, não lhe rebenta outra.

O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, veio a público afirmar que o rosto do seu antecessor, Hugo Chávez, apareceu numa rocha durante a escavação do metropolitano de Caracas.

Numa intervenção televisiva transmitida esta quarta-feira à noite (esta madrugada em Lisboa), Nicolás Maduro mostrou fotos do que diz ser o rosto de Hugo Chávez gravado numa rocha posta a descoberto nas escavações para a construção do metropolitano da capital venezuelana.

O nosso reputado sociólogo

Valerá a pena perder tempo com António Barreto? Como presidente de uma fundação que faz estudos sobre Portugal, de vez em quando sim, convém que se perca algum tempo. Até porque irrita (e a tentativa é de que a irritação acabe) constatar a falta de qualidade dos nossos supostos intelectuais. Não se aprende nada e isso é quando sequer se percebe o que dizem e porquê. Lê-los é de facto uma perda de tempo. Mas talvez se ganhe alguma coisa em criticá-los. É uma questão de higiene. Hoje dá uma entrevista ao jornal i. Exceção feita a três ou quatro observações pertinentes e do senso comum (CGTP, Merkel), aproveita o ensejo para dar largas às suas habituais contradições, enviesamentos, omissões ou superficialidades. Não há espaço, nem paciência dos leitores, para as comentar uma a uma. Remeto, pois, para o jornal e passo a sintetizar, na medida do possível, a minha crítica.

A novilíngua do Governo, nomeadamente a recente expressão “choque de expectativas”, é ocasião para falar em falta de sentimentos (mas numa formulação confusa) e de passar imediatamente à linguagem do líder da oposição (e lembrem-se como eu não o defendo) e da sua “linguagem construída”, desviando a meio da resposta a questão para esse outro campo ao lado e aí a concluindo. Mas o pior é que, neste domínio, ele próprio não se revela diferente. Quando questionado sobre a insistência de Coelho na palavra “verdade”, revela-se totalmente incapaz de abandonar os eufemismos, como o de dizer que Coelho tem “um problema com a verdade”, recusando-se a chamar os bois pelos nomes. Abundam ou não abundam as provas de que o homem Coelho ainda não fez outra coisa que não mentir desde que foi eleito líder do PSD, já lá vão três anos? Abundam. Jornais, vídeos, é só consultar. Para um sociólogo, deveria ser material bastante e a ter em primeiríssima conta. Porém, para Barreto, «mentir» é capaz de ser um termo com “sentimento” a mais (“não quero acusá-lo de nada”, diz).

Considera que as pessoas foram alertadas tarde demais para os efeitos da austeridade e só o foram pelas manifestações. Acreditará ele no que está a dizer? A maior parte das pessoas foi enganada. No entanto, houve pelo menos um político que alertou, e de que maneira, para o que aí vinha e tentou evitá-lo. Porém, quanto a isso, silêncio absoluto. Até porque Barreto foi daqueles que achavam que, correndo com o “diabo”, cortando umas gorduras impessoais ao Estado e chamando o FMI, a coisa se endireitava. Continua a dizer que não há alternativa se não pagar as dívidas, ignorando as causas e as responsabilidades europeias do seu agravamento e as nuances que tal problemática ganha num contexto de moeda única e embarcando assim na linguagem mais básica utilizada pela direita, como se os Estados não tivessem que contrair eternamente dívida.

Sobre a legitimidade do Governo, arranja uma explicação confusa, mas que desemboca em acusações contra quem considera o Governo ilegítimo, defendendo que tais pessoas não podem ficar impunes (“É muito grave dizer uma coisa destas. Não se pode dizer coisas muito graves e ficar impune.”). Tribunal, castigo, cadeia, portanto. E indigna-se com os que pedem que Cavaco seja julgado. Barreto deve achar que o egotismo do presidente e o jogo de mentiras, golpes rasteiros e total irresponsabilidade que conduziram o país à penúria não são suficientemente graves para que alguém expluda na praça pública.

Generaliza a aversão portuguesa a coligações, não se percebendo se está a criticar o PSD por não ter querido coligar-se em 2009, ou se propositadamente ignora os convites feitos na altura por Sócrates aos outros partidos e, em 2010, a Passos Coelho. É que há quem tenha aversão e há quem não tenha. Mas a generalização, claro, é sociologicamente mais interessante.

Diz que a UE foi conivente com “os nossos disparates”. Aqui, ignora que não se tratou apenas de conivência, mas antes do “core business” da formação da zona euro (o crédito barato, os swaps que não foram só vendidos aqui, etc.), que deu muito e bom dinheiro a ganhar a muita gente.

Quanto às perdas para os trabalhadores decorrentes de uma eventual saída do euro, finge ignorar quanto poder de compra e empregos já perderam os portugueses desde o começo da crise e sobretudo deste o pedido de resgate por permanecerem no euro e a falta de perspetivas que tal situação nos impõe. A resposta é, pois, superficial. São todas.

Passa alegremente por cima dos 10%, 20% , que na realidade chegaram quase a 50%, de austeridade que o Governo somou ao estabelecido no primeiro Memorando de Entendimento, como se tivessem tido pouca importância e poucas consequências.

Mas o que o jornal destaca em título são as suas declarações sobre a necessidade de se rever a Constituição. Barreto entende que cada governo deve poder fazer o que muito bem entende, mesmo acabar com o SNS, (mais uma vez fazendo-nos crer que este Governo, por exemplo, declarou claramente no seu programa eleitoral que acabaria com o Serviço Nacional de Saúde e que os portugueses sufragaram essa proposta), desde que a Constituição não impeça um sucessor de inverter a situação. No caso do SNS, de o reinstaurar. Assim, sem mais. Acaba-se com o SNS e, passados quatro anos, cria-se outro de raiz. Possivelmente, para Barreto, o ideal seria uma Constituição de um artigo só – “Considerando que há diferentes maneiras de ver o mundo, consagra-se a liberdade total de o poder político legislar segundo as suas convicções”. É isto um pensador?

Tudo isto para…

… o Catroga ir ganhar 46 000 euros mensais numa EDP vendida a outro Estado?

Estado da Nação

Com o programa da Troika, agravado com o que o Governo decidiu acrescentar-lhe de austeridade, nem o défice foi reduzido de forma substancial, como era o objetivo, nem o país ficou mais competitivo com as reformas laborais, ou estruturais, como quiserem, nem a dívida diminuiu; pelo contrário, aumentou como nunca até agora e no tempo mais curto jamais verificado. Com a economia quase moribunda e um desemprego brutal, Portugal está atolado. Em dívida e em dependência. E em pobreza. Perante isto, a rapaziada ao leme, agora de braço dado com a ministra Maria Luís, sem saber o que mais anda a fazer para além de baixar os rendimentos dos portugueses, continua a fazer tudo o que lhe ditam as entidades estrangeiras, que se estão olimpicamente borrifando para o estado de saúde dos habitantes deste país. A ideia da rapaziada será safarem-se com a invocação de uma responsabilidade solidária. Aplicado o programa de desmantelamento dos serviços públicos, que sempre projetaram porque era moderno, e sem saberem como governar verdadeiramente, esperam confiadamente que as instituições credoras, lideradas pela Alemanha, os amparem no «regresso aos mercados». No fundo, que tudo seja mascarado como recompensa pela sangria perpetrada. Podem vir a ter sorte, no que isso implica de dividendo político. A situação do país, porém, é tudo menos boa. Cheguei a ouvir esta perspetiva confirmada num debate há tempos na televisão em que alguém do PSD reconhecia que sim, que a situação era séria, mas se os credores a aceitavam, qual o problema? Era aproveitar.

E assim vamos. O programa cautelar será, pois, uma festa. Lembro, porém, que podíamos, sem festejos tétricos, ter seguido um “programa cautelar” há dois anos e meio sem deixarmos a economia de rastos nem pôr milhares de jovens em fuga. Mas não era a mesma coisa. Este mal foi muito melhor. O empenho de Catroga na campanha eleitoral, e ainda agora (como não?), nunca será esquecido.

Se isto é o mal menor, Pedro Tadeu

Comentando a entrevista de Sócrates ao Expresso, Pedro Tadeu escreve hoje no seu artigo de opinião no DN que o ex-primeiro-ministro foi vítima da teoria que defende, segundo a qual governar é quase sempre escolher o mal menor. Pois bem, segundo Tadeu, em 2011, os portugueses não elegeram Sócrates porque puseram em prática uma teoria semelhante e escolheram o mal menor, restabelecendo-se assim a harmonia universal que, pelos vistos, convém à sua consciência. Não duvidando que Pedro Tadeu votou escolhendo o Bem Maior, provavelmente o Partido Comunista, muito gostaria que o jornalista explicasse o quão menor mal foi a alternativa escolhida pela maioria dos portugueses. Muito conformado está este jornalista de esquerda. Mais do que isso. Parece que gosta. Ou antevejo um sorrisinho nervoso?

Eis, no seu esplendor, os últimos parágrafos:

Mas a “ética da responsabilidade” do político, o imperativo ditado pela medição previsível do que produz mais felicidade do que sofrimento implicava – acharam, nessa altura, todos os outros, unânimes – o derrube do Governo. O “chefe democrático que a direita sempre quis ter”, nesse dia, era o produto do mesmo “cálculo do mal menor” que tanto o inspira.

O estudante de Filosofia, sem ética da convicção e sem imperativo categórico, não devia, portanto, queixar-se do resultado final, lógico, da sua tese teórica.

Maria Luís, afinal o que interessa ter em conta?

Através do blogue Massa Monetária ficamos a saber lindas coisas sobre a profundidade da Ministra das Finanças no que respeita às matérias por que é responsável e que tanto condicionam a vida de toda uma população. É ler. Se isto não é uma vergonha, digam-me o que é.

Destaco, como aperitivo, a afirmação de que os multiplicadores não interessam porque a grande maioria das pessoas não sabe o que sejam.

Receita para um idiota

Este orçamento consagra aquilo que já estava previsto na 7.ª avaliação, que é a convergência da Caixa Geral de Aposentações, mas ao mesmo tempo, aumenta as pensões mínimas sociais e rurais de um milhão de pessoas, que são aquelas que não aparecem na televisão, mas são as mais pobres“, sublinhou.

Paulo Portas reagia assim à manifestação de sábado em Lisboa, que concentrou em Alcântara milhares de pessoas, que exigiram a demissão do Governo, num protesto promovido pela Confederação-geral de Trabalhadores (CGTP-In) contra as políticas de austeridade.

Temos então que, se os mais pobres não se manifestam por terem sido contemplados com umas migalhas, o melhor é mesmo aplicar a receita a toda a gente.

COMO ACABAR COM MANIFESTAÇÕES

Receita: Reúne-se um país numa frigideira e assusta-se o mesmo com uma Troika e a falta de alternativa. Reduz-se a generalidade dos salários até níveis insuportavelmente baixos. Vai ao lume. Rega-se com sentimentos de culpa e, de vez em quando, reduz-se a temperatura com pequenos aumentos de miséria. E pronto, entretidos a sobreviverem, os cidadãos deixam-se cozinhar e são muito poucos os que saltam para fora para tomarem consciência do que se passa.

A entrevista que faltava, sem excluir as futuras

Ufa! Com prazer o digo. Finalmente uma entrevista séria, com interesse e informativa. A mediocridade da nossa atual liderança política laranja e dos economistas que os apoiam faz-nos ter saudades de um homem político com conteúdo e interesse. A conversa de José Sócrates com Clara Ferreira Alves hoje transcrita no Expresso é esclarecedora e, já agora, muito boa para esfregar na cara de centenas de ranhosos. É um Sócrates descontraído e liberto dos constrangimentos de um cargo político, que, umas vezes indiretamente pelas palavras da própria entrevistadora, outras em discurso direto e frontal, levanta mais algumas pontas do véu sobre o mais repugnante combate político da nossa história contemporânea, protagonizado por um bando de assaltantes enraivecidos e atiradores sem escrúpulos contra um primeiro-ministro. A reposição de alguns factos através da televisão foi importante, mas não teve o detalhe de uma entrevista a um jornal. São de facto abordados, e com extrema simplicidade desmontados, os mais duros momentos do seu percurso pessoal como primeiro-ministro. Terá alguma vez justificação tamanha agressividade? Pela mão da direita mais abjeta e muitas vezes com a cumplicidade ou o silêncio da esquerda radical, o país alucinou.

A dureza daquele período decorreu de uma situação externa inédita – uma crise financeira que nos apanhou no clube da moeda única -, mas sobretudo dos ataques internos e ad hominem contra Sócrates. Mas o entrevistado não assume o papel de vítima nem é por considerá-lo como tal que aqui exprimo o meu agrado pelas considerações político-filosóficas por ele tecidas e pelos seus esclarecimentos. Evidentemente que tem razões de queixa e, a propósito, chama nomes a algumas criaturas, porque legitimamente o enfurecem. Mas basta ver o estado do país. São totalmente merecidos. De resto, lucidez, convicções, intransigência de princípios e vontade de agir continuam a não lhe faltar. Não compreenderei, cem anos que viva, como pôde o país dar-se ao luxo de dispensar este homem.

Diz-nos que foi um erro ter decidido governar sem maioria naqueles agitados anos que se seguiram ao eclodir da crise financeira internacional. Visto à distância, parece claro. Mas a questão é se poderia não o ter feito. Depois de campanhas e campanhas contra a sua pessoa (incluindo conspirações urdidas em Belém), das quais aliás, passados estes anos, ainda perduram fortes ecos, poderia ter ignorado e desbaratado uma vitória eleitoral? Foi apenas humano não o ter feito. Entretanto revela que a crise das transferências de verbas para a Madeira esteve muito perto de provocar a demissão do Governo (a meu ver, já antes a discussão sobre a carreira docente poderia ter sido um bom motivo para bater com a porta). Não o fez e as circunstâncias inéditas a nível europeu devem tê-lo justificado. Mas se o tivesse feito, ficaria provado para todo o sempre como mentem os aldrabões que a toda a hora o acusam de não ter querido cortar a despesa, de ter mesmo entrado num desvario despesista (dando a entender que eles, sim, queriam cortes, o que é uma rotunda mentira). E ficariam com isso impedidos de mentir como fazem agora apostando na curta memória dos portugueses e concentrando os ofuscantes focos no dramático pedido de ajuda externa. Foi essa a pena. Mas, homem, o combate para evitar esta tragédia em infinitos atos que é a Troika foi teu.

A concertina das «medidas difíceis»

Passos Coelho deu o mote e os seus ministros e secretários de Estado, assim como os papagaios de serviço (era ver só ontem Frasquilho, Marco António, T. Leal Coelho), repetem até à exaustão que o Governo tem consciência de que tomou “medidas difíceis” com o mais recente orçamento de Estado. Mas afinal o que se entende por medidas difíceis?

Serão difíceis de tomar, no sentido de ser difícil decidir tomá-las? Não, alegremente as decidem, como já vimos em momentos anteriores, que registaram para a posteridade imagens de uma ida descontraída e animada de um tal primeiro-ministro a um espetáculo musical depois de anúncio semelhante. O espírito não mudou, provavelmente só a vergonha.

Terão então as medidas sido difíceis de elaborar? Não, claro que não. É só cortar! Parece-me francamente fácil com uma folha Excel, sobretudo para quem acha que o Estado, o funcionalismo público e os reformados só estorvam.

Talvez sejam difíceis de implementar? Também não. Surpreendentemente não são. Os futuros pobres são dóceis, já estão por tudo, possivelmente já se preparam para ir pedir esmola e mandar as filhas servir. Convém não esquecer que a maioria escolheu votar democraticamente por esta espécie de ditadura dupla sem perceber que, na economia de mercado em que vivem, não poderiam jamais ser culpados de níveis de vida imerecidos, pelo que o castigo devia ser inaceitável. Mas não se podem queixar. E o facto é que se queixam pouco. Além disso, há o segundo nível da ditadura – supostamente a Troika – uma espécie de divindade da qual os atuais governantes são o oráculo, que também os cala. Implementação fácil, portanto.

Então, o mais provável é serem difíceis de suportar? Ah isso são, mas não é a isso que o Governo se refere nem é isso que quer dizer quando fala em medidas difíceis, caso contrário teria acabado a frase e encorajado a revolta, coisa que não faz. O «difícil» fica melhor assim a pairar sem nunca verdadeiramente cair sobre uma vítima definida. Suspeito, porém, que se pretende que seja o próprio Governo.

Não sendo, pois, difíceis de tomar nem de elaborar nem de implementar, então as medidas são difíceis porquê? Na realidade, avançar com a palavra «difícil» é uma forma de suscitar um sentimento de compreensão e dó junto de quem sofrerá as consequências de tais medidas em relação a quem não teve alternativa senão impô-las. O pobre do Governo terá, nesta perspetiva, sofrido horrores para se decidir por todos estes cortes. Sem um líder veemente na oposição, possivelmente esta estratégia terá grande êxito. Combinada com a atribuição de culpas ao anterior governo, até pode funcionar. Mas a verdade verdadinha é que o à-vontade com que se tem vindo a empobrecer e a destruir um país porque se foi eleito com maioria absoluta aponta mais e decididamente para o epíteto de «fácil». É tudo fácil. Mais fácil até do que pensavam. As medidas, embora duras para os portugueses, são fáceis de tomar (são tidas como corretas para os neoliberais), de elaborar e de impor. São fáceis do ponto de vista do impositor, mais fitas menos fitas de Paulo Portas (até isso as torna mais fáceis). Embora há mais de dois anos a fazerem asneiras, a primeira das quais foi empurrar o país para o abismo porque já era hora de subirem ao poder, e a não resolverem problema algum, os atuais governantes divertem-se com as palavras e estão convencidos que dão música.

A eterna mão por trás do arbusto levou uma valente reguada…

… e voltou para trás do arbusto.

Lê-se na revista Sábado que Cavaco Silva tentou impedir a candidatura de Rui Moreira à Câmara do Porto, através de pressões sobre Valente de Oliveira, de modo a favorecer a candidatura de Menezes e a vitória do PSD na segunda cidade do país. O espírito de vingança que já tantas vezes nos foi dado observar em Cavaco comprova-se, assim, mais uma vez, se tivermos em conta o facto de Rui Moreira ter sido apoiante da candidatura de Mário Soares em 2006.

O alvo dessas alegadas tentativas de “condicionar” teria sido Luís Valente de Oliveira, de acordo a descrição à SÁBADO de duas fontes próximas de Rui Moreira. Alguém muito próximo de Cavaco Silva terá tentado convencê-lo a não apoiar o independente Rui Moreira. Mas Valente de Oliveira, que é o presidente da Assembleia Municipal de Porto, não se deixou “afectar”, pelo menos tendo em conta o discurso público do novo presidente da Câmara do Porto. O ex-ministro cavaquista (foi 10 anos ministro de Cavaco e integrou o Governo de Durão Barroso) acabou por ser o mandatário da candidatura independente.

Rui Moreira estava convencido que o Presidente da República desejava a vitória de Luís Filipe Menezes, candidato oficial do PSD, por achar um risco para o sistema partidário o sucesso de um independente numa cidade tão importante. Não terá sido indiferente, também, o facto de ter sido o Palácio de Belém a advertir a Assembleia da República para a gralha na lei de limitação de mandatos: onde se lia presidente “da” câmara, devia ler-se presidente “de” câmara, o que poderia originar uma interpretação da lei mais favorável a Luís Filipe Menezes, que atingira o limite de mandatos em Gaia. Daí ter incluído o recado no discurso.

O sucessor de Rui Rio no Porto, que apoiou Mário Soares nas Presidenciais de 2006, foi tendo ao longo dos anos várias intervenções críticas de Cavaco Silva

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Quanto à vitória de Rui Moreira, que significa uma merecida derrota para Menezes e a faceta coelhista/relvista/marco-antonista (e, pelos vistos, também cavaquista) do PSD, estou curiosa por ver como vai exercer tão inesperado cargo. A bem da cidade, espero que corra bem.