Com que então a crise política de julho

Fala-se muito por aí do drama que foi a crise política do passado mês de julho. Fala disso a direita, procurando arrepiar-nos e como pretexto para não mais largar o poder, e também fala disso a esquerda em tom acusador para o Governo, como se não fosse isso mesmo que a oposição desejava, para que a situação pudesse ser clarificada por via de eleições. Enfim. Fala disso, inclusivamente, o FMI, no seu mais recente relatório sobre Portugal (e dando de barato que não foi o Governo português a escrevê-lo, como aconteceu com um documento de há um ano assinado pela mesma instituição, só que agora mais sofisticadamente), no qual adverte que a coligação se deve manter estável, sob pena de.

Ora, se bem nos lembramos, foi Vítor Gaspar o primeiro a romper a “estabilidade” governativa, demitindo-se com uma autocrítica em que reconheceu o falhanço das suas previsões e políticas, que também começavam a suscitar oposição dentro do PSD e de outros membros do Governo. Além da oposição do país em geral. Gaspar era um experimentalista curioso no que a papéis dizia respeito, totalmente irresponsável e um político amador. Deu-se mal com a experiência governativa e foi ele a espoletar a crise do verão, dizendo adeus. Paulo Portas, sempre oportunista, aproveitou para colher alguns dividendos eleitoralistas, arrogando-se o defensor de políticas diferentes, nomeadamente dando a entender que o busílis estaria no modelo das negociações com a Troika, que deveriam focar-se mais na recuperação da economia. Foi por isso que se mostrou intolerante em relação à nova ministra das Finanças, que via, e bem, como continuadora do radicalismo e da bajulação de Gaspar. Mas todas essas visões e atitudes já são história. Das piruetas entretanto dadas nem vale a pena falar. Estão à vista de todos.

Dizer que as taxas de juro da dívida pública começaram a subir devido à anunciada decisão irrevogável de demissão de Portas é um tanto ou quanto questionável. Até parece que tudo estava a correr lindamente até aí e que seriam umas hipotéticas eleições a pôr tudo (ou seja, tudo o que estava a correr tão bem) em causa. E até parece que Gaspar não se demitiu por estar tudo justamente a correr mal. Dizer que o programa de resgate, sob a batuta do ministro das Finanças, não estava a dar qualquer resultado positivo, não melhorando nenhum indicador e aproximando Portugal de um novo resgate, já me parece, pelo contrário, inquestionável e uma razão mais do que plausível para o que se passou naquele verão. Mas esta perspetiva foi simplesmente apagada do espaço público. Para isso contribuiu o peso mediático de Portas. O que se fez entretanto? “Reset” e recomeçou tudo praticamente no ponto onde estávamos, tal qual, apenas com um punhado de novos atores secundários.

O que pretendem, pois, os credores, ou o Governo, para que tudo “continue a correr tão bem”? Nada de diferente. Querem mesmo convencer-nos de que tudo está a correr bem. Um país europeu que tenta resolver os seus problemas equiparando-se ao Bangladesh não tem qualquer futuro, mas, para quem cá não vive ou para os que vão acumulando riqueza à custa da miséria alheia, o que é que interessa?

Eu francamente penso que, chegados aqui, se entrou numa espiral de loucura. Portas e Pires de Lima transformaram-se em soldados obedientes e deixaram de ver qualquer necessidade de fazer diferente. Pelo contrário. A par de um discurso sobre uma viragem, um milagre económico, o pior que já passou, etc., anunciam-se cortes e mais cortes, inclusive para 2015, já depois de o programa ter supostamente terminado. As mentiras continuam a bom ritmo. Maduro está encarregado da propaganda e da desinformação mais desavergonhada, mas também não sabe o que anda a fazer nos intervalos daquela atividade (vejam-se os ziguezagues em relação à RTP). A fuga dos jovens, verdadeira causa da baixa do desemprego, continua a não preocupar minimamente nenhum responsável (nem Crato, nem Coelho, nem ninguém). Fala-se agora em baixar vovamente os salários a toda a gente, e não só aos funcionários públicos, para reduzir ainda mais a procura e dar a última machadada na economia. Está tudo louco? Para distrair as atenções, apresenta-se uma porcaria de documento a que se chama Guião para a Reforma do Estado e, duas semanas depois, anuncia-se que o PSD vai apresentar outro muito melhor. Como e quando vai acabar esta vergonha? Crise de julho? Foi pena não ter ido às últimas consequências.

9 thoughts on “Com que então a crise política de julho”

  1. O Psd vir agora com esta de ir fazer o SEU guião da reforma do estado, e, ainda por cima, vindo da boca do capataz Marco é mais um contributo de peso para a autêntica macacada em que se transaformou a governação de Portugal.

  2. joazinho só dois idiotas??? então e tu, estás com medo de ser eleito por maioria?
    Coisinha, anda lá sê corajoso, entra a votos também…

  3. Apesar de o des-governo ser um saco de gatos, nem
    tudo acontece por acaso, podem ver-se uns laivos de
    esperteza … sim, a inteligência não é o forte deles!
    Muitas das “bocas” com que somos brindados, são
    propositadamente postas a circular ou são lançadas
    com sofisma, não se pode chamar reforma do Estado
    a qualquer acção ou proposta que não mexa na arqui-
    tetura política e administrativa do País … até agora,
    foi zero pois, não interessa mudar o regime, reduzir
    os cargos políticos tãopouco, reduzir o número de
    câmaras existentes, como já se fez com as freguesias!!!

  4. gosto desta forma mais literária de mandá-los (às bestas do desgoverno) largar o vinho:
    “Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual Governo ? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. “Existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé ? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal”.

    António Lobo Antunes

  5. O Lixo bunda anda aqui equivocado: isto não é a barraca da Musgueira onde ele nasceu e “cresceu”.

    Vai dar banho à foca! Ignorante beiçudo. Estás é bom para a degola…

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