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Isto é que vai um sucesso

Aos olhos dos chamados mercados, os programas de ajustamento foram de tal maneira fantásticos que os juros da dívida pública sofreram um trambolhão monumental num curtíssimo espaço de tempo. Quase os ouvimos a guinchar e bater palmas enquanto caem. E não só em Portugal: também na Grécia, na Irlanda, na Espanha, na Itália e em Chipre. Estes acontecimentos deixam o impotente e assaltado cidadão comum (que assiste a isto como quem assiste a um jogo com regras desconhecidas) e, o que é mais interessante, os respetivos governos algo banzados. Não me espantaria que alguns se saíssem com um tão espontâneo quanto disparatado “I’m innocent!”. Ou seja, a surpresa é total, apesar do que se diz em tom bruscamente vitorioso e a bem da propaganda. A real situação económica do país e a sua dívida – ambas muitíssimo piores do que há três anos – e, convém não esquecer, as notações das agências de rating, que não se alteraram, deixaram de ter qualquer importância ou peso na decisão dos investidores. O que dizem agora aqueles que estabeleceram uma ligação direta inegável, incontestável, indiscutível entre as duas e automaticamente extraíram do facto a necessidade de punição? Dizem que era preciso? Pois não era. E com esta dose ainda menos, seus aldrabões, vendedores de banha da cobra.

Isto só prova o quão errada e infeliz foi a entrega do poder a uns direitolas experimentalistas e impreparados, que provocaram e depois abusaram desde a primeira hora de uma situação de contingência e de desnorte e preconceito europeus, e o quão acertado teria sido aguentar os sucessivos PECs até Mario Draghi decidir fazer “whatever it takes” para salvar o euro, decisão que, mais tarde ou mais cedo, teria de ser tomada, dadas as perdas incomportáveis para os grandes países que o fim do euro representaria.

Para além do que perdeu, o que ganha com tudo isto a maioria da população portuguesa? Um futuro melhor? Melhor do que quando? Com base em quê? E em que geração? A verdade é que esse futuro é impossível de descortinar, para quem fica. Agora regressamos aos PECs, mas exangues, com as famílias desmembradas e com o acesso à educação limitado. Uma população jovem qualificada passará a ser coisa do passado. Não é preciso ter um QI superior para perceber quem ganhou com a chegada ao poder destas pessoas e com a gestão que fizeram e continuam a fazer do resgate.

Os cordeirinhos de Wall Street

O Económico publica hoje uma entrevista a um português que trabalha na Goldman Sachs. Pois é. Depois de um brevíssimo período de discrição, a gigante financeira voltou ao Olimpo e anda por aí a procurar repetir que comanda. E onde trabalhava António Esteves antes da Goldman Sachs? Não adivinharam. Na Merril Lynch, que foi à falência na crise do subprime, contribuindo para tudo o que se seguiu, que não foi nem está a ser bonito, graças a fraudes e mais fraudes. Este homem diz-nos agora que, pelas suas altíssimas qualidades, foi, depois do desastre, convidado para a Goldman Sachs, onde é “partner” e, segundo diz, corresponsável pelo desempenho da organização.

Eis como descreve o que aconteceu (bold meu):

“Começo a carreira no Deutsche Bank em 94, em Lisboa. Depois de dois anos e meio passo para o Santander Negócios em Portugal e trabalho até 1998. Nesse ano recebo um convite da Merrill Lynch mesmo antes da entrada em vigor da moeda única. Em 2007, quando rebenta a crise, a Merrill Lynch é das primeiras a serem afectadas e, em 2008, recebo uma série de convites de bancos, sendo que o da Goldman Sachs foi o que mais me atraiu.”

A serem afetadas, disse? Oh, pobre vítima. A bandalheira era o seu core business! Em 2008, afundaram-se com perdas de 8,5 mil milhões de dólares, obrigando à intervenção do Bank of America.

E prossegue, pronto para outra, já todo refeito e penteado no novo emprego, pois não teve nada a ver:

“A Goldman Sachs é um banco que tem a capacidade de atrair o melhor talento que existe (note-se como o talento já andava pela Merrill Lynch). Quando uma instituição tem as melhores pessoas a trabalhar para ela, essas pessoas poderão depois acabar noutros lugares de influência. Isso é normal. Não é por aí que é diferente de outras entidades. Tem é esta cultura de ‘partnership’ em que todas as pessoas são co-responsáveis do que o banco faz.”

Sem dúvida. Todos responsáveis é igual a ninguém responsável. Quanto ao “acabar noutros lugares de influência”, já tínhamos ouvido falar, mas assim está muito mais claro.

E para terminar, ameaçando-nos com a vontade de ajudar:

“Assistimos a muitos casos de pessoas que saem da banca de investimento para o Estado? Pondera dar esse passo?

Não sei. É uma pergunta muito difícil. Neste momento, ainda não. Quero muito ajudar Portugal[…]”

Oh God! Como o saudoso António Borges nos ajudou? Please, não! Ainda há uma diferença grande entre uma instituição financeira, com acionistas interessados em ganhar dinheiro, e uma instituição de ajuda humanitária, que é o que muitos portugueses precisam depois das vossas brincadeiras. Pelo que, do que precisávamos mesmo era de uma empresa de desinfestação.

Claro como breu

A ida de José Luís Arnaut para o conselho consultivo internacional da Goldman Sachs é mesmo muito vantajosa para Portugal, não é?

É lá que este bravo vai lutar pela defesa dos interesses do país, de que é exemplo a privatização dos CTT, não é?

Já António Borges tinha lá feito um bom trabalho em prol não só de Portugal como da economia mundial, não tinha?

Se a situação económica do país melhorar, este governo vai investir na educação/qualificação dos portugueses e na investigação científica, não vai?

O CDS e o PSD governaram tão bem que conseguiram dar a volta e dinamizar a economia portuguesa, foi isso?

Como prémio de tanta competência e sabedoria, os portugueses vão querer vê-los a governar até 2019, não vão?

A falta de aulas ao sábado dá nisto*

Um verdadeiro charlatão (roubado ao Câmara Corporativa)

*Sócrates disse, na RTP1, que soube da reviravolta operada por Eusébio no jogo contra a Coreia do Norte em 1966 depois de chegar à escola, aparentemente num sábado. A polémica suscitada pelos seus opositores nas redes sociais e no CM a propósito das aulas ao sábado está lá para ser vista e gozada, tal a febre e o ridículo.

Correção (9.01.2014)

A palavra “aulas” foi da minha lavra, induzida em erro pelo que se disse por aí. Sócrates, de facto, apenas referiu se referiu à escola. Que havia aulas ao sábado de manhã parece ser verdade (eu própria já existia e nem me lembro). Quanto à parte da tarde, não era comum, mas é evidente que, sobretudo na província, se podia ir para o pátio da escola brincar em qualquer altura. Era o caso na Covilhã, como já foi confirmado (ver DN).

Conclusão sobre a união das esquerdas

O PCP é uno, indivisível, puro, inconspurcável e não coligável. A tomada do poder pela classe operária e os camponeses e a derrota do grande capital só a eles compete. Sentem que têm uma missão histórica da qual ninguém os pode desviar. Coligações? O que é isso? Se pudessem, proibiam as caricaturas, qual seita nossa conhecida. Embora apreciações como a minha não sejam caricatura alguma.

O PS, depois da aventura do Manuel Alegre ao saltar a vedação, tem seguramente mais que fazer do que aturar radicais a mandar lixar a Troika e ainda menos antes de eleições. E sobretudo ainda menos sob a liderança de Seguro, que, sabe-se lá porquê e coitado, gostaria de ser Passos Coelho. Outro líder no PS talvez incentivasse alguma racionalidade e razoabilidade nalguns intelectuais ditos antissistema que gostam de se posicionar “de fora”.

Resta o Bloco. Até há dois anos, o partido reinava no espaço próprio da irreverência. Com Louçã, conheceu a ascensão e também a queda. Entretanto, a liderança bicéfala deixada em testamento permitiu, com a sua reduzida credibilidade, a assunção de ruturas (latentes e previsíveis já há algum tempo) e o partido fracionou-se em três (para já). Uma das frações, o movimento 3D, mesmo antes de se constituir legalmente, já propõe uma coligação com o Bloco e o Livre em próximas eleições. Não sabemos também sequer se o Livre já é oficialmente um partido, embora já haja “desistentes”, a que não podemos obviamente chamar dissidentes. É esta, em suma e na prática, a união das esquerdas. O Bloco dividiu-se para que alguns dos seus membros sem acesso a lugares políticos na configuração atual pudessem a eles aceder. Nada contra. Mas é esta a única nova cisão (que não belisca nem o PS nem o PCP) e a única possível união. Lá entre eles.

Já vomitamos com as mentiras e a hipocrisia

O eurodeputado social-democrata José Manuel Fernandes lamentou esta segunda-feira que José Sócrates continue sem assumir erros, enquanto o eurodeputado do CDS Diogo Feio criticou a ausência de Teixeira dos Santos na reunião sobre a troika em Portugal.

Estas posições foram assumidas pelos dois eurodeputados da maioria PSD/CDS no final de uma reunião entre a delegação da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu com o ex-primeiro-ministro José Sócrates destinada a avaliar o trabalho da troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional).

“Nunca vi José Sócrates assumir erros nenhuns, porque alega que os erros são sempre dos outros, são sempre dos mercados. Na sua perspectiva, só houve troika porque o PEC IV não foi aprovado, mas a verdade é que só houve ‘troika’ porque havia um primeiro-ministro chamado José Sócrates e havia um Governo do PS”, declarou o eurodeputado do PSD.

Após a reunião, que durou quase duas horas e meia, o ex-chefe de Governo socialista (que se encontrava acompanhado pelos ex-ministros Pedro Silva Pereira e Vieira da Silva), recusou-se a falar aos jornalistas.

Na versão transmitida por José Manuel Fernandes, notou-se que o programa de assistência financeira desenhado pelo então primeiro-ministro, José Sócrates, em Maio de 2011, “tinha objectivos que tiveram de ser revistos”.

“Agora, não podemos criticar as revisões pelo facto de se ter desenhado um programa com objectivos irrealistas e inatingíveis. As revisões só foram possíveis graças à credibilidade do actual Governo. As taxas de juro que pagamos agora permitem uma poupança de muitas centenas de milhões de euros”, sustentou o eurodeputado do PSD.

Já o eurodeputado do CDS Diogo Feio referiu que gostaria que a delegação do anterior Governo tivesse integrado o ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos.

O que diriam Diogo Feio e amigos do Parlamento Europeu se José Sócrates não tivesse negociado um acordo com o BCE e a Comissão Europeia tendo em vista evitar um resgate em 2011? Diriam que entregou de bandeja o país às garras dos credores, não era? E com isso ganhavam as eleições! (embora fossem depois obrigados a mostrar divergências em relação à Troika, o que já seria tarefa assaz difícil, tendo em conta a identificação logo declarada com o respetivo programa). E ganhariam de qualquer maneira, quer com o argumento da (negoci)ação – frisando, como frisaram, que produziu um mau resultado (só podia!), o Memorando – quer com o argumento da inação. Era fácil! E apesar disso, não tinham a vitória totalmente certa.

Como o que aconteceu foi um acordo, arduamente negociado, que penalizaria menos Portugal e o qual as gananciosas alminhas fizeram questão de deitar para o lixo ao chumbarem o PEC IV, dizem agora que José Sócrates é irascível e teimoso: não assume culpas nem por nada!

Mas que culpas, seus hipócritas? Não houve uma crise internacional que veio destruir o ajustamento das contas públicas que prosseguia a bom ritmo até 2008? Não houve bancos e empresas a falir e desemprego e apoios sociais a aumentar (fazendo aumentar a despesa do Estado)? Não houve um consenso europeu sobre a urgência de apoiar a economia, para impedir o afundamento da Europa? Não houve depois o caso grego e o problema da banca alemã e da banca em geral, que fizeram inverter bruscamente a trajetória política europeia, passando a impor-se uma austeridade a mata-cavalos, ao mesmo tempo que a especulação prosseguia em torno das dívidas soberanas sem que o BCE interviesse, como acabou por intervir? Que culpas querem que o homem assuma?

Já vocês, pelo contrário… É que nem a mentira descarada que foi a campanha eleitoral assumem!

Quanto à presença ou ausência de Teixeira dos Santos, comprova-se uma vez mais que a única coisa que verdadeiramente interessa a esta gente é a insinuação. Neste caso, a insinuação de que Teixeira dos Santos não esteve presente porque discordaria de Sócrates e era um dos que achavam indispensável a vinda da Troika, o que, a ser verdade (coisa que o próprio já negou), torna absolutamente ridícula a cena do relógio de Portas em contagem decrescente para a garrafa de champanhe. Não se enxergam mesmo.

2014, o ano em que Seguro mais bonés vai apanhar, batendo o record em 2015

No pico do radicalismo à laia de jogo posto em prática por Gaspar, do fanatismo ideológico e elitista de Crato, das mentiras, incompetências e trafulhices deste governo em geral, Seguro mostrou sérias dificuldades em fazer oposição. Tal deveu-se, por um lado, a uma falta de talento natural (e adquirido) para a política, à estreiteza de visão, mas também à decisão, racional ou visceral e psicopatológica, de não defender o legado do seu antecessor no partido, nem sequer o governo anterior no seu conjunto, sobretudo face aos ataques de que foi (e é) constantemente alvo da parte da atual maioria, que os utiliza para ir impondo o seu programa nunca realmente sufragado. Calando-se nesta matéria, Seguro consente. E consentindo, torna-se um aliado do atual governo numa questão crucial – a da atribuição de responsabilidades e consequente discurso sobre a alegada tarefa hercúlea de saneamento de Portugal nas mãos de quem assumiu o poder – o eleitorado embarca nos propalados méritos, come isto tudo, e ainda mais regaladamente com o «molho» que a ajuda do atual PS constitui. Não ocorreu a Seguro que tal estratégia de aliança sub-reptícia estava condenada ao fracasso no longo prazo? Ou pensa que esta gente anda a dormir como ele?

Se a sua opção fosse racional, poder-se-ia pensar que esperaria lucrar com o distanciamento em relação a um primeiro-ministro (Sócrates) e a um governo, do seu mesmo partido, que a direita conseguiu denegrir aos olhos do eleitorado, vilipendiar, caluniar e finalmente vencer por métodos e técnicas de uma baixeza nunca dantes observada por cá. Seguro estaria a apresentar-se não como anticristo, mas como anti-satanás, o que aparentemente, e a seus olhos, é bom. Sendo o Satanás um seu correligionário, pense-se nisto e no muito que nos diz sobre a autoconfiança e, mais importante, a nobreza de atitudes que dela não pode estar desligada.

Acontece que, chegados a 2014, o ano em que se comemora o terceiro aniversário da escandalosa, e irremediavelmente trágica para tantos, ida ao pote de Passos, Catroga e amigalhaços, e em que, com a solidariedade discursiva dos donos da Troika, o atual governo se prepara para lançar a mais ruidosa e festivaleira campanha de encerramento do programa de assistência – este encerramento sim, uma verdadeira farsa-, lucrou Seguro verdadeiramente alguma coisa? Basta acompanhar as sondagens e, a partir de agora, ainda com maior interesse. Para nossa desgraça. Se os 37% não foram ultrapassados até agora, apertem os cintos para a descida… Muitas vezes o temos visto, e os seus mais próximos colaboradores, atarantados antes de se verem forçados a sair da modorra da oposição «elegante», nas suas próprias palavras, e reagir a esta ou àquela medida ou declaração do Governo. Normalmente, precisam de 24 a 48 horas para articularem uma resposta, a qual, salvo raríssimas exceções, sai forçosamente frouxa e ao lado do que interessaria.

Agora, perante a orquestrada euforia governativa a que assistiremos ao longo do corrente ano, em preparação das eleições legislativas de 2015, vai ser penoso assistir ao desnorte da criatura Seguro. Será que ainda o vamos ver a implorar à atual maioria que o aceite numa coligação tendo em conta os bons serviços prestados? E a amuar se o mandarem dar uma curva? A verdadeira tarefa hercúlea tem-na o PS para evitar o vexame. Vá lá, gente, têm pouco mais de um ano para evitar mais quatro disto.

Um bom novo ano num certo país europeu

Se é enternecedor para quem vê, assim, de fora, esta fascinante orquestra, a pobre realidade que tal engenho despertou não deixa de ser triste. Mesmo muito triste para quem, não estando lá, já viu melhor, muito melhor, noutras partes do mundo – boas condições de estudo, bons instrumentos, boas salas de espetáculos, boas carreiras, bons ordenados.

Segundo o recente livro “Porque falham as nações” (de Daron Acemoglu e James A. Robinson), publicado este ano, a razão por que os países não prosperam prende-se com a sua organização política e económica. Esta tese não é obviamente nova, mas é detalhadamente demonstrada pelos autores, sendo o contexto mundial também particularmente propício a questionamentos destes. O desenvolvimento, o crescimento e a distribuição dos escassos recursos nunca foram tão discutidos.

Pode concluir-se, à luz dessa tese, que no país em causa – o Paraguai – têm existido, nas palavras dos autores, instituições extrativas – ou seja – com a missão de sugar o povinho em proveito de poucos e para perpetuação destes mesmos no poder – em vez de uma organização política e económica inclusiva – ou seja, aberta, democrática, com concorrência e com instituições fortes que defendam a propriedade, as liberdades e o direito (nada a ver com comunismo, como se poderia pensar ao mencionar-se a exploração do Zé povinho)? Se a pergunta exigir um sim ou não, a resposta é claramente sim, pode. Dizem-nos os autores que esta é a principal, se não a única, fonte de desenvolvimento e crescimento sustentado dos países. Podendo haver aqui uma abordagem algo simplista e demasiado generalista do mundo (a leitura do livro ainda prossegue), é pelo menos e para já positivo apontar-se uma causa constatável e aparentemente demonstrável e, por consequência, uma solução para um mal que parece eterno. Basta pensar no continente africano (e sim, o colonialismo é obviamente abordado), mas também nas duas Coreias.

Quanto à economia de casino, às jogatanas financeiras e às organizações monetárias que podem provocar a ruína atual de nações aparentemente prósperas, espero, em sentido literal, um dos próximos capítulos. Voltando à falta de meios que o vídeo nos recorda, para onde caminha Portugal no início de 2014? Se é certo que a possibilidade de emigração para a UE e algum assistencialismo de índole caritativa impedem que milhares de pessoas sejam obrigadas a encontrar o que precisam em lixeiras, não é admissível no mundo civilizado em que nos inserimos que deixem de haver subitamente meios de sobrevivência para muitos porque os tais muito poucos andaram a divertir-se com jogos que decididamente não fazem a prosperidade das nações ou porque se criam uniões monetárias que blindam as defesas de apenas alguns membros, se não de um só. A maioria dos portugueses que ficaram no país está hoje mais pobre.

Porque a música é precisa, passaremos a construir instrumentos musicais com latas velhas por razões que não propriamente a reciclagem e a preservação do ambiente?

Um bom ano para todos!

Se são isto comentadores

Possivelmente ninguém viu. Eu, por mero acaso, vi e fiquei incrédula. Quem é Joaquim Aguiar? Quem é esta nódoa? No jornal do Crespo, há pouco mais de meia hora, até fez o pegajoso jornalista parecer um “questionador” decente. É que não disse uma que jeito tivesse. Para aguçar a vossa curiosidade, os temas eram: o caso da Guiné, a mentira sobre o número de empregos criados, os estaleiros de Viana, o euro e o nosso défice externo, o ex-governador do Banco de Portugal e atual vice do BCE, etc. Quem quiser ver o triste espetáculo de um homem a debitar inanidades em direto faça favor de dar uma espreitadela à SIC Notícias.

Bagunça «crática» no ensino

Nota prévia:

Atendendo a que parece haver falta de credibilidade e de qualidade nalguns cursos que formam professores (e ao mesmo tempo necessidade de desviar do ensino um certo número de pessoas com estudos nessa área, seja ou não justificável), não me repugna por aí além a realização de uma prova que avalie diferentes competências, como a capacidade de raciocínio, o domínio da língua materna, a capacidade de interpretação, a cultura geral, etc., para além, claro está, dos conhecimentos específicos sobre a ou as disciplinas que se pretende lecionar. Claro que essa prova deve idealmente ser realizada no início da pretendida carreira, para evitar desastres como os que fui obrigada a constatar e a remediar quando a minha filha frequentava a primária e depois o então ciclo preparatório (há uns bons anos). Mas, se o mal está feito (a fraca exigência de alguns cursos), e independentemente disso, a qualidade profissional de quem já se encontra a lecionar deve ser avaliada permanentemente, e na prática letiva quotidiana, por quem esteja habilitado a fazê-lo e, evidentemente, numa perspetiva construtiva. Para quem já leciona há vários anos, não será certamente uma prova pontual de estrutura duvidosa o melhor método. Fui professora uns anos e tenho bem a noção de como é necessária a avaliação «no terreno», ou simplesmente a partilha aberta de experiências e métodos. Assim como conheço as (más) razões por que a esmagadora maioria dos professores não quer assistência às suas aulas (lembramo-nos dos expedientes vários invocados no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues). Até agora, têm podido opor-se. Mas não devia ser assim. Hoje em dia, quem é que pode ainda recusar-se a ser avaliado no seu trabalho?

Mas passando ao que aqui me traz. Não é da avaliação «no terreno» que hoje se tratou. Essa parece jazer em sossego. A ideia da prova decidida por Crato é restringir o acesso à profissão, começando por abri-la apenas (e aparentemente para a constituição de uma lista de reserva) aos que provem ter mais destreza intelectual e competências várias, afastando os menos bem preparados. Via Twitter, tive oportunidade de ver o enunciado da prova hoje realizada e que foi, na maioria dos casos, boicotada. Não contesto o boicote. A meu ver, o tipo de prova é mais do que discutível. Podem aceder aqui, no site da RTP, à versão em PDF. Começando por notar a excessiva facilidade dos textos e das perguntas de interpretação, noto também que praticamente uma em cada três perguntas tem a ver com cálculos ou raciocínios matemáticos, nos quais se incluem, estranhamente, a elaboração de horários de turmas ou a garantia de equilíbrio das refeições das cantinas. Ora, isto é trabalho de gestão ou administrativo numa escola. E não é de todo por aí, de certeza, que se pode atacar a suposta má qualidade do ensino ou dos seus agentes. Não me parece, pois, admissível a inclusão deste tipo de perguntas. Deve haver, por esta altura, programas informáticos que distribuam inteligentemente os vários professores pelas várias disciplinas das turmas, não? Impossível que não haja. Por outro lado, por que razão, para provar que se tem qualidades para ser professor, ou seja, para lecionar, é preciso um indivíduo demonstrar conhecimentos administrativos, como a elaboração de horários e turmas ou estatísticas bibliotecárias? Ao mesmo tempo, muitas dessas perguntas pareceram-me mais típicas de testes psicotécnicos, só que aplicadas ao contexto escolar. No entanto, curiosamente, aplicadas a vertentes improcedentes do ponto de vista da profissão, e portanto abusiva e artificialmente transpostas, pois não têm nada a ver com competências pedagógicas ou científicas, como é o caso das cantinas ou do trabalho administrativo. Nesse caso, se a ideia é um modelo de perguntas tipo charadas, associações ou avaliação de conhecimentos gerais, porque não fazer, numa primeira parte, um teste psicotécnico puro e duro, daqueles que servem claramente para filtrar/eliminar candidatos e, numa segunda parte, perguntas mais especializadas, incidentes na área de conhecimentos do candidato (literatura, matemática, história, língua estrangeira, desporto, etc.)? É que assim é uma salsada, em que decerto se «safarão» muito melhor, mas injustamente, os candidatos das áreas de ciências.

Em suma, compreende-se que haja provas de ingresso eliminatórias, sobretudo quando os interessados são em número excessivo em relação às vagas existentes numa determinada profissão (eu própria tive que me submeter a uma). Mas têm que ser, pelo menos, feitas com pés e cabeça e, de preferência, e neste caso, na altura certa. E sobretudo que não dispensem ou substituam a avaliação regular, rigorosa e séria (ou seja, com consequências em caso de comprovada incompetência) no quotidiano.

Mas, com base no desempenho geral e não apenas nesta medida, parece que quem está a necessitar de uma avaliação de competência para o cargo é mesmo Nuno Crato.

Um tiranete inseguro, passe a redundância

Ponham Rui Rio a falar mais do que o habitual e fora dos locais habituais e depressa a aura de político social-democrata competente, potencial primeiro-ministro de qualidade, se desvanecerá. É ver nos últimos dias o conjunto das suas declarações. O jornal i traz hoje a súmula das mais recentes. Já há uns dias, quanto a ser candidato a líder do PSD (uma pergunta legítima, dadas as suas recentes posições críticas), disse que “não está para aí virado” – uma expressão com tendência a aproximar-se, com o tempo, de uma tal “sai-lhes do lombo” – e, se alguma vez deu a impressão de contestar o atual governo, desenganem-se. Ele até os compreende. No entanto, apesar de não lhe apetecer entrar em desafios políticos, admitiu que, se as circunstâncias a isso o obrigarem, ponderará a hipótese. Quais circunstâncias? Dados os abusos que têm sido cometidos pelo atual governo e o estado do país, que mais falta? No PS não há eleições à vista, nem possibilidades de desafiar a liderança nos tempos mais próximos sem correr o risco de cindir o partido. Mas no PSD até há. Daqui a um mês e meio.

Ontem, segundo o i, declarou Rui Rio que esta história de as decisões políticas terem que estar dependentes do Tribunal Constitucional deveria acabar. É para ele, presumo eu, um atraso de vida. Minutos depois estava era a referir-se à profusão de providências cautelares a propósito de decisões políticas. Política e justiça não devem misturar-se, acha ele. Ah, mas reconhece que há interação entre as duas no que às funções do Constitucional diz respeito. Uns passos depois e afinal não, era mesmo ao Tribunal Constitucional que se referia. Isto do escrutínio da legalidade não pode ser. E o tempo que se perde? Se calhar, a Constituição deve mesmo ser revista. Mas esperem lá, a que está também não obsta a consensos. E por aí fora, se e enquanto tiver microfone. Ver alguém com fama de atilado perder o fio à meada não é bonito.

Diz ainda coisas bombásticas e anti-partidos, como esta (e cito o jornal): “Os partidos “não põem cá fora o que a sociedade precisa, mas o que os partidos necessitam para funcionar” (podendo ser verdade, faltam exemplos e nomes de partidos). O risco desta crise de regime, diz mesmo Rio, é o de o país cair numa “ditadura sem rosto”, com o regime a “degradar-se lentamente. Sem nos apercebermos vamos perder a democracia e entrar numa ditadura“. Bom, mas isto é devido ao mau funcionamento dos partidos ou ao esmagamento da política pelos interesses financeiros? Já para não falar dos problemas da Europa e dos desequilíbrios de poder, dimensões normalmente esquecidas.

E enigmáticas, como esta: “E apontou mesmo a duas variáveis que estão sob o foco geral: a dívida e o défice, que garante terem aumentado pela incapacidade dos políticos resistirem.” Quais políticos? E resistirem a quê?

Pela amostra, pois, não é difícil imaginar o que seria a sua ascensão à liderança de “um clube maior” do que a cidade do Porto. Refiro-me ao país. Na falta de certezas institucionais e de uma cultura democrática que implica “fair-play”, assim como de ideias sólidas sobre o que pretende para Portugal, depressa este homem descambaria num tirano, bem capaz de começar pela censura, à primeira crítica, como fez na câmara. De facto, o PSD parece só apresentar disto. Disto ou do género de criaturas que se autopromovem idolatrando a cutura Goldman Sachs, talvez porque dá “pedigree“.

César das Neves proximamente doméstico

Então reza assim a última crónica de César das Neves: fazer biscates se não se render na escola, ser sacerdote ou ser dona de casa não tem nada de desprestigiante. É pena que nestes tempos se valorize demasiado o emprego (€) em detrimento da “função” (0€). Se as mulheres ficassem em casa a cuidar dos filhos, não só a fecundidade aumentava (este tema é recorrente) como também não se rebentava com a caixa da segurança social. Por outro lado e também por esta mesma razão, os velhos não deviam ficar em casa; deviam ir trabalhar (aqui não se percebe se em modo “função”, dadas as limitações, se em modo “produção”, mas não importa).

Veja-se a salgalhada desta passagem, que acaba por ser bem-vinda, pois este tipo de prédica é melhor que nem se perceba:

«A era moderna, no entanto, confundiu função com emprego, o que gerou males, sobretudo nos mais vulneráveis. Idosos, estudantes, crianças, donas-de-casa, como artistas, políticos, sindicalistas, sacerdotes, têm funções decisivas, apesar de não terem emprego. Num tempo economicista, que liga personalidade à produção, perdem dignidade

Desde quando é que os estudantes, os artistas (como se não tivessem um emprego) ou os políticos perdem dignidade? E como vamos acreditar que César das Neves considera os artistas (não são todos uns galdérios, tirando os que tocam oboé?) e os sindicalistas decisivos? Saberá entretanto que são pagos ou, mais uma vez, não importa?

Eu só posso admitir que este homem, se teve filhos, os tenha encaminhado para as profissões (ou será ocupações?) dignas que recomenda para os outros e que não exigem mais do que o nono ano de escolaridade, ou nem isso, que há miúdos mesmo burros. E, se teve filhas, que tenham aprendido a tocar piano, a falar francês, a bordar e a preparar o enxoval. As mais feias, devem estar a caminho do convento, que ainda os há. Assim, pelo menos para ele, o mundo será mais harmonioso. Será? Suspeito que a “harmonia” que preconiza para os outros não seja a almejada lá em casa. É bom ditar a ordem do mundo quando se está por cima.

Depois de ler isto, peço encarecidamente a algum jornalista que, na próxima intervenção pública desta pessoa, lhe pergunte se, sem desprimor, não tem roupa para passar em casa.

Abrenúncio! E eu que até gramo os Nokia

Na página da revista The Economist dedicada à União Europeia (Charlemagne), lê-se que o atual comissário Olli Rehn, o inefável finlandês da lenga-lenga “Portugal is on the right track” mas precisa sempre de “structural reforms”, “fiscal consolidation”,etc., porque os trabalhadores ainda ganham demasiado (“adjustment needed”), vai candidatar-se ao Parlamento Europeu no próximo ano. Segundo a revista, um dos seus objetivos será garantir o apoio dos liberais para se candidatar também a presidente da Comissão Europeia.

Não nos faltava mesmo mais nada. Já é mau demais este senhor ter ocupado a pasta dos assuntos económicos nos últimos anos, mas pretender levar o pior da arrogância e inflexibilidade nórdica para a presidência da CE é querer continuar a pisar-nos, agora com uma bota cardada e insígnias de general.

“Olli Rehn, the economics commissioner who has been at the centre of the euro crisis, has announced that he will run for the European Parliament, partly in hopes of being chosen as the liberal alliance’s lead candidate to be the next commission president.”

For god’s sake!

Resta-nos que do querer ao poder ainda vai uma longa distância. Não tenho, porém, dúvidas de que o nosso atual governo não se incomodaria nada com isso. Adoram tanto o chicote (na arraia miúda, claro, não neles), que decidiram mostrar-lhes desde o início que sabem fazer melhor. Por eles, ó Olli, olé!,já ganhaste.

Morder por morder

O que leva um indivíduo, neste caso Daniel Bessa em entrevista ao jornal i, a dizer coisas deturpadas como esta:

Isso faz-me lembrar uma conversa do antigo primeiro-ministro José Sócrates, lá na frente de estudantes, em França, de que só as crianças é que acreditam que as dívidas dos estados são para pagar… Eu questiono uma afirmação destas, sobretudo num contexto que é, em qualquer caso, um contexto educativo, mesmo com estudantes mais velhos. Há alguma falta de pudor numa afirmação destas e não posso educar ninguém no princípio de que as contas não são para pagar ou estou a criar monstrinhos que depois toda a gente irá desprezar e ninguém levará a sério.

Para logo de seguida dizer coisas corretas como esta:

Claro que a dívida, dos estados e das empresas, é para ir pagando. Se olhar para a história das grandes empresas, uma EDP, uma PT ou uma Sonae – estou a falar de cor mas não devo estar a errar muito -, à medida que crescem a dívida também cresce. A ideia de que me endivido e vou pagar em gestão não existe, na medida em que a dívida vai rolando. Mas tem de ser sustentável

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Como é sabido, as palavras então proferidas por Sócrates não se ficaram pelo “não pagar” da primeira pseudo-citação de Daniel Bessa. Lembro que a ideia era que não é para pagar de uma vez só e por completo, evidentemente. Nenhum país jamais o fez ou fará. E é precisamente o resto do que Sócrates na altura afirmou que Daniel Bessa reproduz logo de seguida, embora sem hombridade. As dívidas dos Estados “gerem-se”. Mas o ferrão tinha que soltar-se, não tinha? Há pessoas que ficaram perturbadas como nunca sonharam e precisam dos Media para escoar os fantasmas.

Quanto ao critério do jornalista de dar destaque, em subtítulo, à primeira declaração, já nem vale a pena procurarmos a explicação. A ética do Correio da Manhã marca uma época.

A parolice do nosso regresso «a mercado». Apreciação linguístico-moral

Já não é a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira que ouço Passos dizer que Portugal pensa “regressar a mercado” na data tal. Esta maneira de falar suscita-me algumas considerações. Que Passos fala mal a sua língua materna (e não é que fale melhor outra), já tivemos disso várias provas. Mas esta maneira gramaticalmente errada de se expressar parece-me mais do que um mero uso incorreto e ignorante da língua. Não acredito que não saiba que tem ao seu dispor, em português, a expressão «regresso ao mercado» (ou «ao mercado da dívida» ou «aos mercados», etc.). A prova de que sabe que tem é que, quando esquecido da pose, é capaz de utilizar, e já o vi utilizar nas mesmas declarações, alguma das alternativas.

A meu ver, trata-se de uma tentativa para parecer muito instruído, muito literato em inglês, aquela cabeça cheia de profundíssimas leituras económicas na fonte. Esta atitude leva-o a preferir, pois, a snobeira parola de uma neo-expressão atamancada à preservação dos seus próprios tímpanos e dos nossos. Ainda por cima ele, que até parece ter bom ouvido. Enfim, podia simplesmente evitar o ridículo. Mas não.

É também prova de que, a ler alguma coisa, se ficará frequentemente pelos títulos – que, por definição, têm tendência a ser sintéticos. Por exemplo, se olharmos para este artigo, escolhido aleatoriamente, veremos como no título se menciona um «return to market», mas no corpo do texto se utilizam expressões como «full access to the bond market» ou «access to the debt market». Escusado será dizer que a própria língua inglesa dispensa muitas vezes os artigos definidos, o que não significa que, quem traduz, tenha de obedecer à mesma lógica. E, neste caso do alegado primeiro-ministro, exibe-se claramente, quiçá orgulhosamente, uma tradução.

Deixo, pois, a minha vaia a este novo-politiquismo e o desejo (propositadamente mal expresso) de que o personagem regresse a lar, a escola, em suma, a olho da rua o mais depressa possível.

Fixem bem: já citamos Ricardo Arroja

Sobre a subconcessão dos EN de Viana do Castelo, e assente a espuma das explicações de Aguiar Branco (os jornalistas de serviço à conferência de imprensa de ontem estavam francamente hipnotizados ou tinham-se esquecido de estudar o assunto), há amigos do Governo que não deixam de estranhar a decisão e o processo.

Isto dito, parece-me ilógico que o Estado se revele disponível para injectar de imediato 30 milhões de euros, com a finalidade de financiar despedimentos, e sanear de uma só assentada, uma empresa cuja subconcessão até 2031 lhe renderá apenas um total de 7 milhões (um montante nominal que apenas será real se a renda paga pela concessionária for actualizada anualmente à taxa de inflação). A operação só faria sentido se o valor actual das rendas fosse superior aos custos de liquidação ou de saneamento da sociedade, incluindo as indemnizações laborais – o que não parece ser o caso. É, pois, motivo para questionar: assumindo que os concorrentes eventuais sabiam que o Estado estaria na disposição de suportar o legado laboral dos ENVC, permitindo o seu redimensionamento (e lucro?) imediato, por que razão não conseguiu o Governo atrair mais interessados para a subconcessão? E, por conseguinte, não tendo conseguido maximizar o valor da renda, por que razão avançou o Governo? Com os dados que são públicos, o Executivo teria feito bem em proceder de imediato com a reestruturação orgânica e financeira dos ENVC, conforme previsto já pelo anterior Governo, aguardando no entanto por um veredicto definitivo sobre as ajudas de Estado, e só depois avançando para a reprivatização ou para a subconcessão.

Vitorino e os 37%

Numa entrevista à TSF, na qual foi questionado sobre a aparente incapacidade de o principal partido da oposição descolar nas sondagens, Vitorino considerou “surpreendentes” algumas das críticas feitas à liderança socialista. “Porque, se olhar para o panorama europeu, o único Partido Socialista que está na oposição e que tem uma indicação de voto na ordem dos 37% é o PS português. O que se aproxima mais deste número é o Partido Trabalhista inglês, que tem 33%. Se olhar aqui para a vizinha Espanha, o PSOE tem 28% de indicações de voto. E o próprio SPD alemão, que acabou de disputar eleições, teve um resultado bastante medíocre de 26%, isto é, três pontos acima do que tinha tido nas anteriores eleições”, sustentou. O reparo do antigo responsável político surgiu um dia depois de o ex-Presidente ter dito, no lançamento de um livro que, “se o PS fosse um bocadinho mais activo, tinha 90%, com certeza”. Ainda assim, o ex-comissário europeu reconheceu que “o PS, neste momento, não é ainda a alternativa que pudesse motivar uma alteração radical do panorama político português”.

[…] E deixa um aviso que é dirigido também (e muito) aos que no PS têm levantado a voz para usar como bandeira os falhanços do Governo: “Para a credibilidade do país, é necessário que não se suscite qualquer dúvida sobre a capacidade que temos de pagar a dívida.”

Fonte: Público

Ressalvando a defesa da independência do Tribunal Constitucional, as declarações de António Vitorino (AV) são um bocado estranhas, mormente no que respeita à dívida. Achará AV que, por este caminho, teremos capacidade para a pagar integralmente? Mistério. Sobre a crise, parece não ter nada a dizer sobre a (defeituosa) arquitetura do euro nem sobre o peso que ela exerceu na violência do embate e o que continua a exercer na nossa capacidade individual para a ultrapassarmos. Parece alinhar pelo discurso dos impotentes ou conformados que entendem que é “comer e calar”, como se estivesse tudo bem com o BCE e com a arrogância alemã, que entretanto não quer abandonar o clube do qual somos sócios. Também parece não lhe ocorrer nada de crítico sobre o agravamento de uma crise nacional já de si agravada pela irresponsabilidade de quem deitou borda fora o apoio europeu negociado por Sócrates, agravamento provocado pelas experimentações do Gaspar, como se a continuação do saque aos salários e pensões nada tivesse que ver com, nem fosse a correção de, estrondosos falhanços de quem ambicionou ir além do que lhe era pedido. Parece, enfim, nada ter a contestar às políticas punitivas de quem manda na Europa, como se fosse aceitável que as decisões tomadas face aos erros, trafulhices e abusos cometidos pela Grécia (onde a irracionalidade europeia começou) pudessem ser generalizadas a todo e qualquer país e como se fosse desadequado reclamar outro tratamento. De joelhos, portanto.

Mas vamos à sua afirmação de que, e nas minhas palavras, “muita sorte têm os socialistas portugueses de ainda terem 37% nas sondagens, porque noutros países europeus, etc., etc.». Contextualizando estas afirmações, ou seja, atentando a que foram proferidas na sequência das afirmações de Mário Soares a exigir mais ao PS, dir-se-ia que AV vê não só no atual Governo português um conjunto de pessoas perfeitamente respeitáveis, competentes, sinceras e patrióticas, enfim normais (como os outros governos de direita europeus a que indiretamente se refere), como também em António José Seguro um líder à altura das circunstâncias, ou, pelo menos, possuidor de muitos méritos. Mas será que vê mesmo isso, ou que quer que outros o vejam (a AJS) assim? Cada um que especule.

E, a propósito, convém perguntar o seguinte: os 37 % serão por causa do Seguro ou apesar do Seguro? Ou serão independentes do Seguro? Bom, é evidente que, quem acha que são por causa do Seguro pode ter duas apreciações subjacentes: (1) que é uma belíssima percentagem de intenções de voto ou, pelo contrário, (2) que se trata de uma percentagem muito baixa relativamente ao que poderia e deveria ser, tendo em conta o tipo de governo que temos. Vitorino parece comentar a situação com base na primeira apreciação. Assim sendo, revela, entre outras coisas, pouca ambição e, pior do que isso, pouca convicção quanto às virtudes da social-democracia ou sequer de uma alternativa ao atual governo. De passagem, lá reconhece que o PS não é ainda uma alternativa verdadeira. Pois não. Voltamos, então, ao princípio: se fosse, teria com certeza mais intenções de voto. Não podia deixar de ter. E o líder não tem nada a ver com isso?

Não me esqueci da hipótese de o PS obter 37% independentemente do Seguro. Esta hipótese remete para a séria possibilidade de a alternância entre os dois maiores partidos poder estar enraizada nos eleitores portugueses ao ponto de, na sua maioria, confiarem ora num ora noutro para a gestão do país. Nesse caso, tanto faria lá estar Seguro como Juvenal Nabiça. A mudar, os eleitores não optam pelos partidos radicais da extrema-esquerda. Mas é legítimo perguntar: não seria melhor ambicionar uma maioria clara? Não faria diferença outro tipo de liderança? É evidente que faria. Mas Vitorino lá terá as suas razões para consolar o Seguro.

Entrevista de Sócrates ao JN

Recomendo muito esta entrevista (em vídeo) de José Sócrates ao Jornal de Notícias. Longa, é certo, mas, por isso mesmo, detalhada. Além de bem disposta. Desde que “tomou a palavra” em Portugal, José Sócrates acrescenta sempre mais interesse às declarações iniciais. A situação política, é certo, também vai evoluindo (ainda que retrocedendo). Pelo que, felizmente, haverá sempre algo a discutir. Civilizadamente. Polemizar assim vale a pena.

Top 5 (do disparate e do absurdo)

1. Cortar a partir dos 675 euros é melhor do que cortar a partir dos 1500

O corte de salários na Função Pública, que deve começar nos 675 euros (apesar de o Governo ter proposto que começasse nos 600 euros) “convoca com mais equidade e justiça um colectivo de trabalhadores da Função Pública”, garante Hélder Rosalino. Trata-se de “uma medida mais justa e equitativa do que a medida que vigorava desde 2011” (acima dos 1500), que “libertava mais de 50% dos funcionários públicos”.

2. Pois podem, mas só se assim o entenderem

Centristas (CDS) consideram que a subida do salário mínimo é uma “falsa questão”, porque as empresas podem subir os salários se assim entenderem.

3. Continuam as pressões sobre o TC. E ainda, se não houver austeridade, não se cresce e não se cria emprego (!)

A Comissão Europeia escreve que “não pode excluir-se o risco de novas decisões negativas por parte do Tribunal Constitucional”, o que “pode tornar os planos do governo de total acesso ao mercado a partir de meados de 2014 significativamente mais difíceis de atingir”.
E ainda “o Governo tem uma “margem de manobra que está a encolher rapidamente” no que diz respeito à apresentação de medidas alternativas às que o Tribunal Constitucional poderá, eventualmente, reprovar. Isso poderia representar “riscos crescentes para o crescimento e emprego e reduzir as perspectivas de um regresso sustentável aos mercados financeiros”.

4. Entretanto, em Bruxelas, Olli Rehn diz o que não faz nem vai fazer.

>”Na apresentação, perante a comissão parlamentar de Assuntos Económicos, da “Análise Anual do Crescimento” publicada pela Comissão na semana passada – o documento que aponta as prioridades económicas de Bruxelas -, Olli Rehn afirmou que é necessário “prosseguir uma consolidação consistente das finanças públicas”, mas admitiu haver espaço para um abrandamento da mesma.
“Reduzimos para metade os nossos défices nos últimos dois, três anos, e podemos agora permitirmo-nos abrandar o ritmo da consolidação“, disse.

Veja-se agora a lógica disto com o que se segue.

5. Tão bem que estamos, segundo Olli Rehn, não estamos?

Financial Times (FT) cita alto responsável da troika num artigo sobre a possibilidade de Portugal precisar de um segundo resgate.

Conta o jornal britânico, num artigo com o título “Portugal à beira de um segundo resgate?”, que vários responsáveis de topo das instituições internacionais duvidam que uma linha de apoio possa ser suficiente para Portugal sair do resgate de uma forma suave e que o país consiga escapar a um segundo resgate internacional.

Eventuais chumbos do Tribunal Constitucional, elevadas reembolsos de dívida nos próximos anos e juros em “níveis dolorosos” praticados em mercado secundário são algumas das razões apontadas por fontes dos credores para sustentar as dúvidas quanto à necessidade de um segundo resgate.