Já vomitamos com as mentiras e a hipocrisia

O eurodeputado social-democrata José Manuel Fernandes lamentou esta segunda-feira que José Sócrates continue sem assumir erros, enquanto o eurodeputado do CDS Diogo Feio criticou a ausência de Teixeira dos Santos na reunião sobre a troika em Portugal.

Estas posições foram assumidas pelos dois eurodeputados da maioria PSD/CDS no final de uma reunião entre a delegação da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu com o ex-primeiro-ministro José Sócrates destinada a avaliar o trabalho da troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional).

“Nunca vi José Sócrates assumir erros nenhuns, porque alega que os erros são sempre dos outros, são sempre dos mercados. Na sua perspectiva, só houve troika porque o PEC IV não foi aprovado, mas a verdade é que só houve ‘troika’ porque havia um primeiro-ministro chamado José Sócrates e havia um Governo do PS”, declarou o eurodeputado do PSD.

Após a reunião, que durou quase duas horas e meia, o ex-chefe de Governo socialista (que se encontrava acompanhado pelos ex-ministros Pedro Silva Pereira e Vieira da Silva), recusou-se a falar aos jornalistas.

Na versão transmitida por José Manuel Fernandes, notou-se que o programa de assistência financeira desenhado pelo então primeiro-ministro, José Sócrates, em Maio de 2011, “tinha objectivos que tiveram de ser revistos”.

“Agora, não podemos criticar as revisões pelo facto de se ter desenhado um programa com objectivos irrealistas e inatingíveis. As revisões só foram possíveis graças à credibilidade do actual Governo. As taxas de juro que pagamos agora permitem uma poupança de muitas centenas de milhões de euros”, sustentou o eurodeputado do PSD.

Já o eurodeputado do CDS Diogo Feio referiu que gostaria que a delegação do anterior Governo tivesse integrado o ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos.

O que diriam Diogo Feio e amigos do Parlamento Europeu se José Sócrates não tivesse negociado um acordo com o BCE e a Comissão Europeia tendo em vista evitar um resgate em 2011? Diriam que entregou de bandeja o país às garras dos credores, não era? E com isso ganhavam as eleições! (embora fossem depois obrigados a mostrar divergências em relação à Troika, o que já seria tarefa assaz difícil, tendo em conta a identificação logo declarada com o respetivo programa). E ganhariam de qualquer maneira, quer com o argumento da (negoci)ação – frisando, como frisaram, que produziu um mau resultado (só podia!), o Memorando – quer com o argumento da inação. Era fácil! E apesar disso, não tinham a vitória totalmente certa.

Como o que aconteceu foi um acordo, arduamente negociado, que penalizaria menos Portugal e o qual as gananciosas alminhas fizeram questão de deitar para o lixo ao chumbarem o PEC IV, dizem agora que José Sócrates é irascível e teimoso: não assume culpas nem por nada!

Mas que culpas, seus hipócritas? Não houve uma crise internacional que veio destruir o ajustamento das contas públicas que prosseguia a bom ritmo até 2008? Não houve bancos e empresas a falir e desemprego e apoios sociais a aumentar (fazendo aumentar a despesa do Estado)? Não houve um consenso europeu sobre a urgência de apoiar a economia, para impedir o afundamento da Europa? Não houve depois o caso grego e o problema da banca alemã e da banca em geral, que fizeram inverter bruscamente a trajetória política europeia, passando a impor-se uma austeridade a mata-cavalos, ao mesmo tempo que a especulação prosseguia em torno das dívidas soberanas sem que o BCE interviesse, como acabou por intervir? Que culpas querem que o homem assuma?

Já vocês, pelo contrário… É que nem a mentira descarada que foi a campanha eleitoral assumem!

Quanto à presença ou ausência de Teixeira dos Santos, comprova-se uma vez mais que a única coisa que verdadeiramente interessa a esta gente é a insinuação. Neste caso, a insinuação de que Teixeira dos Santos não esteve presente porque discordaria de Sócrates e era um dos que achavam indispensável a vinda da Troika, o que, a ser verdade (coisa que o próprio já negou), torna absolutamente ridícula a cena do relógio de Portas em contagem decrescente para a garrafa de champanhe. Não se enxergam mesmo.

4 thoughts on “Já vomitamos com as mentiras e a hipocrisia”

  1. Penélope, comungo desta sua indignação.
    Os deputados Diogo Feio e o seu colega José Manuel Fernandes (cheira-me mal, este nome) são uns ignorantes no que respeita à implementação do Programa da Troika. Eles esqueceram-se de convidar o pentelheiro Catroga, que foi quem acompanhou as negociações e até captou um instantâneo no seu Blackberry, para mais tarde recordar. O Catroga já disse, numa entrevista televisiva, que foi ele quem mais contribuiu para o enriquecimento do Memo da Troika. Como podem aqueles deputados ignorar este facto tão relevante?

  2. o regozojo de catroga,quanto ao memorando e a sua foto para memoria futura,falam mais do que as mil palavras que teceu posteriormente para elogiar o referido documento considerando-o um autentico programa do psd.passos coelho como quiz ainda mais “molho” acabou por dizer que vamos alem da troika.saõ estes fcp que ao domingo vão à missa confessar os seus pecados,para na segunda feira voltarem a atacar o povo deste pais! que os pariu!

  3. Penélope, gosto e é oportuno, mas já tenho lido outros textos seus bem mais acutilantes. Para as descaradas aldrabices destes dois sem vergonha, está “brando” demais para o meu gosto. Só uma achega: – Nenhum dos “papagaios de serviço” da Imprensa deste país soube perguntar a estes dois senhores Deputados do Parlamento Europeu, porque é que o Parlamento a que pertencem não “convocou” o Teixeira dos Santos?. Que se saiba nenhum dos presentes se autoconvidou para a reunião. Pulhas.

  4. Os argumentos que os ideólogos do partido laranja usam para atacar a política económica que José Sócrates seguiu em reacção à crise do subprime são, tão só, uma versão populista dos ataques neoliberais ao pensamento de Keynes.

    Contudo, o neoliberal tuga padece de uma mutilação auto-infligida ao seu próprio desempenho racional; tal deformidade — da alma, não do intelecto — decorre de uma racionalidade escravizada pelo método de acção e de conhecimento “e nós, pimba!” (que, doravante, designarei por “método pimbalógico”). Crêem que todo o bem que há no mundo deriva de o indivíduo ver, antes de tudo, o seu interesse próprio; assim, o indivíduo vê uma oportunidade e… pimba! Não a deixa escapar. O método pimbalógico, ao contrário da pecular arte musical dele derivada, encontra adeptos internacionais em personalidades distintas e sisudas, tanto de Wall Street como de Bruxelas.

    Em consequência da submissão ao método pimbalógico, o neoliberal tuga nunca consegue atingir a estatura intelectual que lhe permitiria atacar a obra de John Maynard Keynes sem cair no ridículo. Por isso, o neoliberal lusitano refugia-se no ataque vil, na baixa política; são, então, visões do Universo acessível ao método pimbalógico que aparecem esparramadas nas páginas do Pasquim da Manhã. Os constrangimentos à racionalidade, de que padece, levam o espécime neoliberal a contradizer-se, às vezes sem se dar conta; dá mil e uma piruetas, em perseguição das vulnerabilidades da acção política do José Sócrates que, infelizmente — para aqueles, de nós, que apenas o defendem naquilo que acreditam ser defensável — parece ter.

    Mas devo aqui acentuar, antes de tudo, a cobardia daqueles que não se atrevem a atacar o pai dos seus adversários.

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