Os cordeirinhos de Wall Street

O Económico publica hoje uma entrevista a um português que trabalha na Goldman Sachs. Pois é. Depois de um brevíssimo período de discrição, a gigante financeira voltou ao Olimpo e anda por aí a procurar repetir que comanda. E onde trabalhava António Esteves antes da Goldman Sachs? Não adivinharam. Na Merril Lynch, que foi à falência na crise do subprime, contribuindo para tudo o que se seguiu, que não foi nem está a ser bonito, graças a fraudes e mais fraudes. Este homem diz-nos agora que, pelas suas altíssimas qualidades, foi, depois do desastre, convidado para a Goldman Sachs, onde é “partner” e, segundo diz, corresponsável pelo desempenho da organização.

Eis como descreve o que aconteceu (bold meu):

“Começo a carreira no Deutsche Bank em 94, em Lisboa. Depois de dois anos e meio passo para o Santander Negócios em Portugal e trabalho até 1998. Nesse ano recebo um convite da Merrill Lynch mesmo antes da entrada em vigor da moeda única. Em 2007, quando rebenta a crise, a Merrill Lynch é das primeiras a serem afectadas e, em 2008, recebo uma série de convites de bancos, sendo que o da Goldman Sachs foi o que mais me atraiu.”

A serem afetadas, disse? Oh, pobre vítima. A bandalheira era o seu core business! Em 2008, afundaram-se com perdas de 8,5 mil milhões de dólares, obrigando à intervenção do Bank of America.

E prossegue, pronto para outra, já todo refeito e penteado no novo emprego, pois não teve nada a ver:

“A Goldman Sachs é um banco que tem a capacidade de atrair o melhor talento que existe (note-se como o talento já andava pela Merrill Lynch). Quando uma instituição tem as melhores pessoas a trabalhar para ela, essas pessoas poderão depois acabar noutros lugares de influência. Isso é normal. Não é por aí que é diferente de outras entidades. Tem é esta cultura de ‘partnership’ em que todas as pessoas são co-responsáveis do que o banco faz.”

Sem dúvida. Todos responsáveis é igual a ninguém responsável. Quanto ao “acabar noutros lugares de influência”, já tínhamos ouvido falar, mas assim está muito mais claro.

E para terminar, ameaçando-nos com a vontade de ajudar:

“Assistimos a muitos casos de pessoas que saem da banca de investimento para o Estado? Pondera dar esse passo?

Não sei. É uma pergunta muito difícil. Neste momento, ainda não. Quero muito ajudar Portugal[…]”

Oh God! Como o saudoso António Borges nos ajudou? Please, não! Ainda há uma diferença grande entre uma instituição financeira, com acionistas interessados em ganhar dinheiro, e uma instituição de ajuda humanitária, que é o que muitos portugueses precisam depois das vossas brincadeiras. Pelo que, do que precisávamos mesmo era de uma empresa de desinfestação.

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