A parolice do nosso regresso «a mercado». Apreciação linguístico-moral

Já não é a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira que ouço Passos dizer que Portugal pensa “regressar a mercado” na data tal. Esta maneira de falar suscita-me algumas considerações. Que Passos fala mal a sua língua materna (e não é que fale melhor outra), já tivemos disso várias provas. Mas esta maneira gramaticalmente errada de se expressar parece-me mais do que um mero uso incorreto e ignorante da língua. Não acredito que não saiba que tem ao seu dispor, em português, a expressão «regresso ao mercado» (ou «ao mercado da dívida» ou «aos mercados», etc.). A prova de que sabe que tem é que, quando esquecido da pose, é capaz de utilizar, e já o vi utilizar nas mesmas declarações, alguma das alternativas.

A meu ver, trata-se de uma tentativa para parecer muito instruído, muito literato em inglês, aquela cabeça cheia de profundíssimas leituras económicas na fonte. Esta atitude leva-o a preferir, pois, a snobeira parola de uma neo-expressão atamancada à preservação dos seus próprios tímpanos e dos nossos. Ainda por cima ele, que até parece ter bom ouvido. Enfim, podia simplesmente evitar o ridículo. Mas não.

É também prova de que, a ler alguma coisa, se ficará frequentemente pelos títulos – que, por definição, têm tendência a ser sintéticos. Por exemplo, se olharmos para este artigo, escolhido aleatoriamente, veremos como no título se menciona um «return to market», mas no corpo do texto se utilizam expressões como «full access to the bond market» ou «access to the debt market». Escusado será dizer que a própria língua inglesa dispensa muitas vezes os artigos definidos, o que não significa que, quem traduz, tenha de obedecer à mesma lógica. E, neste caso do alegado primeiro-ministro, exibe-se claramente, quiçá orgulhosamente, uma tradução.

Deixo, pois, a minha vaia a este novo-politiquismo e o desejo (propositadamente mal expresso) de que o personagem regresse a lar, a escola, em suma, a olho da rua o mais depressa possível.

3 thoughts on “A parolice do nosso regresso «a mercado». Apreciação linguístico-moral”

  1. Esta estirpe nojenta de “guvernantes” atuais até da Língua portuguesa têm vergonha e escarnecem, quanto mais de Portugal e dos portugueses…

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