Europa – para o mal, para o bem e para o tristemente comum

1. Olli Rehn, o comissário finlandês dos assuntos económicos, continua a sua cruzada para cobrir toda a Europa de uma mancha neoliberal, desde o Cabo de São Vicente até ao cocuruto da Lapónia, desta vez acusando o anterior Governo português de não ter pedido ajuda logo em 2010, declarações que em tudo pretendem apoiar a narrativa do atual governo de modo a perpetuar os confrades no poder.

Se bem nos lembramos, a Grécia foi “resgatada” nessa altura e os resultados foram os conhecidos. Deveria a Grécia ter pedido ajuda em 2009? Ah, que bem estaria agora, se tal houvesse ocorrido! Além disso, como também já sabemos, o simples facto de se pedir um resgate leva a uma subida em flecha dos juros da dívida e a uma degradação instantânea das notações financeiras dos países, das respetivas empresas, etc. Uma catástrofe que houve quem tudo fizesse para evitar em Portugal. O que este senhor devia ter dito e não disse é que a unidade nacional em torno do último PEC, apoiado pelas instâncias europeias (nas quais Sua Eminência já tinha assento e, pelos vistos, também a opção de permanecer calado), mas chumbado pelas luminárias nacionais sequiosas de poder, teria evitado grande parte do descalabro verificado desde então. Mas o que interessa isso ao finlandês? Possivelmente nunca pôs os pés em Portugal, não tem prole em Portugal e não gosta de bacalhau com grelos. O país deve ter-lhe sido apresentado por Gaspar, em PowerPoint.

2. Bélgica, no coração da Europa. Para ouvir discussões sérias sobre tudo e mais alguma coisa, sob a batuta de excelentes moderadores, nada melhor que a “La première”, a estação de rádio belga correspondente à portuguesa Antena 1. Desde testemunhos, detalhes e apontamentos muitas vezes desconhecidos sobre as duas guerras mundiais, ou à sua margem, até à dificuldade em desmontar e consertar os aparelhos elétricos atualmente à venda no mercado (dos mais simples aos mais volumosos), passando pelas novas aplicações para a Internet, a Palestina, a Síria, as intenções da NVA (partido independentista flamengo), os conflitos em África ou o porte do véu islâmico, tudo se discute – com convidados no estúdio, tantas vezes ao nível de ministro, e com a contribuição dos ouvintes (por telefone ou e-mail, opiniões curtas, focadas apenas no essencial), pessoas normalmente irrepreensíveis. Hoje, por exemplo, tratava-se de discutir se há ou não uma regressão social/civilizacional em matéria de aborto (a base era o recente caso da Espanha). Quando se chegou às contribuições do público para o debate, para além de preponderarem as opiniões desfavoráveis à decisão de Rajoy, houve um senhor que, no tom mais digno, convicto e perentório deste mundo, declarou que a consagração de tal liberdade na lei devia ser, à semelhança da abolição da pena de morte, condição sine qua non para a adesão e a pertença à União Europeia. Sem mais. Convém lembrar que, na Bélgica, para falar de outro tema, dito erradamente “de consciência”, o casamento entre homossexuais é possível desde 2001. 2001.

3. Derrapagens em empreitadas. Quem disse que só em Portugal, e no estigmatizado Sul da Europa em geral, é que obras públicas no valor de X milhões acabam a custar 2xX milhões, quando não mais? Para além da vergonha que vai lá por Berlim com a construção do novo aeroporto, do escândalo dos aeroportos-fantasma na própria Alemanha e em Espanha, agora soube-se que a nova sede da NATO, em Bruxelas, um estaleiro que não escapa ao olhar de quem se dirige para o aeroporto, tal a área ocupada e as curvaturas, está em risco de ver a sua construção interrompida por falta de verba e por insolvência do consórcio responsável. Aguardam-se injeções de fundos dos 28 países membros, caso contrário nem para acabar de colocar as janelas há cacau. Ler aqui o que se passa, com fotografia.

Um excerto:

«The consortium of firms building it is at risk of insolvency. Rasmussen is aware of the problem but hasn’t seen fit yet to inform the public about it, meaning the taxpayers of the 28 NATO member states. At a meeting of NATO’s Deputies Committee on December 19, Rasmussen’s staff asked that the issue be dealt with “confidentially.”»

4 thoughts on “Europa – para o mal, para o bem e para o tristemente comum”

  1. esse óleo de rena é pior que o blatter a falar inglês. ninguém se lembrou de perguntar ao méne se a intervenção foi tardia, porque é que a a comissão vendeu 3 pec(s), negociaram o 4º e ficaram quilhados por não ter sido aprovado e já agora essa abécula tem alguma ideia dos prejuízos causados pelos erros de contas da troika e das irreversibilidades portas, deve ter, mas não convém divulgar para não estragar o ideal de uma europa neoliberal.

  2. é a crise do ocidente neoliberal a estalar com o verniz da europa. e depois há uma união europeia que falha, e deixam falhar, redondamente naquilo que é a proporcionalidade. e depois ainda há os governos pirados. ainda vamos importar o buda para nos queixarmos em surdina de oração. :-)

  3. Primeiro nós passámos incólumes à crise do sub prime, pelo menos nas palavras do próprio sócrates e aliás comprovado por a banca não ter usado um tostão dos 4 mil milhões que ele pôs à sua disposição.

    No fim de 2008 dizia e bem que tínhamos resitido à crise

    http://www.publico.pt/politica/noticia/socrates-diz-que-economia-portuguesa-vai-continuar- a-resistir-a-crise-1350020

    No verão de 2009 a crise, que entretanto houve, estava a acabar

    http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=1334672

    A questão é que a nossa crise não advém do sub prime, além de que a união europeia nunca disse para os países abusarem do deficit, o que disse foi que os países tinham liberdade para ultrapassar as metas do pacto de estabilidade se assim o entendessem, o que nem era para nós uma vez que nunca tínhamos cumprido com ele desde que foi implementado, nem uma vez.

    E sim, de facto portugal pela mão de sócrates foi de facto um dos países incendiários da crise da dívida soberana.

    O resgate era evitável se sócrates não tivesse andado em roda livre a alimentar a roubalheira, o que é mais que notório ou não tivesse ele a adujdicar obras megalómanas a um par de meses da falência do estado como foi o caso do tgv e só não assinou o aeroporto porque não teve tempo. Mas mesmo desde o princípio de 2010 que era óbvio que ia haver resgate, sócrates teria poupado dezenas de milhares de milhões e muitos sacrifícios se tivesse pedido ajuda mais cedo e em melhores condições.

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