Estabilidade política

A excelente desmontagem que o Câmara Corporativa aqui faz do processo de apropriação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) pela pandilha do pote prova bem o talento particular que os membros deste executivo mostram para irem alimentando a fogueira da indignação que constantemente os chamusca e em que acabarão por arder. Mas, gente, o que ouvimos é que o país não pode suportar mais instabilidade política! Infelizmente, estamos inocentes.

Esqueçamos a TSU e o que provocou. A ministra das Finanças nunca devia ter tomado posse, mas tomou, e nunca devia ter obedecido às instruções de lançar mão dos swaps para os atirar ao governo anterior. Mas obedeceu. Sem pensar. Além da sua fragilidade técnico-política, assinou praticamente a sua sentença de morte, precedida de um auto-provocado mas merecido calvário, ao enveredar por um caminho que forçosamente a levaria a mentir repetidamente no Parlamento. Pedir a sua demissão é até demasiado polido.

Rui Machete já por duas vezes reconheceu que mentiu, estando sempre à espera de escapar às críticas e para isso desaparecendo longas temporadas dos radares. Está protegido 1) por um primeiro-ministro que, desde que surgiu na cena política, nunca parou de mentir e/ou proteger mentirosos, pelo que devia ser o primeiro a ir embora e 2) por um presidente da República que partilhou com ele – Machete – a negociata da compra e venda de ações da SLN sem que se sentisse sequer beliscado. E ainda há quem diga mal da Constituição. Machete nunca devia ter sido escolhido para ministro. Mas foi. Exigir a sua demissão é criar instabilidade política? Não a exigir é aceitar que se conspurque a democracia.

De Relvas e Portas – o demagogo – nem vale a pena falar. Maduro dedica-se à propaganda aldrabona com roupagens universitárias – tendo sido mandado calar por Marcelo, ordem a que, pelos vistos, obedeceu – e agora Marco António tornou-se o caceteiro-mor e lançador de poeira para os mais desprevenidos. Um provocador, portanto. Quer este senhor, queixando-se das incoerências do FMI, apagar da memória coletiva as declarações do seu amigo Coelho no início do mandato – que não considerava uma cruz o programa da Troika e que, na realidade, esse seria de qualquer modo o seu programa. Ele agita, mas não quer instabilidade política. Tenho a certeza.

Finalmente, Nuno Crato. A coberto da falta de dinheiro vai colocando a escola pública sob uma pressão tal que já ninguém tem dúvidas de que a quer destruir e entretanto desacreditar, para finalmente nos apresentar um dia destes um estudo que demonstra como as escolas privadas são dez vezes mais eficazes do que as públicas. Não interessa o verdadeiro porquê. Em nome da liberdade, nunca nada as impedirá de selecionarem os alunos. A consagração de uma casta de privilegiados parece ser o seu objetivo, porque a sociedade é assim mesmo e quem é pobre é burro. Mas enfim, conhecendo nós os votantes do PSD, é bem possível que, apresentando as coisas ao eleitorado neste estilo totalmente salazarento, haja quem o queira a governar. Uma peninha que, a par dessa enorme qualidade de contra-civilizacionário, também não escape à sede de pote que esteve na origem da nossa desgraça recente. O episódio relatado pelo Miguel Abrantes mostra como em má hora decidiu entrar para a política e como teria feito melhor em manter uma certa aura de cientista, ou pelo menos de divulgador científico, que nem lhe assentava mal. É escandalosa a forma como até a FCT está a querer abastardar. Aposto que dirá que é em nome da qualidade! Como é possível?

Tenho noção de que estou a contribuir para a instabilidade política, não é?

2 thoughts on “Estabilidade política”

  1. Instabilidade vs Estabilidade, tudo se poderá resolver seguindo o conselho daquele
    que andou a dizer que nunca foi político e, passa por substituir a má moeda por boa
    moeda … lembram-se? Parece muito empenhado em manter os estarolas no governo,
    mesmo, não querendo ver as evidências do mal que tem sido feito ao País!
    Isto só lá vai com uma remodelação total, a começar na presidência da República, se-
    guida da dissolução da A.R., realização de eleições acabando com a exclusividade da
    partidocracia e, mudança de regime que, dadas as condições objectivas de imprepara-
    ção do bom Povo, para compreender a hipocrísia e dissimulações dos actuais “políticos”
    deveria passar a ser Presidencialista, poupando alguns milhões na arquitetura do Estado!!!

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