Out of Syria

A frutaria por onde passo todos os domingos é de um sírio. Antes de eu ir de férias, já o pobre homem – menos de cinquenta anos, baixo e magro, pacífico, simpático, mas com determinação suficiente para enxotar da loja radicais prosélitos – não descolava os olhos da televisão para acompanhar a par e passo o que se passava no seu país, suponho que através da Al Jazeera ou da Al Arabiya (a televisão não está virada para o cliente). Durante anos num vaivém constante e despreocupado entre a secção pública e privada da loja (a família mora por cima), passou a ser difícil, a partir de certa altura, para quem entrava, descobri-lo. Apesar de arrumada, a loja dir-se-ia abandonada, não fora o som do que parecia ser um rádio (afinal era mais do que isso). Quem entra é agora obrigado a anunciar-se ou a perguntar se há alguém. Só então a figurinha emerge detrás do balcão, onde passa horas sentado a olhar ansiosa e amarguradamente para o ecrã.
Dantes, muitas vezes lhe perguntei se ia à Síria no verão. Algumas vezes respondeu que sim. Mas isso foi há muito tempo. Ultimamente a resposta mais do que pronta é : “Oh, não, não. E onde? A minha terra já nem existe.”

Voltei lá ontem. Escondido, como já me esquecera.
– “Ah, está aí. A Síria? Aquilo está mal, não é?”
– “Os americanos. Vão atacar! Está quase!”. Ainda ofegante da ginástica, eu própria me vi bruscamente obrigada a regressar a este mundo. Os americanos, claro! Mas estava o homem revoltado? Absolutamente não. O tom denotava temor e respeito. Mas não revolta.
– “Mas já não se estavam a matar uns aos outros?”, perguntei. “Como acabar com aquela desgraça? Não será melhor pararem (mesmo forçados) e negociarem?”

Foi então que reparei numa chama na ponta do balcão. “Ah, uma vela! E grande!” Entre o angustiado e o envergonhado, lá me disse (desconfia que não ligo muito a deuses): “Sabe o que é? É para o nosso deus. É para ver se nos ajuda.” E sorriu inquieto, deitando novo olhar ao ecrã, mas sem dúvida muito crente no seu gesto. Que mais fazer? Era o seu país. Aquele que, como me confirmou, já não existe. A Síria de há 40 anos acabou.

Historicamente, nada há de novo nesse facto. A Síria já encolheu e esticou tantas vezes quantas foi possível e já mudou de mãos outras tantas. Mas há e haverá sempre sírios. E Síria. Com as fronteiras ali, mais ao lado ou mais para baixo. E existe a nostalgia da Síria na cabeça dos emigrantes. E na nossa (ler o hilariante “Na Síria”, de Agatha Christie).

Este homem tem a noção de que nada ficará na mesma quando terminar esta guerra. A aldeia que já não existe possivelmente renascerá com nova gerência. A ele resta-lhe acompanhar, de longe.

Mas o curioso é que, apesar dos combates já irem ferozes há muito tempo e as vítimas serem já quase incontáveis, só agora entendeu que merecia ser acendida uma vela.

“Agora é a sério”, dirão certamente muitos e pensará ele também. A sério, pois é.

Ocorreu-me que a noção de um polícia do mundo não tem tantos anticorpos como se pensa. Parece, para muitos, uma inevitabilidade e uma necessidade. Para os árabes da rua, não sei se a ideia de que existe alguém capaz de castigar neste mundo (e ao mesmo tempo um grande inimigo, um infiel) não se enquadrará na sua ordem de valores. Para os instigadores mais acima na hierarquia, ter um inimigo é uma glória. É a forma como concebem a vida. Não é para não os desiludir que Obama atacará, evidentemente. Mas percebo-o. Seria melhor não fazer nada? Ou sequer não dizer nada?

21 thoughts on “Out of Syria”

  1. “Ah, uma vela! E grande!” Entre o angustiado e o envergonhado, lá me disse (desconfia que não ligo muito a deuses): “Sabe o que é? É para o nosso deus. É para ver se nos ajuda.”

    poderias ter explicado que deus só atrapalha e neste caso é parte do problema.

  2. “a noção de um polícia do mundo não tem tantos anticorpos como se pensa”

    Não. E então ter um polícia que de cada vez que actua faz aparecer mais ladrões é uma ideia acarinhada por toda a gente.

  3. Penélope, espanta-me que engulas com tanta facilidade as patranhas do costume. As armas de aldrabice maciça do Iraque não chegaram para te vacinar? O teu texto é sonso e hipócrita, finges não tomar posição clara sobre o que se passa na Síria, mas a tua posição é gato escondido com o rabo de fora: há gente desumana e criminosamente gaseada, a sofrer e morrer (e as crianças, Senhor?!) e não se sabe bem quem gaseou? No problem! Na dúvida, sai um bombardeamento humanitário para a mesa do canto, em cima dos cornos dos suspeitos do costume, e ninguém melhor para dar porrada nos suspeitos do que um insuspeito Prémio Nobel da Paz.

    Talvez fosse bom tentares arranjar alguma informação sobre a Síria fora do penico do pensamento único e das bem-pensâncias das máfias humanitárias que a toda a hora nos afogam em lágrimas de crocodilo hipócritas. Aqui vão algumas achegas, mas por certo não terás dificuldade em encontrar muito mais mijadelas lúcida e salutarmente fora do penico:

    http://www.globalresearch.ca/the-geopolitics-of-gas-and-the-syrian-crisis-syrian-opposition-armed-to-thwart-construction-of-iran-iraq-syria-gas-pipeline/5337452

    http://rinf.com/alt-news/latest-news/french-confirm-britain-wanted-war-with-syria-years-ago/42319/

    http://zebrastationpolaire.over-blog.com/article-la-guerre-civile-en-syrie-et-la-geopolitique-petrogaziere-112539126.html

    http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/08/201285133440424621.html

    http://www.globalresearch.ca/oil-and-pipeline-geopolitics-the-us-nato-race-for-syrias-black-gold/5330216

    http://www.youtube.com/watch?v=sY_9SrIUVwU

    http://original.antiwar.com/Dale-Gavlak/2013/08/30/syrians-in-ghouta-claim-saudi-supplied-rebels-behind-chemical-attack/

    http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/syria-the-saudi-connection-the-prince-with-close-ties-to-washington-at-the-heart-of-the-push-for-war-8785049.html

    http://edition.cnn.com/2012/09/20/world/meast/syria-christians/index.html

    http://seattletimes.com/html/nationworld/2019973688_syriachristians24.html

    http://xrepublic.tv/node/3767

    http://mycatbirdseat.com/2013/06/brzezinksi-obama-syria-plan-is-chaos-baffling-a-mess-tragedy/

    http://www.naturalgasasia.com/syria-homs-gas-discovery

    http://www.globalresearch.ca/diabolical-chemical-weapons-intelligence-operation-killing-syrian-civilians-and-blaming-it-on-the-enemy/5348705

    http://www.globalresearch.ca/syria-killing-innocent-civilians-as-part-of-a-us-covert-op-mobilizing-public-support-for-a-r2p-war-against-syria/31122

    http://www.globalresearch.ca/plot-by-syria-terrorists-to-carry-out-a-chemical-weapons-attack-against-israel-and-blame-it-on-bashar-al-assad-says-rt/5349030

    http://www.globalresearch.ca/pro-israel-lobby-pushes-america-into-war-aipac-is-a-grave-threat-to-world-peace/5348592

    http://boards.dailymail.co.uk/news-board-moderated/10253799-syrian-wmd-false-flag-false-flags-way-life-now.html

  4. oh escalrracho! com tanto link, não cheguei a perceber quem é que tu bombardeias, mas pelo cheiro do teu penico deves acreditar que o problema resolve-se se os gajos se matarem uns aos outros.

  5. Raramente concordo com os seus textos, Penélope, mas os que tem “elaborado” sobre a Siria, então, são de pasmar, vindo de alguém que se supõe objectivamente bem informada.
    Só sublinho: como é possível vir dizer que o Obama, “coitadinho, grande defensor das vitimas das garras do ditador”, não pode deixar de atacar o “Mal personificado” …!!!
    E quanto a si, Val, o seu “impecável”, quer dizer o quê? Confesso que estou perplexa.

    ESTAMOS A ESQUECER TODA A ESTRATÉGIA DE INTERESSES QUE ESTA GUERRA TEM POR DETRÁS???

    Concordo com o comentário de Joaquim Camacho e como será útil irem visitar pelo menos alguns dos “sitios” que ele indica.

  6. Joaquim Camacho; MGP Mendes: Política internacional, diz-vos alguma coisa? Interesses dos países, de todos sem exceção – diz-vos também alguma coisa? Alianças, existe o termo nas vossas cabeças? Tratados internacionais, podemos passar sem eles?

  7. …se a hipocrisia matasse (que pena…mas não) as comendadeiras/os e os jornas paineleiros e afins morreriam todos (como o avô dizia…) com a barba por fazer…era mesmo uma chacina pois haveria mais mortes que em todas as guerras juntas…aqui é só o velho lema «ser forte com os fracos…para cantar de galo»…os americanos os russos os chinas só para citar…têm os seus arsenais bem fornecidos de químicos/nucleares/coisas bem piores e investem sempre mais $$$bis$$$ nessas brilhantes «pesquisas» …todos e cada um capazes de fabricar o arrasamento do planeta multiplicado por muitos (bolas bastava uma vez)…o bruaá com as armas químicas é sobretudo o facto de ser uma arma muito estúpida pois mata os de lá e muito facilmente tb os de cá…a 1ª g. guerra provou isso…daí o «malta essa coisa é para abolir e tal»…mas nas mãos certas não faz mal…só gostava que me dissessem qual a mão certa? A da polícia? e porquê ela?… tretas…já agora o que seria talvez importante era os do lado da polícia exigirem que a suas casas sejam primeiro limpas de tais m… para depois terem moral para exigir isso aos outros…

  8. blablazada: A Rússia e os Estados Unidos já destruíram 80% do arsenal de armas químicas que ambos acumularam em tempos de maior antagonismo e desvario. O que ainda resta não é para ser usado nem será usado, funciona como desincentivo e o objetivo é também destruí-lo. Mas como se vê pela Síria, não quer dizer que, noutras mãos, não sejam mesmo usadas essas armas – brutalmente desiguais. O Bin Laden, se pudesse, teria de bom grado largado uma bomba nuclear nas principais cidades norte-americanas. Ainda bem que não pôde. Não sei se queres o fim da civilização ocidental, mas eu não quero.

  9. «…o fim da civilização ocidental, mas eu não quero.»…só esta frase…mas à frente…a tua/nossa «civilização ocidental» terá o seu fim e para isso não serão precisas armas de destruição maciça (fica descansada porque se as armas de destruição maciça falarem será sim o Fim) nem B. Ladens ou afins…esta «civilização» e como referi antes – profundamente hipócrita – tem-se alimentado primeiro do colonialismo depois do neocolonialismo que é o que prevalece hoje e é disso que se trata (ponto) … nós os da «civilização whatever» criamos e implementamos tudo que se pode imaginar no que toca a destruições maciças mas o pior nem são as armas é a manipulação e a hipocrisia que agora impusemos de forma global…era disso que eu falava antes…só o argumento de deixar 20% para dissuadir é já em si mesmo uma irrefutável prova dessa tal incomensurável hipocrisia…a imensa arrogância desta «civilização ocidental» é a que leva muita boa gente a julgar-se no direito de apelar para o policiamento das «civilizações selvagens» digamos assim…na verdade sempre que o ocidente intervém é no seu exclusivo e mesquinho interesse colonial…seja a fomentar guerras a promover chacinas a fornecer armas a dividir para reinar a exportar terror…nada há – nesta politica de policia – de honesto e bom…nada…a talhe de foice recomendo o comentário «the act of killing» de joshua oppenheimer sobre o regime indonésio e a sua impunidade total viva e actuante – hoje agora…com a colaboração e o beneplácito da tal policia ocidental (EU/UK etc…)…(sry pelo arrazoado)

  10. Penélope, por acaso deste-te ao trabalho de visitar ao menos dois ou três dos links ou é muita areia para a tua camioneta? É que está lá tudo o que perguntas “se nos diz alguma coisa”, como “política internacional, interesses dos países” e muito mais, da vasta colecção de variáveis da equação mafiosa com que nos querem mais uma vez enrolar.

    Do coliforme parvalhatz, tresmalhado da ETAR de Alcântara, não se esperaria mais, mas tu habituaste-nos a posts lúcidos, inteligentes e informados. Daí a minha surpresa.

    Se leres o primeiro link (cinco minutos bastam), ficas com um curso quase completo sobre o que verdadeiramente se passa na Síria e as motivações reais por detrás das proclamações hipócritas da cambada sem vergonha. Como poderás ver, a verdadeira motivação das máfias humanitárias está na questão das rotas de petróleo e gás da região e de quem ganha ou perde mais se o transporte se fizer por este ou aquele gasoduto ou oleoduto. Aqui vai um resumo, para tentar aguçar-te o apetite: pouco antes do início do conflito, Irão, Iraque e Síria assinaram um acordo (que já antes tivera avanços e recuos) para construção de um gasoduto que atravessará o território dos três países e transportará gás iraniano, iraquiano e sírio até à costa síria do Mediterrâneo. Tal gasoduto poderá além disso ser prolongado ao longo do fundo do Mediterrâneo, da costa síria até à Grécia, facilitando o abastecimento à Europa. Terá início na jazida de gás de South Pars, que se situa na zona de fronteira entre Irão e Qatar, mas com a maior parte em território iraniano. Por alguns denominado Gasoduto Islâmico, Arábia Saudita e Qatar chamam-lhe depreciativamente “Gasoduto Xiita” e iria (ou irá) abastecer a Europa e concorrer directamente com o Nabucco, com origem na zona do Cáspio, e com outro projectado corredor que envolve Qatar, Arábia Saudita, Israel e Turquia, possivelmente ligando-o ao Nabucco.

    Até há bem pouco tempo, a Síria era considerada um dos poucos países do Médio Oriente praticamente desprovidos de petróleo e gás. Mas isso mudou nos últimos anos, com a descoberta de enormes reservas de gás perto da fronteira com o Líbano e não longe do porto sírio de Tartus, onde os russos têm uma base naval. Uma outra zona com reservas significativas é a de Homs, de que constantemente ouvimos falar por ser palco de ferozes combates.

    Mas também Israel descobriu há poucos anos enormes reservas de gás ao largo da sua costa, parte delas na zona de fronteira com o Líbano, tendo aliás os nazionistas, como é seu timbre, entrado logo em manobras e falcatruas na delimitação de águas territoriais, com o objectivo de abarbatar pelo menos parte do gás dos vizinhos do Norte.

    Os gatos gordos das monarquias corruptas e corruptoras do Golfo entraram em parafuso com a ameaça do “Gasoduto Xiita”. Para além dos prejuízos para Arábia Saudita e Qatar, já viste o que a Turquia perderia em taxas se grande parte do gás para a Europa deixasse de passar pelo gasoduto que atravessa o seu território? Se calhar nem dava para as despesas de manutenção, coitados dos turcos.

    Os benefícios do “Gasoduto Xiita” para a Europa são evidentes, quanto mais não seja porque aumentaria a concorrência e pressionaria os preços para baixo, mas sabes bem que os interesses das empresas petrolíferas, principalmente americanas mas também europeias, não têm nada a ver com os interesses da Europa e dos europeus. E são essas empresas que exploram o petróleo e gás nas terrinhas dos gatos gordos da Península Arábica, com quem têm muito mais em comum do que connosco, europeus de merda. E tais empresas também estão nas ex-repúblicas soviéticas do Cáspio, que sofreriam igualmente com a concorrência do “Gasoduto Xiita”. Ainda por cima, o gasoduto em questão iria favorecer indirectamente a Rússia. Esse seria, sem dúvida, o pai de todos os pecados. Vá de metro, Satanás!

    Pois é, direitos humanos e preocupações humanitárias mas é os tomates! Reitero a sugestão, Penélope: lê ao menos o primeiro link. Podes logo em seguida passar ao segundo (um vídeo de apenas minuto e meio, com um pequeno texto de apoio) e ficas logo a perceber por que motivo aconteceu o que aí é relatado. Poderás ouvir Roland Dumas, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros francês, contar-nos que há mais de dois anos, numa visita ao Reino Unido, antes do início do conflito, foi sondado pelos ingleses para a predisposição da França para colaborar numa operação de derrube do regime do Bachar al-Assad. Relembro que foi precisamente nessa altura (em 25 de Junho de 2011) que Irão, Iraque e Síria assinaram o acordo para a construção do gasoduto que pôs as máfias petroleiras do civilizadíssimo Ocidente a borrar-se pelas pernas abaixo. Não havia então na Síria qualquer revolta, nem combates, nem gaseamentos, nem porra nenhuma. Ouve com atenção o que ele diz no vídeo, lê o texto que o acompanha e depois, se ainda acreditares que a febre guerreira que se apossou de novo desta gente sem vergonha tem alguma coisa a ver com os álibis proclamados, talvez ganhes um balde de plástico. Se ficares com a curiosidade aguçada, podes passear por alguns dos outros links, acredita que a tua lucidez ganhará com isso.

    É claro que é muito mais fácil deixares-te ficar espojada em frente da telebisom, engolir acriticamente o que te enfiam pela goela abaixo e depois debitar umas preocupaçõezinhas “humanitárias” inconsistentes, fica sempre bem. Mas olha que não vale nada e não leva a nada, os mafiosos continuarão a comer-te as papas na cabeça.

  11. Já agora, e para não ter muito trabalho, reitero aqui, à tua consideração (graças à maravilha do copy paste), o que já perguntei noutro sítio:

    Até talvez há uma meia dúzia de meses, o “regime sírio” (designação que os próceres do pensamento único pronunciam como quem cospe, t’arrenego, Satanás!) teve dificuldades militares significativas com os chamados rebeldes. Verificou-se então alguma inflexão no desenrolar do conflito e os ditos rebeldes começaram a sofrer derrotas e a ser expulsos de áreas que dominaram por algum tempo, sendo as perspectivas para o seu lado pouco satisfatórias, pelo menos no que toca ao objectivo declarado: o derrube de Bachar al-Assad.

    Enquanto esteve a perder, o regime não usou armas químicas para tentar inverter a situação militar a seu favor. Tendo finalmente conseguido este objectivo e passado militarmente para a mó de cima, sem o recurso a armas químicas, querem os aldrabões do costume convencer-nos de que decidiu fazê-lo numa altura em que isso não tinha já qualquer utilidade em termos militares.

    É claro que sendo o Assad, como toda a gente sabe, o Demónio reencarnado, a coisa está explicada: fê-lo sem qualquer objectivo útil, por pura maldade, como é próprio do Grão-Tinhoso. E também com o inteligente objectivo de dar aos EUA, de mão beijada, o único e exclusivo pretexto de que precisavam para bombardear aquela merda até à Idade da Pedra, dando alguma utilidade aos Tomahawk em fim de prazo que têm em armazém.

    Pensou o Assad com os seus botões… e certamente com os seus generais: “Eh pá, a gente está a ganhar esta merda, a única maneira de perdermos é se os americanos nos vierem bombardear, enfraquecendo-nos militarmente e dando uma oportunidade aos rebeldes. Os américas dizem que só vêm se usarmos armas químicas? Pois atão bora lá! É isso mesmo que vamos fazer, para provar ao mundo como somos inteligentes, carago!”

  12. oh escalrracho! não faltam teorias e links para embrulhar a guerra na síria, o que falta é desembrulhar a guerra, percebes ou foste vacinado contra americanos em pequeno? bota aí os links para os desenvolvimentos depois do g20 na russia ou tás à espera que saia o avante.

  13. Joaquim Camacho: Tudo o que dizes já é conhecido, pelo que o pouco (extremamente pouco em relação ao que penso) que escrevi no meu post já o tem em conta.

    Caso não te lembres, a América não tem sido governada por Obama, apenas nos últimos 6 anos. Não metas tudo no mesmo caldeirão. Nem confundas o tempo e os contextos.

    O que há de novidade e de particularmente pernicioso no facto de haver necessidades a satisfazer e interesses a defender? Gostaria que me explicasses. Não é essa a história dos povos? Acaso os russos e até os chineses não se comportam neste conflito, e em todos, guiados pelos seus interesses? Ouvir o Governo sírio a falar hoje em dia é o mesmo que ouvir os russos e vice-versa. Não simpatizo com o Assad, apenas com a sua vertente de não fanático religioso, o que já não é pouco. Simpatizo ainda menos com os rebeldes, que também defendem os seus interesses, como todos os outros. Mas se o homem tem um arsenal monumental de armas químicas, o que pelos vistos já reconheceu, e o utiliza, como fingir não ver? Para o mundo todo e para os americanos em particular, há interesse em pôr um travão e em estabelecer um exemplo. Este é um propósito que me é vendido e que engulo com agrado. Se para isso foi preciso uma ameaça credível, pois que assim seja. Na realidade, o Obama não partiu alegre para tal decisão.

    Depois, lembro-te que nem todos os países deste mundo são felizes ao ponto de terem de um lado o Atlântico e de outro a Espanha. A maior parte tem um leque de vizinhos com quem se dá mal. Percebes o que são políticas de alianças – do tipo “eu defendo-te dos teus vizinhos e tu garantes-me um poiso, um posto de vigia, etc.”? Ou então “eu garanto-te uma base e tu apoias-me na passagem de um gasoduto”? É a vida.

    Não vou gastar mais o meu latim. Há coisas que deviam ser óbvias.

  14. Dizes tu, Penélope:

    “Mas se o homem tem um arsenal monumental de armas químicas, o que pelos vistos já reconheceu, e o utiliza, como fingir não ver? Para o mundo todo e para os americanos em particular, há interesse em pôr um travão e em estabelecer um exemplo. Este é um propósito que me é vendido e que engulo com agrado. Se para isso foi preciso uma ameaça credível, pois que assim seja. Na realidade, o Obama não partiu alegre para tal decisão.”

    Que o homem tem um arsenal de armas químicas, é sabido há muito tempo e ele nunca o negou, ainda que não andasse a publicitá-lo. Tal como o têm americanos e russos, por exemplo, apesar de terem assinado e ratificado a Convenção sobre Armas Químicas. Têm-no igualmente os israelitas, e estes, tal como a Síria, não ratificaram a Convenção, estando sírios e israelitas nisso acompanhados por apenas mais cinco países no mundo inteiro. Mas como podes tu afirmar com tanta ligeireza que ele “o utiliza”, se nada disso está provado e um mínimo de lógica aponta em sentido contrário? Por que carga de água ia o Assad usar armas químicas agora que está a ganhar a guerra, se não o fez quando estava a perdê-la? Faz algum sentido? Será o homem masoquista, ao ponto de dar gratuitamente aos americanos o único pretexto que publicamente anunciaram com estrondo os levaria a inflectir a sua inicial política de não intervenção? Suspeito até que o homem viu na actual proposta russa uma oportunidade óptima para, sem perder muito a face, se livrar do arsenal químico, que, no fundo, sabia que não podia utilizar e lhe trazia mais dissabores do que vantagens.

    O que acontece agora é quase uma cópia a papel químico do que sucedeu quando, em 1988, o saudoso humanista e democrata Saddam Hussein gaseou mais de cinco mil curdos em Halabja. Os EUA fizeram tudo e mais alguma coisa para atribuir as culpas do crime ao Irão, assim o jurando a pés juntos centenas de vezes, afirmando ter disso provas insofismáveis, que para não variar ninguém viu, esgrimindo argumentos em tudo iguais aos do John “Ketchup” Kerry da actualidade e boicotando uma resolução da ONU que condenasse o Iraque sem ambiguidades. Só “descobriram” sem reservas que fora o Saddam a fazer a filha de putice de gasear “o seu próprio povo” quando, em 2003, quiseram ir lá dar cabo daquela merda toda. Foi, aliás, uma das poucas verdades justificativas que nessa época disseram, pois, quanto à aldrabice das “armas de destruição maciça” do saudoso humanista, julgo que já ninguém tem dúvidas. E sabes quem foi um dos mais activos encobridores da verdadeira autoria do crime e no apontar do dedo mentiroso ao Irão? O senador republicano John McCain, hoje, mais uma vez, um dos mais activos gritadores da política belicista das petrolíferas. Sobre o assunto podes ler um interessante e exaustivo livro de Joost R. Hiltermann, antigo director executivo da Arms Division da Human Rights Watch e, presentemente, julgo que ainda vice-director de Programas para o Médio Oriente e América do Norte do International Crisis Group. Ambas perigosíssimas organizações subversivas ao serviço de interesses bué obscuros, como podes calcular. Chama-se “A Poisonous Affair – America, Iraq, and the Gassing of Halabja” e foi editado pela Cambridge University Press (www.cambridge.org).

    Tudo o que digo no meu comentário é já conhecido, dizes, e o que escreveste no post “já tinha isso em conta”. Já tinha em conta que as verdadeiras razões para a sofreguidão bombista estão nos interesses das grandes empresas petrolíferas ocidentais e não em preocupações humanitárias? É isso que estás a dizer?

    Quanto à afirmação de que a América foi governada pelo Obama “apenas nos últimos seis anos”, estás enganada, o Obama não governa praticamente nada. Onde estão as promessas de pôr a Wall Street na ordem, por exemplo? Quem manda, no essencial, são, foram e serão as petrolíferas, os fabricantes de armamento, os especuladores de todos os tipos e outros bons rapazes, o Obama limita-se a pilotar com mais ou menos habilidade um barco com vida própria, que no que mais lhe importa vai para onde quer, nem que para isso tenha de atirar o piloto borda fora. E o Obama sabe bem que, se mijar muito fora do penico, dão-lhe um tiro nos cornos, desatam a guinchar estridentemente que foi o Hezbollah, ou o Assad, ou o Irão, ou todos eles ao mesmo tempo, juram a pés juntos que têm as provas do costume, que obviamente ninguém pode ver porque são “informação classificada”, reduzem a pó mais um ou dois países e volta tudo ao seu lugar enquanto o Diabo esfrega um olho, business as usual. Se pensares bem, o Obama tem conseguido bem pouco, comparado com o que prometeu. Até a famosa Obamacare saiu uma coisa assim a modos que meio castrada e descaracterizada. Uma das poucas coisas que ele fez bem, na minha opinião, foi enfiar um tiro nos cornos ao Osama bin Laden, que já tardava.

    Na Síria de Assad, há dez por cento de cristãos, que os rebeldes têm massacrado e/ou expulso das suas casas e que desaparecerão completamente da região se aquela cambada conseguir os seus intentos. Há nove ou dez por cento de curdos que, apesar de serem na maioria muçulmanos sunitas, estão, nas áreas sob controlo rebelde, a ser sujeitos a uma arabização forçada com vista ao esbatimento futuro da sua identidade cultural, nomeadamente forçando as suas mulheres a casamentos com árabes sunitas. Por isso têm fugido da Síria, e dos rebeldes, às dezenas de milhares, mas o que vês e ouves nas telebisons é que esse êxodo, tal como o dos cristãos, deve ser imputado às maldades do Assad.

    A política do «“eu garanto-te uma base e tu apoias-me na passagem de um gasoduto”? É a vida», como resumes, justifica a destruição de um país e a morte e o sofrimento de centenas de milhares, com base em pretextos que todos sabemos serem mentirosos? E tem alguma lógica que, para lá das considerações humanitárias ou de simples honestidade política, uma europeia, como tu, apoie uma política que vai impedir que os preços do gás na Europa baixem, assim melhorando a competitividade dos produtos europeus? O que é democrático e humanitário é apoiar os interesses das grandes empresas petrolíferas que nos querem obrigar a pagar o gás mais caro? Ora porra para essa lógica!

    Não vais gastar mais o teu latim, dizes. Eu chamar-lhe-ia antes bugalhim, pois falo-te em alhos e respondes em bugalhos. No que me diz respeito, a troca de argumentos e opiniões vale sempre a pena, se acaso vale a pena o interlocutor, e estou sempre disposto a gastar seja lá o que for, desde que o tenha e dele não precise para não morrer à fome. Num ponto concordo contigo a cem por cento: “Há coisas que deviam ser óbvias.”

  15. excelente comentário, Joaquim Camacho: contra factos não pode haver argumentos e é esse o cenário, como sempre foi, o das relações internacionais, que tão bem descreves. mas há aqui abordagens diferentes para o mesmo assunto: tu falas do conteúdo da coisa ao invés da Penélope que, no texto, nos remete para a forma e daí retirando-lhe toda a relevância. e é por isso que se transforma em um texto de conteúdo. mas só por isso.

    muito embora seja a essência das coisas a que nos toca, não é sobre ela que se vive e que se morre – assim é a Cidade à escala mundial. basta transportarmos isto para uma escala francamente menor e verificarmos o que se passa, por exemplo, na maioria dos casamentos.

    relê novamente o texto e tenta sacar-lhe a beleza que tem. e depois vais perceber que aborda – não a veracidade dos interesses e das convenções, a guerra – a paz: aquela paz que nos retira aquela espécie de culpa de sermos igualmente responsáveis pelos males do mundo.

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